Os personagens aqui citados pertencem a Masashi Kishimoto
Essa fanfic é uma adaptação do livro Uma prova de amor,da autora Michelle Reid
Uma prova de amor
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Capítulo VI
— Cosa? — Os sombrios olhos lânguidos de Sasuke denotavam surpresa e atordoamento.
— Eu o-odeio você — repetiu Sakura. — Você sabia que estava desprotegido na primeira vez, e nem se deu ao trabalho de me contar?
Sasuke sentou na cama, um vinco arqueando as sobrancelhas rentes sobre a arcada do nariz.
— Sobre o que você está falando?
— Preservativos — esclareceu ela. — V-você comprou alguns essa noite, na loja onde adquiriu as trufas. Eu vi você colocar um pacote no bolso da calça.
— Sí — confirmou, sem enxergar o problema. — Jogamos com o destino da última vez — admitiu. — Não iria arriscar a mesma sorte desta vez, por que você está me olhando assim?
Porque estava se tornando pior a cada segundo. Como o indício de um alarme estridente, Sakura deixou cair a caixa de trufas para começar a catar as calças dele, caídas no chão. Dedos trêmulos imergiram dentro de um bolso e afloraram com um pacote embrulhado em celofane.
Ela nem precisou falar. Sasuke viu o pacote e entendeu.
— Idiota — resfolegou, então teve o mais absoluto e professo descaramento de lhe oferecer um sorriso preguiçosamente acanhado.
— Nós nunca gostamos dessas coisas, não é cara mia? Atrapalhava demais quando estávamos sob a influência de forças muito mais coercitivas.
Sakura lançou o pacote sobre Sasuke. Aquilo colidiu contra um ombro de bronze divinal, e depois caiu com uma precisão irônica bem no colo.
— Eu nunca vou perdoar você — disse para Sasuke, furiosamente. — Como você pôde correr riscos dessa natureza comigo, Sasuke? Como você pôde! — esbravejou.
Sasuke olhou fixamente para Sakura por um momento mais e, em seguida, o seu próprio humor se alterou.
— Ambos aceitamos os riscos, cara — argumentou pesaroso. — Nos atiramos um sobre o outro sem raciocinar muito a respeito de tudo, caso se lembre. Não foi um deslize unilateral.
— Eu não estava tentando dizer que era.
— Então, por que está tão zangada? — Estalou, rolando para fora da cama para aterrissar de pé do outro lado.
Sakura mal podia expelir qualquer palavra por cima do grumo de fúria incrédula que lhe estrangulava a garganta.
— Estou aqui correndo o perigo real de já ter ficado grávida, e você ainda pergunta por que estou zangada? — disse, sentindo-se asfixiada.
— Grávida? O que é isso? — Inquiriu ele. — Você toma pílula — declarou com suprema confiança, — e esse tipo de piada não é engraçada!
— Pode apostar que não é engraçada — Sakura bufou esquentada. — Porque eu não estou tomando pílula... por que diabos você acha que estou tão furiosa?
— Madonna mia — resmungou Sasuke, — estávamos falando de riscos diferentes.
— Quais riscos diferentes? — disparou nele, atônita.
— Por que você não está tomando a pílula?
— Por que você comprou os preservativos se acreditava que eu estava tomando pílula?
Sasuke não respondeu. Ao invés disso, agarrou a parte de trás do seu pescoço e se empurrou de costas sobre ela, deixando Sakura administrar os escassos segundos sufocantes a seguir para tirar as próprias conclusões, o que ela fez, um engasgo abalado de desânimo.
— O que você não está dizendo aqui — enfatizou muito lentamente — é que tem consentido em praticar sexo com outras mulheres, e ainda assim não pensou em me proteger quanto a minha saúde?
— Não estou acreditando nessa conversa — Sasuke se voltou para Sakura enraivecido. — Eu não consenti em praticar sexo arriscado e sou perfeitamente saudável!
— Oh, você é tão otimista a respeito disso!
— Si! — declarou ele.
— Se é isso mesmo, e você pensou obviamente que eu estava tomando a pílula, então por que se deu ao trabalho de comprar os...?
A resposta chegou antes que Sakura pudesse terminar a pergunta. O semblante subitamente retesado que assomou o rosto de Sasuke foi como uma reação física de confirmação. Os preservativos foram comprados para a proteção dele. Sasuke pensou que ele estivesse se arriscando com ela.
Sakura parou de tremer. Isso era incrível, ponderou, o quanto um banho gelado de verdade podia ser tranquilizante. Era a vilã nessa história, aquela que levava vários homens para a cama.
E Sasuke era o homem que já a magoara muito além da conta.
— Saia do meu quarto — disse-lhe, então se virou e andou até o banheiro, deixando a porta fechada atrás de si com o golpe violento de um dos pés assim que entrou.
