CAPÍTULO 8: Hogwarts a juízo

Os criminólogos do ministério, a forense e o juiz reuniram-se para deliberar. Num feito extraordinário, o juízo levou-se a cabo ali mesmo, em Hogwarts. Os alunos de alguma maneira estavam ao tanto, e pareciam conspirar juntamente com os professores. Na manhã seguinte, o Salão Principal quase foi sepultado por corujas de pais angustiados, fanáticas de Lockhart enlouquecidas, howlers, e encomendas.

-Vejamos. Sabemos que Gilderoy estava morto quando entrou no escritório de Albus, e saturado de formol.

O auror a cargo estendeu uma serie de pastas sobre a mesa, e extraiu uma serie de cartões, com datas e factos recolhidos durante as entrevistas, do seu bolso.

-No entanto, escapou do dormitório das senhoritas da casa Ravenclaw, sem problemas durante a tarde do dia anterior. Tem que ter falecido essa mesma noite.

-Mas o semi-gigante confessou que o tinha morto, quando fez voar o seu machado na manhã de um dia anterior.

O auror pôs os seus cartões sobre a mesa e procurou o de Hagrid.

-E não nos esqueçamos dos monitores histéricos, que dizem tê-lo visto afogado na banheira depois de sair esse tal professor Snape, na tarde do incidente em Ravenclaw.

Outro dos membros do ministério negou com a cabeça.

-Não podemos concluir nada em claro com os monitores, pois estavam demasiado alterados. Além de que Snape não pôde ter-se-lhe acercado essa noite. Disse ter estado em Slytherin a conversar com Lucius. O filho de Lucius e outros Slytherins juram tê-lo visto essa noite, cuidando da sala comum. Além de que a monitora não o notou quando entrou no quarto de banho e há testemunhas de que o professor foi ao seu escritório segundos depois.

Um auror por trás do que tinha os cartões aclarou a garganta.

-E a treinadora que o encerrou no armário de equipamentos de quidditch? Concorda com o que diz o zelador a respeito do armário com a porta emperrada.

-Esse zelador sabe mais do que diz. Outro professor assegura que lhe comentou algo dentro de um armário, mas não sabe quando ocorreu, assim que não tenho um cartão para essa linha de desenvolvimento.

O forense olhou para os cartões e tentou de reorganizá-los com os resultados da autópsia. Nada enquadrava.

-Os elfos terão visto algo?

-Só gente preocupada por sacos de batatas.

O auror dos cartões perguntou-se se era um bom momento para voltar a fumar. Morria por um cigarro. Os outros sentaram-se pesadamente e começaram a servir-se de café. Para ser uma escola de ensino intermédio, em Hogwarts todos lutavam demasiado pelo café.

-Sabemos algo do formol no quarto de banho dos Gryffindors?

-Pelo que dizem os seus companheiros, os garotos Weasley estão sempre a preparar coisas no quarto de banho. Snape também os relacionou com Gilderoy mas foram vistos a dormir nas suas camas depois do incidente em Ravenclaw. A menina Weasley falou com menina Lovegood do lado de fora e foi vista pelo rapaz Longbottom escrevendo no seu diário essa noite.

-O rapaz Longbottom também disse que viu Gilderoy na enfermaria, mas não estava seguro em que dia tinha sido. O que é que disse a enfermeira a respeito disso?

-Ela e a professora de Herbologia estiveram juntas essa noite, mas não me convence a sua explicação... creio que estão a encobrir algo, ninguém demora toda a noite a ordenar a enfermaria. A enfermeira tinha marcas nos pulsos esta manhã, creio que a está a forçar a encobri-la.

O juiz e os demais criminólogos dirigiram uma horrível mirada à forense, que falava nesse momento, visto que parecia ser a única que não captava o que ocorria entre as duas docentes. Não era problema do Ministério, ao fim de contas eram duas adultas em condiciones de dar o seu consentimento, mas a comunidade de Hogwarts era maioritariamente conservadora. Isso podia colocá-las na mira, como as fotografias que um tal Colin tomou do professor, mas não foram vistas saindo da enfermaria durante toda a noite.

Sentiam estar a caminhar em círculos ou pelo menos em espirais. Todos os professores beberam Veritaserum antes do interrogatório, exceto a enfermeira mas esse ponto já estava coberto. Podia enganar-se ao Veritaserum, mas tantas pessoas de uma vez? E tão perfeitamente coordenados?

Poderia pensar-se que Dumbledore afetou as memórias de todos para encobri-lo, se os restos carbonizados não dissessem claramente que o professor tinha demasiado formol para estar vivo. Quase tão impregnado como o próprio Dumbledore estava de xarope para o resfriado.

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Como costuma ocorrer em Hogwarts, onde todos sabem tudo mas nada se sabe de facto, circulavam pela biblioteca, corredores e escadas todo o tipo de rumores. É mais, alguns alunos tinham feito pins com slogans tais como "Quem (não) matou Gilderoy Lockhart?" e "Tenho álibi: dormi com a tua irmã".

A Hermione fazia-lhe muito pouca graça que outras pessoas brincassem com o assunto, Harry todavia refletia sobre o tema. Ron, por sua parte, comprou-lhe a Lee Jordan um pin que tinha o desenho de um Lockhart dançante, a arder em chamas. Dizia que combinava com o uniforme dos Canons.

Ao final comprou outro para oferecer a Hermione. Ela contorceu os olhos e deu-lhe um beijo na bochecha.

