Todos os personagens pertencem a Masashi Kishimoto. A história é de autoria de Lisa Kleypas do seu livro A Redenção – Série The Travis Family.
Essa fanfic é uma adaptação.
Capitulo 05
Eu cochilei um pouco durante o trajeto de carro e acordei minutos depois com o carro parado e Kiba abrindo a porta. O rugido de um jato pronto para decolar rompeu o silêncio protetor do Cadillac, e os cheiros de combustível, equipamento e do ar úmido do Texas chegaram até mim. Piscando e me endireitando devagar, eu percebi que estávamos na pista.
"Deixe-me ajudar você", Kiba pediu, estendendo as mãos para mim. Eu me afastei da mão dele e neguei com a cabeça. Passando o braço por cima do lugar em que Sasori tinha chutado minhas costelas, eu lutei para sair sozinha do carro. Quando me coloquei de pé, minha cabeça girou e uma névoa cinzenta cobriu meus olhos. Eu oscilei e Sasori pegou meu braço livre para me apoiar.
"Srta. Uzumaki", ele disse, continuando a segurar meu braço embora eu tentasse me soltar. "Srta. Uzumaki, por favor me escute. Tudo o que eu quero fazer é ajudá-la a entrar nesse avião. Você tem que me deixar ajudar. Se você cair ao subir sozinha nessa escada, com certeza vai ter que ir para o hospital. E eu vou ter que ir junto, caso contrário seu irmão vai quebrar minhas pernas."
Eu anuí e aceitei o apoio, embora meus instintos gritassem para eu o empurrar. A última coisa que eu queria era ser tocada por outro homem, ainda que aparentasse ser confiável e amistoso. Por outro lado, eu queria entrar naquele avião. Eu queria cair fora de Dallas, ir para longe de Sasori.
"Muito bem", Kiba murmurou, ajudando-me a chegar até o avião. "Não falta muito", Kiba disse, "e você vai poder se sentar de novo. Naruto vai estar lá, no destino, para te pegar."
Enquanto subíamos a escada com uma lentidão torturante, Kiba continuou em seu monólogo, como se tentasse me distrair da agonia produzida por minhas costelas e meu maxilar. "Este é um belo avião. Ele é de uma empresa de software com sede em Dallas. Eu conheço muito bem o piloto. Ele é ótimo e vai te levar com toda segurança."
"Quem é o dono da empresa?", eu murmurei, imaginando se seria algum conhecido.
"Eu", Kiba sorriu e me ajudou a sentar em um dos assentos da frente com muito cuidado e prendeu o cinto. Depois, ele foi até o bar, onde embrulhou alguns pedaços de gelo em um pano, que trouxe para mim. "Para o seu rosto. Descanse agora. Vou trocar uma ideia com o piloto e então você vai poder ir embora."
"Obrigada", eu sussurrei, segurando o embrulho gelado junto ao meu maxilar. Eu me afundei no assento e procurei moldar o pano com gelo ao lado inchado do meu rosto.
O voo foi horrível, mas graças a Deus curto, aterrissando no Aeroporto Hobby, no sudeste de Houston. Eu demorei para reagir quando o avião parou na pista, tentando soltar o cinto de segurança com os dedos sem coordenação. Depois que a escada foi encostada no avião, o copiloto emergiu da cabine e abriu a porta. Em questão de segundos, meu irmão estava dentro do avião.
Os olhos de Naruto estavam um tom incomum de azul-claro, não como mar, mas claros como um relâmpago. Os cílios pretos se destacavam no rosto pálido de preocupação. Ele congelou por um milissegundo quando me viu, então engoliu em seco e se aproximou.
"Sakura", ele disse, a voz áspera. Naruto se ajoelhou e apoiou as mãos nos braços da poltrona enquanto passava os olhos por mim. Eu consegui, enfim, me livrar do cinto de segurança e me inclinei para frente, na direção do aroma familiar do meu irmão. Ele fechou os braços ao meu redor em um abraço frouxo, diferente de seu toque firme, e percebi que ele estava tentando não me machucar. Eu o senti tremer por baixo da aparente imobilidade. Inundada pelo alívio, descansei o lado bom do meu rosto no ombro dele.
