Gênero: Drama/Romance

Spoilers: Essa fic pode ter um ou vários spoilers seja do livro um, dois, três, quatro ou meio do quinto (haushaushaush). Eu não sei ainda aonde a minha imaginação vai me levar, no entanto estejam avisados desde logo, porque depois eu não quero gente reclamando comigo oká. E ela é uma fic slash/yaoi (com um pouco de lemon no futuro?!), então se você não curte, e nem se arrisca a por os olhos em tal espécie de texto, não o aconselho a ir adiante.

Sumário: Finalmente Seth teve seu imprinting, afinal todo lobisomem tem o direito de tê-la! Mas e se essa pessoa em questão não é exatamente quem ele esperava?

Disclaimer: Essa fic foi baseada na série de livros Twilght. Todos os direitos autorais pertencem a Stephenie Meyer. Eu só peguei o gancho dela e criei uma história a parte, só por diversão e falta do que fazer num domingo a tarde. Os novos personagens e o que acontece com eles... é tudo meu!

SUNRISE

por Ge Black-Masen


Capítulo 5: O mar, a lua cheia, um surpresa e uma noite muito longa!

Andreas A. Cullen

Assim que cheguei ao posto observatório no extremo leste da praia de La Push, tratei de começar a arrumar as minhas coisas e preparar o posto para a minha pesquisa. Um dos lobos que me trouxe, o marrom, fez questão de me lançar o mais profundo olhar de nojo e desprezo ao sair, junto com um "estamos de olho" nada amistoso. Não que eu realmente devesse me preocupar com meia dúzia de lobinhos furiosos, mas a constante vigília que eles faziam ao observatório às vezes me deixava realmente inquieto, não pela ameaça, mas por saber que o que quer que eu fizesse seria atentamente observado e isso não me agradava nem um pouco, dado a falta de privacidade. Nas últimas três noites, cada lobo que me vinha "visitar" era diferente: na primeira, foi o lobo areia que veio comigo no primeiro dia, e que não parava de andar de um lado pro outro, inquieto e impaciente; na segunda, outro lobo marrom, e esse dormiu como um anjo porque desde que deitou lá fora, só levantou quando amanheceu; e o último foi uma loba arritadiça que sem maiores motivos dirigia-me olhares profundos e aqui ou acolá mostrava-me os dentes. Eu só poderia retribuir mostrando os meus, claro, e na forma de um largo sorriso de superioridade e uma piscadela marota. Ai, mas aquilo a deixava ainda mais furiosa!

Passei quase uma semana sem sair do observatório, e como havia caçado só antes de me instalar, eu já começava a demonstrar sinais de desejo e sede, que só diziam que eu devia caçar de novo e rápido. Mas caçar no meu "campo de concentração" era algo completamente inviável, então fui até Carlisle para perguntar quais locais eram seguros para se alimentar sem acabar tropeçando por aí com um lobinho mal encarado.

Quando cheguei à casa dos Cullen, Alice já estava lá na frente com a porta aberta, me esperando.

"Os meninos já estavam mesmo saindo pra caçar, então disse a eles que esperassem por você porque estava vindo pra cá justamente por isso! Vi você saindo do observatório! Aí depois você sumiu, e depois você apareceu já na estrada. Por isso vim esperar por você aqui!" disse ela.

"Não me surpreendo, sabia?! Tenho que me acostumar com esses seus hábitos de estar sempre um passo a minha frente." Respondi abraçando-a.

"Vamos, entre e dê um oi pro pessoal. Emmet e Jasper saem em alguns minutos."

"E Edward e Bella? Como estão os pombinhos?!"

"Nem sinal!". Ela riu. "Prova de que estão ocupados demais um com o outro!" disse travessa.

"Com certeza!" ri de volta.

Entramos juntos na casa e encontramos Esme sentada tricotando algo, enquanto Rosalie tocava piano, ambas na sala, absortas no que faziam. Só desviaram sua atenção quando me viram ao lado de Alice.

"Olá Esme! Olá Rosalie!"

"Oi Andreas! Que bom te ver!" respondeu gentil Rosalie sem se levantar do piano.

"Andreas! Que visita agradável! Carlisle não está, ainda está no hospital. Veio vê-lo?" perguntou Esme.

"Não, na verdade vim visitá-los mesmo, além de que faz quase uma semana que não saio da reserva. E preciso atender ao chamado da sede." Finalizei divertido.

"Vai sair pra caçar com os rapazes?"

"Sim, pelo que vi é o que parece."

"Ótimo! Assim você conhece as redondezas e se familiariza com o lugar. Dessa vez eu e as meninas ficaremos em casa, já caçamos no início da semana, então estamos bem por enquanto." Respondeu ela.

