CAPÍTULO 9 : MEDIDAS EXTREMAS

_ Mas, que droga...

O ferimento na lateral do corpo do jovem Cartwright estava sangrando novamente.

Hoss retirou a bandagem improvisada e recebeu, agradecido, a bacia de água quente oferecida por Maria. Ele indicou um armário no canto onde deveria haver um conjunto de lençóis e cobertores. Imediatamente, as outras duas mulheres passaram a cortar um dos lençóis em tiras compridas, formando rolos de ataduras frescas.

Um gemido chamou a atenção do rapaz mais alto. Sua mão pousou suavemente sobre a testa suada do ferido.

_ Joe... Você pode me ouvir, irmãozinho? – Não havendo resposta, tentou novamente, deslizando um lenço molhado na água fria sobre o rosto do irmão _ Joe, fale comigo – Um novo gemido e um pequeno movimento das pálpebras desenharam um sorriso no rosto de Hoss _ Fique conosco, maninho.

_ Hoss... – Joe balbuciou, confuso e sonolento _ Hoss...

_ Tenha calma, Joe – Hoss segurou o jovem pelos ombros _ Não tente se mover, está bem? Você está bastante machucado. Lembra-se?

_ Eu... – ele mal conseguia pronunciar as palavras _ caí... fun...do... Hoss...

_ Sim, irmão – o mais velho segurou a mão do mais moço, dando-lhe a segurança que precisava _ Joe... Nós precisamos limpar o seu ferimento. Temos que lavá-lo e mantê-lo seco depois.

_ Do...Dói... – Joseph mordeu o lábio inferior, lutando contra a dor e a bile que lhe subia do estômago.

_ Vai melhorar, Joe – Hoss mentiu _ Depois que estiver limpo e embalado, vai melhorar, entendeu? – o jovem voltou-se para a moça que pairava sobre ele _ Senhorita Maria, poderia trazer aquela lâmpada mais perto?

Rapidamente, o lampião foi trazido e colocado sobre a mesinha ao lado da cama estreita. Hoss ajoelhou-se e começou a trabalhar na limpeza. A cada movimento, um gemido era arrancado de dentro do mais novo. Seu corpo ferido se contorcia ao contato com o tecido molhado na água quente. Não era uma coisa bonita de se ver. Principalmente para olhos despreparados. O rosto de Joseph, coberto de suor, expressava todo seu desconforto.

_ Acho que está limpo – Hoss secou as gotículas que escorriam-lhe pela face, com a manga da camisa.

_ Hoss... – Crica chamou a atenção do rapaz _ Ali. Está sangrando. Muito.

_ Porcaria! – havia um fluxo contínuo de sangue vertendo da ferida aberta. Ele imediatamente pressionou o local com o lenço que tinha nas mãos _ Isso não está melhorando...

_ Hoss – Crica aproximou-se do balde e lavou as mãos com sabão, aproximando-se da cama _ Deixa eu tentar uma coisa?

O jovem afastou-se permitindo que a moça se posicionasse ao lado de seu irmão que respirava em goles curtos e rápidos.

Virgínia tinha os olhos paralisados diante a cena que presenciava. Sua amiga pressionava, com seus dedos, as bordas do ferimento, procurando o local do vazamento, enquanto o sangue vertia, tingindo as mãos pequenas de vermelho. Num ponto próximo da ponta de osso que saia da carne, a pressão fez o sangue escorrer em menor velocidade.

Penny aproximou-se cuidadosamente e tocou o ombro de Hoss que segurava seu irmão menor, evitando que este se movesse enquanto tentavam conter a hemorragia.

_ Quanto tempo você vai ter que ficar com o seu dedo aí? – Maria tinha uma expressão assustada.

_ Eu não sei... – um nó estava atravessado na garganta e uma nuvem de borboletas revoava em seu estômago _ Espero que não muito...

Todo o grupo permaneceu silencioso, observando atento, o sobe e desce do peito do jovem ferido, num movimento ofegante.

