Todos os personagens pertencem a Masashi Kishimoto. A história é de autoria de Lisa Kleypas do seu livro A Redenção – Série The Travis Family.
Essa fanfic é uma adaptação.
Capitulo 03
Ao contrário da minha expectativa de uma fuga para casar em uma cerimônia furtiva celebrada por Elvis em Las Vegas, havia hotéis na Flórida, no Havaí e no Arizona que ofereciam "pacotes de fuga" que incluíam o serviço de casamento, a estadia no hotel, massagens e pensão completa. Naruto e Hinata pagaram nossa fuga para o arquipélago de Florida Key s — foi o presente de casamento deles para mim e Sasori.
Um vez que tinha assumido uma posição contrária ao meu casamento com Sasori, papai cumpriu sua ameaça de me cortar da vida dele. Nada de dinheiro nem comunicação.
"Uma hora ele vai ceder", meus irmãos disseram, mas eu respondi, enfática, que não queria que meu pai cedesse. Eu já tinha aguentado demais o jeito controlador dele, o suficiente por toda uma existência. Hinata e eu tivemos nossa primeira discussão quando ela tentou me dizer que Minato ainda me amava e sempre amaria.
"Claro que ama", eu rebati. "Como um peão, uma criança. Mas como adulta, com minhas próprias opiniões e preferências... não. Ele só ama quem passa a vida tentando agradá-lo."
"Ele precisa de você", Hinata insistiu. "Algum dia..."
"Não, ele não ama", eu cortei. "Ele tem você!", era injusto da minha parte descontar nela, e eu sabia disso, mas não consegui me segurar. "Seja você a boa filha", eu disse, impulsiva. "Eu já o aguentei demais."
Demorou muito tempo até que eu e Hinata nos falássemos de novo.
Sasori e eu nos mudamos para Plano, ao norte de Dallas, onde Sasori começou a trabalhar como orçamentista em uma empreiteira. Não era algo que ele quisesse fazer para sempre, mas o pagamento era bom, principalmente das horas extras.
Eu consegui um emprego básico como coordenadora de marketing do Hotel Darlington, o que significava que eu ajudava o diretor de comunicações com projetos de marketing e relações públicas.
O Darlington era um hotel moderno e avançado, que tinha uma estrutura única e elíptica, o que por si só já seria bem fálico, mas que ainda foi revestido de granito cor-de-rosa. Talvez essa sugestão subliminar tenha sido responsável, em parte, pelo Darlington ser eleito o hotel mais romântico de Dallas.
Eu não sabia muito bem o que pensar de Dallas. Comparada a Houston, tinha um ar minimalista, cosmopolita, bem encaixado. Poucos chapéus de caubói, educação muito melhor. E Dallas era politicamente mais consistente do que Houston, cuja política oscilava drasticamente de eleição para eleição.
Toda a família do Sasori vivia em Dallas ou nos arredores. Os pais dele tinham se divorciado e casado com outras pessoas quando ele ainda era garoto. Em meio a todos os meios-irmãos, e os irmãos e irmãs por afinidade, além dos irmãos de sangue, eu tinha dificuldade em saber quem era quem. Isso não parecia ter importância, contudo, porque nenhum deles era muito próximo.
Nós compramos um apartamento pequeno com duas vagas de garagem e uma piscina comum. Eu decorei o imóvel com mobília contemporânea, colorida e barata, e adicionei cestas e peças de cerâmica mexicana. Na nossa sala de estar, eu pendurei uma imensa reprodução de um antigo pôster de viagem, que mostrava uma garota de cabelo castanho segurando uma cesta de frutas debaixo de um letreiro que dizia "Visite o México: Terra do Esplendor".
"É o nosso estilo especial", eu disse para Sasori quando ele reclamou que nossos móveis eram uma porcaria e reclamou que não gostava de decoração estilo sudoeste. "Eu chamo de 'Ikea Loco'. Acho que acabei de inventar um novo estilo e logo todo mundo vai nos copiar. Além disso, é o que nós podemos pagar."
"Nós poderíamos pagar um maldito palácio", Sasori respondeu, azedo, "se o seu pai não fosse tão cuzão."
Eu fiquei chocada com aquela demonstração de hostilidade, um ataque relâmpago que pareceu vir do nada. Minha alegria com o apartamento era uma irritação para Sasori. Eu estava brincando de casinha, foi o que ele me disse. Ele queria ver se eu continuaria feliz depois de viver durante algum tempo como classe média.
"É claro que vou continuar feliz", eu disse. "Eu tenho você. Não preciso de uma mansão para ser feliz."
