CAPÍTULO 4: REVELAÇÕES
Depois de uma hora de viagem em velocidade de cruzeiro pela estrada empoeirada, o Cadillac começou a apresentar os sintomas do desgaste.
_ Mas o que foi agora? – Bonanzer percebeu o barulho estranho no motor.
_ Essa carroça está engasgando... – Maria respondeu – Ai, meu pai...
_ O que foi? –Ana, Sílvia e Virgínia formaram o coro preocupado _Fala logo!
_ Meninas, eu acho que estamos ficando sem combustível...
_ Fala sério, Maria! – Crica reclamou _ Você não encheu o tanque quando saímos da última parada?
_ Enchi, mas acho que andamos mais do que programamos...
_ E o posto de gasolina mais próximo está a 147 anos no futuro... – Ana concluiu desanimada.
Mais alguns metros e o carro parou definitivamente. O grupo inteiro suspirou com um ar de muxoxo.
Os rapazes Cartwright se aproximaram e pararam suas montarias ao lado do automóvel enguiçado. Trocaram olhares confusos e Hoss foi o primeiro a falar:
_ Algum problema, madame?
_ Se falta de gasolina numa estada deserta do século XIX pode ser considerado um problema, sim, meu caro, temos um problema... – Maria mal conseguia levantar os olhos do volante.
_ Talvez se nós dermos um – Joe estalou os dedos pensativo _ Como se chama mesmo, Adam?
_ Um tranco?
_ Isso, irmão mais velho! – o rapaz sorriu abertamente _ Talvez funcione novamente. Vamos lá, pessoal, todos para trás para empurrar!
_ Segura a sua onda, bebê – Crica segurou o braço do rapaz que acabara de apear do cavalo _ Dessa vez não vai ter jeito, sinto muito...
_ Hora, mas funcionou lá atrás!
_ Deixa eu te explicar, querido _ Foi a vez de Virgínia interferir _ Esse monte de ferro velho é movido à gasolina.
_ Gasolina? – Os irmãos perguntaram juntos.
_ É, rapazes – Sílvia entrou na conversa, erguendo-se no banco traseiro e apoiando-se no encosto _ Gasolina é um combustível obtido através do refino do petróleo, coisa que só vai rolar daquai há uns 25, 30 anos mais ou menos.
_ Sabem, moças – Adam contornou seu cavalo e apoiou as mãos na cintura _ Estou ficando cada vez mais confuso.
_É, Adam- Hoss franziu a testa_ A metade do tempo eu não entendo o que elas falam.
_ Certamente porque, irmão do meio, nós não estamos, definitivamente, falando a mesma linguagem.
_ Olha, galera, é melhor a gente abrir o jogo logo – Sílvia concluiu _ Os caras já sacaram que tem alguma coisa estranha acontecendo aqui.
_ Sim,senhoras – Adam concordou erguendo a sobrancelha mais alto que qualquer um poderia acreditar se possível _ Um pouco de honestidade neste diálogo viria bem a calhar.
_ Certo... – Maria engoliu em seco.
_ O fato é que nós não somos daqui – Ana Maria afirmou _ Nós viemos de muito longe e...
_ E... – o jovenzinho cruzou os braços sobre o peito e pareceu muito interessado.
_ Pra dizer a verdade, nós não pertencemos a este lugar nem a este tempo. É isso.
_ Ana, é melhor você explicar isso direito – Virgínia colocou, reparando na expressão estampada nos rostos dos rapazes _ Ilha só a cara de caneca deles!
_ Bem, deixem-me colocar assim _ Penny iniciou a narrativa _ Nós todas somos amigas virtuais e nos encontramos para participar de um encontro em Carson City. Então, decidimos fazer uma viagem de carro a partir de Los Angeles. Sabe, curtir a paisagem e tal... Bem, no meio do caminho, fomos apanhadas pela tempestade de areia e, quando tudo clareou estávamos aqui, com vocês.
_ E qual é a novidade, garota? – Joe parecia um tanto intrigado.
_ A novidade é que er... – Crica engasgou _ Que nós saímos de Los Angeles em setembro de 2012.
_ A senhora poderia repetir? – Adam arqueou ainda mais as grossas sobrancelhas e empurrou o chapéu preto para trás.
_ É exatamente como você ouviu, amigo.
_ Mas são quase 150 anos à frente! – Joe concluiu assombrado.
_ Adam, acho que o sol fritou os miolos das pobrezinhas.
_ Cale a boca, Hoss – Adam aproximou-se, apoiando as duas mãos sobre a porta do carro _ Vocês, por um acaso pensam que somos alguma espécie de idiotas?
_ De jeito nenhum! – Virgínia ergueu-se indignada _Não entendo porque você está tão aborrecido.