Virgínia permaneceu no canto, com um olhar vidrado, abraçada à jovem Penny, num processo de consolo mútuo.

_ Acho que conseguimos – finalmente Crica declarou _ Não sinto mais o vaso sanguíneo pulsar, mas não vou diminuir a pressão ainda. Precisamos ter certeza da formação do coágulo ou Joe voltará a sangrar.

_ Ele está dormindo, senhorita – Hoss soltou os ombros de Joe e levou sua mão à testa do irmão _ Está frio e pegajoso... Isso não é bom...

_ Não, Hoss, não é bom – voltou-se à amiga ao seu lado _ Maria, ponha aqueles sacos de grãos sob os joelhos e cubra-o com um cobertor limpo. Precisamos evitar que entre em choque.

Maria imediatamente seguiu as instruções e voltou ao seu posto, recolhendo a bacia com os trapos ensanguentados, atirando os dejetos porta a fora. Ela observou quando, alguns minutos mais tarde, sua amiga afrouxou a pressão sobre o local do sangramento e esperou, com o coração aos pulos dentro do peito, o que todos rezavam para ver: a hemorragia havia sido contida.

_ Penny, traga as bandagens, por favor – Crica pediu _Dobre uma tira como uma almofada dê-me aqui, querida.

_ Deixe-me fazer isso _ Maria pegou as ataduras das mãos da companheira_ Erga um pouco o tronco para que eu possa enfaixá-lo, Hoss.

_ Obrigada, Maria – Crica afastou-se, esgotada, e dirigiu-se ao balde que estava depositado sobre uma cômoda na parede oposta à cama.

Hoss enviou à moça um olhar agradecido e levantou o corpo de seu irmão apenas o suficiente para que Maria pudesse deslizar o rolo de tecido branco ao redor.

Penny parou ao lado de Crica e observou sua amiga cuidadosamente. A jovem apanhou uma caneca que estava num canto e lavou as mãos de sua amiga que tremiam descontroladamente. Ela percebeu a dificuldade no ritmo da respiração da garota mais alta. Com movimentos circulares, massageou-lhe as costas.

_ Você está bem?

_ Eu vou ficar... Vai passar... Só me dê um tempinho, sim, querida? – ela fechou os olhos e respirou profundamente, ainda tentando livrar-se da ânsia provocada pela visão da água rosada e do cheiro metálico do sangue.

_ Vamos nos organizar em turnos de uma hora para vigiar Joe – Hoss sugeriu _ Se tivermos sorte, ele não vai sangrar novamente.

_ Eu vou ferver umas latas de feijão que encontrei no armário – Penny ofereceu-se para providenciar a refeição _ As meninas não comeram nada até agora.

_ Bem pensado, pequenina _ o jovem concordou _ Vocês precisam estar fortes. Não sabemos quanto tempo a tempestade vai durar. E depois de comerem, todas deverão descansar.

_ Eu posso olhar o Joe enquanto a Penny cozinha e vocês descansam – Virgínia sentou-se na beirada da cama, ainda um pouco assustada _ Basta me dizer o que fazer.

_ Você só precisa evitar que ele se mova e observar a temperatura – Crica orientou sua amiga _ Se aumentar muito ou ficar mais frio e pálido.

Virgínia concordou com um gesto e posicionou-se ao lado de Joe. Seus olhos estavam vidrados pelas lágrimas contidas. Ela precisava ser forte e fazer a sua parte, mas seu coração estava esmagado pela dor.

Do outro canto do pequeno quarto, Maria e Crica acomodaram-se sobre dois cobertores dobrados sobre o chão de pedra. Dois sacos de estopa serviam-lhes de travesseiros. Elas sabiam que Hoss e Penny tinham razão e que cada qual deveria ter a sua parcela de repouso para que pudessem velar a recuperação de Little Joe, mas era difícil fechar os olhos.