Às vezes, Sasori parecia estar muito mais afetado pela mudança nas minhas circunstâncias do que eu mesma. Ele dizia que se ressentia do nosso orçamento apertado por minha causa. Ele detestava não termos condição de bancar um segundo carro.
"Eu não me importo", eu falei, e isso o deixou mais bravo, porque se ele se importava, eu também deveria me importar.
Depois que as tempestades passavam, contudo, a paz voltava ainda mais doce. Sasori me telefonava no trabalho pelo menos duas vezes por dia só para ver como eu estava. Nós nos falávamos o tempo todo.
"Eu quero que a gente conte tudo um para o outro", ele disse uma noite, quando estávamos no meio de uma garrafa de vinho. "Meus pais sempre tiveram segredos. Eu e você devemos ser completamente abertos e honestos."
Eu adorava aquela ideia — na teoria. Na prática, entretanto, era demais para minha autoestima. Honestidade total, como acabei vendo, nem sempre era bondosa.
"Você é tão bonita", Sasori me disse uma noite, depois que fizemos amor. Ele passeou a mão pelo meu corpo, subindo pela curva delicada do meu peito. Eu tinha seios pequenos, que não enchiam muito bem um bojo. Sasori tinha reclamado, brincando, da minha falta de atributos, dizendo que pagaria implantes para mim, se um par de peitões não ficasse ridículo em uma mulher tão baixa e magra quanto eu. Seus dedos chegaram ao meu rosto, acompanhando a curva da minha face. "Grandes olhos verdes... narizinho arrebitado... uma boquinha linda. Não importa que você não tenha corpo."
"Eu tenho corpo", eu disse.
"Eu quis dizer peitos."
"Eu tenho isso também. Eles só não são grandes."
"Bem, eu te amo de qualquer jeito."
Eu queria comentar que Sasori também não tinha um corpo perfeito, mas eu sabia que isso daria início a uma briga. Ele não reagia bem a críticas, mesmo quando delicadas e bem-intencionadas. Sasori não estava acostumado a ter seus defeitos apontados. Eu, por outro lado, tinha sido criada com uma dieta contínua de críticas e avaliações.
Mamãe sempre me contava histórias das filhas de suas amigas, detalhando como as meninas se comportavam bem, como elas ficavam lindamente sentadas quietas durante as aulas de piano, ou como faziam flores de lenços de papel para suas mães, ou exibiam os últimos passos de balé. Eu desejava com todo meu coração, nessas ocasiões, que pudesse ser um pouco mais parecida com essas garotinhas encantadoras, mas eu não conseguia deixar de me rebelar contra a tentativa de me transformar na versão mirim de Kushina Uzumaki. E então ela morreu, deixando-me com uma montanha de culpas e nenhum modo de expiá-las.
Nossos feriados — o primeiro Dia de Ação de Graças, o primeiro Natal, o primeiro Ano Novo — foram silenciosos. Nós ainda não tínhamos ingressado em nenhuma igreja, e parecia que todos os amigos de Sasori, aqueles que ele dizia serem sua família, estavam ocupados com suas próprias famílias. Eu me dediquei à preparação do jantar de Natal como se fosse um projeto de ciências. Estudei livros de culinária, fiz diagramas, arrumei cronômetros, medi ingredientes e cortei carne e vegetais nas dimensões corretas. Eu sabia que o resultado dos meus esforços eram razoáveis, mas não notáveis, mesmo assim Sasori disse que foi o melhor peru, o melhor purê de batatas e a melhor torta de noz que ele já tinha comido.
"Deve ser porque você me viu com pegadores de panelas nas mãos", eu brinquei.
Sasori começou a distribuir beijos barulhentos pelo meu braço como se ele fosse o Pepe Le Gambá dos desenhos animados.
"Vozê é uma diuza da cuzinha", ele imitou um sotaque francês.
O Darlington tinha ficado tão cheio durante as festas de fim de ano que eu tive que fazer hora extra, enquanto o trabalho de Sasori diminuiu até o Ano Novo. Com nossos horários fora de sincronia, Sasori ficou tomando conta de casa, o que o deixou irritado e reclamando sem parar de que não tinha tempo para mais nada. Nenhuma tarefa era concluída... o apartamento estava sempre uma bagunça, raramente tinha comida na geladeira e sempre havia pilhas de roupa suja.
"Não temos condição de levar todas as minhas camisas para o tintureiro", Sasori disse no dia seguinte ao Natal. "Você vai ter que aprender a passar."
"Eu?", eu nunca tinha passado uma peça de roupa na vida. Passar bem uma camisa era um dos mistérios do universo, semelhante a buracos negros e matéria escura. "Por que você não pode passar suas próprias camisas?"
"Eu preciso da sua ajuda. É demais pedir que você me dê uma mão com as minhas roupas?"
"Não, é claro que não. Eu só não sei o que fazer. Tenho medo de estragar suas camisas."
"Eu vou lhe mostrar como é. Você vai aprender", Sasori sorriu e me deu um tapa no traseiro. "Você só precisa entrar em contato com sua Martha Stewart interior."
Eu respondi que sempre mantive minha Martha Stewart interior acorrentada no porão, mas que por ele eu a libertaria.
Sasori foi muito paciente enquanto me mostrava com exatidão o passo a passo de como gostava que suas camisas fossem engomadas e passadas. Ele foi muito específico nos detalhes. A princípio foi divertido, do mesmo modo que assentar azulejos é divertido quando você aplica o primeiro... até ter que encarar um banheiro inteiro. Ou uma cesta de roupa suja cheia de camisas. Não importava o quanto eu tentasse, parecia que eu nunca deixava as camisas do jeito que Sasori gostava delas. Minha técnica no ferro de passar se tornou o foco de uma inspeção quase diária. Sasori ia até o armário, examinava a fileira de roupas passadas e me dizia no que eu tinha errado.
"Você precisa passar as bordas mais devagar para tirar todos os vincos", ou, "Você precisa seguir as costuras da cava do braço." "Você precisa usar menos goma." "As costas não estão lisas o bastante."
Exasperada e derrotada, eu finalmente decidi usar meu dinheiro pessoal — nós dois separávamos quantias iguais para gastar por semana — para que as camisas de Sasori fossem lavadas e passadas profissionalmente. Eu pensei que era uma boa solução, mas quando Sasori deparou-se com uma fileira de camisas penduradas dentro de sacos plásticos no armário, ele ficou puto da vida.
"Eu pensei que nós tivéssemos concordado", ele disse, seco, "que você ia aprender a passar as camisas."
"Eu usei meu dinheiro pessoal", expliquei com um sorriso conciliador. "Eu sou deficiente de ferro. Talvez devesse tomar um multivitamínico."
Ele se recusou a retribuir o sorriso.
"Você não está se esforçando."
Mal conseguia acreditar que nós estávamos brigando por algo tão banal quanto camisas. Não era, de fato, pelas camisas. Talvez ele achasse que eu não estava contribuindo o bastante com a relação. Talvez eu precisasse ser mais amorosa, ou apoiá-lo mais. Ele estava passando por muito estresse. Estresse dos feriados, do trabalho, de ser recém-casado.
"Eu vou me esforçar mais", eu disse. "Mas, amor,... tem alguma outra coisa te incomodando? Algo de que deveríamos falar, além de passar camisas? Você sabe que eu faria qualquer coisa por você."
Sasori me encarou com frieza.
"Tudo que eu preciso é que você faça alguma coisa certa para variar."
Eu fiquei com raiva por cerca de dez minutos. Depois disso, fui dominada pelo medo. Eu estava fracassando no casamento, a coisa mais importante que eu já tinha tentado fazer.
No dia seguinte, telefonei para o Sai, que foi compreensivo e disse que todo mundo tem discussões idiotas com o cônjuge. Nós concordamos que aquilo fazia parte de um relacionamento normal. Eu não ousei conversar com ninguém da minha família, porque eu preferia morrer a deixar meu pai suspeitar que o casamento não ia bem.
Eu pedi desculpas de modo humilhante.
"Não, a culpa foi minha", ele afirmou, passando os braços ao meu redor com um abraço firme e caloroso. Ganhar o perdão dele foi um alívio tão grande que senti lágrimas aflorando nos meus olhos. "Estou exigindo muito de você", ele continuou. "Você não consegue escapar à forma como foi criada. Nunca ninguém esperou que você fizesse algo pelos outros. Mas, no mundo real, é nos pequenos gestos, nas pequenas coisas que você mostra para um cara que você o ama. Eu gostaria que você se esforçasse mais", ele massageou meus pés depois do jantar e pediu que eu parasse de me desculpar.
No dia seguinte, vi uma nova lata de spray de engomar no armário da lavanderia. A tábua de passar tinha sido montada para mim, para que eu pudesse praticar enquanto Sasori começava o jantar.
