CAPÍTULO 8: LEI DE MURPH

Como planejado, todos os jovens deixaram a casa grande no meio da manhã, montados em cavalos selados e preparados bem cedo pelos peões. Hop Sing, ao lado de seu patrão, acenava alegremente para o grupo de partida, fazendo questão de lembrar aos rapazes da grande cesta de alimentos que ia atrelada à sela de Hoss.

Um pouco mais de uma hora de passeio pela mais bela fazenda que aquelas mulheres já tiveram a oportunidade de conhecer, o grupo chegou às margens do lago Tahoe. Um mar de água doce, formando um espelho que refletia a luz do sol sobre ele, tendo ao redor, o mais perfeito jardim de grama e arbustos, arrematado por uma cerca natural de imensos pinheiros verdes.

Sem demora, os animais foram deixados no pasto, despidos de suas selas e arreios. As moças admiravam-se da prática que aqueles rapazes tinham na lida com os animais.

Hoss buscou dentro de um tronco oco, deitado perto da água, quatro varas de pescar. O rapaz exibiu seu mais radiante sorriso e sacudiu suas sobrancelhas animadamente, como uma criança que encontrara um pote de melado.

_ Bem, moças, acho que teremos que fazer um sorteio para ver quem irá cuidar do ingrediente principal do almoço.

_ Gente, eu não sei...- Sílvia torceu o nariz para o cordão amarrado na longa vara de bambu _ Eu nunca pesquei e não sei se vou dar conta...

_ Irmão, como você teve esta brilhante ideia – Adam sorriu _ Creio que devo declinar do meu direito ao sorteio em seu favor.

_ Oh, obrigado, Adam – Hoss olhou para o irmão comovido _ Você é muito gentil, irmão.

_ Não me agradeça – o homem de preto atirou o chapéu sob o carvalho de ramos compridos e ajeitou-se na grama, à sombra _ Acho que vou me ajeitar por aqui e observar a sua técnica.

_ Eu gostaria de pescar com você, Hoss – timidamente a jovem Penny ofereceu-se para acompanhar seu amado.

_ Fico feliz, pequenina – ele entregou-lhe uma das varas de pescar.

_ Penny, flor – Crica aproximou-se da mocinha _ Tem certeza que você vai querer pescar? Você sabe que esse anzol vai grudar no céu da boca do pobre do peixe, não é?

_ E que o bicho vai ficar se debatendo até morrer de asfixia... – Maria completou a frase com uma expressão indescritível.

_ E depois a gente vai ter que cortar a barriga dele e puxar todas as suas tripas para fora... – Virgínia estava ficando verde.

_ Ai, gente! – a menina estava enjoada – Para, tá? Pode parar!

_ Mas meninas - Joe, que ouvia tudo em silêncio, com uma das mãos cobrindo a boca para esconder o riso, decidiu entrar na conversa _ Como vocês queriam que nós apanhássemos o almoço? De onde vocês pensam que viriam os peixes?

_ De um supermercado, não seria uma má ideia – Ana apertou o nariz _ Cara, eu detesto cheiro de peixe...

_ Super o que? – o jovem Cartwright inquiriu.

_ Um armazém geral – Crica explicou _ Só que bem maior. Mas deixa pra lá. Esquece, Penny, e vai fundo. Basta colocar o anzol na água.

_ E esperar que nenhum peixe morda a minha linha...

_ Não se preocupe, minha pequenina – Hoss passou o braço enorme por trás dos ombros de Penny _ Se algum peixe morder a sua linha, deixe comigo.

_ Obrigada, Hoss – ela sorriu _ Você é um doce...

Hoss afastou-se na companhia da mocinha morena e ajeitou-se com ela sobre uma pedra à beira do lago. Ambos retiraram seus calçados e enrolaram suas calças até o meio da canela, deitando os pés descalços no espelho d'água. Eles conversavam baixinho e esperavam pacientemente.

Sob a sombra da árvore majestosa, o mais velho dos irmãos já havia tomado seu violão e o dedilhava, solfejando alguma canção que as moças não conheciam. Provavelmente alguma canção folclórica, dada a melodia. Rapidamente, as três admiradoras do Homem de Preto se juntaram a ele para compor a sua plateia.

_ Garotas, o que acham de nós irmos buscar alguma lenha e frutas silvestres? – Little Joe propôs às moças restantes, mas diante de umas expressões não muito animadas, o rapaz fez outra sugestão _ Ou poderíamos ir mais para frente na margem e tentar apanhar uns peixes também. Meu irmão acha que é um grande pescador, mas não é verdade...

