Todos os personagens pertencem a Masashi Kishimoto. A história é de autoria de Lisa Kleypas do seu livro A Redenção – Série The Travis Family.
Essa fanfic é uma adaptação.
Capitulo 06
No Texas, havia um período obrigatório de 60 dias de espera quando se entrava com o pedido de divórcio. Em algum momento, alguém no legislativo estadual decidiu que era uma boa ideia estabelecer um período para que as pessoas que desejavam se divorciar esfriassem a cabeça. Eu preferia que eles tivessem deixado que eu decidisse se desejava esfriar a cabeça ou não. Depois que tomei a decisão, eu queria acabar com aquilo o mais rápido possível.
Por outro lado, fiz bom uso desses dois meses. Eu fui curada por fora, os hematomas sumiram, e comecei a ir duas vezes por semana a uma terapeuta. Como nunca tinha feito isso antes, eu esperava que iria ter que me deitar no sofá e falar enquanto algum profissional impessoal de jaleco branco tomava notas.
Em vez disso, fui recebida em um escritório pequeno, aconchegante, com um sofá de sarja amarela florida, por uma terapeuta que não parecia ser muito mais velha que eu. O nome dela era Tenten Mitsashi, e ela tinha cabelos castanhos, olhos brilhantes e era sociável. Foi um alívio indescritível poder desabafar com ela.
Tenten era compreensiva e inteligente, e enquanto eu descrevia as coisas pelas quais tinha passado e o que eu senti, parecia que ela tinha o poder de explicar os mistérios do universo.
Tenten disse que o comportamento de Sasori parecia ser o de alguém com Transtorno de Personalidade Narcisista, o que é comum em maridos abusadores.
Enquanto ela me explicava o transtorno, parecia estar descrevendo como minha vida tinha sido no ano anterior. Uma pessoa com TPN é tirânica, egoísta, gosta de culpar os outros e não tem empatia... e usa a raiva como tática de controle. Ela não respeita os limites pessoais de ninguém, o que significa que se sente no direito de criticar e amedrontar até que sua vítima esteja em pedaços.
Ter um transtorno de personalidade é diferente de ser louco, Tenten explicou, porque ao contrário de uma pessoa louca, o narcisista consegue controlar onde e quando vai explodir. Sasori nunca bateria em seu chefe na empresa, por exemplo, porque isso iria contra os interesses dele. Em vez disso, ele iria para casa para bater na mulher e chutar o cachorro. E ele nunca se sente culpado por isso, porque consegue se justificar para si mesmo. A dor dos outros não significa nada para ele.
"Então você está dizendo que o Sasori não é louco, mas um sociopata?", eu perguntei.
"Bem... no fundo, sim. Mas é preciso ter em mente que a maioria dos sociopatas não é de assassinos, mas de indivíduos não empáticos e altamente manipuladores."
"Ele pode ser curado?"
Ela negou com a cabeça.
"É triste pensar que tipo de abuso ou abandono o deixou desse jeito. Mas o resultado é que Sasori é quem ele é. É notória a resistência dos narcisistas à terapia. Por causa do sentimento de grandiosidade que têm, eles não veem a necessidade de mudar." Tenten abriu um sorriso sombrio, como se evocasse alguma lembrança desagradável. "Acredite em mim, nenhum terapeuta quer um narcisista como paciente. Isso só resulta em imensa frustração e perda de tempo."
"E quanto a mim?", eu me obriguei a perguntar. "Eu posso ser curada?", naquele momento meus olhos arderam e eu tive que assoar o nariz, então Tenten precisou repetir a resposta.
"É claro que sim, Sakura. Nós vamos trabalhar nisso. Nós vamos conseguir."
A princípio, tive receio de que teria que me esforçar para perdoar Sasori. Foi um alívio indescritível ouvir Tenten dizer que não, que eu não precisava ficar presa em um ciclo de abuso e perdão. As vítimas de abuso com frequência são sobrecarregadas com a chamada responsabilidade de perdoar, e até mesmo reabilitar, seus algozes. Eu não tinha que fazer isso, Tenten me explicou. Mais tarde, nós poderíamos tentar encontrar algum nível de conclusão para que o veneno do meu relacionamento com Sasori não afetasse outras áreas da minha vida. Mas naquele momento eu precisava me concentrar em outras questões.
Eu descobri que era uma pessoa com limites pessoais tênues. Fui ensinada pelos meus pais, principalmente minha mãe, que ser uma boa filha significa não ter limites. Eu fui criada para deixar minha mãe sempre ter razão e poder me criticar, e também tomar decisões por mim em assuntos que não eram da conta dela.
"Mas meus irmãos não tiveram esse tipo de relacionamento com ela. Eles tinham limites. Não deixavam que ela interferisse na vida pessoal deles."
"Às vezes, uma mãe, ou um pai, tem expectativas diferentes de filhos e filhas", Tenten respondeu, irônica. "Meus pais, por exemplo, insistem que devo ser eu a cuidar deles na velhice, e não conseguem conceber pedir isso ao meu irmão."
Tenten e eu fizemos um bocado de interpretação de papéis, o que me fez sentir incrivelmente boba no começo, mas enquanto ela fingia ser Sasori, depois meu pai, um amigo, um irmão e até minha mãe há muito falecida, eu ia praticando como defender meus limites. Foi um trabalho duro, tenso, de fazer suar.
"Dizer 'não' é uma vitamina."
Essa frase se tornou meu mantra. Eu imaginei que se a repetisse bastante, eu começaria a acreditar nela.
Naruto cuidou dos procedimentos do divórcio que eu permiti. Possivelmente devido à influência moderadora de Hinata, ele mudou seu modo de falar comigo. