CAPÍTULO 6: Zombies perversos
O jantar perdeu o luxo, porque repentinamente todos os elfos da escola estavam limpando a fachada sul, com uma curiosa substância muggle. Essa noite, os gémeos perguntavam-se pelo paradeiro de Gilderoy, na sala comum. Ginny, de ter sabido algo sobre os muggles, ter-se-ia auto-denominada para o Óscar. O trio todavia não se havia recuperado do susto com Snape. Os seis aproximaram-se tudo o quanto possível à lareira, aparentando beber chá que se preparava nas brasas, para esconder os gémeos que consultavam sem parar o mapa do Maroto. Havia um inusual movimento justo frente à casa Ravenclaw.
-É inútil, este mapa não marca os objetos inanimados -disse Fred e logo suspirou pela limitação dos seus recursos.
-Onde conseguiram a túnica para disfarçar Ginny? -perguntou Harry, apressando uma chávena de chá- Se bem me recordo, o Gilderoy original trazia-a posta quando o extraviamos.
-Fomos à enfermaria para conseguir ingredientes para o polissuco e estava aí.
Então a investigação regressava à enfermaria. O mapa marcava que as senhoritas Pomfrey e Hooch acabavam de encontrar-se na entrada. O assunto desde o principio cheirava a problemas.
Ron ficou a cargo do mapa, Ginny cobriria a retaguarda. Harry preparou a sua capa de invisibilidade, Hermione dispôs algumas poções e os gémeos prepararam um frasco de pó negro.
- escuridão em pó -explicou Fred.
«Preparamos-lo por acidente o ano passado, cremos que tem potencial» Prosseguiu George enquanto soprava um pouco para demonstrar o efeito: uma miniatura de escuridão que nem o mais potente lumos dissolvia.
Para despistar qualquer tentativa de seguir-lhes o rasto, decidiram tomar turnos com a capa de invisibilidade de modo a que ninguém relacionasse que essa noite deambularam os seis juntos. Fred, George e Ginny caminhariam visíveis abrindo passo a Harry, Ron e Hermione debaixo da capa de invisibilidade, ao menos até se afastarem da casa Gryffindor. Passariam frente à casa Ravenclaw para dar uma volta o bastante grande, e terminariam trocando de posições na enfermaria, onde Hermione e Harry tentariam tirar a Pomfrey a verdade enquanto Ron e Ginny investigavam debaixo da capa e os gémeos distraiam as outras duas.
Infelizmente para eles, frente à casa Ravenclaw havia demasiado movimento. Luna estava no centro da tempestade, Neville consolava-a. Ginny conseguiu acercar-se para lhe falar.
-Bom, é que saindo da aula de Astronomia estivemos um bocado na sala comum. Eu vinha muito contente porque localizei uma chuva de estrelas invisível, que segundo o meu papá são sinal de que em breve vai haver uma rebelião de elfos domésticos, e entrei no meu dormitório. O professor Lockhart estava desmaiado ou adormecido ou inconsciente ou não sei o quê, na minha cama, e todo o alvoroço é porque o professor não levava roupa -explicou Luna, como se fosse algo que não lhe passou a ela-. Por certo, Ginny, obrigada pelo champô. Caiu-me bem.
Neville via-se mais aterrado que ela. A maioria dos Ravenclaw permaneciam do lado de fora, em grande revolta, à espera da chegada de algum professor. Os monitores pretendiam custodiar a ordem. Até mesmo Percy estava aí.
Ginny contou aos gémeos (e ao trio por baixo da capa, naturalmente) a situação em poucas palavras. Também protestou pela grande quantidade que Luna gastou do seu champô. Podiam deixar que as coisas seguissem o seu curso, mas Hermione insistiu que tendo o cadáver as investigações tarde ou cedo os apontariam como sendo os culpados. Necessitavam entrar, e rápido, porque do corredor ascendia o rumor de que Dumbledore vinha ver o que se passava.
-Com tudo o que toma para a constipação, estranha-me que distinga a porta da sua própria barba disse Fred-. Ainda temos tempo.
Os três debaixo da capa deslizaram-se entre a multidão, tomando cuidado de não roçar em ninguém. Coisa complicada, já que os Ravenclaw haviam formado um circulo e giravam em torno da porta. Passando esta, o resto foi muito fácil, porque a casa estava praticamente vazia.
O dormitório tinha uma placa que dizia "Meninas de Segundo ano", com letras vermelhas de estilo recarregado num fundo amarelo, que corriam e se retorciam. Sem dúvida alguma criação de Luna. Também sobre as camas, havia pequenas placas semelhantes que Luna pintou para as suas companheiras. Na cama, uma enorme bagunça de mantas revelava que a menina teve a oportunidade de deitar-se antes de notar a presença do seu tétrico acompanhante. O professor de Defesa todavia tinha o cabelo húmido. Passaram o homem para baixo da capa e apressaram-se a voltar.
