CAPÍTULO 3: Os mestres de marionetas
-Ron! Ron! -disse Fred, abanando o seu irmão mais novo- Estás bem?
-Claro que não está bem, estúpido –bufou George- É que não o vês desmaiado?
Ron abriu os olhos, para encontrar-se com Fred a olhá-lo fixamente. George examinou o cadáver de Gilderoy no sofá e sentou-se deixando um espaço. Para depois puxar o Ron e sentá-lo entre ele e Gilderoy, passando-lhe o braço sobre o ombro.
-Esta vez devo reconhecer que mereces uma salva de palmas -disse George em voz baixa- Como é que o fizeste, Ron? Vê-se um pouco maltratado mas não há lesões letais. Veneno ou foi só um Avada?
Fred descobriu um beijo marcado com batom violeta na manga da túnica.
-Dá-me a impressão de que esta não é tua –disse, mostrando-lhes a marca de batom-. O violeta é mais uma cor de Potter, a ti ficaria-te bem um batom cor coral.
-Eu… Eu nem sequer posso explicá-lo –disse Ron, entre-cortado-. É muito longo para explicar.
-Fala, fala, temos duas horas.
-Não se supõe que Albus ia dar-lhes aula de poções?
-Sim, mas está constipado e tomou demasiado xarope. Queimou um caldeirão vazio e converteu Jordan Lee num cotonete e depois numa boca de incêndio amarela, assim que deu-nos hora livre -disse Fred, fechando a porta com um feitiço de selagem-. Começa a falar.
À hora de almoço, uns alarmados Harry e Hermione entraram na sala comum. Encontrando Ron cabisbaixo num sofá.
-Ron! –exclamou Hermione, correndo desde a porta- Onde demónios estavas?
A voz de Gilderoy respondeu-lhes nas suas costas.
-Harry, Hermione, queremos dar-lhes as boas-vindas à seleta sociedade dos escondemortos.
Os dois voltearam alarmados. Os gémeos sorriam-lhes desde a esquina. Todavia simulando a voz de Gilderoy, George seguiu:
-O ilustre professor Lockhart está sob bom resguardo no quarto de banho dos Gryffindor do quarto ano. Asseguro-lhes que poderá aplicar-lhes o exame a tempo. Agora, queriamos conversar convosco…
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Ron não conseguia acreditar, ainda quando levava nos braços uns três galões de formol. Harry seguia-o de perto, carregado de mangueiras, lâminas cirúrgicas, e seringas. Hermione levava só uma mala com toda a maquilhagem que pôde reunir, uma muda de roupa limpa e um livro de encadernação que via-se de longe que era muggle.
Cruzaram o dormitório dos quartos. Os companheiros dos gémeos estavam tão acostumados aos materiais exóticos e os negócios turvos que nem sequer perguntaram. Hermione ficou do lado de fora a vigiar a porta.
No quarto de banho, os gémeos estenderam Gilderoy numa das cabines dos chuveiros, e logo estudaram cuidadosamente umas páginas do livro. George ordenou Harry que conectasse uma mangueira à torneira, enquanto ele abria as veias do braço de Gilderoy. Ron sentiu-se todavia mais gelado quando Fred lhe pediu que o ajudasse a desvestir e lavar o cadáver.
-Tem que ficar perfeito –disse Fred, em tom paciente-. Não quererás que alguém descubra que está morto, não é?
George conectou a mangueira ao braço de Gilderoy, abriu a torneira e logo rachou-lhe as veias do tornozelo. O líquido emanou, primeiro vermelho e gelatinoso, até tornar-se gradualmente cristalino. Tirou a mangueira e com um « ¡Reparo!» fechou as aberturas. Foi cuidadoso de fazê-lo a distância suficiente. O formaldeído, como muitos muggles sabem, é altamente inflamável e com a quantidade de porcarias com que iriam misturá-lo, o fogo seria tão rápido que pareceria vítima de combustão espontânea. Logo ambos os gémeos apressaram-se a injetar-lhe o formol entre outras coisas que havia nos frascos.
-Era indispensável que lhe lavassem as veias? –perguntou Ron, só para encontrar um motivo para não vomitar. Sentia que já nada, absolutamente nada mais na vida lhe poderia dar nojo.
-Reservamos para vocês a parte mais interessante da lavagem -respondeu Fred, colocando nas mãos do seu irmão mais novo uma mangueira com uma matriz de metal alongada, e virando o cadáver com um pé.
Quando compreendeu para quê e por onde ia a matriz metálica alongada, Ron teve que arrepender-se a respeito ao de não sentir nojo.
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-Já terminaram? Que fizeram? Levo-lhes a roupa?
