CAPÍTULO 7: O golpe de graça

No dia seguinte, a escola era um fervedouro de rumores, e não se falava de outra coisa nos corredores que não fosse Gilderoy Lockhart. As especulações chegarão a extremos absurdos, como assegurar que Pomfrey lhe havia dado um filtro de amor mal preparado. Nada disso representava um problema, até que apareceram as malditas fotografias.

Ginny estava na aula de Binns depois do pequeno almoço quando as viu pela primeira vez. Eram umas dessas fotografias reveladas com substancias especialmente boas para plasmar paisagens, que em vez de capturar o movimento registava o odor. Ainda que definitivamente o odor a formol não

era o seu principal objetivo, porque o distorciam em algo assim como álcool adulterado.

Assim que pôde, Ginny despegou-se do grupo para ir a buscar os seus irmãos. Encontrou o trio e os gémeos num corredor, com as fotografias na mão. Quem quer que as tivesse tirado assegurou-se de copiá-las para todos.

-Deste ângulo nem sequer sei o que estou a ver -assegurou Ron torcendo a cabeça.

-Está bem, Ron -disse Hermione, dando palmadinhas a Ron como se fosse um cão-. Juro que não pensei que se pudesse ver obsceno.

-Não há remédio, teremos que levá-lo agora mesmo perante Dumbledore –disse Fred- O diretor que se arranje para averiguar o que passou.

Foi fácil passar despercebidos porque os corredores estavam cheios. Ao que parece tinha sido convocada a junta de professores, mas não lhe ocorreu a ninguém ir ao quarto de Lockhart ver se este continuava na comprometedora cena das fotografias. Vestiram o Professor para a sua visita a Dumbledore («Não, Harry, essa túnica é demasiado informal»), como se fosse parte de um enorme jogo de bonecas. Os gémeos asseguravam saber de memoria o caminho para o escritório do diretor, ainda que auguravam dificuldades em chegar até lá com o morto. Teoricamente era simples repetir a tática do cadáver debaixo da capa de invisibilidade, mas com todo Hogwarts dando voltas por aí, tinham que pensar em algo más prático.

Harry examinava o mapa do Maroto uma e outra vez, enquanto Ron caminhava ao redor da divisão.

-Nenhum túnel nos deixa perto o bastante de Dumbledore –disse Harry- Exceto talvez o seu acesso

privado às cozinhas.

Tomaram um atalho até ao quadro das frutas, ao que Fred fez cócegas. As cozinhas eram algo assim como as caldeiras de vapor para mover um enorme barco, com a diferença de que nos fornos se jogavam sacos de comida e não de carvão. Uma maré de elfos rodeou-os, assediando-os com bandejas de comida. Os poucos minutos que os seis se separaram foram suficientes para perder a Lockhart pela terceira ou quarta vez consecutiva. Altamente rotineiro.

No final estava debaixo de um lava-loiças, junto a uns sacos de batatas. Um elfo explicou que

pensaram que eram batatas porque Sprout lhes havia levado umas idênticas fazia alguns dias, e se

um dos amos diziam que isso eram batatas, tinham que sê-lo. Hermione teria querido investigar a fundo o que significava essa frase, mas os gémeos urgiam-nos porque faltava colocar o cenário para o diretor.

Meia hora depois estavam no escritório de Dumbledore. Fawkes via-os com curiosidade enquanto acomodavam a Gilderoy numa cadeira. Um ser que perece e renasce ciclicamente dificilmente entenderá o que é a morte. Escorreram-se do escritório enquanto escutavam os passos na escada de caracol do lado de fora. Só restava desejar-se mutuamente sorte. Poderia dizer-se, de uma maneira retorcida, que a tiveram.

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O canto de Fawkes recebeu-o desde a porta. O diretor surpreendeu-se de encontrar companhia no seu escritório. Gilderoy Lockhart aguardava-o, sentado na penumbra.

-Professor Lockhart, dá-me gosto que tenha vindo por si mesmo –disse Dumbledore-. Discutimos o assunto na reunião de professores.

Fawkes saltou para o seu ombro, muito, muito perto do professor. Albus todavia estava constipado e bem medicado, mas sentia bastantes tonturas. À sua idade, uma constipação era coisa perigosa. Tinha medo de não poder controlar a sua magia, como o dia da aula com os Gryffindor, e Minerva rogou-lhe que a deixasse encarregar-se, mas Albus encontrou inaceitável delegar algo tão importante.

Lockhart seguia calado, com a cabeça abaixada. O homem provavelmente estava arrependido. Ainda assim, Dumbledore não lhe iria deixar a coisa fácil. Não era como a vez de Poppy e as algemas, esta vez houve alunos implicados. Olhou as fotos que Minerva havia confiscado a um aluno do sexto, onde o professor aparecia atado à sua própria cama, como se o incidente com Luna não tivesse sido o suficiente. Além disso, os rumores de Hermione e os gémeos eram persistentes. Albus concentrou-se nas decisões da junta, para não se sentir irritável. O diretor apenas notou a pressão quando Fawkes abandonou o seu ombro.

-Escutei e vi hoje coisas arrepiantes a respeito de si -disse Dumbledore, apertando os punhos-. Sendo sincero, a maior parte dos professores desejam que se queime no Inferno.

De repente, o professor ardeu em chamas. Fawkes deu um salto até atrás. O professor consumiu-se

num segundo.

Albus ficou sem ar. Se conjurou sem querer o feitiço de combustão espontânea, era só culpa sua por não se controlar. Não era nem por aproximação a coisa mais estranha que lhe havia ocorrido, essa semana. Chamou imediatamente a professora McGonagall ao escritório.

-Minerva... –disse com voz nasalada- Creio que matei o professor Lockhart.

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O trio flutuava aborrecido de uma aula para a outra. Os rumores do que ocorreu no escritório de Dumbledore não eram suficientes para satisfazê-los. Os criminólogos do ministério haviam-se passeado pela escola fazendo perguntas. Naturalmente, eles não se tinham salvo, porque Severus os mencionou, a respeito da entrevista que teve com Gilderoy Lockhart. O trio assegurou tê-lo contactado na noite que realizaram o ensaio de Férias com as bruxas, e preparam-se para levar o álibi até às las últimas consequências, mas o seu interrogatório girava basicamente em torno da atitude do professor essa noite. A dizer de Ron, Scrabbers colocava-se louco cada vez que alguém do ministério se lhe aproximava, pelo qual o trio manteve-se à margem.

Os criminólogos já sabiam que Lockhart morreu muito antes de se queimar, graças à alta concentração de formol nos seus restos. Da sua lista de suspeitos, ou todos ou ninguém tinha álibi. Muitos deles confessaram tê-lo morto (o semi-gigante chorou), mas nada coincidia. Para o ministério, o assunto apontava a que Hogwarts inteiro conspirava encombrindo o assassinato. E isso

merecia um julgamento.