Capítulo 3: Uma questão de Tempo

_ Gente, eu estou ficando tonta...

_ Calma, Sílvia! – Ana abanou a amida _ Já basta a Virgínia apagada!

_ Por Deus, Adam... – Joe aproximou o rosto da mulher desacordada _ Será que a senhora teve um ataque do coração?

_ Bata nessa boca, irmão! – Hoss empurrou o jovem para o lado _ Saia de cima e dê espaço para a senhora respirar.

_ Deve ser o calor... – Crica passou um lenço úmido sobre o rosto de Virgínia _ É emoção demais para um dia só...

_ Senhoras – O rapaz vestido de preto descruzou os braços e empurrou seu chapéu para trás _ Eu estou ainda um pouco confuso e gostaria de saber que espécie de transporte é esse que as moças usam.

_ É um carro, cara! – Bonanzer respondeu meio aborrecida com a falta de interesse do rapaz na condição de sua frágil amigo _ Será que o bonitão nunca viu um Cadilac conversível antes?

_ Glauce! – Ana cutucou_ É óbvio que Ad... que o jovem nunca viu um automóvel antes.

_ Ah, tá...

_ Moças, parece que sua amiga já está melhorando – Hoss sorriu para a assistência _ Com certeza o calor foi demais para a pobrezinha.

_ E aquela maldita tempestade de areia que quase nos matou do coração – Penny reclamou.

_ Vocês também foram apanhadas pela tempestade, pequenina?

_ Sim, fomos – Maria adiantou-se _ Um horror, se quer saber.

_ Viram que fofo? – Penny engatou no modo fã e não conseguia parar de sorrir _ Ele me chamou de pequenina... Tão fofo...

_ Bem, agora que o susto passou, poderíamos passar às apresentações e a algumas explicações, se as senhoras permitirem _ Adam retirou o chapéu e continuou _ Sou Adam Cartwright e estes são meus irmãos – apontou-os um de cada vez _ Hoss e Joe.

Os dois outros irmãos fizeram uma reverência e sorriram para o grupo de mulheres que tinham os sete pares de olhos mais brilhantes e coloridos que aqueles rapazes já tinham visto em suas vistas.

_ Caraca, eu acho que vou ter um piripaque... – Crica levou a mão ao peito.

_ Segura a onda, amiga e deixa pra ter um treco mais tarde _ Bonanzer apoiou-se na dobra do braço direito de sua amiga.

_ E as senhoras são...- O jovem de preto ergueu uma sobracelha.

Maria tomou a frente das apresentações e nomeou o grupo, apontando cada uma:

_ Eu sou Maria, esta é Ana, a mocinha é Penny. Ali ao lado, estão Vírgínia e Sílvia e por fim Bo... errr, quero dizer, Glauce e Claudia.

As mulheres sorriram animadas e estenderam suas mãos para cumprimentar cada um dos rapazes.

_ Ainda bem que a Maria sabe os nossos nomes verdadeiros – Cochichou Bonanzer para Crica _ Ia ficar esquisito apresentar a gente com os nossos apelidos...

_ Apelido não é pra ser reconhecido _ Crica cochichou de volta _ Então tem que ser diferente mesmo. Vamos. Eu só quero ver como a gente vai explicar pra esses garotos quem somos e de onde viemos.

_ Eles vão pirar _ Bonanzer levou a mão à boca, falando baixinho.

_ Se vão...

_ Creio que seria melhor se todos fôssemos para a sombra daquelas rochas até que o calor abrande um pouco.

_ Boa ideia, Hoss – Joe concordou, estendendo a mão para a jovem Penny.

_ O que ela está penando que está fazendo? _Os olhos de Maria quase saltaram das órbitas _ Ela é uma Hossgirl!

_ Fala baixo, Maria! Tá doida? – Virgínia cutucou a outra _ Mas se essa baixinha se meter a besta como meu Little Lindo, vai ter!

_ Seu uma vírgula, Virgínia _ Crica reclamou _ Nosso! Pode colocar no plural!

_ Vejam – Sílvia apontou para a cena mais adiante e todas sorriram quando Hoss ofereceu seu braço a Penny e esta aceitou-o com um largo sorriso, deixando um decepcionado irmão caçula a ver navios.

O grupo seguiu os irmãos Cartwright até uma formação rochosa que se projetava a uns passos de onde seria, no futuro, o acostamento da rodovia.

_ Senhoras – Adam indicou um espaço longe do sol quente _ eu e meus irmãos estaremos de volta em poucos minutos. Creio que gostariam de descansar antes de retomarmos nossa conversa e seguirmos nossos caminhos.

As mulheres se acomodaram na sombra e observaram os irmãos se afastarem em direção aos cavalos soltos na estrada.

_ Vou te contar... – Ana suspirou _ Esse homem me mata...