Uma noite nós saímos com outros dois casais, colegas de trabalho de Sasori lá da empreiteira e suas respectivas esposas. Eu fiquei animada por ter alguma atividade social. Tinha sido uma surpresa descobrir que, embora Sasori tivesse crescido em Dallas, ele não tinha velhos amigos para me apresentar. Todos haviam se mudado, e não valia a pena esquentar a cabeça com os que ficaram, foi o que ele me disse. Eu estava ansiosa para fazer amizades em Dallas, e queria causar uma boa impressão.
Na hora do almoço, eu fui até o salão de beleza do hotel e pedi que uma das cabeleireiras cortasse vários centímetros do meu cabelo comprido. Quando ela terminou, o chão estava coberto de mechas onduladas róseas e meu cabelo estava médio e sedoso.
"Você não devia deixar seu cabelo ficar mais comprido que isto", a cabeleireira me aconselhou. "Do jeito que estava, era pesado demais para uma mulher delicada como você. Estava escondendo seu rosto."
Eu não tinha comentado com Sasori que ia cortar o cabelo. Ele o adorava comprido, e eu sabia que ele teria tentado me convencer a não cortar. Além disso, pensei que quando ele visse como tinha ficado bom — para não dizer que era bem mais fácil de cuidar —, Sasori mudaria de ideia.
Assim que me pegou, Sasori armou uma carranca.
"Parece que alguém andou ocupada hoje", ele apertava os dedos no volante.
"Você gostou? A sensação é ótima", eu balancei a cabeça de um lado para outro, como uma modelo de shampoo. "Estava na hora de dar uma boa aparada."
"Isso não é uma aparada! A maior parte do seu cabelo sumiu", cada palavra vinha carregada de decepção e reprovação.
"Eu cansei da minha aparência universitária. Acho que assim fica mais profissional."
"Seu cabelo longo era especial. Agora ficou comum."
Eu senti como se alguém tivesse injetado uma seringa de ansiedade líquida nas minhas veias.
"Sinto muito se você não gostou, mas dava muito trabalho. E o cabelo é meu, afinal."
"Bem, sou eu quem tenho que olhar para você todos os dias."
Senti que minha pele encolhia, até meu corpo ficar comprimido dentro de um envelope apertado.
"A cabeleireira disse que o cabelo estava escondendo o meu rosto."
"Fico feliz que você e ela pensam que o mundo precisa ver mais da sua maldita cara", ele murmurou.
Eu aguentei cerca de quinze minutos de um silêncio espesso, sufocante, enquanto Sasori dirigia em meio ao tráfego das seis horas. Nós estávamos indo direto para o restaurante encontrar os amigos dele.
"A propósito", Sasori disse bruscamente, "para que você não fique surpresa, eu disse às pessoas que seu nome é Hana."
Eu fiquei encarando o perfil dele totalmente confusa. Hana era meu nome do meio, que nunca era usado, a menos que eu estivesse encrencada. O som de "Sakura Hana" sempre tinha sido um sinal garantido de que alguém tinha jogado merda no ventilador.
"Por que você não disse para eles o meu primeiro nome?", eu consegui perguntar.
Sasori não olhou para mim.
"Porque faz você parecer uma caipira, com um nome de flor."
"Eu gosto do meu primeiro nome. Eu não quero ser Hana. Eu quero..."
"Jesus! Será que eu não posso ter uma mulher normal com um nome normal?", ele estava ficando vermelho, com a respiração pesada, e o ar ficou carregado de hostilidade.
A situação toda parecia irreal. Eu estava casada com um homem que não gostava do meu nome. Ele nunca tinha dito nada a respeito até então. Esse não é o Sasori, disse para mim mesma. O Sasori verdadeiro é o cara com quem me casei. Olhei para ele de soslaio. Ele parecia um marido normal, exasperado. Sasori estava pedindo normalidade, mas eu não sabia o que isso era.
Eu me esforcei para controlar minha respiração. Nós estávamos quase no restaurante — não podíamos entrar lá parecendo que tínhamos acabado de brigar. Eu sentia como se meu rosto estivesse revestido de vidro.
"Tudo bem", concordei. "Então vamos ser Sasori e Hana esta noite."
"Ótimo", ele pareceu relaxar um pouco.
Depois daquela noite, em que tudo correu bem com os amigos dele, era difícil Sasori me chamar de Sakura, mesmo quando estávamos só nos dois. Ele alegou que seria muito confuso quando saíssemos com outras pessoas, se eu não estivesse acostumada a ser chamada de Hana. Eu disse para mim mesma que essa mudança de nome poderia ser boa. Eu poderia me desfazer da minha bagagem do passado. Eu podia me tornar quem eu quisesse, uma pessoa melhor.