_ Lenha e frutas – as mulheres concordaram.

As três amigas, lideradas pelo caçula dos Cartwright caminharam pela margem do lago até a curva onde a estrada se perdia no meio de um bosque denso. Antes de entrarem na mata, lançaram um último olhar para o grupo que ficara para trás.

Joe andava rápido, na frente do grupo, acompanhado de perto por Virgínia.

_ Estamos combinadas, então? – Crica dirigiu-se à Maria, sussurrando para não ser ouvida pelos outros.

_ Combinadas, né? Fazer o que?

_ Ah, Maria... Fala sério! Pensei que nós tínhamos fechado que daríamos um jeito de deixar a Vi e o Joe sozinhos.

_ Eu não gosto – Maria continuou a caminhar ao lado da amiga _ Mas Você já me convenceu, então vou ficar na minha. Eu só espero que outro amasso não vá matar a coitada do coração.

_ Eu sabia, querida! – A mulher mais alta comemorou abraçando a companheira _ Você é 10, amiga!

_ Tá, mas não acostuma. E depois que a gente voltar pra casa, não abro mão de mais nada, está me ouvindo? O MEU Joe será só MEU.

_ Certo, Maria. Vamos andar mais rápido ou os perderemos.

_ Não estamos meio longe? – Virgínia puxou a manga da camisa do rapaz.

_ Não se preocupe – Ah, aquele sorriso de destruir corações estava ali bem na frente da loira a um palmo de distância. _ Eu conheço essa terra com a palma da minha mão.

Às margens do Tahoe, a animação tomou conta da dupla de pescadores quando a linha que a moça segurava distraidamente começou a balançar. Hoss retirou um peixe graúdo da água, exibindo o animal que se debatia em suas mãos para o resto do grupo.

Adam deixou seu violão de água e juntou alguns gravetos que seu irmão havia recolhido mais cedo, envolvendo-os com um círculo de pedras. Ateou fogo no pequeno chumaço de palha seca que estava por baixo da lenha.

_ Hoss, é melhor limpar logo esse peixe! – o mais velho gritou de onde estava.

_ Já estou terminando Adam! – Hoss olhou em volta, estranhando a ausência prolongada soa outros membros do grupo _ Little Joe ainda não voltou?

_ Não!

_ Você não acha que eles estão demorando muito?

_ Você conhece o nosso pequeno Dom Juan, Hoss – o irmão do meio riu do comentário do mais velho, balançando a cabeça em concordância.

_ Prontinho, irmão! – o peixe estava empalado num galho forte e preparado para a fogueira quando Hoss se aproximou com Penny e ambos sentaram-se à roda perto do fogo.

_ É um belo exemplar, senhorita – Adam elogiou, galantemente, o resultado da pescaria.

_ Ah, eu só dei sorte...

_ Enquanto esperamos que este belo peixe fresco asse, poderíamos saborear as guloseimas que Hop Sing preparou para nós – Adam apontou para a cesta que estava perto de Sílvia e a moça passou-a para ele _ Vejamos o que temos aqui...

Os jovens, acomodados à sombra, aproveitaram os sanduíches e frutas que o criado chinês havia embalado. Encontraram também duas garrafas de um vinho suave que Ben separara para acompanhar o almoço e um bolo inteiro embrulhado numa pequena toalha xadrez. Alguns itens foram separados para as jovens e o irmão faltoso.

A linha que Hoss havia deixado presa à beira do lago, dentro da água, começou a balançar vigorosamente, levando o rapaz alto até o local. Ele puxou o anzol e verificou que mais um belo e saboroso peixe estava pronto para ser levado à fogueira.

O grupo partilhou o alimento alegremente, ouvindo as histórias que os dois irmãos contavam a respeito de suas aventuras na fazenda. Algumas delas envolviam as trapalhadas nas quais se envolviam devido ao pavio curto e o corpo imantado de seu irmão caçula para atrair balas e outros objetos extremamente perigosos.

_ É uma sorte que aquele garoto esteja inteiro – Adam concluiu ainda rindo da história das touradas.

_ Ele é apenas jovem, Adam – Hoss sempre o defendia _ Os jovens precisam gastar energia.

_ Vocês não acham que eles estão demorando demais? – uma das moças demonstrou sua preocupação, levantando-se e protegendo os olhos do sol com uma das mãos enquanto observava o caminho à distância.

