CAPÍTULO 6: EM PONDEROSA

Ao deixar Joe Cartwright com seus pensamenos, a jovem Penny adentrou a caverna, onde encontrou suas companheira.

_ Galera, reunião de conselho.

_ O que está pegando, amiguinha? – Crica voltou-se para a moça e aproximou-se, com as outras, ao sinal para que chegassem mais perto.

Uma pequena roda se formou no interior da formação rochosa. Penny falava baixo, temendo constranger ainda mais o pobre rapaz que deixara lá fora e sua amiga Virgínia. Ela mal conseguia suspender os olhos, mas decidiu que precisava encarar a situação para evitar maiores problemas, afinal, os outros irmãos poderiam chegar a qualquer momento e, com certeza, Adam ficaria bastante aborrecido se pensasse que se irmão faltara com o respeito para qualquer uma das moças ali presentes.

_ Eu estava lá fora e bati um longo papo com Joe – seu rosto tomou um ar cansado _ O cara está um bagaço...

_ Ué... – Sílvia estranhou _ Mas por que? O que nós fizemos?

_ Não é o que nós fizemos, mas o que ele pensa que ELE fez.

_ O rolo com a Virgínia. – Ana, perspicaz, logo concluiu.

_ Isso. Ele acredita que faltou com o respeito coma Virgínia e está morto de vergonha, além de estar apavorado com o fato dos irmãos descobrirem e acreditarem que ele é um rapaz sem caráter.

_ Que exagero... – Bonanzer comentou baixinho.

_ Sim, um exagero para o nosso tempo, mas no século XIX as pessoas levavam essa coisa toda de manter as aparências muito a sério.

_ Pois é... – Penny concordou _ Eu morri de pena do garoto e disse a ele que falaria com vocês.

_ Mas eu não fiquei ofendida – Virgínia afirmou _ Abalada, surpresa, emocionada e quente feito o inferno, sim, mas ofendida?

_ O que importa é o que ele pensa, né?

_ E se eu fosse falar com ele?

_ Acho que é melhor deixar como está, Vi – Crica sugeriu _ Se a gente agir como se nada tivesse acontecido, pode ser que ele relaxe.

_ Você tem razão, querida – Virgínia concordou _ Nem sei se eu poderia ter essa conversa sem chorar feito um bezerro desmamado...

_ Fechado, então? – Maria propôs.

Todas as mulheres acenaram afirmativamente e já voltavam aos seus lugares quando Penny continuou:

_ Tem mais uma coisa – todas voltaram-se para ela, surpresas _ Joe não nos vê como realmente somos. Ele acredita que todas somos jovens e acho que seus irmãos também, pelos comentários que tem feito.

_ E como pode isso? – Sílvia estava confusa _ Nós nos vemos normalmente. Ta todo mundo com a cara que tinha quando chegamos aqui.

_ Como pode, nós não sabemos e provavelmente nunca saberemos, mas o fato é que é assim que eles nos veem.

_ Só o fato de estarmos aqui- Ana falou massageando sua nuca _ já é algo fantástico. Quem pode afirmar que não passaremos por outras situações tão estranhas quanto? Se tudo isso for real...

_ Se tudo isso não for um surto de alucinação coletiva – Foi a vez de Bonanzer expressar seus sentimentos _ A gente pode estar tendo algum tipo de surto... Se lá, a insolação faz coisas terríveis com a cabeça da gente.

_ Bem – Crica entrelaçou os dedos na frente do corpo e suspirou _ O que não tem jeito, remediado está. Acho que a gente tem que administrar essa bagunça e ver no que vai dar. Uma hora, as coisas terão que voltar ao normal...

_ ou não... – Maria olhou um pouco triste.

O som dos cascos dos cavalos e rodas de carroça chamou a atenção das senhoras que, imediatamente saíram da pequena caverna, deixando para trás suas dúvidas e receios, indo em direção aos seus salvadores.

Joe já estava de pé ao lado dos irmãos, apanhando um saco de suprimentos da traseira do carroção de madeira. Era engraçado ver, tão de perto, um daqueles carroções cobertos por uma lona encardida tão comuns nos filmes que amavam ver na TV.

Hoss tirou o chapéu alto, segurando-o entre as mãos e cumprimentou as moças com um sorriso tímido, sendo imitado por seu irmão mais velho.

_ Moças, espero que tenham passado bem a noite e o dia de ontem.

_ Ficamos, bem, Hoss – Penny respondeu _ Joe cuidou de nós direitinho.

_ Isso é bom – Foi Adam quem respondeu, pondo o chapéu de volta sobre a cabeça _ Trouxemos alguns suprimentos. Vamos conseguir um café da manhã decente preparado e nos poremos a caminho de Ponderosa imediatamente. Quero estar em casa antes de anoitecer.

_ Antes que o pai esteja em casa – Hoss completou.

_ O pai não estava em casa? – Joe estranhou _ Onde ele foi?

_ A Virgínia City, segundo Hop Sing.

_ Parece que recebeu um telegrama de um dos compradores do leste e precisava respondê-lo. Então, vamos à refeição?