E isso agradava Sasori, algo que eu queria desesperadamente fazer.
Meu nome é Hana, repetia para mim mesma. Hana, a mulher casada que mora em Dallas, trabalha no Darlington e sabe como passar a ferro uma camisa.
Hana, cujo marido a amava.
Nosso casamento era como uma máquina que eu tinha aprendido a operar, mas que nunca compreendi os mecanismos internos que a faziam funcionar. Eu sabia como fazer as coisas que a mantinham rodando sem problemas, com todos os pequenos e grandes detalhes que mantinham Sasori nivelado. Quando Sasori estava feliz, eu era recompensada com afeto. Mas quando alguma coisa o incomodava, ele ficava rabugento ou irritado. Às vezes, demorava dias para eu conseguir fazer com que ele recuperasse o bom humor. O temperamento volúvel dele era o termostato que regulava nosso lar.
Quando começamos a nos aproximar de nosso primeiro aniversário de casamento, eu me dei conta de que os dias ruins do Sasori — os dias em que eu precisava ser compreensiva e contrabalançar cada uma das pequenas injustiças que ele sofria — eram mais numerosos que os dias bons. Eu não sabia como consertar isso, mas suspeitei que a culpa fosse minha. Eu sabia que outros casamentos eram diferentes, que as mulheres não precisavam ficar sempre preocupadas em prever as necessidades do marido nem estavam sempre pisando em ovos. Com certeza, o casamento dos meus pais não tinha sido assim. E se tivesse sido, ainda assim a casa girava ao redor das necessidades e vontades da minha mãe, e era meu pai que aparecia de vez em quando para agradá-la.
Sasori nutria uma raiva cada vez mais profunda da minha família, culpava meu pai por não nos dar dinheiro para comprarmos uma casa. E me pressionava a entrar em contato com ele e com meus irmãos, a pedir coisas para eles, e ficava bravo quando eu me recusava.
"Não vai adiantar nada", eu argumentava, embora isso não fosse verdade.
Apesar da atitude do meu pai, meus irmãos teriam me dado qualquer coisa que eu pedisse. Principalmente Naruto. Nas poucas ocasiões em que nos falamos ao telefone, ele perguntou se havia algo que podia fazer por mim e Sasori, e eu respondi que não, de modo algum, que tudo estava ótimo. Eu receava dar alguma pista para o Naruto de como a situação realmente estava. Se ele puxasse uma ponta, eu podia me desfazer por completo.
"Seu pai vai ter que começar a fazer algo por nós quando tivermos filhos", Sasori me disse. "Seria um constrangimento público para ele ter netos vivendo num barraco caindo aos pedaços. Aí ele vai ter que soltar algum dinheiro, aquele pão-duro desgraçado."
Eu ficava preocupada com o fato de que Sasori parecia ver nossos futuros filhos como ferramentas que seriam usadas para abrir os cofres da família Uzumaki. Eu sempre planejei ter filhos quando me sentisse pronta, mas aquela situação não tinha como acomodar um bebê cheio de dificuldades e exigências. Eu não conseguia manter feliz nem meu marido difícil e exigente.
Eu nunca tive problemas para dormir, mas comecei a ter sonhos que me acordavam à noite, o que me deixava exausta no dia seguinte. Mas se eu ficava me revirando na cama, Sasori também acordava, então com frequência eu ia para o sofá no meio da noite, e ficava tremendo debaixo de uma manta. Eu sonhava que perdia meus dentes, que caía de prédios altos.
"Foi tão esquisito", eu comentei com Sasori certa manhã enquanto ele tomava café, "esse sonho que tive a noite passada. Eu estava em algum parque, caminhando sozinha, e aí minha perna direita caiu. Sem sangue nem nada. Era como se eu fosse uma boneca Barbie. Eu fiquei tão nervosa, imaginando como faria para andar sem aquela perna, e então meu braço quebrou no cotovelo, e eu o peguei e tentei encaixar no lugar, enquanto pensava, 'eu preciso deste braço, eu tenho que encontrar alguém para consertar isso.' Então..."
"Você já tomou sua pílula esta manhã?", Sasori me interrompeu.
Eu tomava anticoncepcional desde que nós começamos a dormir juntos.
"Não", respondi, "eu sempre tomo depois do café da manhã. Por quê? Você acha que os hormônios podem estar me dando pesadelos?"