_ Vamos dar-lhes mais meia hora – o mais velho determinou _ Se não voltarem até lá, iremos atrás deles. Não será difícil encontrar a sua trilha.

_ Joe!

_ O que aconteceu, Virgínia?

_ Ele... Ele... E...

_ Calma, Vi – Crica segurou a amiga pelo braço _ Onde está o Joe?

_ O que aconteceu, Vi? Fala logo!

_ Ele – o ar estava preso no meio do caminho, impedindo a loira de expressar sua preocupação.

_ Respira, tá? – Maria esfregava as costas da mulher apavorada em pequenos movimentos circulares.

_ Respira, Vi. Calma... Isso... Agora, com calma... Onde está o Little Joe?

_ Ele caiu – respondeu ofegante – Estávamos apanhando frutinhas maduras e... e... – as lágrimas se debruçavam de seus olhos, cortando as palavras _ O chão... o chão simplesmente se abriu debaixo de seus pés... E ele caiu...

_ Onde, Virgínia?

_ Onde ele caiu, querida? Você precisa nos mostrar o local para podermos ajudá-lo!

_ Calma, Maria. Se você entrar em pânico também a gente não vai chegar a lugar algum. – empurrando os óculos para o alto do nariz, voltou-se para a companheira _ Vi, você consegue nos levar até Joe? – a outra respondeu com um gesto afirmativo _ Vocês não poderiam ter ido longe.

_ Ali - apontou para uma cerca viva _ Logo depois dos arbustos.

_ Vamos logo!

As três correram na direção apontada por Virgínia. Ao contornarem os arbustos floridos, deparam-se com um abertura no solo que não poderia ter mais do que um metro e meio de diâmetro. Assim que chegaram mais perto, puderam perceber que o solo ainda estava instável e parecia ranger sob seus pés. Apesar da angústia que oprimia o peito de cada uma, não poderiam se aproximar o suficiente para verificar o estado do rapaz.

_ Joe! – Virgínia chamou _ Jooooooooeeee! Viram? Ele não responde... Ah, meu Deus...

_ Isso não é bom...

_ Nós precisamos tirá-lo de lá! – Maria levantou a voz.

_ Sem pânico, tá? Você e a Virgínia vão ter que segurar as pontas. Eu não posso fazer isso sozinha e não esqueçam que eu também estou morrendo de medo aqui.

_ Mas o Joe está lá embaixo – Maria respirava com dificuldade _ Ele pode estar... pode estar...

_ Bate nessa boca, tá? - Crica brigou _ Os mocinhos nunca morrem. Eles podem ficar muito ferrados, mas morrer, nunca! – afastando o suor da testa com as costas da mão e pegando o fôlego, voltou-se para Virgínia que encontrava-se ajoelhada junto à borda _ Vi, amiga, chega um pouquinho para trás...

_ Ele está lá ambaixo...

_ Nós sabemos, querida – Maria amparou-a pelos ombros _ Mas nós precisamos de você e não queremos que caia também.

_ Maria está certa. Você pode continuar chamando por ele, Virgínia. Basta chegar mais para trás, com segurança e continue chamando. Se ele estiver consciente, poderá nos ouvir e saberá que a ajuda está chegando.

Virgínia posicionou-se junto a abertura e continuou a chamar pelo jovem enquanto suas amigas buscavam, ao redor, qualquer coisa que lhes pudesse servir, sem sucesso.

_ E agora? – Os olhos de Maria estavam rasos d'água _ Não tem como o tirarmos de lá.

_ Temos que voltar e buscar os rapazes.

_ Vá você. Eu vou ficar com a Virgínia.

_ Tem certeza?

_ Sim,tenho. Você poderá chegar mais rápido sozinha e eu não quero deixar a Vi.

_ Certo, amiga – Crica abraçou Maria _ Voltarei o mais rápido que puder. Não vão tentar nenhuma maluquice. Esperem por nós, está bem?

Maria observou sua amiga afastar-se correndo. Rezava silenciosamente para que Crica fosse capaz de chegar ao lago sem se perder no bosque e conseguir ajuda. Ela caminhou para junto de Virgínia e observou atentamente as bordas do buraco aberto no chão. Tinha a impressão de que, por baixo da fina camada de terra e grama, havia uma cobertura de galhos organizados, como se tivessem sido colocados ali propositalmente. Não era possível ver claramente dentro da abertura. O fosso era fundo e parecia mais largo por dentro. Apurando a visão, pôde notar o par de botas marrons, mas não havia um movimento.