_ Eu não sabia que você também era enfermeira – Maria comentou, deitada ao lado da amiga, fitando o teto de zinco.

_ Eu não sou.

_ E como é que sabe fazer essas coisas? – voltou o olhar para a outra, que permaneceu observando o telhado.

_ Cruz Vermelha – um longo suspiro _ Eu fiz um treinamento para socorristas. Crianças na escola vivem se machucando e às vezes é útil saber o que fazer numa emergência.

_ Você está bem? – Maria apoiou-se sobre os cotovelos, notando a palidez na outra _ Você não me parece muito bem...

_ Vai passar, Maria – outro longo suspiro e um par de olhos firmemente fechados, deixando escapar duas lágrimas pelos cantos _ Eu só preciso digerir isso tudo.

_ Eu estou aqui se você precisar, está bem?

Crica sorriu e acenou afirmativamente. As lágrimas continuaram a verter, silenciosamente.

Alguns quilômetros mais perto da casa grande de Ponderosa, Adam e as três outras mulheres cavalgavam como se o diabo estivesse em seu encalço. Observando por cima dos ombros, era possível ver a cortina de água que se aproximava, em meio ao estrondo dos trovões e o brilho azulado dos relâmpagos. Os cavalos, agitados pela proximidade do temporal, tornaram-se difíceis de controlar. Novamente olhando por cima do ombro, Adam concluiu que não poderiam ser mais rápidos que a tempestade e, sem aviso, virou seu cavalo à esquerda, para fora da estrada.

Logo a diante, avistaram outro barraco de linha. Ele apeou primeiro e correu para abrir a porta do pequeno celeiro que havia ao lado da construção. Acenou, já debaixo dos primeiros grossos pingos d'água para que as moças entrassem com os cavalos. Ana e Bonanzer diminuíram a marcha e passaram para dentro da segurança do galpão. Sílvia vinha mais atrás. Seu cavalo resistia aos comandos, tentando a todo custo, liberta-se dos arreios, assustado. Num pinote, o animal derrubou a jovem que o montava. Adam e as outras moças correram em socorro da amiga. O rapaz tomou Sílvia em seus braços e carregou-a para dentro da cabana, chutando a porta para liberar o caminho. Ana e Bonanzer seguiram atrás porque, a essa altura, o cavalo de Sílvia já havia desaparecido numa fuga desabalada.

Todos estavam encharcados. O temporal varreu o lugar em segundos, escurecendo o céu e soando como o fim do mundo.

Adam acomodou Sílvia, que segurava protetoramente o braço direito junto ao peito, numa das cadeiras que estava ao redor da pequena mesa de madeira. Ele afastou o cabelo molhado que cobria o rosto da moça.

_ Você está bem?

_ Acho que machuquei meu braço.

_ Deixe-me vê-lo – o moreno ajoelhou-se diante de Sílvia e passou a mão forte ao redor do inchaço no antebraço dela _ Pode estar fraturado. Não posso dizê-lo ao certo, mas será melhor se colocarmos uma tala.

_ Podemos ajudar? – Ana perguntou, solícita.

_ Vejam se podem conseguir uma ripa e rasguem um dos lençóis que ficam naquela prateleira para fazermos uma tipoia também.

_ Isso dói como o inferno... – Sílvia reclamou, ainda segurando seu braço.

_ Vai melhorar, querida – Bonanzer, que estava atrás da cadeira, acariciou os ombros de Sílvia _ Eu acho que vou acender o fogo. Você sabe onde há fósforos, Adam?

_ Naquela gaveta – apontou para um armário no canto _ Há feijão enlatado e carne seca. Depois que acender o fogão, seria bom acenderem os lampiões que estão dentro do armário. Não creio que possamos sair deste lugar tão cedo.

Ana auxiliou Adam na imobilização do Braço de Sílvia e Bonanzer cuidou do fogo e das lamparinas como combinado.

Lá fora a chuva caía sem trégua e não tardou para que pequenas goteiras começassem a pingar do telhado de tábuas.