_ Oh, não? – O homem de preto afastou-se um pouco, girou lentamente sobre os calcanhares e sugou uma profunda golfada de ar _ Vocês realmente acreditam que nós engoliríamos essa história maluca de mulheres que vem do futuro?
_ Por que não? Virgínia ainda argumentou antes de ser puxada de volta ao banco por Bonanzer.
_ Fica quieta, Virgínia. O cara está confuso, é normal.
_ Eu já teria nos colocado numa boa e forte camisa de força, amiga. – Maria empurrou os óculos escuros para o alto da cabeça _ E por muito menos!
_ Bem, meninos, acreditem ou não, estes são os fatos: Somos do futuro, íamos a uma convenção de fãs em Carson City quando a tempestade de areia nos arrastou para cá e agora estamos aqui, no meio de lugar nenhum com vocês três.
_ O que, na realidade, não é de todo ruim – Bonanzer completou _ O povo do fórum vai se rasgar de inveja quando a gente contar isso lá no Brasil.
_ Se nós voltarmos ao Brasil – Crica interveio _ Se voltarmos ao século XXI...
_ É muito "se" pro meu gosto... – Sílvia parecia desanimada.
_ Resta ainda uma questão.
_ Que questão, irmãozinho?
_ O que faremos com as moças?
_ Como assim, o que faremos com as moças? – Ana Maria ergueu-se novamente no banco de trás _ Alto lá, cara pálida! Ninguém vai fazer nada com ninguém e nós vamos sair desse buraco todos juntos!
_ Calma senhora _ Hoss empurrou o mais velho para trás e espalmou sua grande mão no peito do irmão _ Veja bem, Adam, não podemos deixar as moças aqui sozinhas e já que essa máquina não funciona, não temos como carregá-las em nossos cavalos.
_ Eu sei, Hoss. Eu sei. Só deixe-me pensar um pouco.
_ Ei, rapazes – Joe chamou _ Rapazes!
_ Fique quieto, Joe. Estou pensando.
_ Adam, se eu fosse você, pouparia seus miolos porque eu já tenho uma solução.
_ Certo, espertinho. Então, conte-nos a sua brilhante ideia e aproveite pra tirar esse sorriso idiota da cara.
_ Lá – o rapaz apontou para uma pequena formação rochosa não muito distante, perto do horizonte _ Estão vendo? Lá nas colinas há um riacho e umas cavernas que podem nos fornecer abrigo. Poderemos nos proteger e assim que o sol nascer, um de nós volta até a fazenda e traz o carroção para levar as meninas até ponderosa.
_ Caramba, Joe! – Hoss grotiou, batendo forte no ombro do irmão menor, fazendo-o saltar alguns passos para frente _ Isso é que foi uma ideia danada de boa! Ele está certo Adam. Logo será noite e precisamos colocar as moças em segurança, os cavalos precisam de água e descanço, além do que, meu estômago está rocando mais do que uma trovoada!
_ Certo, certo... Vocês dois vão na frente e devagar – Adam apontou para as mulheres _ E vocês, moças, recolham o que precisarem, mas o estritamente necessário. Não esqueçam seus cantis.
_ Cantis?
_ Sim, senhora. Cantis. Não se vive muito tempo neste lugar sem água.
_ Mas nós não temos cantis.
_ E como vocês pretendiam sobreviver?
_ Com as nossas garrafinhas – Virgínia levantou sua garrafinha de plástico decorada com o mapa de Ponderosa _ E sempre há uma loja nos postos de gasolina onde podemos comprar água mineral ou um refri.
_ Virgínia! – Um coro soou em uníssono.
_ Caraca, o que deu em vocês, meninas? Estão todas tão nervosas, credo...
Adam Cartwright não estava com disposição para discutir, não estava com paciência para pajear um bando de mulheres muito estranhas, com roupas esquisitas e atitudes nada convencionais pelo meio do deserto. Ele apenas indicou o caminho e esperou que elas caminhassem atrás dos animais montados por seus irmãos e as seguiu, puxando seu próprio cavalo pelo cabresto.
O sol do final da tarde não deu trégua ao calor insuportável que ardia sobre a pele desprotegida. As amigas caminhavam lentamente, duas a duas e mantinham o silêncio, poupando o fôlego, como tinham sido orientadas a fazer. O suor escorria-lhes pelo rosto e ensopava-lhes as roupas. A tal colina que parecia estar logo ali não chegava nunca e seus pés já estavam começando a formar bolhas.
Algumas horas depois de terem iniciado a caminhada, Joe surgiu montando seu cavalo e anunciou que estavam muito próximos do pequeno vale que se formava atrás da colina. O rapaz apareceu, exibindo um sorriso capaz de iluminar o mundo e apeou junto dos companheiros de viagem que haviam parado para descansar por alguns minutos.