_ Vi, acho que estou vendo ele.

_ Onde? – levantou a cabeça e observou o local apontado pela amiga _ Joe! Você pode me ouvir? – seus olhos marejados voltaram-se para Maria _ Ele está inconsciente, Maria – suas mãos trêmulas cobriram seus olhos _ Foi minha culpa... Eu disse a ele que amava essas florzinhas amarelas e... Ele se aproximou do arbusto e...

_ Deixa de bobagem, Virgínia – Maria consolou-a _ Você conhece o nosso Joe. Ele teria se metido em qualquer buraco para agradar uma garota.

_ Maria, ele não pode morrer...

_ Você ouviu a Crica, não ouviu? Os mocinhos nunca morrem. – ela queria muito acreditar nas próprias palavras.

_ Ei, Adam! – Hoss chamou pelo irmão _ Não é a senhorita Crica que vem lá?

_ Parece que sim – Adam levantou-se para ver melhor _ Sim, Hoss. Mas onde estão os outros? – caminhou para junto do irmão.

Ambos os jovens observavam a pequena figura crescer na linha do bosque. Ela estava numa corrida frenética e parecia usar suas últimas energias. Depois de uma rápida troca de olhares, ambos os Cartwright partiram ao encontro da moça, observados pelo grupo que se reunia junto ao carvalho.

Ao encontrarem com a jovem, Adam e Hoss perceberam a vermelhidão em seu rosto e a falta de fôlego. Ela tentava falar, mas a falta do ar a impedia, fazendo-a ainda mais desesperada. As outras moças chegaram quando os rapazes tentavam acalmar a recém-chegada, trazendo um cantil que foi oferecido e aceito com gratidão.

Assim que foi possível respirar novamente, Crica relatou o acidente ocorrido no bosque e os irmãos correram de volta aos cavalos, deixando a moça em companhia de suas amigas. Eles selaram os animais em tempo recorde e todos montaram na direção indicada.

Em poucos minutos, alcançaram o bosque onde tiveram que puxar as rédeas para diminuir a velocidade. Os animais grandiosos caminhavam letamente por entre árvores frondosas e arbustos retorcidos, encontrando sem dificuldade o local onde as duas outras moças estariam guardando o mais jovem dos irmãos.

_ Graças a Deus... – ambas as jovens agradeceram com a visão da aproximação do grupo.

Os rapazes apearam imediatamente e seguiram para junto da abertura. Logo perceberam a instabilidade do terreno e Hoss correu de volta ao seu cavalo, retirando da sela, um rolo de corda .

Adam contornou a abertura, caminhando atentamente, analisando as possibilidades. Ele era observado atentamente por todo o grupo que se manteve a distância, segundo tinha sido orientado.

Assim que Hoss retornou, Adam amarrou a ponta da corda ao tronco de uma árvore próxima e conferiu sua segurança.

_ Deixe-me descer, Adam.

_ Não, Hoss. O solo está muito instável. Não sei se poderá suportar o meu peso e preciso de você aqui fora para erguer Joe quando for a hora.

_ Mas, Adam...

_ Hoss, todos estamos preocupados – apontou as mulheres com um olhar _ Você precisa cuidar de tudo aqui fora para mim, okey?

_ Certo, irmão – bateu gentilmente sobre o ombro de Adam _ Tenha cuidado.

Com um pequeno sorriso, Adam atirou seu chapéu de lado e iniciou a descida.

Não mais do que três metros para baixo e muita sujeira por cima, o primogênito alcançou a terra firme. Limpou a terra que cobria seu rosto e ajustou a visão à penumbra.

Joe estava deitado de barriga para baixo, num ângulo esquisito que deixou seu irmão mais velho bastante preocupado. Adam circundou o corpo inerte e agachou-se ao lado do rosto sujo de poeira e folhas. Por alguns instantes, o jovem moreno observou seu irmão caçula, buscando um movimento. Seus dedos, temerosamente, tocaram o pescoço do rapaz e ficaram ali por um segundo que mais parecia a eternidade, em busca de um pulsar. Um pulsar tímido que o fez respirar aliviado quando bateu contra seus dedos.

_ Ele está vivo!

Do lado de fora, o som da voz de Adam ecoando pelo buraco no chão soou como uma melodia harmoniosa. Não houve um coração que não saltasse dentro do peito nem ninguém que não tivesse segurado a respiração. Ele estava vivo. Joe estava vivo.

