CAPÍTULO 2: A rota do cadáver I

Hagrid sentia-se feliz por ter conseguido terminar de fazer as compras em Londres tão cedo. Os pés e as costas rogavam-lhe por um descanso na cama. Enquanto descia a colina até à sua cabana, pareceu-lhe que Fang andava por perto.

- Quem anda aí? - gritou Hagrid.

Um dos thestrals aproximou-se ao seu encontro. O semi-gigante ofereceu-lhe alguns biscoitos que lhe haviam sobrado da viagem a Londres, acariciando-lhe o flanco. Contente de retornar à sua cabana, não viu as três sombras que corriam desde a horta.

Os biscoitos recordaram-no que tinha fome, mas já não ficava nem um. Tomou um momento para poder deliberar se era muito tarde para jantar ou muito cedo para o pequeno-almoço. Entretanto, podia acender uma fogueira na lareira para aquecer um chá de limão, mas só tinha troncos grandes e não lhe apetecia ter de esperar a que se acendessem, de modo que saiu a partir um em farpas. Desejou fazê-lo rapidamente, só desejava amornar a cabana, encher um pouco o estômago e dormir.

Viu o seu machado, com o cabo velho e partido, e enrugou o nariz. Os malditos pixies do barracão tinham feito das suas, com as suas ferramentas toda a semana. Já estava quase solto e de fato comprou cabos de madeira no mesmo local onde comprou as armadilhas, mas só desejava terminar rápido. O seu objetivo era encher um pouco o estômago para ir dormir, o cabo novo podia esperar.

Decidiu que usaria o machado quebrado, com algumas precauções. As quais esqueceu à segunda machadada que deu contra o tronco. A cabeça do machado saiu a voar e aterrou com um ruído seco atrás da horta.

Com o cabo na mão, Hagrid caminhou até ao bosque. Fang ladrava como louco a uns metros de onde se suponha que estava o resto do machado.

- Fang! É só uma…! –Hagrid interrompeu-se de repente-. Oh, Merlin. Lamento, professor Lockhart.

O professor Gilderoy estava estendido a um metro do machado. Talvez saiu para conseguir espécimes para a aula, tendo a má sorte de que o machado o golpeasse. Hagrid agachou-se para desculpar-se, mas o homem não reagia. Não podia ouvi-lo. Não tinha pulso.

O semi-gigante entrou em pânico. Matou um professor. Seria levado de volta a Azkaban. Ou pior, sentenciariam-no à morte. É o que geralmente se faz com os gigantes e os semi-gigantes que matam alguém.

Colocou Gilderoy por debaixo do braço e com as passadas que só um semi-gigante em apuros podia dar, alcançou o campo de Quiditch nuns poucos minutos. Escondeu o cadáver num saco de vassouras, na parte detrás das arquibancadas estaria bem. Aproveitaria a escuridão para cavar uma cova o bastante profunda no terreno por trás da estufa e enterrá-lo-ia durante o pequeno-almoço, quando todos estivessem no Salão Principal para assim evitar serem vistos através das janelas.

Ia começar a cavar quando recordou que as suas ferramentas estavam quebradas. Inspirou profundamente e limpou-se as lágrimas. Tinha que pôr o cabo novo na pá.

-Hagrid, bem te disse o teu pai que os preguiçosos trabalham o dobro – disse-se em voz baixa-. Deverias ter trocar o cabo desse machado.

Por suposto o cabo não era à medida e perdeu muito tempo a tratar de encaixá-lo, tudo para não ter que lixá-lo, e por suposto com a pressa partiu-se, de modo que teve que usar o que tinha de reserva para a picareta.

Quando por fim começou a cavar, descobriu que realmente precisava da picareta. O terreno era muito duro. Apenas tinha avançado meio metro de profundidade, quando se encontrou de frente com os alunos do quinto ano, que vinham à estufa para colher seiva de mandrágora. Teve que inventar alguma estupidez de fazer um viveiro de gurgulobrices.

Agora que os do quinto o tinham visto, necessitava outro lugar. E aparecer no pequeno-almoço para evitar que dessem pela sua falta, justo no dia que se desaparece outro professor.

Lavou como bem pôde a terra que o cobria e apresentou-se para tomar o pequeno-almoço. O pior foi que os Gryffindors terminaram com todo o café do Salão Principal, de modo que passou o resto do pequeno-almoço dolorido e meio a dormir.