"Andreas?" chamou Alice. "Emmet e Jasper estão na garagem, te esperando e... posso te fazer uma pergunta?"

"Sim."

"Posso te chamar de Andy?! Porque te chamar de Andreas pra lá e Andreas pra cá chega a ser chato de vez em quando. Andy fica melhor, ainda mais que somos irmãos agora."

"Minhas mãe não tinha problemas em me chamar de Andreas..."

"Sim, mas ela era sua mãe! Por favor! Isso não conta!"

"Ok Alice, pode me chamar de Andy".

Neste momento, Emmet entrou na sala, seguido por Jasper, dando-me logo um abraço apertado, ao que o outro se limitou dar-me alguns tapinhas amigáveis nas costas.

"E ai?! Está pronto?! Podemos ir?" Jasper perguntou depois de se despedir de Alice. Emmet depois de fazer o mesmo com Rosalie, já saia pela porta dos fundos.

"Sim, quando quiser".

"Então vamos. Não temos muito tempo." Entramos no jipe de Emmet e seguimos por uma trilha sinuosa por detrás da casa.

"Abriu a temporada de caça e este ano, excepcionalmente, concederam permissão para caçarem ursos, então muitos caçadores estarão aqui em poucos dias e as presas estarão um tanto escassas estes tempos. Por isso trate de aproveitar ao máximo!" Recomendou Emmet no carro, a caminho do "ponto de partida", como eles chamavam o local nas montanhas onde abandonavam a sanidade e davam voz a sede. "E deixe alguns ursos pardos pra mim, se você os encontrar! Eles são os melhores, pois te entretêm com uma grande luta antes da refeição!" riu-se ele.

Quando chegamos numa determinada altura da montanha, saltamos do jipe e daí foi cada um por si. Separados, cada um correu em direções diferentes e iniciou-se a caçada. Eu estava um tanto curioso porque, segundo as recomendações de Jasper durante o caminho, o território de caça deles era bastante vasto e digamos... igualmente variado em "opções de prato". Quando eu já tinha alcançado certa altura no interior da floresta, observei ao redor e pelo olfato apurado que eu tinha, consegui encontrar várias presas próximas e como Emmet me disse para aproveitar ao máximo, pus logo mãos à obra.

Quieto, concentrei na energia que emanava do meu corpo e que aos pouco ia aumentando e se espalhando pelo chão e pelos troncos das árvores mata adentro. Não demorou muito e eu encontrei uma pequena família de esquilos num carvalho velho, uns cinco cervos pastando não muito longe, um jaguar - que provavelmente estava para competir comigo pelos cervos – e como Emmet bem disse, alguns ursos. Todos foram envolvidos pela minha malha pisicocinética, mas dado ao tamanho os pobres esquilos foram descartados do cardápio, então minha atenção se focou nos cervos e porque não, no jaguar também. Resolvi experimentar não paralisá-los, deixar que eles oferecessem alguma resistência ante ao ataque, algo com o que eu pudesse me distrair, me fizesse lutar.

Se o jaguar pensava que iria se sair bem da caçada aos cervos estava absurdamente enganado, por que o ditado de que "um dia é da caça e outro do caçador" se fez valer quando sem saber de onde vim, o pobre gatinho teve meus dentes cravados em sua jugular. O ruído dele se debatendo em meus braços foi abafado com quando quebrei o pescoço do animal e ele parou de espernear. E o sangue jorrou pela minha boca, preenchendo-me do calor que afagava minha garganta sedenta e colocava fim ao ardor da sede. Quando havia "secado" o jaguar, passei aos cervos, que um a um acabaram sendo abatidos por mim, depois de uma corrida ou outra por entre as árvores. E os ursos? Esses eu deixei pro Emmet!

Passamos dois dias inteiros na floresta, só nos encontramos no ponto de partida, onde estava o jipe de Emmet no anoitecer do segundo dia: os três sujos, com as roupas rasgadas aqui e ali, mas satisfeitos e com os olhos brilhando mais do que duas lanternas na escuridão. A volta serviu para a narrativa das peripécias de cada um com suas presas. Eles brincaram que finalmente tinham com quem partilhar tais histórias já que contar um pro outro todos esses anos já tinha perdido a graça. Contei-lhes de como eu cacei cada animal e teci longos comentários convencidos da minha luta com o jaguar. Eles, surpresos, riram e disseram que Edward tinha caçado um somente uma vez em quase 50 anos e eu consegui o feito logo na primeira noite de caça. Emmet não perderia a oportunidade de troçar com o irmão mais novo.