"Naruto", eu sussurrei, "amo você mais que tudo."
Ele teve que pigarrear antes de conseguir falar.
"Também te amo, irmãzinha."
"Não me leve para River Oaks."
Ele entendeu de imediato.
"Não, querida. Você vai para a minha casa. Eu ainda não contei para o papai que você está aqui."
Ele me ajudou a chegar ao carro dele.
"Não durma", ele disse, firme, quando fechei meus olhos e apoiei a cabeça no encosto.
"Estou cansada."
"Você tem um galo na parte de trás da cabeça. É bem provável que teve uma concussão, o que significa que não deve dormir."
"Eu dormi no avião", eu disse. "Estou bem, vê? Só me deixe..."
"Você não está bem", Naruto disse com uma selvageria que me fez estremecer. "Você..." Ele se interrompeu e moderou o tom da voz assim que viu o efeito que estava surtindo em mim. "Diabos, me desculpe. Não precisa ter medo. Eu não vou gritar. É só que... não é fácil... ficar calmo quando estou vendo o que ele fez com você", ele inspirou fundo, aos trancos. "Fique acordada até chegarmos no hospital. Só vai demorar alguns minutos."
"Hospital, não", eu gemi, saindo do meu torpor. "Eles vão querer saber como aconteceu."
A polícia seria avisada e iria abrir uma queixa de agressão contra Sasori, e eu não me sentia nem perto de estar pronta para lidar com tudo aquilo.
"Eu cuido disso", Naruto me tranquilizou.
É claro que sim. Ele tinha poder e dinheiro para evitar os procedimentos de costume. Mãos seriam engraxadas, favores seriam trocados. As pessoas olhariam para o outro lado no momento certo. Em Houston, o nome Uzumaki era uma chave para abrir ou fechar todas as portas, conforme necessário.
"Eu quero ir descansar em algum lugar", tentei parecer decidida, mas minha voz saiu arrastada e chorosa, e minha cabeça latejava demais para que eu conseguisse enfrentar uma discussão.
"Seu maxilar pode estar quebrado", Naruto disse em voz baixa. "E Deus sabe o que mais ele fez com você. Você pode me dizer o que aconteceu?", ele soltou num suspiro explosivo.
Eu neguei com a cabeça. Às vezes, a resposta para uma pergunta simples era muito complicada. Eu mesma não tinha certeza de como ou por que aquilo tinha acontecido, se tinha sido Sasori, eu ou nós dois éramos responsáveis por todo aquele estrago. Eu me perguntei se ele já tinha se dado conta de que eu não estava mais lá, se ele tinha ido até a entrada da casa e visto que estava vazia. Ou se dormia confortavelmente em nossa cama.
Naruto ficou em silêncio durante o resto do percurso até o Centro Médico de Houston, o maior distrito médico do mundo. Ele é composto de muitos hospitais diferentes, instituições acadêmicas e de pesquisa. Eu não tinha dúvida de que minha família havia doado novas alas e equipamentos para pelo menos meia dúzia dessas instituições.
"Essa foi a primeira vez?", Naruto perguntou quando parou o carro no estacionamento do pronto-socorro.
"Não."
Ele murmurou algumas palavras.
"Se eu tivesse imaginado que esse desgraçado ia levantar a mão para você, nunca teria deixado que você fosse com ele."
"Você não teria conseguido me impedir", eu disse, a voz grossa. "Eu estava decidida. E estúpida."
"Não diga isso", Naruto olhou para mim com os olhos repletos de uma fúria angustiada. "Você não foi estúpida. Você se arriscou com alguém, e ele se revelou... merda, não existe palavra para isso. Um monstro." O tom dele foi sombrio. "Um cadáver ambulante, porque quando eu o pegar..."