O jovem de preto aproximou-se ainda mais para verificar os ferimentos. Cuidadosamente, passou suas mãos pela cabeça de Joe, verificando toda a volta e pôde respirar outra vez quando não percebeu sangue, sentindo apenas um pequeno galo.

_ Você tem muita sorte, garoto – falou para si.

Continuou seu exame, tateando braços e pernas, sem encontrar sinais de fraturas significativas. Passou as mãos também pela coluna, não percebendo inchaços ou alterações no formato.

_ Muita sorte... – repetiu num sussurro _ Mas o que há de errado com você? – Adam segurou Joe pelo ombro direito e rolou o corpo do irmão para o lado, exibindo seu rosto completamente e o peito_ Inferno...

_ Hoss! Não sei se poderemos tirá-lo daqui pela corda!

_ Qual é o problema, Adam?

_ Não sei ainda. Dê-me alguns minutos para verificar.

_ Está certo! Estarei aqui quando precisar!

Hoss conhecia aquele tom. Sabia muito bem que algo estava muito errado com seu irmão caçula. Adam não era dado à exageros e, certamente, já teria dito se tudo estivesse bem lá embaixo. Um nó formou-se em sua garganta, ao levantar os olhos para o céu.

_ Adam!

_ Sim?

_ Você precisa se apressar aí embaixo, irmão! – o ventou começava a soprar mais intensamente.

_ Dê-me tempo, Hoss!

_ Adam, está vindo uma tempestade. Precisamos tirar Joe daí rápido!

_ Droga! – Adam praguejou dentro do buraco _ Joe, você vai ter que me explicar direitinho como foi se meter nesta enrascada... – o jovem afastou a camisa do irmão e tocou levemente a pele rasgada abaixo do braço esquerdo. Seu dedo encontrou a superfície ponte-aguda e, imediatamente soube o que tinha em suas mãos. _ Hoss! Vá buscar cobertores e mais cordas. Veja se algumas das moças podem ajudá-lo a fazer uma padiola!

Hoss não precisou pedir auxílio. Imediatamente as jovens estrangeiras passaram a vasculhar a mata em busca de dois galhos compridos e fortes o bastante para suportar o peso do ferido, enquanto Hoss dobrou um dos cobertores no comprimento e esticou-o no chão. O grupo do lado de fora trabalhava incessantemente para concluir sua tarefa, organizando as cordas que tinham à mão no intuito de equilibrar a padiola quando fosse içar Joe de dentro do buraco.

Do lado de dentro, Adam retirou seu lenço do bolso de trás da calça e, com a água do cantil que Hoss havia mandado para baixo, limpou o melhor que pôde, o ferimento feio no lado de seu irmão menor. Joe ainda estava inconsciente, mas seu rosto já demonstrava sinais da dor que o incomodava. Adam torcia para que o rapaz continuasse abençoado pela ignorância dos fatos enquanto efetuassem a sua operação de resgate. Rasgando a saia de sua camisa, Adam improvisou uma atadura, dobrando uma parte do tecido e formando uma almofada para proteger a abertura, passando seu cinto por cima do curativo e apertando o suficiente apenas para mantê-lo no lugar.

_ Adam! – Hoss chamou alto devido ao barulho que a ventania que havia se formado provocava _ Estamos prontos!

_ Certo, Hoss! Mande para baixo!

_ Meninas, não se aproximem muito da borda. Tenham cuidado – a poeira entrava em seus olhos e boca - Assim que eu puxar Joe para fora, preciso que duas de vocês se aproximem com cuidado e puxem a corda que trará a padiola para este lado mais firme.

A engenhoca armada foi colocada sobre o buraco no chão, agora ampliado pela retirada de madeira e terra, possibilitando a passagem da padiola na horizontal. Hoss manobrava o conjunto de cordas que deslisava num galho maior que passava bem acima da abertura na terra, servindo de ponto de apoio. Um trovão ensurdecedor fez o irmão do meio acelerar seus movimentos.

O grupo observava, atento e com o coração na mão, o mais velho dos irmãos puxar cuidadosamente o corpo do outro para cima da cama de cobertor e amarrá-lo, verificando se estava seguro. Com um sinal, Adam autorizou a subida. Hoss puxou com força, mas lenta e cuidadosamente seu irmão caçula para cima. O vento forte açoitava o corpo grande e balançava as cordas, levando a padiola de um lado a outro como um pêndulo de relógio.