Quando chegamos a casa, nos limpamos e despedi-me por fim de todos, com o pesar de quem volta para o exílio, já que voltaria a ser alvo de vigília na reserva. Mas tinha decidido fazer algo diferente naquela noite: ao invés de ficar trancado no observatório, só digitando dados e afins, iria começar a parte da observação, porque mais cedo ou mais tarde eu iria ter que sair daquele ninho pra "pôr a mão na massa", ou melhor, "os olhos na esmola". A viagem entre a casa de Carlisle até a entrada da reserva passou como um borrão, mas não foi despercebida pelos olhos atentos dos guardiões da reserva que, como se previssem minha chegada, estavam me esperando para escoltar-me de volta a praia. A loba arisca, um lobo negro e mais o lobo cor de areia fizeram as vezes de segurança s e cravaram os olhares em mim até chegarmos ao observatório. No fim, só o lobo cor de areia ficou pra me vigiar noite adentro.

Quando a lua estava cheia no céu, grande e brilhante como um imenso holofote celeste, abandonei o casebre do posto, exibindo-me enfim a luz do luar, e encarei de volta os olhos brilhantes ao longe do meu lobo sentinela. "Sabe, lobisomens não estão como presas na minha cadeia alimentar, então eu não mordo ok?! Ao menos se você não me morder primeiro!" Eu o provoquei, rindo. Ele levantou-se de um pulo, certificando-me que ouvira cada palavra e como resposta só mostrou-me os dentes, não com um rosnado, mas como se sorrisse. "Eu entendo as circunstâncias em que te puseram, mas já não te disseram que é feio encarar as pessoas sem conhecê-las primeiro? E, corrija-me se eu estiver enganado, eu acho que você deve ter sido educado não?". Acho que a alfinetada provocou-o, porque ele me olhou feio com ares de ofendido. "Tá, me desculpe ser rude, mas essa rixa entre nós e vocês me soa um tanto controversa. Eu entendo perfeitamente a intenção de vocês em proteger a sua aldeia, mas essa desculpa já está meio ultrapassada você não acha?! Quer dizer, não é como se nós, os Cullens – porque eu era um Cullen agora – fossemos de fato uma ameaça! Nós somos vegetarianos! Só ingerimos sangue 100% orgânico, sem origem humana!" Ele bufou como se risse. "Enfim, cabeças duras eu conclui que vocês são, agora, eu não sei como vocês são e quem são vocês. Simplesmente aparecem como lobos, à surdina à noite e serpenteiam pela floresta pela manhã.". Ele baixou a cabeça em resposta. "Enfim, não sei o que dizer, mas se mais algum de vocês estiver ouvindo isso, tenho só uma coisa a dizer: Oi, sou Andreas, sou um vampiro "vegetariano" e estou sem consumir sangue humano há 306 anos!" Desenrolei meu melhor sorriso pro lobo areia-claro, que só quando este se aproximou que notei que tinha quase o meu tamanho em altura e a julgar pelas patas musculosas, devia ser bem forte também. Outro bufo risonho foi solto pelo lobo e ficamos lá, uns poucos minutos "conversando", quer dizer, ele a uns dez metros de mim, a beira da floresta e eu ali na porta do posto, proferindo meu monólogo. Era bom ao menos ter a quem se comunicar sabe. Aquele lugar poderia oprimir facilmente uma pessoa, com a exceção de eu não era bem uma pessoa normal. Depois de uns minutos falando sozinho percebi que o lobo simplesmente havia dormido, como se toda aquela falácia tivesse funcionado como um ansiolítico pra ele. Deixando-o em paz em seu sono, fui até o píer do posto e fiquei lá com meu par de binóculos, esperando por alguma movimentação nas águas na praia. O posto só fora colocado ali porque aquela pequena enseada era o local preferido pra descanso das orcas e segundo os dados do doutor Jeferson, três baleias tinham ficado pra trás, desvencilhando-se do grupo que se deslocara pro Alasca. Engraçado como alguns teimavam em se referir a elas como cardume, mas só pra constar, baleias não são peixes, são sirênios – neste caso, as orcas são cetáceos, primas dos golfinhos – então não existe porquê de referi-las com tal coletivo.

Coloquei uma mão na lâmina da água, que projetava somente pequenas ondas no mar calmo, e consegui sentir as vibrações do canto das baleias muito ao longe. Uma ligeira movimentação da água sugeriu que elas estavam retornando pra enseada e que eu poderia enfim conhecer as minhas "observadas".