"Por favor...", eu já tinha aguentado muitas vozes furiosas e violência por uma noite. "Eu não sei se Sasori percebeu o quanto me machucou."
"Um machucadinho já seria o bastante para me fazer matar o canalha", ele me tirou do carro, pegando-me no colo para depois me carregar como se eu fosse uma criança.
"Eu posso andar", protestei.
"Você não vai andar pelo estacionamento calçando apenas meias. Droga, Sakura, sossega o facho."
Ele me carregou até a área de espera do pronto-socorro, onde pelo menos uma dúzia de pessoas já aguardava, e me colocou delicadamente ao lado do balcão da recepção.
"Naruto Uzumaki", meu irmão falou ao entregar um cartão para a mulher atrás do vidro. "Eu preciso que alguém veja minha irmã agora mesmo."
A mulher arregalou os olhos brevemente e indicou com a cabeça a porta à esquerda da recepção.
"Vou encontrá-lo na porta, Sr. Uzumaki. Pode entrar."
"Não", eu sussurrei para o meu irmão. "Eu não quero passar na frente de ninguém. Quero esperar, como as outras pessoas."
"Você não tem escolha."
"Não é justo", eu reclamei, determinada, enquanto uma enfermeira se aproximava. "Não vou fazer isso. Não sou mais importante do que ninguém que está ali..."
"Para mim você é."
Fiquei afrontada em nome das pessoas na sala de espera, todas aguardando sua vez enquanto eu passava na frente. E também fiquei mortificada por interpretar o papel de herdeira privilegiada.
"Tem até crianças lá fora", eu argumentei, tentando fazer Naruto me largar.
"Elas precisam de um médico tanto quanto eu."
"Sakura", Naruto disse com a voz baixa, mas inexorável. "Todo mundo naquela sala de espera está em melhores condições que você. Fique quieta, acalme-se e siga a enfermeira."
Com uma força alimentada pela adrenalina, eu me afastei dele com um repelão e bati contra a parede. Dor, muita dor, veio rápido demais de muitos lugares. Minha boca se encheu de água, meus olhos começaram a correr e eu senti a pressão da bile crescer.
"Eu vou vomitar", sussurrei.
Com uma velocidade milagrosa, uma vasilha de plástico em formato de rim apareceu como que por mágica, e eu me debrucei sobre ela, gemendo. Como eu não tinha jantado, não havia muita coisa para expelir. Eu vomitei sentindo muita dor, e terminei com algumas contrações secas.
"Eu acho que ela teve uma concussão", ouvi Naruto dizer para a enfermeira.
"Ela está com um galo na cabeça, falando arrastado. E com náusea.'
"Nós vamos cuidar dela, Sr. Uzumaki."
A enfermeira me acomodou em uma cadeira de rodas. A partir daquele ponto, não havia nada a fazer a não ser me entregar ao processo. Tirei radiografias, fiz ressonância magnética, procuraram fraturas e hematomas, fui desinfetada, remendada e medicada. Houve longos períodos de espera entre cada procedimento. Tudo demorou a maior parte da noite.
Fiquei sabendo que havia fraturado uma costela, mas o maxilar estava apenas contundido, não quebrado. Eu tive uma concussão ligeira, que não era o bastante para me fazer ficar no hospital. E eu recebi uma dose de Vicodin forte o bastante para deixar um elefante pirado.
Eu dormi durante o trajeto de quinze minutos até o apartamento dele no 1800 da Main Street, um prédio de propriedade da família Uzumaki feito de aço e vidro. Era uma estrutura de uso misto, com apartamentos milionários no alto e escritórios e lojas na base. A característica pirâmide de vidro no topo tinha conferido ao 1800 Main um status de ícone da cidade.
Eu já estive ali algumas vezes para comer em um dos restaurantes no térreo, mas nunca entrei no apartamento do Naruto. Ele sempre foi bastante reservado. Nós pegamos um elevador rápido até o décimo-oitavo andar. A porta do apartamento foi aberta antes mesmo que chegássemos ao fim do corredor. Hinata nos esperava com um robe cor de pêssego e o cabelo preso em um rabo de cavalo.