Hermione desistiu de interrogar os seus dois companheiros quando viu a cara de completo nojo com que saíram do quarto de banho. Harry olhava para as suas mãos. Fred arrancou a muda de roupa limpa a Hermione, que lhe havia pedido antes para ir buscar ao quarto de Lockhart, fechando a porta atrás de si. Abriu-a de novo no mesmo instante, só para tirar-lhe sem mais formalidades a bolsa de maquilhagem.
-Teria preferido que o encontrasse o Ministério –confessou Ron, com a mirada em algum ponto a muitos quilómetros daí.
Meia hora depois, a porta do quarto de banho abriu-se de novo. Um limpo e muito "vivo" Gilderoy estava sentado numa sanita. Os gémeos fizeram-se mútuas reverências.
-Está terminado -disse Fred-. Ainda poderíamos pôr mais uma capa de maquilhagem runica de selagem, mas creio que é melhor esperar que esta capa seque.
-Só lhe faltam os fios -disse George.
"Porque é que um cadáver necessita fios?" questionaram-se Harry, Hermione e Ron ao mesmo tempo.
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Era hora da aula de DCAT para os Gryffindor do segundo ano. Severus entrou à frente do seu grupo de alunos de turno, depois de comer com os Ravenclaw, e portanto foi o primeiro a experimentar o shock de ver um renovado Gilderoy Lochkart na secretária, no meio da penumbra. "Gilderoy", com um amplo e pomposo gesto de mão, convidou os alunos a sentarem-se. De Severus não teve que ocupar-se porque o mestre de poções estava momentaneamente catatónico.
-Alunos, tive que me ausentar porque tinha um inadiável assunto de vida ou morte - "Gilderoy" girou a sua cabeça de um lado do auditório até ao outro.
O trio maravilhou-se da sincronização com que o cadáver-marioneta dos gémeos movia a boca e falava .
-Ainda assim, o exame que elaborei segue programado para depois de amanhã, com os mesmos conteúdos. Avisem os seus companheiros de quarto ano que os qualificarei com um trabalho. Os outros grupos farão simultaneamente o exame no salão principal. Podem retirar-se para estudar.
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Todos, especialmente McGonagall e Snape, estavam assombrados com o repentino regresso do professor. Os gémeos ofereceram a Hermione uma cópia do exame mas esta recusou-se. De todas as maneiras, asseguraram, era um exame tão simples que até a Sra. Norris poderia passá-lo facilmente. Por suposto, todos os alunos do quarto tiveram uma boa qualificação no trabalho, e "Gilderoy" os comissionou para cuidar dos outros grupos.
E chegou o dia do exame. O salão principal foi disposto para um exame massivo. "Gilderoy" esteve aí desde o princípio. Mc Gonagall não cessava de entrar no salão principal com qualquer pretexto e deitar-lhe umas miradas estranhas a Lockhart. Hagrid, Hooch, Poppy e Sprout faziam um outro tanto, até que a maioria dos alunos se instalaram nos seus lugares.
Draco e as slytherins de segundo e sexto viam-se especialmente nervosas. Hermione perguntou-se a si mesma se os gémeos tinham preparado sets de exames distintos para as outras casas.
Com perguntas tão fáceis e os do quarto ano a "vigiar", esse exame foi recordado lendariamente pelos Ravenclaw como "a hora feliz". Não se pode dizer o mesmo de Hermione, Harry e Ron, que passaram o exame todo preocupados de que alguém notasse o remendo no céu do teto onde se ocultavam Fred e George. Nem sequer Snape o notou quando se aproximou a "Gilderoy" e lhe exigiu falar com ele a sós no dia seguinte no seu escritório.
Hermione, Fred e George discutiram o assunto enquanto levavam o cadáver ao quarto de banho da Murta Queixosa durante a noite.
-Mas... Snape vai notá-lo! -protestou Hermione.
-Nah! –desdenhou George-. Eu e Fred já tínhamos um plano debaixo da manga, só necessitamos...
George interrompeu-se rapidamente. Uma pequena silhueta felina acabava de passar junto a ele.
-Quem anda aí? -exclamou Filch desde as escadas.
Os três olharam para todos os lados. Só havia um armário, um sítio tão cliché para esconder-se que Filch não podia de forma alguma passá-lo por alto.
-Estamos encurralados –murmurou Hermione.
-Não. Confiem em mim -disse Fred, um instante antes de empurrar George e rasgar-lhe a camisa, para atirá-lo dentro do armário.
Antes de que George pudesse protestar, Fred jogou o cadáver de Lockhart e Hermione no armário. Enbarassou o cabelo de Hermione, fechou a porta e colocou-se em frente ao armário com uma atitude vigilante, seguro de que o seu gémeo já entendia de que ia o assunto.
-Sabia que tinha que andar um Weasley metido nisto -Filch e a Sra. Norris deram alguns passos frente a Fred-. O que há com o armário, se se pode saber?
