CAPÍTULO 2: O ENCONTRO

Havia areia e vento indo e vindo de todas as direções. Um redemoinho áspero e seco circulava cada centímetro do espaço e era difícil respirar.
Alguns poucos minutos foram mais do que suficientes para cobrir os três irmãos dos pés ao último fio de cabelo de pó.
O céu, de repente, clareou e a tormenta se foi. Tão depressa quanto tinha vindo, se foi.
_ Porcaria! – Hoss Cartwright cuspia a saliva grossa, espanando a poeira do corpo como seus irmãos _ Eu avisei. Avisei e vocês dois, os espertalhões, não quiseram me ouvir. Estão satisfeitos agora?
_ Faça-me o favor, Hoss! – Adam protestou.
_ Se você tivesse ido logo ao ponto no lugar de ficar gaguejando feito um pato selvagem...
_ Joe, eu já te falei...
_ Okey, okey – o mais velho dos irmãos separou os outros dois, colocando-se entre eles _ Vamos nos acalmar, certo? Onde foram parar os cavalos?
_ Sei lá - Joe sacudiu a cabeça, espalhando o pó que cobria seus cabelos por toda parte _ Você mandou buscar abrigo e foi o que fiz.
_ Os cavalos sabem se proteger – Hoss informou _ Quando se sentirem seguros, aparecerão e poderemos partir.
_ Mas antes precisamos encontrar água – Joseph exibiu o cantil aberto, sem uma gota d'água _ A minha já era.
_ A minha também – Adam afirmou _ Não tem mais que um ou dois goles aqui. Como está o seu, Hoss?
_ Não melhor do que os de vocês dois.
_ Certo... – o mais velho dos irmãos coçou atrás da cabeça _ Se não me engano, há uma nascente numa dessa cavernas...
_ Ei, irmão maior, você tem razão! – Hoss bateu as mãos, demonstrando satisfação _ Lembro de termos parado aqui um par de vezes com o pai quando éramos mais jovens.
_ Só resta saber se os irmãos mais velhos sabem onde começar a procurar – Joe cruzou os braços sobre o peito, direcionando o olhar para as rochas que subiam num despenhadeiro atrás deles _ Por que eu não tenho a menor ideia.
_ Não esquente a sua cabecinha, baixinho. – Hoss sabia como cutucar o caçula _ Deixe o trabalho sério para os adultos!
Little Joe desenhou aquele seu peculiar sorriso debochado no canto do lábio. Às vezes, o hábito de sua família de lembrá-lo de que não era muito mais do que um adolescente, o irritava profundamente. Afinal, em qualquer lugar do mundo, um homem de 18 anos já é um adulto! Mas ele também sabia que seria uma total perda de tempo discutir ou armar uma briga. Eram dois contra um. Dois muito maiores. Por isso, seguiu Adam e Hoss pela encosta.

_ Meu Pai Eterno, o que foi isso?! – Sílvia espanou a poeira do rosto em meio a um acesso de tosse.
_ Acabou mesmo? – Crica perguntou, ainda com as mãos sobre os olhos _ Acho que tem areia até dentro dos meus tímpanos!
_ Acho que acabou – Penny levantou a cabeça e olhou ao redor _ Está claro novamente.
_ E não vejo sinal daquele furacão de areia – Completou Bonanzer.
_ Bem, pelo menos estamos inteiras – Ana concluiu, verificando seus braços e sacudindo o pó acumulado no cabelo.
_ Vamos torcer para o carro estar bem também – Maria acionou a ignição.
_ Será que entrou areia no motor? – Virgínia arregalou os olhos _ Se entrou nós estamos ferradas!
_ Bate nessa boca! – Crica exclamou, traçando o sinal da cruz sobre si _ Só faltava essa coisa enguiçar agora.
_ Calma, gente – Maria intercedeu.
_ É, pessoal, muita calma nessa hora _ Foi a vez de Ana intervir _ Vai, Maria, tenta outra vez.
A jovem senhora que estava ao volante girou a chave, sem sucesso. Apenas aquele ruído do motor querendo partir e, nada de arrancar. Mais uma tentativa e nada. A cada virada da chave, os corações paravam por um segundo em expectativa.
_ Acho melhor dar um tempo, Maria. Se continuar com isso vai arriar a bateria.
_ Você está certa, Sílvia. Vamos dar um tempo _ Maria segurou o volante com as duas mãos e respirou profundamente, segurando o ar na tentativa de acalmar-se.
O silêncio envolveu aquela parte da estrada vazia.
Os olhares se cruzavam, mas nenhuma das amigas conseguia verbalizar seus pensamentos. Ninguém queria dar o braço a torcer e admitir o quanto todas estavam apavoradas com a possibilidade de estarem perdidas no meio do nada.
_ Meninas, o celular! – De repente, Penny lembrou.
_ O celular! – O coro não ensaiado foi inevitável.
Imediatamente, todas sacaram seus aparelhos.
_ Como é que pode uma coisa dessas? – Crica não podia crer no que via.
_ Gente, isso aqui são os Estados Unidos da América do Norte, como é que não tem sinal? – Maria quase gritou, indignada.
_ Talvez porque os nossos celulares não funcionem por aqui? – Sílvia arriscou.
_ Ou a tempestade de areia pode ter criado um campo eletromagnético que esteja dispersando as ondas de telecomunicação.
_ Crica, minha filha, de onde saiu isso? – Bonanzer, confusa, quis saber.
_ Eu assisto o National Geografic, tá?
_ Gente, o fato é que nenhuma de nós está conseguindo sinal pra pedir o resgate – Ana, como sempre, ponderada, continuou _ Vamos tentar dar a partida novamente.
_ Isso – concordou Virgínia _ Todo mundo cruzando os dedinhos. Quem quiser pode fazer figa também.
Maria ajeitou-se no banco do motorista e girou a chave novamente e, quando o motor virou, um monte de gritinhos e aplausos festejaram o sucesso da operação. Estavam a caminho novamente.