Estava frio. O dia quente e ensolarado converteu-se uma escuridão gelada de uma hora para outra, provocando arrepios nos corpos envoltos pelas roupas molhadas.

_ Senhoritas, penso que seja necessário nós nos livramos destas roupas encharcadas o mais rapidamente possível – os olhares das mulheres, correram de uma para outra, um tanto atordoados _ Há alguns lençóis e cobertores naquele canto. Devemos tirar nossas roupas e estendê-las para secarem junto ao fogão. – Novamente olhares intrigados e três pares de sobrancelhas elevadas forçaram o rapaz a continuar seus planos _ Eu me virarei enquanto vocês se despem e usam os cobertores para se cobrirem, depois será a minha vez.

Se Adam soubesse a quantidade de pensamentos altamente censuráveis que passou por aquelas mentes femininas naquele instante, ele jamais teria feito a sugestão.

Alguns minutos mais tarde, um varal tinha sido erguido ao lado do fogão a lenha e as peças de roupas de todo o grupo foram estendidas.

Era preciso confessar que, apesar de um certo constrangimento inicial, o calor das cobertas era muito mais agradável que a friagem da roupa molhada que alfinetava a carne.

O cansaço venceu as jovens que adormeceram, espremendo-se nas duas camas que haviam na cabana. Sílvia, teve uma cama só para si devido ao ferimento no braço e Adam, sentado numa das cadeiras, descansou a cabeça nos braços cruzados sobre a mesa.

Apenas o som da chuva batendo contra o telhado e as paredes e o ronco poderoso dos trovões podia ser ouvido.

O mais velho dos Cartwright não poderia dizer por quanto tempo tinha cochilado. A tempestade ainda cantava alto lá fora quando foi desperto por um gemido e um acesso de tosse. Ele levantou os olhos e observou as moças adormecidas. Sílvia movia-se agitada em seu sono, tossindo e respirando com alguma dificuldade. Adam levantou-se e foi até ela. Cuidadosamente, ergueu os ombros da moça, levantando seu tronco e sentou-se sobre o colchão; puxou delicadamente a jovem ferida para junto de seu peito e segurou-a, dando-lhe o conforto que necessitava para respirar com mais tranquilidade. Meio desperta, mas muito sonolenta, Sílvia elevou a vista, percebendo os olhos amendoados que sorriam para ela.

_ Volte a dormir – ele sussurrou – Está tudo bem.

A moça esboçou um sorriso e aninhou-se no peito largo, dentro daqueles braços fortes.

Os lábios mornos de Adam tocaram a testa de Sílvia quando ela suspirou, permitindo que suas pálpebras se fechassem novamente.

Horas haviam se passado.

A tormenta parecia ter perdido força, apesar da chuva pesada que ainda caía lá fora.

Maria tinha assumido seu turno de vigília, substituindo Virgínia que fora acomodar-se ao lado de Penny. Hoss descançava debruçado sobre a mesa de madeira.

_ Como ele está? – Crica ajoelhou-se ao lado de Maria.

_ Está se segurando. Pelo menos as ataduras ainda estão secas.

_ Graças a Deus...

_ Eu acho que Joe está febril – Maria sentiu a testa com a palma da mão _ Você pega água fresca, por favor?

Sem responder, Crica levantou-se e apanhou um balde vazio. Abriu a porta e esticou o braço para fora do telhado da pequena varanda, permitindo que o recipiente se completasse com a água da chuva gelada.

_ Obrigada – Maria molhou o lenço de Hoss, torceu-o e banhou o rosto aquecido do rapaz adormecido _ Ele está dormindo a tanto tempo...

_ É bom que durma. Ele precisa de descanso agora.

_ Eu só espero que essa febre não suba demais – Maria tinha o semblante nublado pela preocupação _ Não sei o que faremos se este ferimento começar a infeccionar antes de sairmos deste inferno... – voltou o olhar e encontrou o da amiga. Ela sabia que o silêncio era apenas a preocupação gritando dentro de cada uma _ Você não quer dormir mais um pouco? Não estou cansada. Posso ficar com ele.