Rapidamente todos se puseram de pé e seguiram em frente. A perspectiva de sombra, água fresca e algo quente para por no estômago era algo tentador.
Joe estava certo. Não mais do que 15 minutos de caminhada foram necessários para que avistassem o pequeno oásis em meio à desolação.
O riacho de água cristalina foi uma bênção para os corpos quentes e sedentos. Os rapazes soltaram os animais que, imediatamente, encontraram espaço às margens para saviar sua sede e descansar. As mulheres correram afoitas e beberam do líquido refrescante, pulando dentro do córrego, em seguida, espalhando água para todo lado, umas sobre as outras como um bando de crianças arteiras.
Assim que determinaram que uma pequena caverna seria o abrigo ideal, os irmãos partiram, afirmando que retornariam em breve com algo para o jantar.
_ O que será que eles vão fazer? Virgínia observava os rapazes se afastarem da borda da caverna.
_ Acho que vão caçar – Crica respondeu, recolhendo gravetos secos e empilhando-os no centro da caverna.
_ Espero que não tragam nenhuma cobra para o jantar- Sílvia afirmou.
_ Cobra deve ter um gosto melhor do que gambá... _ Ana comentou, rindo da expressão no rosto da amiga.
_ Cobra ou gambá, o que eu sei é que os bonitões ali vão trazer esses bichos pra gente limpar e cozinhar – Bonanzer torceu o nariz.
_ Pois vocês fiquem sabendo que é contra os meus princípios maltratar animais, sejam eles peçonhentos ou fedorentos _ Penny resgungou, contrariada _ Eu não vou esfolar animalzinho nenhum.
_ Amiguinha, com a fome que eu estou, não creio que eu vá ficar muito preocupada com os meus princípios ecologicamente corretos...
_ É, Ana – Sílvia concordou, juntando os últimos gravetos _ Alguém tem um isqueiro aí?
_ Pegue! _ Crica tirou o objeto do bolso da bermuda e atirou para a companheira que incendiou os galhos mais finos, iniciando a fogueira.
_ Uai, Criquinha _ Penny estranhou _ Eu não sabia que você era fumante.
_ E não sou.
_ Então, por que você anda com um isqueiro no bolso?
_ Amiguinha, como diria o MacGyver, não se vai a lugar nenhum sem um isqueiro, um clipse de papel, um elástico, um canivete e um chiclete – A mulher foi tirando os pequenos objetos do bolso enquanto falava.
Todas explodiram numa gargalhada.
_ Nunca se sabe quando essa tranqueira vai ser útil...
Os rapazes Cartwright, para alívio geral, entraram na caverna quando já estava escuro, trazendo suas presas esfoladas e lavadas, atravessadas num galho para ser colocado sobre o fogo preparado pelas mulheres. Os olhares se cruzaram,mas nenhuma delas teve coragem de perguntar que animais tinham sido abatidos para servirem-lhes de alimento. Elas apenas sentaram ao redor da fogueira e esperaram até que Hoss anunciou que o jantar estava pronto. O espeto de madeira passou de mão em mão, onde cada um retirou um pedaço da carne assada.
_ O que será que é isso? – Penny sussurrou para Ana.
_ Sei não, querida... Além do mais, nessas horas, a ignorância é uma bênção. Relaxa e come.
Nenhum dos irmãos falou no controverso assunto do futuro e das viagens no tempo. Eles fizeram um acordo tácito de não tocar mais neste ponto até que estivessem em segurança, em casa, sob a sabedoria de seu pai e bem próximos da civilização onde poderiam, se necessário, acionar as autoridades para lidar com aquele bando de mulheres insanas.
Assim que a refeição terminou, o mais velho dos irmãos sugeriu que cada qual se preparasse para dormir. O dia seguinte seria longo, principalmente para aqueles que fossem cavalgar até Ponderosa para trazer ajuda.
As amigas esticaram echarpes e chalés pelo chão e deitaram-se sobre o terreno rochoso. Estava frio àquela altura e Hoss saiu por alguns momentos para buscar mais lenha. Assim que o grandalhão retornou, estabeleceu com seus irmãos, turnos de vigília e sortearam entre si, com pequenos gravetos em tamanhos diferentes, os dois que voltariam à fazenda. De longe, as moças observaram e perceberam que Adam e Hoss partiriam com a primeira luz da manhã enquanto Joe ficaria para protegê-las.
A noite não foi fácil: o chão duro, a friagem que entrava pela carne e chegava aos ossos, os pios de corujas e uivos de coiotes, além de momentos de silêncio absoluto, um silêncio ensurdecedor que assustava até a alma. O cansaço venceu, derrotando uma a uma.