_ E aquela voz – Sívia completou _ Chega a dar um calor...

_ Me belisca pra ver se seu não morri – Bonanzer esticou o braço na frente das amigas.

_ E agora? Crica empurrou os óculos de grau até o alto da cabeça e limpou o rosto empoeirado.

_ Como assim, e agora? Penny perguntou.

_ Bem, não é só no seriado que Adam é esperto e desconfiado. Ele está se coçando pra saber quem somos nós e de onde viemos.

_ Vamos ter que contar... – Sílvia concluiu

_ Isso será interessante – Ana secou atrás do pescoço com sua echarpe.

_ Senhor Cartwright – Virgínia imitou um ar empertigado _ Nós viemos do Brasil para um encontro de fãs de Bonanza em Carson City e, a propósito, nós somos do século XXI.

_ Temos sorte de não haver camisas de força no meio desse deserto – Ana completou.

_ Mas então, o que faremos? Maria questionou _ Eles não vão engolir qualquer história da Carochinha.

_ Eu voto por contar a verdade – Ana afirmou _ Simples e diretamente.

_ Eu concordo – Crica acrescentou – O pior que pode acontecer é eles montarem e fugirem de nós feito o diabo foge da cruz.

_ O que é bem provável que aconteça _ Bonanzer coçou a cabeça.

_ Vamos votar? – Virgínia sugeriu _ Quem concorda em soltar a bomba de uma vez, levante a mão.

Depois de uma série de olhares trocados em dúvida e medo, todas as amigas ergueram suas mãos.

_ Então está decidido.

Não tardou para que os jovens homens retornassem ao abrigo.

_ Senhoras, precisamos partir imediatamente – Adam ordenou.

_ Como assim? – Ana questionou-o, levantando-se.

_ Meu irmão avistou sinais de cavaleiros em nosso encalço. Provavelmente guerreiros Paiute.

_ Meu Deus, índios! – Virgínia preocupou-se _ O que faremos?

_ Vamos dar o fora bem rápido, madame – Hoss respondeu, tomando a mão da pequena Penny.

_ Vocês tem certeza? Talvez seja uma patrulha...- Sílvia questionou o mais velho dos rapazes.

_ Eu tenho certeza, dona – o jovenzinho interrompeu _ Posso não ter muita idade mas já vivi o suficiente nessa terra pra saber diferenciar um bando de índios de uma patrulha e, de mais a mais, por que montariam uma patrulha para nos socorrer?

_ Deixa pra lá, garoto- Sílvia respondeu, desanimada, seguindo o grupo de volta ao carro.

De volta ao Cadillac, as mulheres tomaram seus lugares e Maria acionou a ignição. Mais uma vez, o motor roncou, mas não virou. A máquina gritava a cada tentativa, sem funcionar.

Alguns metros a frente, os três homens observavam intrigados aquele grupo inusitado a bordo daquela máquina infernal. Eles precisavam partir,mas a coisa metálica insistia em não sair do lugar.

Adam e seus irmãos tocaram seus cavalos na direção do automóvel e pararam ao seu lado, ainda sobre suas montarias.

_ Quel é o problema, senhoras?

_ O motor não pega – Maria respondeu meio sem jeito _ Acho que teremos que empurrar.

_ A senhora pretende cruzar o deserto empurrando essa coisa? - Joe empurrou seu chapéu para trás e assoviou.

_ Não, querido...

_ Todos mundo pra fora! – Crica gritou, agitando as mãos _ Vamos dar um tranco nessa carroça!

Os rapazes permaneceram montados, atônitos quando as mulheres saíram e se posicionaram atrás do enorme veículo.

_ Vocês três, barbados, vão ficar aí olhando enquanto a gente faz o trabalho pesado? – Ana perguntou, muito aborrecida _ Sou me faltava essa...

Os três irmãos apearam e juntaram-se às outras seis mulheres na traseira e laterais do automóvel. Todos empurraram com força, deslocando o pesado veículo, ganhando velocidade na estrada de terra. Maria virou a chave e, quando o motor roncou longamente, gritos animados ecoaram pelo deserto. Todas as mulheres pulavam e giravam, batendo palmas e trocando abraços.

_ Todas a bordo! – Maria gritou, chamando suas amigas que, prontamente correram de volta a seus lugares.

O grande carro acelerou, levantando uma espessa nuvem de poeira sobre os irmãos Cartwright.

_ Cof! Cof! Cof! – Joe tossiu ferozmente.

_ Irmão mais velho, essas donas são muito esquisitas...

_ Nem me diga, Hoss. Nem me diga...

Os três saltaram sobre seus cavalos e partiram num galope atrás da cortina empoeirada que o tal automóvel das senhoras estranhas havia deixado para trás. Com sorte, os Paiutes estariam ainda longe demais para localizar sua pista.

CONTINUA...