_ Você vai ficar bem? – diante da resposta afirmativa de Maria, voltou ao cobertor.

Joe gemeu baixinho e moveu ligeiramente o corpo, acomodando-se sobre o colchão. Maria deixou o pano úmido sobre a testa do rapaz e cobriu a mão dele com a sua. Por um breve momento, ela poderia jurar que ele havia apertado sua mão em meio a um sussurro ininteligível. Seu coração pulou uma batida. Tomando uma pequena toalha encontrada em meio a roupa de cama da cabana, molhou e torceu o tecido, abrindo-o sobre o peito exposto de Joe. Precisava evitar que a febre subisse demais.

Aquela seria uma longa noite...

Quando Hoss despertou de um sono profundo, a chuva já havia diminuído consideravelmente. Ele seguiu até a cama de seu irmão e percebeu o rubor úmido de sua face. A moça que cuidava de seu irmão, enviou-lhe um sorriso amarelo. O irmão do meio dirigiu-se ao fogão e derrubou café quente na caneca, sorvendo-o para afastar a sonolência. Em seguida, foi até a porta e abriu-a, conferindo a situação. A chuva caía fina, mas o vento ainda açoitava as árvores lá fora. Estava muito escuro. Provavelmente, era agora o início da madrugada. Ele voltou para dentro, com arrepios correndo-lhe o corpo e puxou uma cadeira velha para o lado da cama, tocando levemente o rosto do jovem doente.

As horas se arrastaram dentro da noite e o véu da escuridão veio visitar cada um dos habitantes da cabana de madeira. O ar úmido e frio e o silêncio ensurdecedor eram hipnotizantes. Não havia como resistir ao cansaço. Logo não existiriam mais olhos abertos ou ouvidos atentos, apenas corpos desgastados e mentes nubladas.

_ NÃÃÃÃÃÃOOOOOO! - Não houve quem não pulasse do sono com o grito ensurdecedor cheio de pânico _ NÃO! DEIXE-ME EM PAZ!

_ Joe, fique calmo – Hoss saltou na cadeira e segurou o menor _ Fique calmo! – Os olhos de Joseph estavam vidrados, num tom de verde vivo que seu irmão conhecia muito bem dos momentos de dor e sofrimento _ Joe, você está seguro, acalme-se.

As moças estavam de pé logo atrás de Hoss, tomando uma respiração curta pelo susto. Imediatamente Virgínia apanhou a bacia de água fria e uma toalha de rosto limpa e entregou ao Cartwright.

_ Hoss... – o jovem encontrou o olhar do mais velho. Sentia-se atordoado _ Hoss, você tem que sair daqui – ele segurou a gola da camisa com força, puxando Hoss para mais perto _ Precisa... Eu... Não...

_ Está tudo bem, Little Joe – soltou a mão do rapaz de sua camisa e conduziu-o de volta aos travesseiros _ Fique deitado. Nós estamos seguros no barraco de linha, lembra? – observou o corado nas bochechas indicando a febre alta _ Você está seguro aqui conosco. Logo Adam estará de volta com o pai e o Doc.

_ Hoss... eu... dói... Eu... est...cansa...do...

_ Eu sei, maninho – Hoss empurrou o cabelo suado da testa de Joe _ Você precisa ficar quieto e evitar movimentos ou sua ferida vai abrir e sangrar novamente –o olhar do jovem revelava sua confusão e temor_ Você entendeu, irmão? Joe? – Joe respirou fundo, franzindo a testa pela dor do movimento mais amplo e acenou afirmativamente _ Bom. Agora você descansa. Nós cuidaremos de tudo, certo? Não se preocupe com coisa alguma. Apenas deite-se aí e descanse – Hoss sorriu para o mais moço e recebeu um esboço de um sorriso em retribuição.