Eu preferia que ela não estivesse lá, minha cunhada linda e perfeita, que fazia todas as escolhas certas, a mulher que todos na minha família adoravam. Ela era uma das últimas pessoas que eu queria que me vissem daquele jeito. Eu me senti humilhada, uma aberração, enquanto me arrastava pelo corredor na direção dela. Hinata nos colocou para dentro do apartamento, que era ultramoderno, com decoração minimalista, e fechou a porta. Eu a vi ficar na ponta dos pés para beijar Naruto. Então ela se virou para mim.
"Espero que você não ligue...", eu comecei, e silenciei quando ela colocou os braços ao meu redor. Ela era tão macia, e cheirava a pó perfumado e pasta de dente, e o pescoço dela era quente e suave. Eu tentei me afastar, mas ela não deixou. Fazia muito tempo que eu não era abraçada assim por uma mulher adulta, desde a minha mãe. Era o que eu precisava.
"Estou tão feliz que você tenha vindo para cá", ela murmurou. Eu me senti relaxar, e compreendi que não receberia críticas de Hinata; nada além de bondade.
Ela me levou até o quarto de hóspedes e me ajudou a trocar de roupa e colocar uma camisola. Ela me pôs na cama e me cobriu como se eu não fosse mais velha que Hanabi. O quarto era imaculado, decorado em tons verde azulados e cinza.
"Durma o quanto você quiser", Hinata sussurrou e fechou a porta.
Deitada, eu me sentia tonta e pasma. Meus músculos contraídos conseguiram liberar a tensão, soltando-se como uma trança que se desfaz. Em algum lugar do apartamento, um bebê começou a chorar e foi logo acalmado. Eu ouvi a voz de Hanabi perguntar onde estavam os tênis roxos dela. A menina devia estar se aprontando para a escola. Algumas batidas de pratos e panelas... café da manhã sendo preparado. Eram sons reconfortantes. Sons de uma família.
E eu fui caindo, agradecida, no sono, enquanto parte de mim desejava nunca mais acordar.
Quando se é sistematicamente agredida, sua capacidade crítica vai sendo solapada até o ponto em que é quase impossível tomar decisões. Pequenas decisões são tão difíceis quanto as importantes. Até escolher o cereal do café da manhã parece perigoso. Você sente tanto medo de fazer a coisa errada, e ser culpada e punida por isso, que prefere que outra pessoa assuma a responsabilidade.
Para mim, deixar o Sasori não trouxe alívio. Quer estivesse ou não com ele, eu continuava enterrada em um sentimento de inutilidade. Ele tinha me culpado por ser responsável pela agressão que sofri, e a convicção dele me contaminou como um vírus. Talvez eu tivesse provocado. Talvez eu tivesse feito por merecer.
Outro efeito colateral de ter vivido com Sasori foi que a realidade tinha adquirido a consistência e a estabilidade de uma gelatina. Eu questionava a mim mesma e minhas reações a tudo. Eu não sabia mais o que era verdade. Eu não saiba dizer se meus sentimentos a respeito de qualquer coisa eram adequados.
Eu acordei, fui ao banheiro e examinei meu rosto no espelho. O olho estava preto, mas o inchaço tinha diminuído. Meu maxilar continuava inchado e estranho de um lado, e parecia que eu tinha saído de um acidente de carro. Mas eu estava com fome, o que pensei que era, provavelmente, uma coisa boa. E eu definitivamente estava me sentindo mais humana e menos um bicho morto na beira da estrada.
Fui cambaleando até a sala, grogue e dolorida, e vi Naruto sentado à mesa de vidro. Ele, que normalmente se apresentava impecável, no momento vestia camiseta velha e calça de moletom, e seus olhos boiavam no meio de grandes círculos escuros.