Pensei, inocentemente, que elas se aproximariam de mim de forma tão natural e receptiva. Claro que não foi assim: elas não vieram até a enseada nessa noite, ficaram ao longe, lançando seus jatos de água pelos respiradouros como quem fica inquieto com a presença de alguém inconveniente ou, no meu caso, perigoso. Ali eu percebi que teria que acostumá-las aos poucos à minha presença, como que "adestrá-las", demonstrar que eu não merecia ser temido tal qual os tubarões que passeiam constantemente pelas mesmas águas com elas. Elas não os temem porque são maiores e são igualmente exímias caçadoras, e era isso que eu queria expressar, expondo-me aos poucos a elas. Até então só sabia que eram três, mas fora isso, não tinha conhecimento de nenhum dado novo: se eram jovens ou velhas, seu sexo ou a razão pela qual ficaram. E era isso que eu estava disposto a descobrir.

É engraçado até como semanas passam voando quando se demonstra afinco e profundo interesse por algo que se gosta e foi assim que se passaram dois meses, dos quais eu não senti os efeitos! Eu estava alcançando grandes progressos com meus amigos cetáceos, porém o mesmo não poderia dizer dos lobos: parecia que minha felicidade os afetava – se eu estava feliz eles estavam raivosos, e se eu estava frustrado, eles bufavam de alegria. Ou assim eu entendia das múltiplas reações dos variados lobos que me visitavam noite após noite. Passei a notar também que o lobo cor de areia passou a vir com mais frequência, quase que tomando todas as rondas noturnas dos fins de semana.

Ele passou a ser meu companheiro de monólogos desde então, ouvindo atentamente minhas histórias de quando eu ainda morava na Europa, minha época de "escola", minha chegada a América, entre outras futilidades: tudo com os olhos brilhando castanhos na escuridão da noite, e um interesse abissal. Aqui e acolá ele expressava sua aprovação ou descontentamento com alguma pergunta que eu fazia, alguma afirmação engraçada ou coisa do tipo, mas jamais saindo da segurança de seu posto, tampouco permitindo que eu saísse dos limites que me foram ordenados. Ficamos assim, amigos inconscientemente, companheiros de noites preenchidas por meus monólogos.

Era manhã de domingo quando algo muito desastroso aconteceu: uma das baleias, uma que eu não sabia ser um macho até então, havia ficado encalhada com o recuo da maré, na praia, aonde elas geralmente vinham para roçar-se nas pedras e trocarem de pele. O macho estava exausto, cansado e dando os primeiros sinais de que se ninguém fizesse nada logo, ele iria perecer. Quando baleias encalham, elas são seus próprios algozes: seu peso, sem a água para sustentar-lhes, cai de uma vez sobre sua própria estrutura, pressionando vísceras e principalmente os pulmões, as impedindo de respirar; perdem fluidos corporais muito rápido pela evaporação e o metabolismo acelera tanto que elas queimam incontáveis calorias na tentativa de remover-se, o que acaba por agravar o risco de morte.

Eu precisava fazer alguma coisa, removê-la de volta a água, mas ela havia ficado encravada tão perto da costa que com o recuo da maré, a água estava longe e arrastá-la até o mar a mataria. Fora que a sua companheira simplesmente não estava nada contente de me ver perto da outra, demonstrando-se inquieta, batendo a causa na água com força e bufando como nunca. Vez ou outra investia contra mim para impedir que eu me aproximasse do companheiro. O macho encalhado também não estava colaborando com seu resgate, movimentando-se muito, tentado até abocanhar-me, fazendo me concluir que uma remoção manual seria prejudicial a ambos, eu e o macho rebelde.

Não pensei muito no que ia fazer, só fiz: fiquei a cinco passos a frente da baleia e concentrei todas as minhas forças mentais no intento de levita-la de volta ao mar. Mas vocês simplesmente não sabem o quanto é difícil levitar quase 45 toneladas de uma vez só, sem nunca ter tentado o feito antes. Minha mente não estava preparada, o máximo que consegui foi levantá-la dez centímetros do chão, e ainda assim ao custo de muita concentração, e "empurrá-la" somente uns três metros em direção à água. Tentei outras vezes e essa mesma marca não foi alcançada novamente, só consegui transportá-la por outros dois metros e só. Não agüentava mais e o esforço era de fato descomunal até para mim, com minha habilidade destreinada para este grau de exigência, mas eu tinha que fazer alguma coisa, pois se ficasse ali parado, eu perderia minha razão de estar ali, perderia minha nova razão de viver, e o pior, veria perder-se diante de meus olhos um ser que não merecia seu atroz destino. Por hora, enquanto me recuperasse para efetuar outras tentativas, só me limitaria a hidratá-lo e não permitir que morresse pela sede e pelo calor (não se engane! As baleias queimam gordura tão rápido nessa época do ano que precisam comer toneladas de alimento para manter seus estoques de energia, e a queima dessa gordura gera tanto calor que as fazem desidratar-se mais rapidamente! Embora La Push seja um gelo de lugar, para elas ainda é quente!).

A cada cinco minutos eu a envolvia em uma bolha de água do mar e depois a dispersava, sempre mantendo a temperatura adequada. Eu estava tão preocupado com minha missão que nem percebi que vários dos lobos tinham se aproximado da orla da floresta para me ver tentar desencalhar a baleia. Só prestei a atenção quando eles uivaram e mudaram suas formas para humanos e correram até a praia para onde estava o macho que eu estava ajudando. Com um ríspido "Afaste-se, a gente assume daqui!" do que parecia ser o líder do grupo, abri espaço para que cinco grandes homens, maiores do que eu, e igualmente tão fortes quanto, se colocassem ao redor da baleia. O maior deles se pôs a frente do macho encalhado, tocou-lhe a pele, e ele simplesmente parou de se movimentar, calmo e silente, como se a presença daqueles lhe demonstrasse segurança.

Com puxões delicado em intervalos alternados, eles a devolveram o mais próximo da praia que conseguiram, faltando pouco para que ela alcançasse as ondas. Como vi que o esforço era descomunal até para eles, que estavam em grupo, tive que intervir, aliviando um pouco o peso da baleia com a levitação e ajudando-os a terminar o percurso. O macho enfim alcançou a água e viu-se livre para retornar a companhia dos demais.

Com uma cara de poucos amigos, um dos homens virou pra mim com o peito estufado, bufando, e apontou o dedo em minha direção de forma rude, dizendo: "Não precisávamos da sua ajuda! Teríamos dado conta sozinhos. Sanguessuga intrometido! Cuide da sua vida!". Seguindo os outros, correu em direção a orla da floresta, ao passo que a alguns metros das árvores, com um amplo salto, todos se transformaram em lobos novamente e se foram. O lobo cor de areia havia ficado e olhava para mim com uma careta de quem se desculpa pela mau criação alheia.

Eu não sei lhe dizer o que aconteceu exatamente para que minhas companheiras baleias se familiarizassem tão facilmente comigo depois do ocorrido na enseada. De repente não havia mais receio nem medo, e elas aproximavam da praia com uma naturalidade até mesmo atípica para as orcas. Decidi então que se eu conviveria aquele período com elas, elas mereciam ganhar nomes, porque ficar chamando cada uma de "Orca1" e "Orca2" era objetifica-las demais, além do que o filhote, que eu descobri ser uma fêmea, eu já tinha inconscientemente começado a chamar de Moony, pois ela tinha uma mancha branca no dorso na forma de uma meia-lua. Mas voltando às outras, aqui vai uma descoberta fabulosa e digna de nota: as duas baleias adultas eram machos! Isso mesmo, machos! E eles estavam criando a filhote juntos. Simples assim, como qualquer outro aspecto da Natureza o é! Eu estava em uma mescla de intrigado e maravilhado. Não sabia de ria ou se... ria mesmo! Ou eu ria porque de fato era engraçado, pois jamais pensei presenciar tal situação ou se ria de felicidade porque aquilo era lindo de inúmeras formas. Foi assim que eles ganharam os nomes de Iacyntho e Apollo, em homenagem ao deus grego da beleza e do Sol que um dia amou tanto a um jovem que estava disposto até a abrir mão de sua imortalidade por ele. Diz a estória que Apollo viu em Iacyntho o que não tinha encontrado em nenhum outro ser – a mais clara forma de pureza e inocência – e por isso se enamorou dele e fez dele seu consorte. Uma ninfa, corroendo-se em ciúmes, certa vez, enquanto o casal estava a jogar disco, fez com que o disco atirado por Apollo viesse a acertar em cheio na cabeça de Iacyntho, matando-o. Com o amado morto em seus braços e com o coração cheio de pesar, Apollo rogou ao seu pai, o grande Zeus, que trouxesse a vida do jovem de volta e o tornasse um deus como ele próprio, mas, muito embora Zeus estivesse disposto a acatar o desejo do filho, Hades não quis abrir mão da alma do jovem Iacyntho. Assim Apollo, privado de seu amor, transformou Iacyntho na mais bela flor até então vista em toda a Grécia, flor de unicidade tal que suas pétalas exalavam o mesmo perfume da pele de seu amado, o fazendo lembrar em toda a sua eternidade que um dia amou alguém que lhe devolveu o amor na mesma medida. Por isso, os dois cetáceos enamorados mereciam tais nomes.

Não me levem a mal, sou um pesquisador e tenho que ter um olhar cético diante dos fatos, mas isso não quer dizer que deva mantê-lo cem por cento do meu tempo, e estar ali, diante de duas baleias macho, juntas e unidas em prol da proteção e alimentação de um filhote era simplesmente... mágico! E um tapa na cara do meu ceticismo científico, eu devo acrescentar! Ver em uma manhã o balé dos dois juntos, logo cedo, com a menor logo atrás, me fez entender que aquilo era muito maior do que qualquer pesquisa, do que a própria ciência em si, pois acredite que há coisas nesse mundo cuja razão não é capaz de explicar, e tentar fazê-lo, só nos fará soar como pedantes e não cientistas. Minha própria existência não se fazia explicar, logo, eu, mais do que ninguém, entendia o quão única era aquela família.

Já era noite quando o lobo cor de areia viera me vigiar e me apanhou sentado a beira da escada do observatório, com o olhar vazio e o pensamento longe. Como fazia todas as noites as quais eram de seu turno, compartilhei com ele a minha mais recente descoberta sobre Apollo e Iacyntho, do porque tinha dado aqueles nomes a eles e porque eu achava aquele quadro todo lindo demais para ser descrito em palavras: tudo captado avidamente por orelhas erguidas em atenção. Contei como eu mesmo não conseguiria descrever o que senti, mesmo já tendo o visto em outro tempo. Em pensar que já presenciara tal amor... Me veio então a mente o afeto e carinho, desprendido de forma gratuita e recíproca, por dois grandes amigos que nunca esqueci...


#Flashback#

Alemanha, 1945.

Era inverno e a 2ª Grande Guerra estourara na Europa, de forma tão brutal e insidiosa, que até para nós vampiros as coisas não estavam lá tão seguras. As florestas estavam apinhadas de soldados e caçar passou a se tornar perigoso. Caçar animais, digo, porque os "humman-dhrynkkers", como chamávamos em alemão os que atacavam humanos, estavam se fartando nos campos de concentração e nos frontes de batalha. Eu mesmo conheci uma "enfermeira" que se voluntariou para acompanhar um esquadrão, e nem findara a missão, a sedenta mulher já havia matado todos. A regra era "sem conversão, só alimentação". Ao menos se acreditava que fosse uma regra.

Um pequeno grupo de rebeldes, na sua maioria vampiros, mas contendo também "auxiliares" – os humanos que sabiam de nossa existência e sonhavam com a conversão – estava disposto a acabar com o levante de Hitler a todo custo, porque antes de se dizerem animais, eles tinham uma causa: todos eram judeus. Judeus em plena Alemanha nazista. Ver irmãos e irmãs sendo mortos por simples discrepância de etnia e por um ideal fútil e nojento de superioridade ariana os fez desejar vingança no mesmo nível de crueldade, sobrepujando qualquer rixa por território de caça ou controle e o desejo de vingança se encarregava de alimentar a sede com o sangue do regime opressor. Só que o contingente de rebeldes era pequeno se comparado a frente armada alemã, e mesmo com a força descomunal de que dispunham, não conseguiram, no número em que estavam, chegar até Berlim. Foram "recrutando" vampiros errantes pelo caminho, convertendo outros tantos e por fim, quando já acumulavam considerável pelotão, formando por antigos e recém-conversos, eles marcharam contra a capital nazista. Há quem diga que quem ganhou a guerra foram os aliados. Eu discordo plenamente. Só quem viu e esteve lá como eu, sabe do que falo. Os vampiros não tiveram só um dedo como todas as mãos e pés nessa vitória. E o destino de Hitler?! Imagine você o que aconteceu com ele.

Nesse período eu vaguei pela Europa entre missões de salvamento, voluntariado, insurgências locais, sempre ajudando no que podia, sem revelar minha existência. Foi quando conheci Aidan e Adolf, dois vampiros alemães com histórias idênticas que culminaram com a união dos dois em um casal. Um tomou o outro como parceiro por toda a eternidade e eu vi ali a expressão do mais puro amor. E o tempo que passei com eles em Winesttika, uma pequena vila no interior, foi dos mais memoráveis. Ambos tinham uma padaria, a única da cidade diga-se, e todos no vilarejo os tinham na mais alta estima. Eles eram "vegetarianos" também. Brincavam que não havia razão para comer a clientela, caso contrário ficariam sem ela. E não havia razão para preocupar-se com a guerra quando se é alemão e ariano puro não é? Eles próprios enojavam-se com o discurso do Führer, mas aparências e máscaras deviam ser mantidas, para o bem de ambos e da vila em que moravam. Para todos, eles eram os irmãos Schneider. Ambos criavam um pequeno menino, Ian, com seus pequenos olhos e cabelos dourados e bochechas tão fofas em seus parcos seis anos. Os pais do menino haviam sido mortos pelos agentes alemães sob o pretexto de conspiração e traição ao governo alemão, disseminando idéias anti-regime dentre as aldeias vizinhas, e o coitado teve a infelicidade de ser apanhado por um grupo de vampiros do levante rebelde. Seu destino não foi outro senão ser convertido sumariamente e atirado nesta semi-vida, sem escolha. Crianças eram as preferidas dos rebeldes, porque quando convertidas, além de muito fortes, não imprimiam nas tropas nazistas perigo a um primeiro contato, funcionando como elemento surpresa e até forma de eliminar pequenos pelotões sem a necessidade de intervenção maior da força rebelde. Mas Ian era insaciável em sua sede, e por isso incontrolável, o que acabou levando Adolf a encontrá-lo drenando um apanhador de lenha de sua aldeia em meio às árvores, durante uma caçada. Ele nunca havia visto um vampiro em tão mínima idade. Ian pareceu arisco e receoso ao contato de Adolf em um primeiro momento, mas depois caiu sobre os pés e começou a soluçar. Vampiros não choram porque não tem lágrimas, mas nada nos impede de manifestar os outros sinais de tristeza. Ajudou-o a se levantar e quando o garotinho apenas o abraçou, ele se pegou dizendo que tudo ira ficar bem, que ele ficasse calmo, e perguntou-se se o destino não o havia enviado até ali justamente para ajudar aquela criança. Então ele passou a ser o filho de uma irmã dos rapazes que morrera de tifo e não tinha ninguém mais no mundo a não ser os tios. Novamente, as aparências. Mas para eles, Ian veio para aumentar a alegria daquele lar. Isso depois de árduos esforços para contê-lo e domar a sede do pequeno.

No entanto, a vida parece sempre jogar um eterno futebol de sabão, e quando achamos que finalmente ficamos em pé, o chão nos foge dos pés e o tombo se faz feio. E foi assim com Aidan. Certa madrugada, enquanto Adolf estava fora caçando, quatro agentes da inteligência alemã invadiram a casa deles e atiraram a queima-roupa em Aidan. Quando viram que não causaram nenhum arranhão sequer em seu corpo, desesperaram-se e desataram a atirar contra ele, tentando de alguma forma matá-lo. Aidan só resignou-se a defender-se dos tiros e, por instinto, correu até o quarto ao lado para defender Ian. Adolf voltou às pressas, guiado pelo aperto no coração e pelo som das balas estourando o ar. Pegou o amado sendo impiedosamente fuzilado enquanto abraçava fortemente Ian, o protegendo dos tiros com o dorso, e deu vazão a animalidade. Investiu contra os guardas matando cada um com mordidas, mutilações e afins. No final, só sobrou uma pilha de corpos e o casal em pé, abraçado, Aidan seminu e Adolf banhado em sangue, com o pequeno Ian entre os dois.

Os vizinhos só apareceram quando amanheceu. Estavam em uma guerra e tiros na casa vizinha não era sinal de sair correndo para ajudar, era sinal de correr para se esconder e proteger-se. Quando a calma se fez pela manhã, é que se viu a magnitude dos estragos. Outras casas foram atacadas e seus moradores fuzilados enquanto dormiam. Os vizinhos da padaria dos Schneider vieram ao encontro dos dois preocupados com o pequeno Ian e com os irmãos, receosos que o pior também tivesse recaído sobre a casa deles. Mas aparentemente tudo estava bem, pois senti um doce cheiro de pão fresco saindo da loja e o pequeno Ian estava lá, na barra da calça de Aidan como sempre com um largo sorriso e um "bom dia" caloroso quando os encontrei pela manhã. Adolf se encarregara de dar cabo aos corpos e Aidan esclareceu aos curiosos que eles não estavam em casa quando a mesma foi invadida, já a apanhando em frangalhos pela manhã, quando retornaram da suposta consulta de Ian ao médico da cidade vizinha. Os mortos foram enterrados e com eles o ocorrido. E a vida e o amor dos dois perdurou a guerra e o que veio depois dela...

#Fim do Flashback#


Quando eu terminei de contar ao lobo a história dos dois amantes, meu peito me oprimia, pois o aperto e o pesar que eu senti não se descreviam em palavras. Eu enfim realizei que muito embora você passe 306 anos afundando-se em autonegação, dizendo a si mesmo que ter alguém ao seu lado não é de todo essencial e que você pode muito bem se virar sozinho, uma hora toda essa mentira pessoal cai por terra e você recebe o golpe de uma só vez, acumulado pelos anos que você se privou de se dar uma chance, de dar ao destino uma chance.

"Eu não sei se você ouviu essa história, se você dormiu durante ela, ou se você acha piegas demais esse negócio de amor verdadeiro, mas pelo menos é bom conversar com alguém sabe. Muito embora eu esteja conversando "sozinho" com um lobo, e isso pareça um tanto insano, até pra mim, é bom poder dizer que se está cansado de caminhar por este mundo sozinho. Eu por diversas vezes me perguntei por que até hoje eu persisto nessa solidão. Se fosse em outras circunstâncias, eu teria permanecido solteiro tanto tempo?!"

"Eu não teria casado – forçado, claro! – e tido filhos?!"

"Eu me pergunto se o problema não sou eu, eu não sou bonito o bastante, eu não sou bom o bastante, educado o bastante, enfim... eu não sou bastante em alguma coisa?!"

"Eu fico me perguntando quando – se é que isso vai ocorrer algum dia – eu vou poder dar amor com a certeza de que também o recebo na mesma medida, de forma gratuita e despretensiosa. Quando terei o toque ou o olhar de alguém que expresse todo o afeto e carinho que eu acho ser merecedor..." Disse enfadado.

A lua estava cheia e seus raios refletiam no mar de forma tão bela que eu não pude deixar de sonhar. "Ainda espero pela vinda daquele que me roubará um beijo e me dirá, olhando em meus olhos, que é o homem da minha vida..." Pensei em voz alta, com a cabeça baixa, segura pelas mãos entre as pernas, como quem não agüenta mais o peso dos próprios pensamentos.

Eu só senti quando dedos tocaram meu queixo, e delicadamente o ergueram, pondo-me de frente a um belo par de olhos amendoados e um rosto moreno, incisivo e forte, mas sem perder a juventude, composto por uma boca carmesim, entreaberta em um meio sorriso. O mesmo rosto familiar do casamento. Sem hesitar, ele me beijou. Ele não se incomodou com o frio sobrenatural da minha pele ou com a rigidez do meu corpo, porque eu podia ser duro como mármore, mas pelos breves segundos daquele beijo, eu me fiz derreter naqueles braços.

Quando cortamos o beijo, ele como a respiração entrecortada, me olhou, seguro e sério, e pelos meus olhos vislumbrou minha alma – se é que eu ainda a tinha – e simplesmente disse:

"Não precisa esperar mais. EU sou o homem da sua vida."


Nota da autora: Gente, desculpem pela demora na postagem deste capítulo Ok?! Vida andou meio corrida, mas estou fazendo o meu melhor para não abandonar de vez a ffic. E já faz tanto tempo que eu não escrevia mais nada sobre, que eu tive que começar a reler a série Twilight toda! kkkkk Mas enfim... Espero que vocês tenham gostado deste capitulo tanto quanto eu gostei de escrevê-lo. Peço desculpas antecipadas por erros de grafia porque minha beta hoje encontra-se casada e com prole definida (leia-se um menino lindo por demais!) e não dispõe de tempo sobrando para revisar a ffic, além do que eu também não quero abusar! Espero que não achem que o primeiro beijo dos dois tenha sido precipitado e tenha ficado "morno", porque, sinceramente, detesto aquelas ffics que o shipper já sai transando logo no primeiro parágrafo! Por isso, vamos com calma e por partes. Isso não quer dizer que em um futuro - próximo, eu espero! - não venha a ter um pouco de lemon em Sunrise [Claro que vai!], mas isso é imprinting, é amor para toda uma vida[eterna], então por que ter pressa, não é verdade?! O próximo capt é o POV do Seth a respeito deste beijo, então todos poderão entender um pouco mais do que se passa na cabecinha do nosso lobinho lindo a respeito do seu Andy. Então, é isso aí! Nos vemos no próximo capítulo então!
PS: Eu sei que muitos leem a ffic e não deixam review, mas não dói nada escrever umazinha sequer e isso ainda vai deixar essa autora aqui imensamente filiz filiz filiz!

Reply: Lee Magrock, muitíssimo obrigada pela review! Que bom que gostou do último capítulo. O Andreas é a personificação do que todas nós queremos em um homem, mas só podemos encontrar em livros a la "Pride and Prejudice" (Pega eu, Mr. Darcy!). Por isso é tão bom escrevê-lo. O Andreas vai saber logo logo do imprinting do Seth, mas de uma forma inesperada e... aguarde e verás! *adoro instigar a curiosidade alheia* Continue acompanhando. Muitas surpresas por aí. E trás o Jac de volta, para ele ler a ffic! Bjo!