-Não abra! Não há nada!
Os gémeos sabiam por experiência que essas palavras desencadeavam invariavelmente uma reação. Filch abriu a porta, e fechou-a rapidamente.
-Quê... Lockhart... a senhorita Granger...o seu irmão? -gaguejou Filch, com um gesto de desgosto.
-Eu pedi-lhe para vigiar a porta –ressoou desde dentro a voz de "Gilderoy", em quanto George pôde controlar o seu riso-. E, Filch, se dizes algo, o teu affaire com certa felina será ventilado.
O zelador escapou-se pelo corredor. Por Merlin, se a escola descobria, o assunto de Poppy e as algemas ficaria pálido em comparação.
-Não ponham essa cara, a voz tinha que vir de dentro e era mais credível se um homem vigiasse – disse Fred, ao abrir a porta-. Um professor não deixaria uma aluna de vigia se fosse fazer obscenidades num armário.
-E já é bastante mau que Filch vá pensar que sou gay para que além disso creia que me deitaria com o meu irmão –disse George-. Bem jogado, Fred.
-Rogo diferir –disse Hermione, tratando de compor o cabelo.
Nenhum dos três falou até chegarem ao quarto de banho de Murta. A fantasma começou a sua eterna sucessão de lamentos, mas pareceu contentar-se um pouco quando viu o seu acompanhante, e prometeu não fazer muito ruído.
Antes do pequeno-almoço do dia seguinte, Ron e Harry foram revisar o estado de Gilderoy. Pela segunda vez o cadáver já não estava. Murta fez-se a ofendida primeiro e pôs-se histérica depois quando tentaram interrogá-la ao respeito.
Evitando o pânico (este tipo de coisas começavam a tornar-se habituais), contaram a situação aos gémeos e Hermione. Fred esfregou as mãos. Um segundo antes de que George pudesse contar-lhes qual era o grande plano, o professor Snape pareceu materializar-se do nada por trás deles.
-Vocês cinco, às quatro, no meu escritório. Digam a Gilderoy que ele também tem de ir. Talvez Dumbledore esteja muito resfriado para lhe importar, mas eu não.
Os gémeos romperam em gargalhadas em quanto Snape esteve o bastante longe da mesa e saíram disparados do salão, deixando o trio de ouro na mais obscura duvida. Por mais que tentaram buscá-los durante o dia, não deram com eles até uns quantos minutos antes de entrar no escritório de Snape. Sentaram-se a esperar com toda a calma que era possível aparentar. Hermione preparava mais álibis. Ron brincava com os seus dedos. Harry mirava fixamente o solo. Os gémeos viam-se serenos e tranquilos.
- Vejo que o professor Lockhart decidiu desaparecer misteriosamente de novo, e tenho a certeza de que vocês tem algo a dizer sobre o tema –disse Snape, com o tom frio de regresso aos seus lábios.
Harry estava a ponto de soltar a melhor explicação que tinha conseguido montar, quando a porta se abriu. Gilderoy Lockhart entrou a caminhar na divisão, e com muita naturalidade sentou-se entre os alunos.
-Professor Snape, asseguro-lhe que estes responsáveis, valentes, comprometidos e aplicados estudantes estiveram a ajudar-me de uma maneira extraordinária.
Completando a sua atuação, Gilderoy soltou um suave suspiro. Ambos os professores seguiram com o diálogo na frente dos alunos. Várias vezes Harry esteve tentado a beliscar Lockhart para comprovar que era real, mas terminou por beliscar-se a si mesmo quando lhe pareceu vê-lo piscar um olho cada vez que se virava para olhá-lo. Para ter mais de uma semana de morto, o professor via-se bastante fresco, e todavia levava a túnica que vestiu para o exame.
Logo dos vinte minutos mais longos das suas vidas, os cinco gryffindors e o professor saíram do escritório. Harry seguia com a ideia de que Lockhart lhe piscava o olho e isso estava por ocasionar-lhe um tic nervoso. As marionetas não piscam. Caminharam uns metros até que o professor começou a tremer. Os gémeos puxaram-no para um salão.
-Não vai morrer outra vez, não é? -perguntou Ron, sem deixar de vê-los.
Os gémeos riam-se. Algo muito esquisito estava a passar com as feições do professor. Faziam-se mais finas, encolhiam-se, e não só o seu rosto senão o resto do seu corpo, até que se perdeu dentro da túnica púrpura. Uma delicada mãozinha, pertencente à menor dos Weasley, saiu de entre as pregas de uma túnica demasiado grande.
-Estive bem? –perguntou Ginny, tratando de tirar a outra mão da túnica. A sua voz todavia soava a uma mistura da voz dela e de Gilderoy.
Para o resto dos seus dias, o trio teria o maior respeito pela poção polissuco.