"Uau", eu disse, indo me sentar ao lado dele, "você está horrível."
Ele não sorriu da minha tentativa de fazer graça, só ficou olhando preocupado para mim.
Hinata entrou com o bebê no colo.
"Aqui está ele", ela disse, alegre. Meu sobrinho Boruto era um bebê de um ano gordinho e lindo, com um sorriso cheio de gengivas, grandes olhos azuis e uma tira de cabelo loiro.
"Você fez um corte moicano no bebê?", eu perguntei quando Hinata sentou-se ao meu lado com Boruto.
Ela sorriu e fez carinho na cabeça dele.
"Não, o cabelo caiu um pouco dos lados e continuou em cima. O médico falou que depois vai crescer de novo."
"Eu gostei. O sangue comanche da família está aparecendo."
Eu queria pegar o bebê, mas achei que minha costela quebrada não iria aguentar, mesmo com o apoio da cinta elástica colocada no meu abdome. Então me contentei em brincar com os pezinhos dele, enquanto ele ria e resmungava.
Hinata olhou para mim.
"Está na hora do seu remédio", ela disse. "Você acha que consegue comer torrada e ovos primeiro?"
"Sim, por favor", eu observei enquanto ela colocava Boruto no cadeirão e espalhava cereais no tampo. O bebê começou a recolher os grãos de cereal com a mãozinha, e depois os levava à boca.
"Café?", Hinata perguntou. "Chá quente?"
Eu normalmente prefiro café, mas pensei que poderia fazer mal para o meu estômago.
"Chá está ótimo."
Naruto terminou o café, colocou a xícara na mesa e esticou a mão para mim.
"Como você está?", ele perguntou.
Assim que ele me tocou, uma terrível sensação de ameaça me dominou. Eu não consegui evitar de retirar minha mão. Meu irmão, que nunca tinha sido violento com mulher alguma, olhou para mim espantado, de boca aberta.
"Desculpe", eu disse, envergonhada quando vi a reação dele.
Ele desviou o olhar, parecendo se ocupar com uma violenta luta interna, e vi que ele ficou vermelho.
"Não é você que tem que se desculpar", ele disse entre dentes.
Depois que Hinata me trouxe chá e os comprimidos, Naruto pigarreou.
"Sakura, como você fugiu do Sasori ontem à noite?", ele perguntou, impaciente. "Como você acabou sem bolsa nem sapatos?"
"Bem, ele... meio que... me jogou para fora. Eu acho que ele esperava que eu ficasse ali no degrau até ele me deixar voltar para dentro."
Eu vi Hinata fazer uma pausa enquanto servia mais café para ele. Fiquei surpresa pelo modo como ela parecia chocada.
Naruto pegou um copo de água, que quase derrubou. Ele tomou goles longos.
"Ele bateu em você e te jogou para fora", ele repetiu. Não era uma pergunta, mas uma declaração na qual ele estava tentando acreditar. Eu anuí e estiquei o braço para empurrar um dos cereais de Boruto para deixá-lo ao alcance do bebê.
"Não sei o que Sasori vai fazer quando vir que eu fui embora", eu me ouvi dizendo. "Receio que ele faça uma queixa de desaparecimento. Acho que eu devia telefonar para ele. Embora eu não queira dizer onde estou."
"Daqui a pouco eu vou ligar para um dos nossos advogados", disse Naruto. "Vou descobrir o que precisamos fazer agora."
Ele continuou falando em um tom controlado sobre como nós precisávamos tirar fotos dos meus machucados, como conseguir o divórcio o mais rápido possível, como minimizar meu envolvimento para que eu não tivesse que ver o Sasori nem falar com ele...
"Divórcio?", perguntei estupidamente, enquanto Hinata colocava um prato na minha frente. "Eu não sei se estou pronta para isso."
"Você acha que não está pronta? Já se olhou no espelho, Sakura? Quanto mais você precisa apanhar para ficar pronta?"
Eu olhei para ele, tão grande, decidido e teimoso que tudo em mim se rebelou.