Joseph confiava em Hoss. Seu irmão maior sempre lhe causara a impressão de segurança e alento, mas ele se sentia muito mal. Todo o seu corpo tremia em arrepios constantes e qualquer movimento de seu braço esquerdo lançava-lhe um ataque de farpas pelos ossos a dentro, como seu um milhão de facas afiadas estivessem cortando o seu peito de um lado ao outro. Estava cansado. Enjoado e sua cabeça latejava. Ele sabia que algo estava muito errado, mas não conseguia lembrar-se do porque. O frio era quase insuportável, fazendo-o bater os dentes incontrolavelmente. Sua mente confusa, não conseguia discernir as palavras que entravam pelos seus ouvidos. Havia pessoas ao redor, ele sabia. As moças e Hoss. Eles conversavam baixo. Sim... Os sons femininos sussurrando. Mas por que não conseguia entender as palavras? Suas costelas estavam ardendo. Seu corpo inteiro ardia como se estivesse deitado sobre um braseiro. Ele tinha que sair dali. Precisava esfriar, mas seus braços e pernas simplesmente não obedeciam.

_ Hoss, a febre está cada vez mais alta – Virgínia levantou os olhos em direção ao homem alto, preocupada _ Precisamos fazer alguma coisa.

_ Se nós tivéssemos uma banheira... – Maria levou a mão à testa, tentando afastar a dor de cabeça.

_ Nós não temos uma banheira – Penny puxou o objeto _ Mas temos cobertores e muita água.

_ Vamos molhar os cobertores e envolvê-lo para resfriar o corpo, certo? – Virgínia sorriu abertamente diante da estratégia sugerida pela jovenzinha.

_ Vamos – Maria começou a desabotoar o cinto de Joe _ Vamos tirar toda essa roupa.

_ Um instante, moças _ Hoss interveio _ Não é adequado vocês despirem o meu irmão. Afinal ele não é mais uma criança...

_ Hoss – Crica tocou amigavelmente o ombro do homem, levando-o para trásalguns centímetros e ajoelhou-se ao lado de Maria e Virgínia que continuavam a retirar as peças de roupa _ O que vou dizer pode abalar seriamente a sua fé em nossa fibra moral, mas nós já vimos homens nus antes.

O irmão do meio de Joe deixou o queixo cair, chocado.

_ Fecha a boca, meu bem – Maria sorriu para Hoss _ Nós vamos ajudá-lo. Você vá lá fora e trate de encharcar esses cobertores. O chão deve estar frio o suficiente para conservar a temperatura do cobertor molhado por mais tempo – Hoss estava de pé atônito diante da imagem de seu irmão caçula vestido como no momento de seu nascimento em meio a todas aquelas jovens mulheres _ Vai, Hoss!

Hoss literalmente foi num pé e voltou no outro, trazendo os dois cobertores torcidos, um em cada mão. Ele abriu uma das cobertas, forrando o chão perto da cama.

_ Vamos lá, garotas. Hoss, você segura as pernas e vamos deitá-lo sobre o cobertor – num movimento ágil, Joe estava sobre o chão frio forrado. Seu corpo estremeceu _ Penny, traga o outro cobertor.

Rapidamente a menina apanhou o cobertor e sacudiu-o com força, abrindo-o sobre o corpo do mais moço dos irmãos. Crica e Virgínia empurraram as bordas do cobertor molhado para baixo do corpo de Joe, prendendo-lhe os braços.

O grupo observou o rapaz de contorcer dentro daquele embrulho improvisado. Os calafrios se sucediam e Joe tremia incessantemente. Não demorou para que o rubor deixasse seu rosto. Hoss tocou a face do irmão o sorriu satisfeito.

_ Eu acho que está funcionando.

_ Ele vai ficar bem- Maria sorriu.

_ Logo poderemos devolvê-lo à cama, onde estará mais confortável.