A porta mal conseguira se enquadrar no batente quando foi escancarada de novo por mãos iradas.
— Eu não quis dizer o que pensou que eu quis dizer — um Sasuke ainda despido proferiu, duramente.
— Sim, você quis, — Arrancando um roupão de banho do gancho atrás da porta, Sakura se enrolou nele.
— Eu neguei a sua acusação — definiu enraivecido — o que não significa que estivesse atirando a culpa em você!
Não, Sakura pensou amargamente, o seu silêncio fizera isso por ele.
— Mas estivemos separados por dois anos e ninguém, homem ou mulher, em pleno juízo, corre riscos desnecessários hoje em dia!
— Você correu... duas vezes! — espocou Sakura.
— E assim, cara, você também — revidou Sasuke.
Não havia resposta para aquilo e, em lugar disso, pegou uma toalha e a atirou em Sasuke.
— Cubra-se — disse com desgosto, e tentou passar por ele, porém Sasuke a deteve com uma das mãos no seu braço.
— Fique bem aqui onde está — comandou soturnamente. — Nós temos um problema e precisamos conversar.
— Eu acho que já fizemos isso o suficiente. — Sakura tentou se livrar aos empurrões.
Mas Sasuke não iria permitir.
— Há dois anos você me tirou o chão onde eu pisava — atirou nela, asperamente. — Agora está fazendo a mesma coisa comigo outra vez!
— Onde você acha que eu estou pisando? — gritou ela. — Você me dirigiu o pior insulto que um homem pode devotar à mulher dentro da qual acabara de afogar o próprio corpo!
— Eu peço desculpas.
— Não é o bastante — golpeou Sakura.
Os dedos de Sasuke se crisparam.
— Então o que você quer que eu diga?
— Nada! — Ela se sentia tão gelada como se tivesse gelo correndo nas veias. — Eu só quero que você saia deste quarto!
— Mas não posso fazer isso. Você poderia estar carregando o meu filho...
— Oh... não diga isso! — Sakura rodeou Sasuke, o cabelo esvoaçante, a face lívida, lágrimas começando a embaçar os olhos. — Eu não quero ter um filho seu!
Se alguma coisa pôs uma tampa sobre aquela confusão desgraçada então foi aquela declaração. Um soluço estrangulado escapou. Sasuke respondeu aquilo com um palavrão entredentes, depois soltou o braço dela e se afastou de Sakura, enrolando a toalha em torno do traseiro liso, bronzeado e rijamente esculpido.
Vendo a caixa de trufas jogada no chão. Sasuke estancou para pegar e colocá-la de volta sobre a mesinha, com uma pancada surda que denunciou sentimentos que pelejavam dentro dele. A mão voltou para o seu pescoço, implacavelmente agarrada ao nódulo de tensão que ameaçava trincar os músculos daquela região.
Uma parte dele procurava as palavras que representariam a feiúra do que acabara de acontecer, mas outra parte — a zangada — dizia para deixar para lá, porque a verdade era a verdade, mesmo se fosse uma verdade amarga de engolir.
Sasuke havia pensado sobre si mesmo em relação àquela coisa do risco. Sakura tinha um histórico sexual o qual não podia se dar ao luxo de ignorar. Quantos nomes de "namorados" diferentes Temari não sublinhava nas conversas, naquela sua obstinada determinação de manter o nome de Sakura vivo na cabeça dele? Temari poderia, realmente, acreditar que saber que Sakura estava levando a vida adiante, enquanto a sua própria estagnara, fazia com que se sentisse ótimo?
Temari... Permitira a si mesmo esquecer sobre Temari e o irmão Shikamaru nesse afã de loucura. Soltou um suspiro, fechando os olhos em um retrato da bela, porém, levemente obsessiva cunhada, a qual costumava comparar com uma faísca de eletricidade viajando ao longo de um circuito infinito de fios, sustentados pela dedicação paciente e vigorosa de Shikamaru. Aquela faísca fora apagada em companhia do seu sustentáculo, deixando para trás uma família despedaçada, uma menininha órfã e Sakura, que fora golpeada por essa tragédia, sem contar que ele a abalava ainda mais.
Dio — pensou Sasuke. Presumivelmente, não devia ser assim. Magoar Sakura não fazia parte dos seus planos. O seu único objetivo, quando saíram naquela tarde, era fazer com que Sakura se lembrasse de como costumava ser tudo tão bom entre eles, e não o quanto desagradável poderia ser. Queria ela receptiva para o que poderiam conseguir se ambos o desejassem demasiado o bastante... antes que intentasse acertá-la em cheio com a grande proposta.