"Naruto, eu acabei de chegar. Você pode me dar um tempo? Só um pouquinho? Por favor?"
"O único jeito de você conseguir um tempo é se divorciando desse filho de uma...", Naruto parou e olhou para o filho, que prestava atenção no pai. "...de uma mãe."
Eu sabia que meu irmão estava querendo me proteger, que ele queria o melhor para mim. Mas a proteção dele dava a sensação de intimidação. E isso me lembrou do meu pai.
"Eu sei disso", falei. "Eu só quero pensar nas coisas antes de falar com um advogado."
"Pelo amor de Deus, Sakura, se você está pensando em voltar para ele..."
"Não estou. Eu só estou cansada de ouvir o que devo fazer e quando. O tempo todo! Eu sinto como se estivesse em um trem desgovernado. Eu não quero que você tome as decisões sobre o que eu tenho que fazer."
"Ótimo. Então você tome suas decisões. Mas seja rápida, senão eu vou tomar."
Hinata interveio antes que eu pudesse responder.
"Naruto", ela murmurou. Os dedos esguios dela alcançaram a superfície tensa do bíceps contraído e o tocaram de leve. A atenção dele foi desviada no mesmo instante. Naruto olhou para ela e as linhas de seu rosto se alisaram, e ele inspirou profundamente. Eu nunca tinha visto alguém exercer esse tipo de poder sobre meu irmão, sempre tão assertivo. Fiquei impressionada. "Isso tudo é um processo", ela disse, tranquila. "Eu sei que nós queremos que Sakura pule etapas e chegue logo ao final... mas acho que o único meio de ela sair disso é passando por tudo. Passo a passo."
Ele franziu o rosto, mas não discutiu. Eles trocaram um olhar íntimo. Ficou claro que a discussão continuaria depois, quando eu não estivesse ouvindo. Ele se voltou para mim.
"Sakura", Naruto começou, em voz baixa, "o que você diria se uma das suas amigas lhe contasse que o marido dela a jogou para fora de casa no meio da noite? Qual seria seu conselho?"
"Eu... eu lhe diria para deixar o marido no mesmo instante", admiti. "Mas é diferente porque é comigo."
"Por quê?", ele perguntou, estupefato.
"Não sei", respondi.
Naruto massageou o rosto com ambas as mãos. Ele se levantou da mesa.
"Eu vou me vestir e dar uma chegada no escritório. Não vou fazer nenhuma ligação", ele fez uma pausa deliberada antes de acrescentar, "ainda."
Naruto foi até o cadeirão, pegou Boruto e o levantou para fazer o bebê gritar de alegria. Abaixando o filho, Naruto beijou a nuca dele e o abraçou.
"Ei, parceiro. Seja bonzinho com a mamãe enquanto eu estiver fora. Mais tarde eu volto para nós fazermos coisas de homem."
Naruto ajeitou o bebê de novo na cadeira e se inclinou para beijar a esposa, passando a mão por trás da nuca dela. Foi mais que um beijo de despedida, e foi ficando mais quente, mais longo, até ela esticar a mão e tocar o rosto dele. Interrompendo o beijo, ele continuou com os olhos nos dela, e pareceu que toda uma conversa se passou entre os dois. Hinata esperou até Naruto ir tomar banho para falar comigo.
"Ele estava tão nervoso ontem à noite, depois que trouxe você para casa. Ele te ama. Ele ficou louco de pensar em alguém te machucando. O esforço que ele fez para se segurar e não ir até Dallas para... fazer algo que não é nem um pouco interessante."
Eu fiquei branca.
"Se ele for procurar o Sasori..."
"Não, não, ele não vai. Naruto tem bastante autocontrole quando se trata de conseguir os resultados que ele quer. Acredite em mim, ele vai fazer o que for necessário para te ajudar, não importa quão difícil seja."
"Sinto muito por te envolver nisso", eu disse. "Eu sei que é a última coisa que você ou Naruto precisam."