Ron pensou por um momento na palmada que Hermione lhe deu na cabeça. Sentia uma sensação no estômago que não compreendia. Como quando comes waffles, mas só desejas mais e mais xarope de maple, não o waffle em si.

O desastre era tal que suspenderam as aulas. Os slytherins aproveitaram a oportunidade para embriagar-se, com álcool tirado de sabe-se lá de onde. Muitos gryffindors quiseram ter ido fazer-lhes companhia, mas a professora McGonagall tinha-os encerrados na sala comum e a saída da casa era vigiada por ela mesma. Quando Percy, o único monitor de Gryffindor que andava fora, chegou com a notícia que já havia um veredito, os alunos em tropel desceram ao Salão Principal. Aí já esperavam os alunos de outras casas e professores. O juiz, sentado na mesa que regularmente correspondia aos professores, bebeu um copo de água e suspirou profundamente antes de falar.

-Jovens alunos, professores, pessoal auxiliar, fantasmas presentes e diretor Dumbledore. Apesar da numerosa evidência, as múltiplas confissões, as pistas que não levam a nada, mesmo tendo recorrido ao uso do Veritaserum. As circunstâncias ao redor da morte do professor Gilderoy obrigaram-nos a chegar ao seguinte veredicto... toda a escola o matou, mas como não se pode levar Hogwarts completo a Azkabán, decidimos que o crime será expiado aqui mesmo, com uma multa de 150,000 galeões e serviço comunitário. É tudo.

A escola completa rompeu em aplausos. Os professores abraçaram-se entre eles (Hooch estava a jogar umas miradas horríveis a Pomfrey mas mais ninguém notou isso), Hagrid levantou Sprout nos braços no meio da emoção.

Harry surpreendeu-se de ver que até os Slytherins se abraçavam (Draco no meio de uma sándwich de meninas), e Snape aplaudindo ("Provavelmente estão embriagados", explicou Hermione).

Ninguém se preocupava pelo dinheiro: Uma companhia de cinema fundada por squibs pagou-lhes pouco mais de meio milhão de galeões a Hogwarts em troca dos direitos de autor para que a Warner filmara aí mesmo um documentário nesse verão, ou algo assim, e além disso tinham direito a 1% das regalias de toda a mercadotecnia. Hogwarts, por tanto, era rica o bastante para matar a quantos Gilderoy se pusessem no seu caminho se a multa só ascendia a 150,000 galeões.

Essa tarde, o trio, Ginny e os gémeos reuniram-se a festejar duplamente no lago. Beberam cerveja amanteigada (à falta de outra coisa, os Slytherins não soltavam nenhuma pista de onde obtinham o álcool) e jogaram snap explosivo até tarde. Harry tomou um bocado para ir a ver o novo viveiro de gurgulombrices de Hagrid, e comprovou com alegria que já havia reparado os estragos dos pixies nas suas ferramentas. Até estava a planear agregar gelagusanos.

Terminaram o dia com uma dose de bengalas do doutor Filibuster. Era delicioso que a vida retornasse à sua ingénua simplicidade habitual.

-Alguém viu Hermione? -perguntou Ron.

-Não a vi desde a penúltima ronda de snap. Disse que lhe tinha acabado o dinheiro e ia por sickles ao dormitório -disse Harry distraído, ajudando a Ginny com a ladeira.

A maneira estranha em que as coisas se desenrolaram os últimos dias vinha-lhe à cabeça, mas a verdade, se não voltava a saber nada de esconder mortos pelo resto da sua vida o agradeceria muito. Ainda que não acreditava que alguém fosse alguma vez voltar a desenterrar o assunto.

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EPÍLOGO

A professora McGonagall assentia a cada frase que a sua melhor estudante lhe soltava. A senhorita Granger confessou estar muito alterada pelo assunto e agradeceu-lhe infinitamente que a escutasse. O tipo de coisas como andar movendo mortos por toda a escola era demasiado para uma adulta como ela, não se diga para uma menina de doze anos.

-Então... então não dirá nada a ninguém? -questionou Hermione, afogando um soluço-. Tinha que ajudá-los!

-Não te preocupes, Hermione. Fizeram o que até eu própria faria –respondeu a professora, colocando a mão no ombro de Hermione-. Tens a minha palavra de que nada disto sairá desta sala. Agradeço que tenhas a confiança para falar do assunto justamente comigo.

Após uns minutos de silêncio, a senhorita Granger saiu do escritório da sua professora de Transformações, sentindo que lhe tinham tirado um peso de cima.

Minerva McGonagall, por sua parte, ficou a refletir sobre o assunto.

Minerva não tinha planeado matar Gilderoy Lockhart. Certo, estava muito chateada pela tarefa que encarregou aos Gryffindors, mas a discussão saiu completamente de controlo, e de um minuto para o outro Minerva encontrou-se a si mesma a lançar um Avada.

Após o breve momento de pânico sobre como desfazer-se do cadáver, decidiu deixá-lo no escritório do professor.

Quem teria dito que por levar o cadáver de Gilderoy Lockhart ao seu escritório, Harry e

companhia terminariam carregando com ele, com a culpa e com as suspeitas?

McGonagall sacudiu o vestido. Atirou ao lavatório o resto do frasco de belladona com o que

havia adulterado o xarope para a tosse e foi a buscar Dumbledore ao seu quarto. Dir-lhe-ia que

preparou outro xarope, algo mais suave. Já não o necessitava fora de combate.

Ser a sub-diretora e que todos te considerem de confiança, tem as suas vantagens.


Nota da Autora:

E acabou-se! Estarei a subir os extras em breve.