_

_ Hoss! Joe!
_ Adam, onde você está?
_ Aqui, encontrei água! Venham!
Ambos os irmãos mais novos correram na direção do som da voz de Adam. Aquela era uma linda visão: saindo do meio de uma larga rachadura na rocha, um fio grosso de água cristalina.
_ Eu não disse que os cavalos saberiam se cuidar? – Hoss abriu um largo sorriso satisfeito ao se deparar com os três animais junto ao minúsculo córrego que se formava rente ao chão.
_ Cavalos são espertos – Joe sorriu abertamente, acariciando o quarto traseiro de Cochise _ Não é, Coch?
_ Vamos encher os cantis e dar o fora desse lugar – Adam ordenou.
Assim foi feito. Os três rapazes abasteceram seus cantis e saciaram sua sede. Tomaram suas montarias e retornaram à estrada. Com sorte, em dois dias, no máximo, estariam descansando na casa grande de Ponderosa.

_

O Cadillac conversível seguia ligeiro pela estrada, tripulado pelo animado grupo de fãs de Bonanza. Nenhuma das moças parecia ainda aborrecida com o evento que quase estragara seu tão planejado e esperado encontro. Tudo seguia na mais perfeita ordem, desde então. Exceto pelo fato dos celulares ainda estarem sem sinal e não conseguirem sintonizar sequer uma estação de rádio.
_ Que droga! Nem uma musiquinha – reclamou Sílvia _ Onde já se viu uma Road trip sem fundo musical?
_ Se vocês não se opuserem, tenho um cd do Legião – Crica sugeriu, meio sem jeito _ Ando sempre com ele...
_ Legal! – Penny apoiou a ideia _ Adoro o Legião!
_ Coloca aí, Criquinha! – Maria abriu um enorme e iluminado sorriso.
O grupo foi ao delírio quando tocaram os primeiros acordes de Monte Castelo e o coro acompanhou a letra na voz de Renato Russo, cantando numa empolgação de fazer inveja.
O cd já tinha rolado inteiro e as cordas vocais de cada uma estavam agradecidas por isso.
_ Cara, o que esses sujeitos estão fazendo? – Maria afundou a mão na buzina.
_ Vai ver é costume desse povo daqui, oras! – Virgínia levantou o corpo para ver melhor.
_ Qual é? – Maria reclamou, buzinando mais longamente _ Esse é um país civilizado e as pessoas deveriam obedecer as leis de trânsito.
_ Maria, é melhor diminuir ou vamos atropelar os caipiras – Crica sugeriu já meio preocupada com a aproximação do automóvel.
_ Saiam da frente! – Maria gritou em inglês, buzinando repetidas vezes, com impaciência.
_ Gente! Virgínia gritou.
_ O que é agora? – Ana Maria puxou o corpo para cima novamente, já meio assustada com a possibilidade de outra tempestade de areia.
_ Gente! – Virgínia quase engasgou com a palavra quando um dos cavaleiros parou seu animal e voltou-se para trás, ainda montado em sua sela. _ Eles estão aqui!
Nesse exato momento, Maria enterrou o pé no freio, parando o carro bruscamente.
A expressão nos rostos de cada uma daquelas mulheres era de, no mínimo, espanto. Não era possível. Não podiam acreditar no que seus olhos estavam vendo.
Sua apatia só foi quebrada quando o corpo inerte de Virgínia despencou No banco traseiro, sobre suas amigas.
_ Vi! – Ana, Penny e Bonanzer chamaram ao mesmo tempo.
_ Virgínia, amiga... – Ana Maria aspergiu um pouco de água da sua garrafinha sobre o rosto da desacordada companheira.
Os três homens apearam apressadamente ao repararem no desmaio da senhora dentro daquela carruagem sem cavalos. Eles sequer pensaram na estranheza daquele transporte e daquelas pessoas, apenas correram em socorro das moças.
_ Está tudo bem, madame? – O homem mais alto retirou o chapéu e perguntou num carregado sotaque texano.
_ A senhora está ferida – Um outro ainda muito jovem correu para perto do carro.
_ Mas que diabos é essa coisa? – O outro, todo vestido de negro, mas muito acinzentado pela poeira, colocou as mãos sobre os quadris e perguntou, franzindo a testa com força.
_ Eu acho que vou desmaiar também... – Bonanzer levou a mão à testa quando Man in Black se aproximou do seu lado do carro.
_ Maria, fecha a boca e me belisca – Crica sacudiu o braço da amiga que respirava com certa dificuldade.
_ Ei, senhoras, vocês estão bem? – Hoss cutucou Ana _ Adam, acho que as senhoras estão em choque.
_ Deve ser o calor – Joe comentou, abanando Maria com seu chapéu.
_ Sou Hoss Cartwright, madame- O grandalhão sorriu para a jovem Penny, que tinha os grande e redondos olhos castanhos brilhando como os do Gato de Botas do Shrek _ Esses são meus irmãos, Adam e Little Joe.
_ Nós... Nós... – a menina estava muito confusa e admirada _ Nós sabemos quem vocês são.
_ Sabem? – O mais moço dos três estranhou.
_ Ainda bem que alguém sabe de alguma coisa – Adam cruzou os braços sobre o peito _ Porque eu estou muito confuso aqui.
_ Junte-se ao clube, irmão _ Sílvia afirmou, ainda um pouco atordoada.
_ Alguém pode, por favor explicar o que isso significa? – Adam estava um tanto impaciente.

CONTINUA...