Era madrugada quando o movimento acordou algumas das mulheres. Adam e Hoss saíam da caverna, carregando suas selas nas costas. Eles estavam de partida e Joe os acompanhou para fora.
Em poucos minutos, todo o grupo estava desperto. Bonanzer aproximou-se da bolsa de provisões que Hoss tinha usado na noite anterior e encontrou um saco de couro cheio de pó de café. Imediatamente, colocou um bule sobre a brasa da fogueira para ferver a água.
_ Vocês não acham que Joe está demorando lá fora? _ Maria perguntou, indo em direção à enrtrada.
_vai ver ele foi cuidar do Cochise _ Crica respondeu, indo ao encontro da amiga _ Você sabe como ele é com aquele cavalo...
_ Será que ele foi com os irmãos e largou a gente aqui? – Sílvia pareceu assustada.
_ De jeito nenhum! Virgínia indignou-se _ O meu Joe jamais nos abandoraria!
_ Seu Joe? – Maria enviou um olhar assassino através da loira _ Errr... Nosso... Joe...
_ Eu vou lá fora dar uma olhada.
_ Eu vou com você, Maria.
Crica e Maria saíram da caverna a tempo de testemunhar os primeiros raios de sol rasgando a madrugada, dando ao céu um tom alaranjado, numa abóbada infinitamente azul. Com movimentos longos de braços e pernas, as amigas alongaram o corpo, esticando os músculos maltratados pelo chão duro. Caminharam lenta e silenciosamente pelo pequeno espaço até as primeiras rochas que separavam a caverna do riacho. Sobre a pedra maior, viram algo que as fez engolir a respiração.
_ Ei, garotas, o que vocês estão fazendo? Virgínia aproximava-se animadamente quando um gesto de Maria a fez estancar no lugar _ O que foi? – Siussurrou _ O que tem aí?
Virgínia aproximou-se cautelosamente depois que Crica enviou-lhe um gesto. As três mulheres passaram pela rocha onde estavam depositados, um par de botas e meias, um chapéu e calças e camisa que elas tão bem conheciam. Seus olhos abriram-se ao máximo. Seus corações estavam estrangulados na garganta e, não fossem os arbustos que as separavam do fluxo d'água, todas teriam caído de cara dentro do rio.
Ali, a não mais de 50 metros de distância, a visão do paraíso.
Do alto da colina, escorregando por entre as pedras que saltavam da terra, a água cristalina cintilava, descendo faceira sobre o corpo esguio e bronzeado. Cada músculo marcado pelas gotas refrescantes. Cada movimento executado com graça e leveza, com a firmeza e o vigor da juventude. Nunca poderiam ter imaginado que um corpo masculino pudesse possuir tantas curvas perfeitas. As mãos do jovem Cartwright brincavam com a barra de sabão que cobria seu belo corpo com espuma. O mundo parecia executar os minutos em câmera lenta, dada a sedução daquele inocente banho. Um arrepio correu-lhes pela espinha quando o rapaz sacudiu o cabelo molhado, espalhando gotículas por toda aparte, como o tinham visto fazer inúmeras vezes no seriado da TV.
As três mulheres permaneceram mudas, estáticas, cada uma perdida em seu devaneio, à beira do riacho, preocupadas em não fazer o menor movimento ou emitir qualquer som que pudesse revelar sua posição ou assustar o rapaz, pondo um fim ao seu deleite.
_ Oh, meus deuses... – Virgínia sussurrou, em transe _ Willy, em pessoa...
_ Ssssshiiiii – Fica quietinha, amiga.
_ Gente, acho que eu estou passando mal... – Maria sentou-se na areia, abanando-se com as mãos.
_ Vamos. _ Crica apanhou as duas, puxando-as pela camiseta.
_ Que vamos aonde? Tá doida? – Maria soltou-se e, quando voltou-se para a nascente, percebeu que o rapaz já não estava lá. – Cadê ele?
_ Era isso que eu estava tentando mostrar. O banho acabaou e ele vai estar em cima de nós em dois segundos!
_ Ai, quem me dera... – Virgínia levantou-se com um olhar meio bobo.
_ Vamos nessa!
As moças voltaram correndo para a caverna e foram recebidas por 4 pares de olhos inquisitivos. Nada responderam, apenas pondo o indicador sobre a boca para que as amigas não fizessem mais perguntas. Sentaram-se ao redor do braseiro e, rapidamente, apanharam as canecas de cobre com café que esperava por elas. Mantiveram seus olhares presos à entrada da caverna, até que seu objeto de desejo passou por ela, com um sorriso radiante e o corpo ainda molhado sob as roupas úmidas.
_ Bom dia, meninas ! – O sorriso se ampliou _ Que cheiro bom! Vocês fizeram café!
_ Excelente dia, Little Joe...
CONTINUA