Após o amor, enquanto compartilhassem uma trufa com cobertura de chocolate. O planejamento fora meticuloso. Havia até uma garrafa de champanhe e duas taças gelando no congelador, prontas para ajudá-los a celebrar, assim que ela tivesse dito "sim" ao seu discurso cuidadosamente ensaiado.
Agora, tudo o que lhe restava era um bloco de gelo, detido em algum lugar às suas costas odiando-o até as entranhas, o que o deixou pensando intensamente sobre o que diabos deveria fazer agora, a fim de reverter a situação.
Então, Dio, pensou de novo. Onde estava com a cabeça? Nada mudara por aqui, exceto o clima no qual a parte seguinte aconteceu, e o impulso principal da sua discussão!
Abaixando a mão do pescoço, Sasuke se virou para encarar Sakura. Ela ainda estava na porta do banheiro, parecendo tão receptiva à razão quanto um gato seria ao rato que mantém preso entre os dentes.
Seria ele mesmo um rato? Ao inferno, se fosse, pensou inflexível, e se aprumou em prontidão para o que estava prestes a dizer a seguir.
— Case-se comigo — anunciou, reduzindo o discurso. — Então tudo isso deixará de ser um problema.
Um frio bloco de pedra de silêncio pairou em seguida. Sakura continuava a fitá-lo através daqueles olhos de esmeralda e Sasuke recebeu uma sensação muito, muito erótica através do pescoço que o fez pensar sobre gatos e ratos e... dentes.
Então Sakura se moveu, e aquela sensação erótica se espalhou pelo corpo de Sasuke, empoçando no seu sexo.
— Bem, dizer aquilo deve ter magoado você... — Sakura alongou as palavras, ironicamente.
— Não — negou Sasuke.
Sakura sentiu a boca retrair-se um sorrisinho gelado em resposta. Será que Sasuke pensava que não havia notado o modo como ele se aprumara, antes de fazer aquela sugestão ultrajante?
E ficava ainda mais ultrajante, depois das farpas que haviam acabado de trocar. Sasuke ainda a odiava e se ressentia sob todo aquele desejo palpitante, que ela podia ver retumbando naquele peito magnífico. Sakura tinha certeza disso agora... Como não poderia ter?
— Eu não vou ter um filho seu. — Sakura declarou aquilo com firmeza, agarrando o dilema daquela proposta e o espremendo até perder a vida, antes que se tornasse um monstro aterrorizante na sua cabeça. — E mesmo que eu fosse azarada o bastante para engravidar, eu só preciso me lembrar de Temari para medir as minhas chances de carregar um bebê durante nove meses completos.
— Não diga isso. — Sasuke franziu a testa. — Você não é a sua irmã. Você...
— Então, se levarmos a hipótese de casamento em consideração à mais exígua possibilidade de eu estar grávida, é realmente estúpido — ela o interrompeu. — Entretanto, mesmo se eu estivesse grávida, e conseguisse carregar o bebê até o fim, eu não me casaria com um homem que pensa não só que sou promíscua, mas irresponsável em relação a isso!
— Eu não penso que você é promíscua! — Negou ele. — E nós não vamos voltar a esse ponto.
— Não pode confiar que eu permaneça fiel, então!
— Eu posso confiar — insistiu ele.
O queixo dela empinou, olhos verdes desafiando o suíno mentiroso a provar aquela proclamação.
— Com quem eu estava planejando me encontrar na noite em que você veio até o meu apartamento em Londres? — provocou ela.
A ruga apagou as duas barras negras das sobrancelhas de Sasuke bem juntas.
— Como eu poderia saber?
— Você me ouviu fazer duas ligações telefônicas — ambas para homens — e maquinou algumas suposições bem rápidas de que ambos eram meus amantes! Isso me torna matéria para esposa bastante rameira e indigna de confiança, você não acha? Acrescente aqueles dois amantes ao meu comportamento irresponsável em relação ao sexo, e qualquer um deles poderia ser o pai dessa criança fictícia!
Sasuke dispensou aquela linha de argumentação, com um estalo impaciente dos longos dedos de uma das mãos.
— Uma daquelas ligações foi para uma mulher.
— Quem contou isso?
— Sasori Akasuna — replicou Sasuke. — Ele ligou para cá outro dia, para conversar com você, enquanto você estava no hospital. Eu fiz a pergunta, ele me deu um relatório completo.
Sasuke de fato sondou o seu sócio de negócios atrás de informações sobre Ino?
— E você chama isso de confiar em mim?
— Pare com isso — rangeu, irritado. — Você acha que sou algum idiota? Se você não está tomando pílula é porque não tem um relacionamento. E não recomece a falação sobre se meter com amantes — dispensou com outro estalo daquela mão, assim que Sakura abriu a boca para responder. — Isso é um assunto grave demais para atirarmos insultos um no outro. Se você estiver grávida, é porque eu a deixei assim, um caso no qual eu iria querer que contasse comigo. Se você tiver que passar pelo que Temari passou, então quero estar ao seu lado, para apoiar você como Shikamaru apoiou Temari. Por isso, estou aqui lhe oferecendo um compromisso sério. — Sasuke começou a andar em direção a ela, cercando uma brecha que Sakura não queria fechada. — Estou lhe oferecendo casamento — agora — antes que o tempo de concepção possa se tornar um debate. Estou oferecendo isso sem nenhum preconceito do passado se metendo no caminho. E eu apreciaria se me desse uma resposta honesta e não preconceituosa, em lugar de sarcasmo afiado.
Sakura aguentou firme, estudando a face e as mãos expressivas dele com fascínio, ao passo que ouvia as dinâmicas persuasivas do cérebro inteligente, conforme Sasuke formulava a sua oferta destacando todos os pontos positivos do casamento, e ignorando os negativos como... nenhum amor, nenhum respeito, nenhum compromisso emocional, nenhuma menção à reação horrorizada da família dele.
Sakura sentiu como se fosse uma empresa da qual Sasuke tentava assumir o controle. Ele estava sendo muito frio e prático, e mesmo um pouco arrogante, apesar da arrogância ser mais uma característica atraente do seu talento para vendas. Seu motivo ulterior? No momento, ela não conseguia pensar em nenhum, Sakura estava assaz absorvida pelo poder sedutor que esse homem possuía quando se transformava no bom negociante. Sakura sempre gostou disso, caía como uma boba completa, desde a primeira vez. Era só acionar o modo profissional de Sasuke, discutindo os rudimentos de administração de empresas, que Sakura o despiria com os olhos enquanto ele falasse.
Ela o viu operar esse tipo de mágica numa sala cheia de mulheres duronas, enquanto dava uma palestra numa convenção feminina de negócios. No instante em que terminou, não havia uma mulher sequer no recinto que não estivesse fantasiando sobre Sasuke. Sakura fora a felizarda a ficar a sós com ele, entretanto, e a alcançar a fantasia.
Podia sentir o mesmo empuxo carismático agora, tentando arrastá-la na direção dele como um ímã. A voz era sedutora, o bonito sotaque era sedutor, a maneira expressiva como usava as mãos fazia com que você as visualizasse deslizando sobre a sua pele. A boca séria que fingia não saber que isso acontecia era sedutora; os olhos sérios que aguardavam, educadamente, que lhe oferecesse uma resposta, a estavam seduzindo a proferir a resposta que Sasuke queria ouvir.
Ele era letal, reconheceu Sakura. Mas ela também encontrou a resposta para o motivo ulterior de Sasuke: Sexo.
Podia ser hábil em preservar a máscara do rosto sob controle, porém não estava tendo a mesma sorte com o restante do corpo. Dissera o bastante antes de deitar na cama, observando-a quando ela foi buscar a caixa de trufas. "Eu não consigo olhar para você sem querer ficar dentro de você", confessara ele. O que poderiam fazer um pelo outro ainda saltava em volta dos sentidos dele, com um desejo de fazer tudo de novo e de novo.
Sasuke estava viciado na vadia que sempre tivera a perícia sensual instintiva para revirá-lo do avesso. Então por que não casar com ela? Era a sua resposta muito máscula para um problema mesquinho. Se não acontecesse a traição de Sakura, Sasuke haveria comprometido a si mesmo de corpo e alma, e sem um único arrependimento pelo status de solteiro perdido. Ainda queria fazer aquilo porque, a despeito de tudo o que acontecera, o sexo ainda era irracionalmente bom. E o irresistível toque adocicado da proposta ultrajante dele era que pudesse ter tudo aquilo sem a velha baboseira emocional atrapalhando.
Sakura chamava isso de pensar sobre o próprio umbigo, enxergar uma chance de ganhar o bolo e comê-lo ao mesmo tempo. Em algum instante durante a última hora, Sakura fora elevada ao seu ideal de mulher perfeita. Uma mulher, em outras palavras, a qual seria absolutamente genial possuir como um acessório permanente na sua cama, mas que não esperaria, ou tomaria, nada além disso de Sasuke, uma vez que estivessem fora do leito.
O bastardo nem se incomodou em mencionar a família querida, ou o fato de que todos haviam acabado de passar pelos sete piores dias das suas vidas inteiras, e ainda que o pior dia estivesse por vir. Esta era uma janela de oportunidade e Sasuke não iria deixar que a chance passasse por ele.
Sakura sentiu frio congelada pelo cálculo de Sasuke, a velocidade com a qual podia avaliar e decidir. Sasuke fizera isso com Sakura antes — dois anos atrás neste mesmo apartamento, quando adentrou um cenário francamente suspeito, avaliou e chegou a uma decisão na ofuscante velocidade da luz. Aquele foi o momento em que Sakura se transformara em uma vadia aos olhos dele, e nada que ela dissesse posteriormente pôde mudar aquela crença.
Sakura estremeceu, sentiu tanto frio. Por dentro — por fora e se flagrou lutando uma batalha com a língua que desejava falar a verdade sem pensar. O que Sasuke faria se ela trouxesse tudo aquilo à tona novamente? — imaginou. Ele reagiria como fez na última vez, acusando-a de ousar aviltar a irmã com os próprios pecados?
E o que Temari teria feito? — então se lembrou. A irmã havia implorado a ela que não dissesse nada. Implorou a ela que compreendesse por que nunca poderia contar a verdade para Sasuke, nem mesmo pelo bem-estar de Sakura.
— Ele vai contar a Shikamaru. Como não? Se fosse ao contrário, eu teria que contar a você ou não poderia viver comigo mesma!
Aquelas palavras agora estavam incendiando seu coração para sempre. Porque a despeito de tudo que Temari havia dito, ela tinha contado a Sasuke, havia tentado salvar a si mesma à custa do casamento de Temari com Shikamaru.
Mas Sasuke se recusou a acreditar.
Temari era a mulher perfeita na visão perfeita de todo mundo, em contrapartida, Sakura deveria ser a pecadora.
A opinião de Sasuke não estaria prestes a mudar só porque descobriu que não podia manter as mãos afastadas dela. Ele ainda iria se ressentir da presença dela na sua vida, e nunca confiaria nela a sós com homem algum e, provavelmente, usaria o sexo como um meio bastante notável de punição exigente por traí-lo. Assim, ela deveria dizer: Acredite em mim sobre Temari e eu posso considerar a sua proposta — ou dizer...?
— A minha resposta é não — anunciou Sakura, depois virou e andou de volta para o banheiro, sentindo vontade de disparar para casa feito um raio dessa vez, antes de afundar no assento do vaso sanitário para enterrar o rosto nas mãos trêmulas e, silenciosamente, chorar até os olhos esvaziarem.
Porque sabia que, a despeito do sermão árduo e demorado, esteve apenas a uma ponta de língua de distância de manchar a imagem da pobre irmã aos olhos de Sasuke para sempre, insistindo que ele escutasse a verdade. Até possuía provas para sustentar sua história, embora não aqui, mas em Londres.
Sasuke se detinha, com o ruído daquele raio deslizando de volta para casa retinindo nos ouvidos, e estava furioso por ter se dedicado tanto por aquele frio e mesquinho "não".
Quem ela pensava que era, recusando a sua oferta francamente generosa? Sakura tinha sorte por estar recebendo uma. Pensava que ele queria se ligar a uma sereia inata, com olhos constantemente à procura do próximo homem'?
Mas se estava grávida de um filho dele. Na sua mente, aquilo já era uma proclamação de fato — havia de ser, ou seus argumentos se esfacelariam em poeira aos seus pés. Se a bruxa acreditava que ele iria permitir que fosse embora carregando a criança consigo, então estava prestes a levar um baque muito grande.
Girando os pés, Sasuke caminhou para fora do quarto de Sakura, e desceu o corredor até o próprio aposento. Uma vez seguramente trancado, foi tomar uma ducha — enquanto planejava a sua próxima linha de ataque.
Houve um momento, assim que a raiva esfriou e começou a pensar como um homem racional outra vez, que Sasuke questionou o que diabos estava tentando fazer a si mesmo, ao se envolver com Sakura novamente.
Confiança? Sasuke jamais poderia confiar nela! Sakura estava certa quando o fez entender isso.
Realmente queria um futuro de dúvidas eternas, sobre com quem Sakura está quando não está com ele?
Não, sabia muito bem que não.
Claro que Sasuke não poderia confiar em Sakura. Assim como não poderia ousar confiar no próprio julgamento, no que se referia a ela, porque se qualquer um sugerisse que Sakura andava fazendo estripulias pelas costas dele, dois anos atrás, Sasuke teria gargalhado na cara do indivíduo, antes de deixá-lo arriado em nocaute.
Os velhos sentimentos sombrios retornaram com vingança. Empurrando a cabeça para trás sob o jato do chuveiro, enxaguou o xampu e viu imagens daquela tarde quando teve que voltar inesperadamente para casa, de modo a encontrar Sakura parada na entrada do quarto, tentando impedi-lo de enxergar a verdade.
E que verdade.
— O que você está fazendo aqui de volta? — Ela não poderia aparentar estar mais horrorizada por vê-lo.
— Eu poderia perguntar o mesmo. Você deveria estar em Londres até amanhã.
— Eu voltei mais cedo. — Sakura tentou empurrar a porta do quarto, para fechá-la atrás de si.
— Assim como eu — ele respondeu ausente. — Precisei de alguns papéis guardados no meu cofre... — O instinto o levou a contorná-la e empurrar a porta, abrindo-a novamente.
— Droga — resmungou ele, quando o sabão ardeu no olho. Desligando o chuveiro, alcançou a toalha e tentou não deixar que a sua mente o conduzisse àquele quarto, à medida que enxugava o olho ardente.
O quarto estava uma bagunça. A roupa de cama arrancada e estirada pela metade no chão. Reconheceu o cheiro de colônia masculina. Não a sua colônia, não a sua cueca samba-calção vermelha de seda, a qual ele calmamente recolheu do emaranhado de lençóis brancos. Sasuke jamais usara roupas de baixo de seda; nunca vestiu vermelho. Preferia algodão, preto, branco, cinza, qualquer droga de cor, menos vermelho.
— A quem pertence isso? — Sasuke viu-se girando a tempo de flagrar Sakura deslizando alguma coisa para dentro de uma gaveta da mesinha-de-cabeceira.
— Eu voltei para e-encontrar isso desse jeito. Eu não sei o-o que...
A mão de Sasuke se estendeu para abrir a gaveta que Sakura fechou com força. A viu enrijecer e depois começar a tremer, e então baixar os olhos quando ele retirou o pacote de preservativos.
Preservativos, malditos preservativos, pensou perversamente. O malogro da sua maldita vida!
Uma estava faltando, não que fosse relevante que uma estivesse faltando; o fato de que estivessem lá afinal era o bastante para converter o seu sangue em bílis. Eles não usavam preservativos. E aquela fragrância — aquela maldita fragrância masculina forte que impregnou as suas narinas enquanto permaneceu parado ali, tentando lidar com o que estava sendo forçado a encarar.
— Eu posso explicar... — Sakura soou gutural e seca, como alguém sofrendo por uma quantidade intolerável de ansiedade e estresse.
Sem pronunciar uma palavra, Sasuke pôs o pacote de volta na gaveta e a fechou, em seguida se virou para olhá-la.
— Antes que você avance para as suas conclusões distorcidas... não fui eu, Sasuke, não fui eu!
— Então, quem foi? — desafiou ele.
O rosto de Sakura estava lívido, os olhos como valas negras de absoluto tormento, lágrimas trilhando as faces e obstruindo a garganta.
— Temari — sussurrou ela.
Temari. De todas as desculpas mentirosas que podia ter inventado, Sakura tinha que escolher jogar a culpa na única pessoa que jamais trairia o seu homem, jamais. A sua disposição de fazer aquilo com a própria irmã o fez perder a calma. O que se desenrolou em seguida foi um outro pesadelo, que passou a viver dentro dele para sempre, desde então.
Um telefone começou a tocar em algum lugar, resgatando Sasuke das trevas daquele segundo de pesadelo, para descobrir que estava parado no banheiro, olhando fixo para os azulejos de cerâmica que recobriam o piso, para onde escoava a água do seu corpo, formando uma poça ao redor dos pés morenos. Sasuke ergueu a cabeça e avistou sua face no espelho. Não era ele. Era como olhar para um estranho. Um homem sem cor e sem calidez.
Apenas Sakura poderia fazer isso com ele. E a pedira em casamento novamente?
Puxando um roupão de banho, obrigou-se a caminhar sobre pernas que pareciam insolitamente enrijecidas, como se houvesse acabado de correr uma maratona. Talvez o fizera — correu uma maratona através da agonia, mentiras e decepção.
Sasuke deixou a jaqueta na cadeira, perto do elevador. O celular estava dentro de um dos bolsos, e a passos largos transpôs o apartamento para pegá-lo. A chamada era de Juugo, seu assistente. Enrugou a testa pelo tardar da hora e sentiu um estalo duro de irritação, porque se Juugo ainda se encontrava no escritório, então provavelmente estava tendo muito trabalho ao tentar acompanhar o seu nível durante a sua ausência.
Estava para terminar a ligação quando Sakura apareceu. Vestia aquele exíguo pijama azul sob uma fina tira de algodão azul, que pendia aberta a sua frente. O rosto enfezado e brilhante, o cabelo enrolado no alto da cabeça, deixando o pescoço esguio exposto. Os olhos eram como hematomas escuros engastados num fundo de porcelana branca, e a boca parecia miúda, apertada e... rosa.
A fome rosnou dentro dele, acompanhada de uma autocomiseração que envolvia a si mesmo como uma faixa de aço em torno do peito dele. Voltou as costas para Sakura para escutar, num silêncio implacável, o que quer que Juugo lhe perguntava. O pobre-diabo soava embaraçado e enfraquecido. Sasuke conhecia ambos os sentimentos. Sakura ainda estava ali; Sasuke imaginou o que ela queria.
— Apenas me deixe por essa noite, Juugo — ordenou tranquilamente. — Os negócios não vão descer pelo ralo se você for para casa dormir um pouco.
Terminou a ligação e jogou o celular na jaqueta, depois teve que flexionar os ombros antes de poder convencer a si mesmo a se virar e encarar Sakura outra vez.
— Sinto muito por me intrometer — desculpou-se rigidamente. — Mas nós deixamos minhas compras no carro e eu preciso pendurar a minha roupa...
Sasuke suspirou diante daquele descuido estúpido, e o pêndulo que balançava as suas emoções sofreu ainda outra guinada violenta. Que espécie de egoísta ele era, para acrescentar ainda algo mais ao estresse dela numa hora como essa?
Interpretando mal a razão do suspiro de Sasuke, Sakura se encaminhou até ele com a mão esticada.
— Se você me entregar as chaves do carro, eu mesma posso ir até lá e recolher as bolsas.
Deixá-la sozinha num estacionamento de subsolo, a essa hora da noite e vestida desse jeito?
— Não enquanto eu ainda respirar — sibilou, fazendo Sakura franzir a testa confusa. — Eu vou — foi tudo o que ele disse, e se virou para pegar a carteira e as chaves do carro.
Sakura esperava na porta do quarto dela, quando Sasuke voltou com as sacolas de compra.
— Obrigada. — Sakura tomou-as dele.
— Prego — ele replicou.
Ela deu um passo para trás, e fechou a porta na sua cara.
Um súbito impulso intumescente de escancarar a maldita porta e levar aquela desavença adiante quase o levou a fazer exatamente isso. Então o senso comum chegou e, consigo, uma explosão de frustração, a qual o mantinha mirando um punho cerrado que não aterrissou muito bem no revestimento de carvalho.
Depois, Sasuke voltou para o próprio aposento para inflamar em silêncio. Ao passo que Sakura se atirou na cama para chorar até os olhos esvaziarem, novamente.
Sakura o odiava, mas o amava, e esse era o seu problema mais complicado — ela amava, amava — amava aquele bruto!
O dia seguinte foi um dia que Sakura torceu para que nunca precisasse enfrentar de novo. A partir do momento em que doou à veste negra todo o peso do que estava prestes a encarar, derivou para fundo, fundo dentro dela mesma.
Encontrou Sasuke no vestíbulo de entrada. Um olhar fugaz na direção dele, de pé em seu sombrio terno escuro, camisa branca e gravata preta, a face lisa intercalada sob a máscara verde-pálido de compostura inquebrantável, e Sakura percebeu que Sasuke se sentia da mesma forma que ela. Sasuke a estudou brevemente, antes de inquirir inexpressivamente se estaria pronta para partir.
Lee os conduziu em uma limusine preta, que não fazia nenhuma tentativa de disfarçar o que representava. Até mesmo o dia decidiu envergar um semblante de nuvens acinzentadas, como se soubesse que aquele não era um dia para ser preenchido pela cálida luz solar.
Eles não conversaram; ambos mantiveram os rostos meio voltados para as janelas laterais do automóvel, preferindo permanecer imersos nos próprios pensamentos áridos.
Os dois mal teriam se tocado, se Sasuke não houvesse ajudado Sakura a sair do carro.
Chegaram à casa da mãe de Sasuke para descobrir que toda a vasta e dispersa família Uchiha havia congregado. Todos eram contidos, graves, mas cordatos e solidários em relação à Sakura, o que foi gentil da parte deles, considerando que tinham conhecimento da antiga relação entre ela e Sasuke — não que qualquer um, exceto os membros mais íntimos da família, soubesse o que aconteceu, apenas que se separaram em amargas circunstâncias. Porém, ainda assim Sakura apreciou a disposição deles de colocar tudo de lado por hoje, pelo menos — embora alguns não conseguissem evitar lançar olhares curiosos para Sakura e Sasuke, que nunca se detinha a mais de um passo de distância do lado dela, apesar de não constatarem a presença um do outro.
No instante em que pisaram fora da casa, tudo tomou uma aparência desértica, onírica, que os conduziu agonizantemente quadro a quadro, através das horas seguintes. A Sra. Uchiha estava consternada. A cada vez que ela vinha abaixo, toda aquela sombria reunião sentia os efeitos dilacerantes. E assistir enquanto ela se agarrava ao filho sobrevivente, como se temendo soltá-lo em caso de vir a perdê-lo também, foi de partir o coração.
Hinata e Hanabi se agarraram aos maridos, Naruto e Kiba. Uma das irmãs era mais velha do que o irmão sobrevivente, a outra se intercalava entre Sasuke e Shikamaru. Ambas eram formidavelmente belas, assim como todos os Uchihas, e aqueles dois homens foram escolhidos para complementar-lhes a aparência ilustre e o sobrenome importante.
Sakura não se agarrou a ninguém, embora soubesse que Sasuke, de algum modo, conseguiu se manter a um braço do seu alcance todo o tempo, caso ela desmoronasse, mas não o fez, apenas preservou a cabeça baixa e lamentou-se em silêncio sob o véu de renda negra.
Ela quase fendeu ao meio, à primeira vista dos dois caixões adornados por flores. E uma outra vez, mais tarde, quando pisou na igreja e ficou chocada por quantas pessoas se amontoavam lá dentro. Amigos e colegas, presumiu Sakura, a maioria dos quais eram estranhos para ela, mas não para Shikamaru e Temari. No seu coração, todas aquelas pessoas representavam a vida cercando o trágico casal, na medida em que empreendiam a jornada rumo ao repouso final.
Sakura não verteu lágrimas durante os ofícios. Não fez outra coisa além de ir até onde era instruída a ir, sentar, levantar, ajoelhar, esperar... seguir. A máscara de cera da sua compostura sofreu a pior derrota durante a cerimônia de enterro. A Sra. Uchiha quase entrou em colapso, e Sasuke teve de ampará-la com os dois braços. Hanabi chorou, Hinata chorou, aquele sítio adornado com flores inteiro parecia oscilar sob o peso opressor do sofrimento de cada um.
Depois partiram em jornada até a casa de campo da família Uchiha, nas cercanias de Fiesole. Era um bonito lugar aprumado com os fabulosos adornos da riqueza, colecionados por séculos e rodeados pelos jardins mais sofisticados, amplos o suficiente para que alguém se perdesse neles. Era um local utilizado por todas as facções da família Uchiha para oferecer festas extravagantes. Hoje tornou-se um lugar amortalhado na tristeza, onde toda a confraria se reuniu para pagar seus respeitos à família.
A Sra. Uchiha foi levada para os seus aposentos privativos, pois assim poderia ter alguns minutos para se recompor. Sasuke, as duas irmãs e seus maridos assumiram o papel de anfitriões, logo que as muitas salas para recepção formal começaram a lotar de pessoas sombrias envergando luto, e de uma equipe de serviçais sobriamente vestidos que se misturou entre eles, carregando bandejas de prata forradas de linho branco que guardavam a chance de alívio.
Sakura nunca se sentira tão perdida e solitária ao vagar sem propósito de sala a sala, sorrindo educadamente para todos aqueles que lhe ofertaram a sua solidariedade e murmurando todas as frases certas em resposta, porém, sentia-se estranha por dentro, insolitamente deslocada como se não pertencesse àquele lugar, e sabia por que sentia-se daquela maneira.
Ela havia acabado de enterrar a irmã e, mesmo assim, sentiu como se aquela grande onda carregada de pesar dos Uchiha houvesse sequestrado o seu direito à lamentação. Pensar assim foi bobo, egoísta e injusto da parte dela, mas dizer aquilo a si mesma não demoveu a sensação. Todo mundo falava em italiano e Sakura não queria falar em inglês. Queria se lembrar da irmã no próprio idioma e gritar o mais alto possível — Deixem-me ter minha irmã de volta!
Alguém pegou no seu braço enquanto entrava e saía de uma sala para a outra, e Sakura foi empurrada para uma alcova sossegada encravada na lateral da escadaria magnífica. Sasuke avultou sobre ela como uma sombra tenebrosa.
— A fleuma britânica ainda está em voga, vejo eu — falou Sasuke, de um modo sarcasticamente arrastado.
Continua...
Aí está mais um capítulo,talvez eu poste mais um amanhã,mas não é certeza.
Para a Kekedia que me perguntou se teria alguma especie de flashback sobre o que aconteceu no passado de Sasuke e Sakura para que houvesse a separação do casal,aí está uma boa parte da expliacação,acho que ficou mais claro agora,não é? rs Mais para frente vai ter mais esclarecimentos.
E como vocês viram,a Sakura é inocente e,apesar de todo mundo amar e idolatrar a Temari,eu a acho uma pessoa repugnante. Deixou a irmã se separar do homem que amava porque não queria perder o Shikamaru,não que ele se separasse dela se descobrisse o que aconteceu. Deixou todo mundo ter odio da Sakura por algo que ela não fez,por causa de um erro da irmã.
Enfim... já falei demais rsrsrs.
Até o próximo.
Kissus...