Deu aulas cedo ao dos primeiro ano e o resto da manhã passou o tempo a procurar lugares mais aptos, onde não necessitasse uma picareta. Para a hora do almoço seguia sem a menor ideia, mas os elfos da cozinha facilitaram-lhe um cabo de madeira, longuíssimo e grosso, com o qual tal vez poderia substituir temporariamente a picareta.

De regresso topou-se com Filch, que tinha que ir arranjar a fechadura do armário de Quidditch antes de que Hooch enlouquecesse. Hagrid esteve tentado a pedir-lhe que o ajudasse a abrir um pequeno compartimento no chão da sua cabana.

Infelizmente para Hagrid, quando terminou o compartimento na cabana, Gilderoy já não estava em baixo das arquibancadas. Os alunos de Gryffindor praticavam no campo, mas segundo Wood, não havia passado nada estranho, exceto que Harry tinha saído cedo.

Perguntou-se se as celas de Azkaban eram tão pequenas como recordava.

..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::.

Sinceramente, Hooch não podia ter feito um alohomora e aberto o maldito armário? Não, tinha que chamar o zelador, que se uma bruxa não podia com uma porta fechada, um squib talvez se encarregasse.

Os Gryffindors treinavam nas suas vassouras, mas ainda assim nem sequer notaram quando Filch pôs mãos ao trabalho na fechadura do armário.

Custou-lhe um pouco de trabalho forçar a fechadura. Filch sorriu ante um trabalho bem feito. Deu uma volta pelo campo para ver se podia reportar a algum dos Gryffindors extraviados, mas só encontrou um saco de vassouras por baixo das arquibancadas. Lástima. Atirou o saco no armário sem prestar muita atenção, e saiu a buscar a professora para avisá-la que a sua fechadura estava destravada.

..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::.

Hooch voltou ao campo um tempo depois de os Gryffindors terem acabado de treinar.

De manhã tinha pedido ao Filch que destravasse a fechadura do armário, mas não o encontrava por nenhum lado. No castelo disseram-lhe que saiu a buscá-la ao campo, mas tampouco estava aí.

Não de todo resignada, Hooch tentou abrir o armário com as chaves por uma última vez. Para sua surpresa, a porta abriu-se. Quem teria pensado que a porta ia arranjar-se sozinha, como se o zelador a tivesses arranjado? Tal vez tivesse algum peso mal apoiado e por isso não tinha conseguido abri-la antes. Talvez esse saco de vassouras desacomodado. Oh, claro, também havia um cadáver aí.

Hooch contemplou o corpo sem vida de Gilderoy Lockhart, tratando de organizar a informação na sua mente.

Que pôde tê-lo morto? O armário era muito pequeno, o suficiente para asfixiar-se numas horas.

Quanto tempo tinha estado fechado no armário? Desde a noite anterior.

Quem o fechou? Ela mesma.

Que que fazia ali o professor? Não tinha a menor ideia.

Avisar? Não. Qualificava como homicídio involuntário.

Escondê-lo? Numa escola com tantas pessoas, alguém se iria dar conta, independentemente de onde o tentasse meter. Necessitava alguém com mais contactos. Alguém que lhe devesse um favor.

Iria à enfermaria buscar a Poppy. A treinadora tinha-a ajudado uma vez com o seu embaraçoso assunto das algemas quando terminou com a professora Sprout. A enfermeira sabia guardar segredos, quanto mais um morto.

A treinadora tinha uma melhor condição física que os alunos com metade da sua idade. Carregou o professor nos seus ombros sem problema nenhum. Pensava ter visto a Potter, Granger e Weasley encolhidos em alguma parte, mas não identificava aonde, assim que teve que dar uma volta enorme antes de chegar ao castelo. Com os alunos a jantar, ninguém se intrometeu entre ela, Gilderoy e a enfermaria. Colocou o professor sobre uma das camas. Caso demorasse, esperaria a Poppy sentada aí mesmo.

A porta abriu-se, mas não era Poppy senão o jovem Longbottom, que de alguma forma tinha conseguido prender o seu próprio punho num estreito copo para sumo.

Porque ninguém lhe fazia o favor de matá-lo de uma vez? Porque nunca tinha ficado fechado o tempo suficiente num armário.

Hooch riu-se entre dentes da ideia. Fechou as cortinas da cama de Gilderoy, o suficiente para que o aluno não distinguisse quem se encontrava deitado.

-Ah… a senhorita Pomfrey? -perguntou Neville, com os ombros abaixados.

-Virá num momento –disse Hooch, tratando de ver-se natural.

-A professora também teve um acidente? -perguntou Neville.

-Sabes que mais? Creio que irei buscá-la.