"Nós somos sua família", ela se inclinou e me pegou em outro daqueles abraços longos e reconfortantes. "Nós vamos dar um jeito nisso. E não se preocupe com o Naruto, eu não vou deixar que ele tente mandar em você. Ele só quer que você fique em segurança... mas ele tem que deixar você decidir como isso vai ser feito."
Eu senti uma onda de afeto e gratidão por ela. Se ainda havia algum traço de ressentimento ou ciúme no meu coração, desapareceu naquele momento.
Depois que eu comecei a falar, não parei mais. Eu contei tudo para Hinata, o modo como Sasori controlava a casa, as camisas que eu tinha que passar, como ele me chamava de Hana. Ela arregalou os olhos ao ouvir esse detalhe.
"Oh, Sakura", ela disse em voz baixa. "É como se ele estivesse tentando te apagar."
Nós tínhamos estendido uma colcha grande na sala com tema de fazenda, e Boruto engatinhou entre os animais bordados à mão até adormecer sobre um rebanho de ovelhas. Hinata abriu uma garrafa de vinho branco gelado.
"As instruções do seu remédio dizem que álcool pode aumentar os efeitos", ela avisou.
"Ótimo", eu disse, estendendo minha taça. "Não regule."
Relaxada sobre a colcha com o bebê adormecido, tentei encontrar uma posição confortável na pilha de almofadas que Hinata tinha arrumado para mim.
"O que confunde a minha cabeça", eu disse para ela, ainda refletindo sobre a minha relação com Sasori, "são as vezes em que ele estava bem, porque então você pensa que tudo está melhorando. Você sabe as coisas que deve evitar. Mas então aparecem novas coisas. E não importa o quão arrependida você esteja, não importa o quanto se esforce, tudo que você diz e faz vai aumentando a tensão até vir a explosão."
"E as explosões pioram a cada vez", ela acrescentou com uma certeza que chamou minha atenção.
"É, isso mesmo. Você já namorou algum cara assim?"
"Minha mãe namorou", os olhos perolados de Hinata ficaram distantes. "O nome dele era Zetsu. Um tipo de médico e monstro. No começo ele era legal, encantador, e atraiu minha mãe passo a passo para o relacionamento. Quando as coisas ficaram ruins o bastante para fazer com que ela fosse embora, sua autoestima estava em frangalhos. Na época, eu era muito nova para entender por que minha mãe deixava que ele a tratasse tão mal."
O olhar dela passeou pelo corpinho adormecido de Boruto, mole e pesado como um saco de farinha.
"Eu acho que o que você precisa avaliar é se o comportamento do Sasori é algo que pode ser melhorado com terapia. Se o fato de você ter ido embora pode ser suficiente para que ele queira mudar."
Eu bebi um gole do vinho e refleti um pouco sobre isso. A agressividade do Sasori era algo que poderia ser removido como a casca de uma laranja? Ou estaria toda entranhada nele?
"Eu acredito que, com o Sasori, a questão vai ser sempre ele estar no controle", eu disse, afinal. "Não consigo vê-lo admitindo que algo é culpa dele, ou que ele precisa mudar de algum modo. A culpa é sempre minha." Pondo de lado minha taça de vinho vazia, eu esfreguei a testa. "Eu fico pensando... será que algum dia ele me amou? Eu fui mais do que uma coisa que ele podia mandar e manipular? Porque se ele nunca se importou comigo, isso faz eu me sentir ainda mais idiota por tê-lo amado."
"Talvez ele gostasse de você tanto quanto era capaz", Hinata ponderou.
Eu dei um sorriso sem graça.
"Que sorte a minha...", percebi que nós conversávamos sobre o meu relacionamento com Sasori como se já estivesse no passado. "Se eu tivesse esperado mais tempo", eu continuei, "namorado mais, talvez eu tivesse enxergado além da superfície. Foi minha culpa casar assim tão depressa."