Não cabiam os quatro debaixo da capa de invisibilidade, mas esse apartado já tinha sido coberto pelos gémeos, do lado de fora, onde a mais impenetrável escuridão reinava. Sem tomar cuidado de se atropelavam ou não alguém, o trio extraiu Lockhart da casa Ravenclaw, e correram a esconder se num salão próximo. A escuridão dissipou-se justo a tempo para que o diretor Dumbledore pudesse inspecionar o local.
Desde o salão, o trio escutou o alvoroço quando notaram que Gilderoy já não estava. Harry estava preocupado de que lhes ocorresse buscar nos salões, mas o ar parecia-lhe mais fácil de respirar-se desde que recuperaram o cadáver. Ao que parece, todos os professores se juntaram frente à casa Ravenclaw. Albus, com voz de mando, reuniu-os. As suas palavras, ainda que ditas num tom de voz normal, ressoaram por toda a escola.
-O professor Gilderoy Lockhart está desaparecido. Revisamos o seu escritório, e não levou as suas coisas, isso quer dizer que segue na escola. Se alguém o vir, diga-lhe que se não se apresenta frente a mim amanhã à meia-noite, pode considerar-se expulso do seu cargo, e fugitivo da lei.
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A enfermeira e a treinadora instalaram-se atrás de uma das camas. Escutaram claramente os passos seguindo-as desde a sala de Ravenclaw até à enfermaria. A professora Sprout era a última pessoa da que os alunos se poderiam assustar, mas Poppy duvidava que algum aluno a tivesse visto alguma vez realmente enojada. A porta abriu-se com um terrível feitiço da aparentemente inofensiva mulher.
-Sai. Sei que estas atrás da cama e a treinadora também.
Por suposto que nenhuma das duas ia sair. Sprout, compreendendo-o, sentou-se sobre uma das camas e esticou as pernas. Não pensava tirá-las pela força.
-Em que diabos estavam a pensar colocando o professor no quarto das Ravenclaw?
-Não fomos nós -disse Poppy.
-Vocês levaram a armadura. Encontrei-a desmontada aqui mesmo.
-Severus tirou-nos-o. Lançou-lhe um feitiço e pensou que o havia matado –disse Poppy.
Após um momento de silêncio, a enfermeira atreveu-se a tirar a cabeça detrás da cama. Sprout, mais que chateada, via-se suspeita. Um sorriso de ternura tomou a cara de Poppy quando viu Sprout golpear uma almofada.
-Teria querido usá-lo para armazenar bulbos. Esperava que esse Snape lhe fizesse de uso melhor.
-Sempre soube que esse tipo estava louco -disse Hooch.
As três riram-se. O assunto em si era bastante estúpido. Gilderoy estava morto, e isso quê? Sim, Trelawney não ia ler nunca a segunda parte de "O Hungarian Horntail que me amou", mas seguramente o seu olho mágico podia cobrir o inconveniente.
A treinadora e a enfermeira levantaram-se. As três estavam a pensar com toda a capacidade dos seus cérebros.
-Vamos por esse pervertidor -disse Poppy, assinalando a porta.
Hooch saiu em direção ao corredor feita um raio. Tanto que não se deu conta quando Sprout fechou a porta atrás dela, ficando sozinha com Poppy.
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Severus levou as mãos à cabeça. Havia criado um zombie degenerado. Podia ser sua culpa, por tê-lo posto numa banheira que normalmente era usada por adolescentes. Devia estar impregnada de hormonas e de sémen.
Além do incidente de Luna, escutou um diálogo entre Filch e Flitwick onde o primeiro contava em tom fastidiado uma cena muito gráfica num armário. Não é que lhe interessasse pessoalmente o que o zombie fizesse ou deixasse de fazer com os alunos, mas já tinha álibi. Apresentar-se-ia com o cadáver e diria que lhe lançou um Avada quando o surpreendeu rondando o dormitório das slytherins.
Para dar-lhe mais credibilidade, necessitava circunstâncias favoráveis. Semeou a escola com isco irresistível para zombies: Montinhos de grãos de café e açúcar moreno. Os muggles não sabiam mas por isso se encontravam zombies com tanta frequência nas cafetarias caras e bibliotecas grandes. Fez que todas os iscos conduzissem à entrada de Slytherin. Empanturrou os cantos da sala comum vazia com grãos de café, porque sabia que para o zombie o odor seria irresistível. A essas horas todos os seus alunos dormiam.
Logo trocou a contra-senha "para proteger os alunos" por uma que até um zombie adivinharia rapidamente: "Olá".
Sentou-se numa poltrona com uma chávena do mesmo café, a cabeça reclinada e os olhos suavemente fechados. Fritaria o zombie enquanto tirasse o nariz. Ruído. Abriu-os. Nem rasto do zombie. Mais ruído.
Seguiu o ruído até às escadas. Parecia provir debaixo. Tirou o tapete ao pé das escadas, e encontrou uma improvisada escotilha de madeira. O seu pensamento retornou àquela noite em que os Marotos derrubaram a cave. Se algum aluno encontrou a rota de entrada, tinha que ser Draco.
Lá em baixo vislumbrou uma figura humana trabalhando na escuridão, iluminado por só um balão incandescente.
-Malfoy?
A figura volteou. Malfoy, mas não Draco senão Lucius.