A treinadora correu a buscar Poppy. As perguntas de Longbottom iam fazê-la explodir, especialmente porque tinha uma pergunta que ela mesma que não acabava de enquadrar de todo.

Que estava a fazer Gilderoy no armário?

..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::.

Após todo um dia de ausência, Poppy Pomfrey chegou à enfermaria.

A enfermeira Pomfrey sempre se tinha presado do seu empenho em atender bem os pacientes, mas esse dia, devia admitir que descuidou a enfermaria. Tal vez havia conversado demasiado com a bibliotecária e logo tinha passado pela cozinha. Ou foi a cozinha o que a atrasou, com tantos elfos a tratar de alimentá-la com guloseimas antes do jantar. De qualquer modo, a enfermaria esteve vazia quase cinco horas.

-Oh, Neville –disse Poppy, dando um saltito ao encontrar o Neville sentado na secretária-. Estás aqui à espera à muito tempo?

-Um pouquinho –Neville desceu a mirada, mostrando-lhe a sua mão presa num copo.

A senhorita Pomfrey examinou a mão do seu aluno preferido (graças a ele, Dumbledore por fim ia trazer-lhe uma ajudante). Conjurou um feitiço de fragmentação muito suavezinho e a mão de Neville ficou livre num pestanejo.

-Pronto –disse Pomfrey, examinando a mão-. A propósito, já guardei um cacifo para as tuas coisas para quando estás hospitalizado. Procura que não seja em breve, de acordo?

Neville assentiu com a cabeça e perdeu-se pelos corredores, com a esperança de ainda alcançar algo para o jantar.

Poppy foi organizar um pouco as coisas na enfermaria. Estremeceu suavemente ao ver alguém recostado na cama do fundo.

-Meninos, já vos disse mil vezes para se deitarem nas camas da frente se ainda não os tiver examinado.

Mas não era um aluno e sim o professor Gilderoy Lockhart. Com apenas levantar a sua mão soube que estava morto. Muito, muito morto.

Com as pernas a tremer, Poppy deixou-se cair numa cadeira.

Santo Merlin! Perdeu um paciente só por não verificar! Isso era simplesmente intolerável! Agora teria que dar muitas explicações. As fanáticas de Gilderoy iam linchá-la! Nesse momento, ela própria queria linchar-se!

E além disso ia necessitar um advogado. Como o chamavam os muggles, quando extorquem um

médico por ter morto alguém acidentalmente?

-Demanda por negligência – disse-se em voz baixa-. Terei uma demanda por negligência.

Não merecia um problema assim. Quem realmente merecia um desastre desses? Havia uma alma tão apodrecida em Hogwarts?

Fez-se luz no final do túnel. Havia alguém que merecia de sobra um problema assim, e que não quereria envolver o Ministério de maneira alguma. Certa professora de Herbologia, com esqueletos no armário. E debaixo da cama. E crânios dentro do escritório, ossos de toda espécie nos seus montões de composto (estrume/adubo) e quem sabe quantos restos humanos mais, espalhados por todas as partes.

Coincidentemente, a mesma professora de Herbologia, que uma vez abandonou Poppy presa a uma cama com algemas.

-Bom, Sprout, de qualquer modo devia-te um presente de aniversário -disse Poppy enquanto movia o cadáver até uma janela.

-Inverso Accio!

O professor voou como uma vassoura, totalmente rígido. Do lado de fora da estufa, a professora Sprout gesticulava de forma ameaçante até à janela da enfermaria. Poppy satisfeita com o seu trabalho, fechou as cortinas e desceu ao salão para buscar doces para voltar a encher a taça da entrada.

..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::.

O grande vulto aterrou delicadamente na estufa através de uma janela aberta. Se algo tinha que devia reconhecer sobre Poppy é que era muito terna, até quando o tema em questão era uma vingança.

Sprout agitou a cabeça. Poppy nunca a iria perdoar a brincadeira de deixá-la algemada à cama.

Pensando num saco cheio de bludgers ou alguma joiazinha pelo estilo, a professora Sprout preparou um feitiço de escudo antes de aproximar-se.

O seu presente era um Gilderoy Lockhart em estado cadáver. Deu-se alguns minutos para suspeitar se era um presente de verdade ou uma espécie de vingança. O resto das pessoas não o podia entender, mas os mortos são amigos das plantas e qualquer amigo das plantas era amigo da Sprout.