_ Sim, Hoss – Crica levantou-se e esfregou as mãos nas pernas do jeans _ Acho que vou fazer um café fresco para nós.

_ Eu ajudo- Penny seguiu a amiga _ Se nós tivéssemos ovos eu poderia fazer umas panquecas...

_ Cara, não me lembre... – as duas seguiram para o fogão _ Meu estômago está colando e só tem café e feijão nessa despensa...

Hoss puxou o cobertor úmido, mantendo as joias de seu irmão cobertas. Por mais que aquelas moças fossem diferentes, suas atitudes nas últimas horas tinham ultrapassado qualquer limite de esquisitice. Ele tomou Joe em seus braços e depositou-o de volta sobre o colchão, cobrindo-o com um lençol seco. Verificou as ataduras e reparou numa pequena infiltração tingida de vermelho, com certeza, resultado dos delírios febris da madrugada.

_ Vamos ter que trocar isso – Virgínia entregou um rolo de ataduras secas.

_ Obrigado, senhorita – Hoss levantou o olhar e verificou o céu através da janela entreaberta _ Está amanhecendo. Logo Adam estará de volta com ajuda.

_ Eu espero que sim...

_ Ele virá. Tenha fé. Logo todos estaremos em casa e o doutor vai cuidar do Joe.

_ Você precisa de ajuda com isso? – Virgínia apontou o rolo branco que Hoss passava de uma mão para outra.

_ Eu ficaria muito grato.

Depois que as ataduras foram trocadas, os dois juntaram-se às companheiras para uma caneca de café quente.

Joe estava profundamente adormecido. O rubor da febre alta havia sido substituído pela palidez. Apenas o movimento do peito denunciava a vida naquele corpo agora inerte. Todos desejavam ardentemente que Adam e as outras meninas tivessem conseguido chegar à casa grande antes de serem apanhados pela tempestade e que já estivessem voltando para resgatá-los. Algo no silêncio e na imobilidade do jovem ferido lhes dizia que os problemas estavam longe de terminar.

O tempo estava aberto. Um céu azul que em nada lembrava a tempestade feroz que os havia batido na noite anterior. A lama se acumulava do lado de fora, mas o sol quente era uma bênção.

Hoss saiu e deu a volta na cabana. Dois dos cavalos estavam pastando calmamente nos fundos, mas os outros tinham desaparecido. Provavelmente estavam agora a meio caminho do celeiro da casa de Ponderosa. Maria e Crica enchiam baldes com água fresca da bomba, enquanto Penny e Virgínia abriam as janelas para arejar o cômodo.

Joe não havia acordado desde aquela madrugada.

O cheiro do ensopado de coelho invadia toda a cabana, se espalhando pelo ar quando Hoss anunciou a chegada de cavaleiros. As mulheres correram para fora.

A carroça de madeira surgiu no alto da colina.

_ Ei, irmão! – Hoss saudou o mais velho _ Você demorou.

_ Sinto muito, Hoss – Adam estendeu a mão e foi cumprimentado _ A tempestade nos pegou antes de chegarmos em casa. Como está o Joe?

_ Está se segurando – Hoss acompanhou Adam para dentro, seguido de perto pelas moças e dois vaqueiros _ Pensei que vocês fossem trazer o doutor.

_ Nós só conseguimos chegar esta manhã – Adam tocou a testa de Joe _ O pai mandou um dos homens buscar o doutor Martin na cidade.

_ E onde está o pai? – Hoss deu falta _ Ele não veio com você?

_ Alguém precisava ficar com Sílvia.

_ O que houve com ela?- as garotas quiseram saber

_ Apenas um osso quebrado, possivelmente. Ela vai ficar bem. É uma garota corajosa – levantou-se e acenou para que os vaqueiros se aproximassem _ Vamos levar Joe até a carroça e voltar para casa. Vocês estão com uma cara horrível.

_ E você não parece muito melhor, irmão mais velho.

_ Todos estamos precisando de um banho quente e uma cama limpa.

CONTINUA...