"Não, não foi", Hinata insistiu. "Às vezes uma imitação de amor pode ser muito convincente."
Aquelas palavras me lembraram de algo que eu a ouvi dizer há muito tempo, na noite do casamento dela. Parecia que tinha se passado uma vida desde então.
"Como a imitação que você teve com Sasuke Uchiha?"
Ela anuiu e sua expressão se tornou pensativa.
"É, mas eu nunca colocaria Sasuke na mesma categoria do Sasori. Ele nunca machucaria uma mulher. Na verdade, Sasuke tinha o problema oposto... sempre tentando salvar alguém... eu esqueci o nome disso..."
"Complexo de cavaleiro."
"Isso. Mas quando o salvamento acabava, essa era a deixa para o Sasuke ir embora."
"Ele não foi nenhum cavaleiro quando arruinou o negócio do Naruto", eu não consegui deixar de lembrar.
O sorriso de Hinata ficou amargo.
"Você tem razão, mas acredito que Sasuke considerou isso um golpe contra Naruto, não contra mim", ela balançou a cabeça, parecendo querer afastar aquela lembrança. "Quanto a você e Sasori... não é sua culpa que ele tenha ido atrás de você. Eu já li que homens com esse tipo de personalidade escolhem mulheres que podem manipular com facilidade — eles têm um tipo de radar para encontrá-las. Por exemplo, se você enchesse o estádio do Astrodome de gente e colocasse um homem assim e uma mulher vulnerável, os dois se encontrariam."
"Oh, que ótimo", eu fiquei indignada. "Eu sou um alvo móvel."
"Você não é um alvo, você só... confia demais. É amorosa. Qualquer homem normal admiraria isso. Mas eu acho que alguém como Sasori provavelmente vê o amor como uma fraqueza que ele pode usar para tirar alguma vantagem."
Independentemente do que eu queria ouvir, aquilo me pegou. Era uma verdade que eu não podia evitar, ignorar ou pôr de lado... ela ficava no caminho, bloqueando qualquer possibilidade de eu voltar para o Sasori.
Não importava o quanto eu o amasse, ou o que eu faria por ele, Sasori nunca mudaria. Quanto mais eu tentasse agradá-lo, mais desprezo ele teria por mim.
"Eu não posso voltar para ele", eu disse lentamente. "Posso?"
Hinata só negou com a cabeça.
"Eu fico imaginando o que meu pai vai dizer se eu me divorciar", eu murmurei. "Vai começar com um grande, 'Eu te disse'."
"Não", Hinata falou, franca. "Sério. Eu conversei com o Minato mais de uma vez sobre o jeito como ele estava se comportando. Ele está arrependido de ter sido tão durão."
Eu não acreditei naquilo.
"Meu pai vive para ser durão."
"O que o Minato diz ou pensa não é importante agora", Hinata deu de ombros. "O importante é o que você quer."
Eu estava prestes a dizer para Hinata que talvez demorasse um bom tempo para descobrir isso, mas quando me deitei perto do corpo quente do bebê e me aninhei nele, algumas coisas ficaram muito claras. Eu nunca mais queria apanhar ou ouvir gritos. Eu queria ser chamada pelo meu nome. Eu queria que meu corpo pertencesse a mim. Eu queria todas as coisas que qualquer um merece apenas por ser humano. Incluindo amor.
E eu sabia que não era amor quando uma pessoa detinha todo o poder e a outra era completamente dependente. Amor verdadeiro não se desenvolve em uma hierarquia.
Eu encostei o nariz na cabecinha de Boruto. Nada no mundo cheira melhor que um bebê limpo. Como ele era inocente e confiante ao dormir. Como Sasori trataria uma criatura indefesa como essa?
"Eu quero conversar com o advogado", eu falei, sonolenta. "Porque eu não quero ser a mulher no Astrodome."
Hinata cobriu nós dois delicadamente com uma manta.
"Tudo bem", ela sussurrou. "Você é quem manda, Sakura."
Como prometido Lary .
Continua!