"Onde estavas à tarde quando necessitava esconder a Gilderoy?", perguntou-se Severus. Agradecia que Lucius nunca aprendesse Legilimens. O loiro não a necessitava para interpretar o rosto do professor.
-Sim, Severus, eu também estou bem e dá-me muito gosto ver-te. Vem tirar pedras.
-Tenho deveres, Lucius, e diferente de ti, eu não vou envolver-me num assunto de...
-Olha isto -disse Lucius, sem dar-lhe tempo de terminar.
O loiro colocou-lhe na mão uma garrafa da colheita 1410 com o seu nome e outras duas garrafas de cristal vermelho, com pequenas placas metálicas incrustadas, que Severus reconheceu no mesmo instante. De repente Severus Snape tinha outra vez onze anos e estava escondido no dormitório a tentar destilar álcool da fruta do salão principal, baixo a atenta mirada de um monitor de sétimo ano chamado Lucius Malfoy.
Voltando ao presente, o loiro deixou-se arrebatar as garrafas vermelhas da mano para que o professor as inspecionasse. Severus raspou com a unha um pouco de ferrugem na placa metálica.
-Estas foram as melhores –disse Snape, cheirando a cortiça-. As que fiz numa nevada com cascas de laranja.
-Assim que as colheitas 1201 que trouxe das férias de natal no Mediterrâneo não podem estar muito longe. Começa a remover.
Severus colou-se junto a ele para mover as pedras. As colheitas 1201 não apareciam. De repente, Lucius começou a rir-se e suspendeu os feitiços de remoção. Tudo o que Severus queria era ter outro ex Death Eater para arrastá-lo na investigação se as coisas se punham mal, mas estava-se a ver envolvido.
-Lembras-te da vez nos Cárpatos? -perguntou Lucius, talvez pelas pedras que os impediam de avançar.
Isso era como perguntar-lhe se se recordava do seu julgamento quando a guerra terminou. E ainda assim o julgamento foi menos perturbador que os Cárpatos. Tinham coisas que era melhor não recordar, especialmente se envolvem vampiros come-carne.
O professor sabia demasiado bem em que derivavam esses assédios senão se lhes dava a devida precaução. Tinha a varinha na mão e retrocedeu um pouco. O seu pé tocou uma das pedras e provocou um ruidoso derrubamento. Segundos depois escutaram-se passos nas escadas. Tinha esquecido da razão pela qual estava aí. Subiu a correr, apontando a varinha até à sombra que se movia. Por fortuna deteve-se atempo.
-Ah... Professor... O que?…
O menor dos Malfoy olhava-o sonolento desde as escadas com um pijama negro de seda. Limpava os olhos com a manga e tratava de aspirar os macacos. Toda a pose da família arruinada quando alguém os via recém levantados. Draco viu o seu pai por cima do ombro de Severus.
-Que ocorre lá em cima? Porquê tanto alvoroço?
-O professor Lockhart decidiu fazer criancices no dormitório das Ravenclaw –disse Severus-. Vim vigiar o dormitório.
Severus notou a mirada estranha que trocavam os dois Malfoy, mas escapou-lhe o sinal de silêncio que Lucius fez a Draco.
-Crê-me, Severus, Gilderoy não vai entrar aqui. Não é o seu comportamento habitual nas suas circunstâncias atuais.
-Teve algumas mudanças ultimamente das quais poucos sabem.
Ambos os homens ficaram com a ideia de saber muito mais que o outro. Mudaram de tema tão rápido como lhes foi possível, e como uma coisa leva a outra, os três desceram a prolongar a busca na cave.
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-Pronto, acabaram-se os desgostos.
Hermione apertou a última amarra que segurava o professor de DCAT à cama. Depois selou as amarras com um feitiço para que ninguém exceto ela pudesse soltá-las.
Fred e George davam-se ao gosto, remexendo as gavetas do quarto do pomposo professor. Ambos festejaram a sua coleção de roupa interior e o álbum de recortes de jornal, que tinha sinais de ter sido folheado todos os dias. Ginny tinha uma orelha extensível pegada à porta. Escolheram o quarto justamente porque aí já o haviam buscado, mas mais valia prevenir.
Ron e Harry chegaram debaixo da capa invisível com garrafões de formol.
-Teremos que fazer-lhe a lavagem outra vez? -perguntou Ron, estremecendo-se.
-Ron, se é o que queres, é todo teu.
Não importava qual gémeo o disse: ambos explodiram em gargalhadas. Em quanto se recompuseram, Fred agregou:
-Não é necessário, com injetá-lo basta para que esteja bem amanhã com Dumbledore. Oxalá tivéssemos mais polissuco, mas Snape trancou o armário.
Ao acabar de injetá-lo, os seis sentiam tonturas e a divisão apestava a formol. O plano originalmente era deixar um de guarda, mas não conseguiam pôr-se de acordo e no final foram todos dormir. Ao fim e ao cabo, essa noite Gilderoy não podia ir a nenhum lado, e se alguém o levava antes de poder plantá-lo com Dumbledore, tanto melhor.