"Não, eu acho que você mesma é a causa dos seus pesadelos. Eu perguntei porque acho que está na hora de você parar com a pílula. Nós deveríamos começar a ter filhos enquanto somos jovens."
Eu o encarei. Uma onda enorme de relutância passou por mim, com todas as células do meu corpo resistindo à ideia de um grande desamparo alimentado por hormônios que tornaria tudo impossível. Mas eu não podia dizer não. Isso desencadearia um mau humor que duraria dias. Eu tinha que achar um jeito de fazer Sasori mudar de ideia.
"Você acha mesmo que estamos prontos?", perguntei. "Acho que é melhor nós economizarmos algum dinheiro antes."
"Não precisamos fazer isso. Seu pai vai ficar muito mais razoável quando descobrir que Naruto e Hinata não são os únicos que podem produzir um bebê."
Percebi, então, que Sasori tinha menos interesse no bebê em si do que na utilidade que a criança teria para manipular Minato Uzumaki. Será que ele sentiria algo diferente quando o bebê nascesse? Ele seria um daqueles pais que se derretem com a visão da pessoinha que ajudou a trazer para o mundo?
Por mais que tentasse imaginar, eu não conseguia visualizar Sasori com a paciência necessária para lidar com um bebê gritando, uma criança bagunceira, um filho carente. Eu ficava assustada só de pensar em como estaria presa a ele, como seria dependente dele se tivéssemos um filho juntos.
Entrei no banheiro para me aprontar para o trabalho; passei rímel nos cílios e brilho nos lábios. Sasori veio atrás e começou a remexer na variedade de cosméticos e produtos para cabelo que eu mantinha sobre a bancada. Ele encontrou o frasco de plástico com as minhas pílulas anticoncepcionais e o abriu, revelando o disco com comprimidos de cor pastel.
"Você não precisa mais disto", ele jogou as pílulas no lixo.
"Eu tenho que terminar o ciclo", protestei. "E normalmente, antes de tentar engravidar, a mulher tem que fazer um check-up..."
"Você é saudável. Deve estar bem", ele pôs a mão no meu ombro e me forçou a levantar quando me curvei para resgatar as pílulas do lixo. "Não pegue."
Uma risada de incredulidade espocou da minha garganta. Eu tinha sido condicionada, ao longo de meses, a tolerar os caprichos de Sasori em nome da harmonia, mas aquilo era demais. Eu não seria forçada a ter um bebê que nenhum de nós estava pronto para criar.
"Sasori, eu prefiro esperar", peguei uma escova de cabelo e comecei a pentear meu cabelo embaraçado. "E este não é um bom momento para conversarmos sobre filhos, com os dois se aprontando para o trabalho e..."
"Eu decido sobre o que nós conversamos e quando!", a intensidade explosiva da voz dele me assustou e eu deixei a escova cair. "Eu não sabia que precisava marcar uma droga de reunião com você para falar da nossa vida pessoal!"
Eu fiquei branca com o susto; meu coração batia em ritmo violento.
"Sasori..."
"Você alguma vez já pensou em alguém ou alguma coisa além de si mesma?", a raiva contraía a garganta e os músculos do rosto dele. "É sempre o que você quer... sua vaca egoísta, e o que eu quero?"
Ele se inclinou sobre mim, enorme e furioso, e eu me encolhi contra o espelho.
"Sasori, eu só...", minha boca tinha secado tanto que eu mal consegui expelir as palavras. "Eu não estou me recusando. Eu só quero... gostaria... de conversar a respeito mais tarde."
Isso me fez receber um olhar de desprezo absoluto.
"Eu não sei", ele disse. "Talvez não valha a pena conversar sobre isso. Este casamento todo não vale um peido. Você acha que me fez uma grande merda de favor casando comigo? Fui eu que te fiz um favor. Quem mais iria aguentar todas as suas cagadas?"
"Sasori...", em pânico e confusa, eu o observei voltar para o quarto. Comecei a ir atrás dele, mas me segurei, com medo de enfurecê-lo ainda mais. No geral, era difícil enfurecer os homens da minha família, e depois que eles explodiam, logo passava. O temperamento de Sasori era diferente, um incêndio que alimentava a si próprio, e crescia até atingir proporções muito maiores que a causa original. Neste caso, eu não sabia qual seria a melhor estratégia a seguir... se eu fosse atrás dele para me desculpar, poderia ser o mesmo que jogar gasolina no fogo. Mas se eu permanecesse no banheiro, ele poderia se ofender ainda mais por ser ignorado.
Eu decidi ficar à porta, com um pé em cada aposento, esperando por um sinal do que Sasori queria. Ele foi até o armário e começou a empurrar as roupas com movimentos rápidos e violentos, à procura de uma camisa. Eu decidi recuar e voltei para o banheiro.
Minhas bochechas pareciam brancas e duras. Eu passei um pouco de blush rosa com pinceladas leves, mas o pó colorido parecia ficar depositado sobre a minha pele, sem ser incorporado. O pincel pegou a umidade do suor de nervosismo e produziu listras avermelhadas. Eu estiquei a mão para pegar uma toalhinha para limpar o rosto, e foi aí que o mundo pareceu explodir.
Sasori tinha voltado e me encurralou, trazendo alguma coisa em sua mão crispada. Gritando. Jamais alguém tinha gritado na minha cara daquele jeito; com certeza nenhum homem, e aquilo foi um tipo de morte. Eu fui reduzida a um animal sendo atacado, incapaz de enxergar além da lividez do medo, congelada na incompreensão muda.
A coisa na mão dele era uma camisa listrada... que não sei como eu tinha estragado... foi um erro... mas Sasori disse que era sabotagem. Eu tinha feito de propósito, ele acusou, justo quando ele precisava dela para uma reunião importante naquela manhã, e eu disse não eu não fiz de propósito eu sinto muito, mas cada palavra minha piorava a expressão assassina no rosto de Sasori, que levou o braço para trás e o mundo pegou fogo.
Minha cabeça foi jogada para o lado, o rosto ardendo, gotículas de suor e lágrimas saíram voando. Uma imobilidade ardente veio a seguir. Parecia que as veias do meu rosto estavam enormes e latejantes.
Eu demorei para entender que Sasori tinha batido em mim. Eu fiquei balançando, sem entender, usando a ponta dos dedos para explorar o lugar em que calor se transformou em torpor.
Eu não conseguia enxergar através do borrão em meus olhos, mas ouvi a voz de Sasori, carregada de desprezo.
"Olha só o que você me fez fazer."
Ele voltou para o quarto.
Não sabia como reagir. Não podia fugir do apartamento. Nós só tínhamos um carro. E eu não saberia para onde ir. Eu segurei a toalhinha debaixo da água fria, sentei no vaso sanitário tampado e encostei o tecido encharcado na minha bochecha.
Eu não tinha com quem conversar. Sai não poderia me reconfortar quanto a isso, não dava para dizer que fazia parte de um relacionamento normal. Uma onda de vergonha se espalhou por mim, vazando da medula dos meus ossos... a sensação de que eu tinha feito por merecer, ou não teria acontecido. Eu sabia que isso não estava certo. Mas alguma coisa em mim, no modo como fui formada, tornava impossível fugir àquela vergonha que se espalhava. Ela estava escondida dentro de mim desde sempre, esperando para emergir. Esperando por Sasori, ou por alguém como ele. Eu estava marcada com aquilo, como tinta invisível... sob a luz certa, ela aparecia.
Eu esperei imóvel enquanto Sasori terminava de se arrumar para o trabalho. Eu nem me mexi quando o ouvi ligar para o Darlington e dizer que eu não iria naquele dia. Sua esposa estava doente, ele disse, pesaroso. Uma gripe ou um resfriado, ele não sabia direito. Sasori parecia preocupado e afetuoso. Ele riu um pouco de alguma coisa que a pessoa no outro lado da linha disse.
"Pode deixar", ele respondeu, "eu vou cuidar bem dela."
Eu esperei até ouvir o tilintar das chaves e a porta da frente sendo fechada. Movimentando-me como uma velha, eu enfiei a mão no lixo e peguei minhas pílulas. Tomei uma e levei água até a boca com a mão, engolindo tudo com dificuldade.
Vi a camisa listrada no chão do quarto e a coloquei sobre o colchão. Não encontrei nada de errado nela. Não consegui achar o defeito que havia enlouquecido Sasori.
"O que foi que eu fiz?", perguntei em voz alta, meus dedos acompanhando as listras da camisa como se fossem barras de ferro. O que eu tinha feito de errado?
Minha vontade de agradar parecia uma doença. Eu sabia disso, e continuava mesmo assim. Eu lavei, engomei e passei a camisa listrada outra vez. Cada fio da trama de algodão estava perfeitamente liso, cada botão brilhante e imaculado. Eu a pendurei no armário e examinei todas as outras camisas, alinhei os sapatos e pendurei as gravatas de modo que todas ficassem perfeitamente alinhadas pela parte de baixo.