Certo, podia avisar o Ministério. A simples ideia de ter um montão de aurores a vasculhar na sua estufa revolvia-lhe o estômago. Não podiam ser mais perigosos para as suas plantas que, digamos o Draco, mas preocupavam-lhe os outros "presentes" que num par de ocasiões havia usado como fertilizante. O pior é que não era época de preparar adubo ao ar livre, e a sua adega estava cheia.

Pensou por um momento em usar o buraco que Hagrid acabava de abrir atrás da estufa. Tinha sido quase providencial que o semi-gigante começasse um projeto de gurgulombrices justo mesmo no dia que ela necessitava um buraco. Como mencionaram os do quinto, o semi-gigante parecia empenhado em cavar rápido aquele buraco. Até mesmo pensou em convencer o Hagrid a usar o cadáver para alimentar uns quantos gelagusanos.

Descartou a ideia de imediato. O santo Hagrid chamaria o Ministério ainda que tivesse matado a alguém na sua própria horta.

Chegava à sua mente um só lugar que era perfeito para ocultar um cadáver nessa época do ano. Em baixo da sala comum de Slytherin havia uma cave em desuso, que ninguém tocava desde a época da guerra. Costumava ser a reserva de licor das serpentes, mas graças a uma remodelação involuntária (uma explosão ou algo do estilo) ficou incomunicada com a casa. Recordava longínquamente que o professor Snape lhe tinha comentado que havia uma escotilha para poder entrar desde a cozinha mas os elfos não costumavam entrar. Podia carregar Gilderoy no carrinho, onde regularmente levava raízes aos elfos.

Dito e feito. Todavia havia alguns alunos a andar pelos corredores, mas não deram problemas. Os elfos perguntaram que levava, ao que só respondeu "batatas", e pediu que não as tocassem. A escotilha apenas estava oxidada. O ar era seco e frio lá em baixo. Num sítio tão escuro que igual teria dado ter os olhos abertos ou fechados, às apalpadelas deixou o cadáver num sítio despejado do chão e fechou a escotilha com um feitiço de selagem.

Fez nota mental de comprar alguns tubérculos carnívoros esse inverno. Teria um lindo cadáver seco nuns meses e se o dissecasse com cuidado, poderia usar o seu interior para armazená-los por alguns anos.

Definitivamente, falaria com Poppy para agradecer-lhe o presente.

..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::.

Já havia um buraco nessa parte das escadas, mas quando Crabbe e Goyle caíram juntos, abriram a rota para o paraíso. Os vinhos mais novos levavam vinte anos de repouso. E claro, um Malfoy tinha que administrá-lo.

Essa noite, a cave estava guardada para as raparigas do segundo e sexto anos. Uma festa de pijama ou algo assim, o caso é que a cave não podia ficar sem vigilância e o pobrezinho do Draco sacrificaria-se a cuidar as meninas das garrafas e as garrafas das meninas. Blaise ofereceu-se a cuidar o Draco das raparigas e das garrafas (ou para cuidar as raparigas e as garrafas do Draco) mas o loiro valentemente declinou a ajuda.

Draco desceu as escadas minutos antes das damas para assegurar-se de que tudo estivesse no seu devido lugar. Copos enganadoramente grandes, gelo com a sua própria proporção de álcool, agitadores mágicos que também arrefeciam as bebidas. Pansy foi arranjar os sacos de dormir e almofadões no outro lado da cave. Enquanto Malfoy acomodava o champagne esmeralda por estrita ordem de colheitas, Pansy deu um grito especialmente agudo.

-Draco! –gritou Pansy, desde a escuridão- Há alguém a dormir aqui!

Draco tirou a varinha a toda velocidade e acercou-se, esperando encontrar Crabbe ou Goyle.

O único que encontrou foi ao idiota do novo professor de Defesa.

Um cadáver seria razão suficiente para cancelar qualquer atividade, mas uma festa de pijama numa cave abandonada não era qualquer atividade. Draco colocou-o debaixo de uma das mesas que as do segundo ano insistiram em levar para colocar comida.

-Tu não digas nada. Logo tiro-o daqui.

Pansy assentiu com a cabeça.

De todas as maneiras, em quanto a primeira delas foi visitar o chão, viram o professor. Se Gilderoy se tivesse limitado a servir de decoração, não haveria problema, mas de repente a todas as raparigas lhes aflorou a necrofilia, e em minutos tinha-as a tentar sentar o professor entre os sacos de dormir e a lutar por decidir quem ficaria com ele.

-Mas olha que ideia –murmurou Blaise-. Sei que todas são fanáticas raivosas de Gilderoy, mas matá-lo só para vê-las lutar por ele?