Um som surdo levou todos os olhares para o alto, quando o estalo alto sacudiu o equipamento que elevava o jovem machucado. Hoss, aturdido, enrolou a corda em seu braço esquerdo e passou a parte livre da mesma ao redor de seu corpo, segurando firme com a mão direita. Houve um grito geral quando as mulheres perceberam que o galho de sustentação estava por um fio e, sem ao menos pensar, correram para perto de Hoss, segurando a corda guia da maca improvisada. Elas puxaram a padiola para a lateral do buraco enquanto Hoss continuava sustentando seu peso com a corda principal.

Assim que Joe foi colocado em segurança, Hoss voltou à borda e lançou a corda para que Adam pudesse sair.

O tempo estava piorando e a tempestade logo estaria sobre eles. Precisavam colocar as moças e Joe em segurança antes que as coisas piorassem mais.

_ Não conseguiremos chegar em casa antes da tempestade – Hoss encarou o mais velho _ Acho melhor irmos para o barraco de linha.

_ Mas Joe precisa de um médico – uma das moças comentou.

_ E não temos como levá-lo a um antes que a tempestade nos atinja – Adam levou as mãos ao rosto, aborrecido_ Hoss, você tem razão. O garoto não pode sentar num cavalo e não há como cabermos todos no barraco de linha. Se um de nós cavalgar rápido o bastante, pode chegar em casa com as moçãs.

_ Eu levo Joe para o barraco de linha e você leva as meninas para casa.

_ Não, Hoss. Você vai e eu fico.

_ Adam, não há tempo para discussão. Você é mais leve. Vá e leve as garotas com você. Assim que o temporal passar, mande alguém até o Doutor Martin e volte com a carroça.

_ Ei, só um minuto! – Crica segurou a manga da camisa de Hoss em meio à ventania _ Você é grande mas não é dois! Como pretende levá-lo até a cabana? Eu sou treinada em primeiros socorros. Posso ajudar.

_ Eu não vou alugar nenhum, vocês fiquem sabendo – Maria foi categórica, sendo apoiada por Virgínia.

_ E eu já fui escoteira! – Penny saiu andando _ Que direção?

_ Nordeste _ Hoss fitou seu irmão em busca de apoio, mas Adam já estava montado e organizando o grupo de partida _ Direto em frente, pequenina. Dez minutos de caminhada, não mais. Vocês duas podem dividir o peso desse lado enquanto eu carrego deste e você, senhorita Maria, pegue os cantis e as cordas que sobraram. Vamos! A chuva não demora!

Os dois grupos se dividiram, cada qual em direção à sua missão.

Rapidamente Hoss e suas companheiras avistaram a pequena cabana de madeira dentro do bosque e se sentiram aliviados por estarem, em breve, em segurança. Seus olhos caíam sobre o rosto suado de seu irmão mais novo, balançando sobre a maca. O curativo que Adam tinha preparado já estava brilhando. Ele sabia bem o que aquilo significava e não estava gostando nem um pouco.

Penny foi a primeira a alcançar a cabana, abrindo a porta que foi atirada contra a parede pela força do vento. Hoss entrou imediatamente atrás das moças que seguravam a outra extremidade da padiola, depositando Joe cuidadosamente sobre uma cama no canto sob a janela lateral.

Da pequena varanda frontal, Maria percebeu a bomba d'água junto ao cocho. Correu até lá e encheu os três cantis e o balde que se encontrava junto da calha. Voltou correndo para a cabana, batendo a porta atrás de si.

Apenas cinco minutos mais tarde, o temporal desabou lá fora, numa cortina pesada e barulhenta que escondeu o resto do mundo. Todos fizeram uma prece silenciosa para que o grupo de Adam fosse mais rápido que a tempestade e conseguisse chegar à casa grande antes de ser atingido pelo aguaceiro.

Imediatamente a jovem Penny verificou o fogão de ferro. A chaminé estava desimpedida, felizmente. Arrumou alguns gravetos e ateou fogo, acrescentando nacos maiores de lenha conforme a brasa se formava. Maria derramou parte da água numa panela limpa e colocou sobre o fogão. Já tinham assistido filmes de bang-bang suficientes para saber que nessas horas, nada melhor do que uma boa panela de água fervendo para limpar ferimentos e começar o cozimento de algo para aquecer o estômago.

A tempestade havia drenado quase toda luz do dia. Hoss acendeu dois lampiões que estavam pendurados nas paredes, iluminando melhor o ambiente. O rapaz ajoelhou-se ao lado da cama do irmão e retirou o cinto que segurava as bandagens.

_ Que droga, Joe...

CONTINUA.