Quando Sasori voltou para casa, o apartamento estava arrumado e a mesa posta. Eu tinha colocado uma caçarola de frango com molho ranch no forno. Era o jantar favorito dele. Mas foi difícil olhar para Sasori.
Ele entrou arrependido e sorridente, com um buquê de flores mistas na mão, e me entregou a oferenda cheirosa; as pétalas farfalharam ao raspar nas camadas de papel e celofane.
"Pra você, querida", ele se inclinou para beijar minha face, a que ele tinha estapeado no começo do dia. Esse lado do meu rosto estava rosado e inchado. Fiquei imóvel enquanto a boca dele tocava minha pele. Eu queria empurrá-lo para longe de mim. Queria devolver a agressão. Mais que tudo, eu queria chorar.
Em vez disso, levei as flores para a pia e comecei a desembrulhá-las mecanicamente.
"Eu não deveria ter feito aquilo hoje de manhã", Sasori disse atrás de mim. "Eu pensei em você o dia todo."
"Eu também pensei em você", pus o buquê em um vaso e o enchi com água, incapaz de encarar a tarefa de cortar e arrumar as flores.
"Foi só a gota d'água, ver o que você fez com a minha camisa."
Eu limpei o balcão devagar, descrevendo círculos pequenos com uma toalha de papel.
"Eu não entendi o que havia de errado com a camisa."
"Tinha dez vezes mais goma que o necessário. Quero dizer, eu poderia cortar uma fatia de pão com uma daquelas mangas", uma pausa longa, e então ele suspirou. "Eu exagerei na minha reação. Eu sei disso. Mas como eu disse, foi só a gota d'água. Tantas outras coisas tem me deixado maluco, e ver o que você fez com a minha camisa foi demais."
Eu me virei para encará-lo, segurando os punhos das minhas mangas longas por cima dos meus dedos, de modo que eles pareciam patas de gato.
"Que outras coisas?"
"Tudo. O modo como nós vivemos. Este lugar nunca está limpo e organizado. Nós nunca comemos uma refeição caseira. Tem sempre um monte de porcaria por todos os cantos", ele ergueu as mãos, como que para se defender, quando viu que eu ia começar a falar. "Oh, eu sei, está tudo muito bonito agora. E eu vi que você está com o jantar no forno. Eu admiro isso. É assim que deveria ser o tempo todo. Mas não dá para ser com nós dois trabalhando."
Eu logo entendi o que Sasori queria. Só não entendia por que ele queria aquilo.
"Eu não posso parar de trabalhar", aleguei, entorpecida. "Nós não podemos ficar sem o meu salário."
"Eu estou para ser promovido. Nós vamos ficar bem."
"Mas... o que eu vou fazer o dia todo?"
"Ser uma esposa. Cuidar da casa. De mim. E de si mesma", ele se aproximou. "E eu vou cuidar de você. Logo, logo você vai ficar grávida. Você ia ter mesmo que parar de trabalhar. Então já pode parar agora mesmo."
"Sasori, eu não acho que..."
"Nós dois estamos estressados, querida. Isso ajudaria a aliviar a pressão, e você poderia cuidar de todas essas coisas que nunca são feitas", estendendo o braço, Sasori pegou delicadamente uma das minhas mãos, que levou até seu rosto.
"Eu sinto muito por ter feito o que fiz esta manhã", ele murmurou, passando o rosto na minha palma. "Eu juro que nunca mais vai se repetir. Não importa o que aconteça."
"Você me assustou, Sasori", eu sussurrei. "Não parecia você."
"Tem razão. Você sabe que aquele não sou eu", com carinho infinito, ele me puxou para si. "Ninguém nunca vai conseguir te amar tanto quanto eu. Você é tudo para mim. E nós vamos cuidar um do outro, certo?"
"Não sei", minha voz saiu irregular e comprimida. Eu nunca me senti tão dividida, querendo ficar e querendo fugir, sentindo amor e medo.
"Você pode arrumar outro emprego depois, se quiser", Sasori emendou, parecendo razoável. "Mas vamos tentar do meu jeito. Eu quero que você seja livre, para variar."
"Por favor, não faça isso de novo, Sasori", eu me ouvi sussurrar.
"Nunca", ele disse sem hesitar, beijando minha cabeça, minha orelha, meu pescoço. Com delicadeza, os dedos dele alcançaram minha face avermelhada. "Pobrezinha", ele murmurou. "Que bom que eu dei com a mão aberta, senão você estaria com um hematoma e tanto."
CONTINUA!
Tenso né! Mais se lembrem da sinopse .