-Não temos nem ideia de como chegou aqui -disse Draco-. Suponho que arranjou-se para chegar por um dos corredores derrubados e embriagou-se demasiado.

Blaise sentou-se junto ao Draco no chão, observando a luta pelo cadáver. E sim, era divertido ver as meninas mais educadas e nobres a lutar como brutas, mas depois de um bocado perdeu a graça.

-Está frio e asqueroso –murmurou Draco- Que graça pode ter?

-Recordas o escândalo que fizeram as fãs pelo caracol de cabelo que Gilderoy leiloou há dois anos? Agora imagina que no lugar de um caracol tens um Gilderoy completo - explicou Zabini.

Draco rodou os olhos, se havia alguma esperança de enredar-se com elas, era urgente jogá-lo num sítio seguro onde não se atreveriam a buscá-lo, mas onde?

Sem mais remédio, Draco foi perguntar ao grande experto em desaparecimento de cadáveres: o seu pai. A rede de pó flu estava bastante despejada essa noite e a receção era clara como se não falasse a longa distância. Encontrou-o a trabalhar no escritório da biblioteca.

-Filho, que dissemos do flu depois das doze? -disse Lucius, acercando-se à lareira.

-O professor Lockhart está morto na cave.

-Draco, sei que tens festa hoje e felicito-te pela ideia -Lucius torceu os olhos e por um momento, Draco perguntou-se se realmente eram tão parecidos-. Mas se mataste alguém, tens idade suficiente para desfazer-te dos teus próprios cadáveres.

-Papá, as do sexto estão a tratar de revivê-lo com uns " colheita 1410" que tem o teu nome.

-Tentas pressionar-me, jovenzito? -disse Lucius num arranque-. Tenho coisas melhores que fazer que ir recuperar álcool de uma cave velha.

- Realmente tem o teu nome – O loiro aproveitou para mostrar ao seu pai as palavras "Propriedade exclusiva de Lucius M" escrito com uma caligrafia impecável no vidro de uma garrafa-. Creio que são do cacifo de madeira do fundo.

O seu pai olhou a garrafa como quem vê um antigo anuário resgatado de um incêndio. Tirou os óculos e prendeu o cabelo. Não era só álcool, eram recordações.

-Primeiro, vai tirar-lhes as garrafas -disse Lucius-. Logo, tira a Mão da Glória do baú, desperta o Gregory e cruza os dedos para que seja tão bom a adivinhar contra-senhas como o seu pai.

Infelizmente para o Draco, Gregory Goyle não ia despertar tão facilmente. De feito, teria sido mais simples despertar Lockhart.

-Goyle não desperta -disse Draco, balançando a cabeça-. Creio que é a medicação que toma à noite.

-Então escolhe as duas mais gordas que já estejam bêbadas, as que possam arrastar algo de peso, porque vais ter que movê-lo à maneira muggle.

Minutos depois, Draco, Pansy e outra menina do segundo carregavam Lockhart pelo corredor. O plano do seu pai era tratar de infiltrar-se na sala comum dos Gryffindors sem usar magia, para não ser detetado. O problema é que já estavam todos lá dentro, comodamente adormecidos, assim que teriam que esperar um monitor. Milagrosamente, a porta abriu-se. Draco arranjou-se para mobilizar a sua escolta por trás de uma cortina.

Harry, Hermione e Ron saíram, aparentemente para a enfermaria. Enquanto discutiam quem sabe que pieguice, Draco arranjou-se para escapulir-se com o cadáver que arrastava, deixando as duas meninas do lado de fora. Escondeu o cadáver atrás de um sofá, mas não pôde sair pois não sabia abrir a porta desde do lado de dentro. Instalou-se atrás do sofá à espera. Potter e companhia regressaram num curto bocado, unicamente se despediram e subiram aos seus dormitórios para fazer as tarefas. Ninguém mais voltou a entrar ou sair.

A manhã chegou. Maldito seja, esse tipo de coisas só lhe ocorriam a ele. A primeira em abrir foi McGonagall e disse algo aos leões, mas Draco apenas pôde escutar, primeiramente porque estava longe e em segundo porque a ressaca finalmente tinha-o alcançado.

Em quanto todos os Gryffindors foram almoçar, Draco sentou Gilderoy no sofá. Pansy, já sóbria, arranjou-se para abrir a porta. Na sala de Slytherin já não havia ninguém, mas a cave parecia ter sofrido outro derrubamento.

Draco escondeu o rosto entre as mãos. Deveria ter deixado que repartissem o cadáver entre elas. Pelo menos teria dormido junto a elas.