O movimento cresceu no pequeno acampamento. Os rapazes juntaram lenha rapidamente e armaram uma fogueira de tamanho suficiente para ferver a água para o café e fritar algum bacon e ovos. O cheiro era bom. Cada qual tomou sua caneca e seu prato para apreciar o desjejum. Ninguém havia tocado no assunto Joe/Virgínia e o rapaz pareceu mais confortável.

Depois de tudo organizado, a fogueira apagada e os traços de sua passagem adequadamente disfarçados, o grupo de mulheres foi embarcado na grande carroça, enquanto Joe e Adam montaram seus cavalos. Hoss amarrou Chubb atrás do carroção e tomou seu lugar à frente, na direção. Mais quatro horas e estariam longe do deserto, do perigo e muito mais longe do seu próprio tempo.

De quando em vez, uma das senhoras espiava pela abertura na parte de trás. O deserto havia ficado para trás e a vegetação verde e densa começava a mostrar-se. Joe e Adam cavalgavam, a certa distância, um de cada lado do carroção. Percebia-se que eles vigiavam o caminho e estavam atentos a qualquer aproximação indesejada. Era muito estranho ver aquilo tudo assim tão de perto.

Os pinheiros. Enormes e altíssimos pinheiros se enfileiravam, acompanhando a estrada de terra. Os pinheiros que deram nome à Ponderosa e, antes mesmo do anúncio de Adam, elas já sabiam que haviam chegado. De alguma forma, elas sabiam e seus corações estavam saltando dentro do peito. Os solavancos, a dureza da madeira onde se assentaram durante aquelas horas e os desconfortos pelos quais passaram nas últimas horas não era nada perto da visão e da emoção que compartilhavam.

A carroça parou e todas correram para o fundo do transporte. Hoss soltou a corda de segurança e a portinhola de trás do carroção caiu. Ele levantou a mão e auxiliou a cada uma, como um gentil cavalheiro que era.

_ Aqui estamos: Ponderosa – Hoss abriu um enorme sorriso _ Bem-vindas à nossa casa, moças!

Era incrível. A grande casa da fazenda, como num sonho, inteirinha ali diante dos seus olhos.

_ É melhor entrarmos – Adam sugeriu, indicando o caminho _ Precisamos acomodá-las e verificar se o pai já está de volta.

Joe correu na frente e abriu a pesada porta de carvalho.

_ Meu Deus do Céu... – Ana sussurrou _ Olhem só para isso...

_ É... é... Jesus... – Virgínia estava sem ar.

_ Incrível... Tudo igualzinho...

As amigas entraram na grande sala como se tivessem entrando num local sagrado, boquiabertas, encantadas e capturando cada detalhe com o olhar.

_ Gente, sente o cheirinho da madeira. – Penny passou a mão na parede a sua frente e deslizou os dedos sobre a mesa de centro _ Até as maçãs estão aqui...

A emoção tomou conta de cada uma, em gestos delicados sobre o mobiliário e olhares estupefatos a cada canto daquela sala. Era como nos seus sonhos. Até o leve aroma de tabaco que permeava a cadeira de couro atrás da escrivaninha. Uma casa masculina, com certeza, mas completamente familiar.

Do alto da escadaria de madeira bruta, um som gutural chamou a atenção dos presentes. Imediatamente, a figura de Bem Cartwright se fez notar e iniciou a sua descida como um rei adentra o seu palácio, calma e silenciosamente, colocando um olhar observador sobre as convidadas de seus filhos.

_ Senhoritas... – o patriarca cumprimentou-as com um meio sorriso.

Naquele momento, não houve uma viva alma naquela sala que segurou a respiração. As mulheres pela comoção provocada pelo encontro com o clã Cartwright agora completo e o impacto da voz profunda de "Pa". Os rapazes, por não saberem ao certo qual seria a reação de seu pai ao chegarem em casa com sete mulheres estranhas.

_ Bem, meninos, acho que podemos passar às apresentações e, segundo Hop Sing, hospedas todas essa graciosas jovens. – Os rapazes expiraram o ar represado dentro dos pulmões com certo alívio.

_ Claro, pai – Adam adiantou-se – Estas são Maria – foi apontando cada uma, a qual Ben tomou gentilmente a mão num cumprimento _ Virgínia, Ana, Sílvia, Penny, Crica e...

_ Que espécie de nome é Crica, minha jovem?

_ É um apelido, senhor- a moça respondeu completamente sem jeito _ O nome é Claudia.

_ E...

_ Glauce – a mulher interrompeu o rapaz moreno antes que tivesse eu explicar seu apelido e levantou a mão direita para cumprimentar o homem alto a sua frente.

_ É um prazer conhecê-las, senhoritas. Creio que todas estejam bastante casadas e empoeiradas depois de uma viagem tão longa, então, pedi a Hop Sing que preparesse os quartos vagos para acomodá-las. Hop Sing!

_ Não plecisa glitar! – o chinês entrou correndo pela sala _ Lop Sing escuta muito bem. Não glita. Já falou milhales de vezes.

_ Desculpe-me, Hop Sing. – Ben dirigiu-se ao empregado _ Acompanhe as moças aos aposentos,por favor.

_ Mas Lop Sing plepala o jantar! – O homenzinho reclamou espanando os braços em todas as direções, arrancando risadinhas das moças _ Lop Sing já limpou, alumou, encheu baldes e baldes de água, acendeu as laleilas de todos os qualtos...

_ Hop Sing...

_ Patlão palece não saber que a esclavidão acabou. Tantas mulheles nessa casa e Lop Sing vai fazer todo o tlabalho! Não justo! Nada justo!

_ Hop Sing! – Os quatro Cartwright gritaram em uníssono.

O criado passou a resmungar maldições em chinês ao tempo em que acenava para as recém-chegadas o seguirem, subindo as escadas.

_ Rapazes... - Os jovens Cartwright seguiam o grupo quando ouviram o chamado do pai e estancaram no lugar _ Precisamos conversar

Os três filhos de Ben dirigiram-se, um tanto decepcionados aos seus lugares costumeiros diante da grande lareira de pedra para já esperada, porém indesejada reunião familiar para as devidas explicações.

_ Bem – o pai sentou-se na poltrona maior e passou o olhar por cada um dos seus filhos _ Quem começa? – o silêncio de sua prole o fez ser mais direto_ Em nome de Deus, onde vocês estavam com a cabeça?

_ Ora, pai – Joe arriscou, quase encolhido na cadeira azul _ Não poderíamos deixá-las lá no deserto.

_ É, pai – Hoss saiu em defesa do irmão _ São apenas moças indefesas...

_ E estavam sem transporte ou suprimentos – Adam confirmou a posição dos outros dois _ Sem água estariam mortas em dois dias naquele calor.

_ Não estou dizendo que deveriam tê-las abandonado! – Benjamin bateu as mãos com força demais nos braços da poltrona _ Por quem me tomam, afinal?

_ Mas pai... – Joe nem terminou a frase.

_ Vocês já deram uma boa olhada naquelas moças? – o patriarca empurrou o corpo mais para a beira da cadeira e ergueu sua sobrancelha escura mais do que qualquer um poderia imaginar _ Elas são tão... tão...

_ Estranhas? – Adam completou.

_ A maioria delas está com as pernas de fora! – Ben confidenciou a seus filhos.

_ Belas pernas...

_ Belas mesmo, Joe...

_ Torneadas – Adam parou para refletir e teve que concordar com os irmãos.

_ E em nome de todos os santos, que tipo de mulher anda por aí com as penas de fora? Elas estão praticamente nuas! Vocês notaram aqueles decotes?

_ O senhor é muito observador, pai. – Adam comentou com um tom sarcástico.

_ Não me teste, garoto... – a ameaça fez o filho mais velho erguer as duas mãos em rendição _ Vocês podem, por favor e sem meias palavras, explicar toda essa história direito?

_ Elas são do futuro. – Os três pareciam ter ensaiado o coro.

_ O que? – Benjamin apertou os olhos, incrédulo _ Podem repetir, por favor, porque eu acho que não ouvi bem...

_ É sério, pai... – Joe arriscou-se, quase num sussurro, evitando encarar os olhos fulminantes do pai.

_ Joe...

_ Eu disse pra não falar assim de cara – Adam advertiu.

_ Não falar o que de cara, Adam? – O pai estava perdendo a paciência.

_ Que elas são do futuro – Hoss respondeu, também quase sem voz.

_ De todas as maluquices que vocês três já inventaram para fugir das suas responsabilidades e das encrencas em que se metem, esta foi a mais... mais... – o homem estava ficando vermelho quando levantou num salto e levou as duas mãos aos quadris _ a mais patética de todas!

_ Eu avisei... – Adam pendurou uma das pernas no braço da poltrona vermelha e passou a brincar com os dedos das mãos.

_ Pai... –Hoss levantou-se e chegou mais perto, olhando dentro dos olhos escuros de Ben _ Eu juro, pai. Juro pela minha alma que nós não estamos mentindo.

_ Hoss, filho... – Benjamin tocou a testa do filho com a palma da mão _ Você não tem febre... Meu filho, você acredita realmente nisso? – o velho ficou realmente preocupado quando seu filho mais sensível acenou afirmativamente com a cabeça _ Mesmo? – De novo, a mesma resposta, brilhando naqueles inocentes olhos azuis.

_ Vocês três, já para cima – os rapazes olharam espantados o pai dirigir-se à porta da frente, buscando seu chapéu e cinturão _ Tomem um banho e vão descansar. Já.

_ Onde o senhor vai? – Adam questionou.

_ Vou buscar o Paul – abotoou o cinturão e conferiu se estava firme _ Não demoro.

_ Mas pai... – Joe parecia muito confuso _ O que o Doutor Martin...

Não houve resposta. Apenas o estrondo da porta se chocando ao batente diante de três rostos chocados.

CONTINUA.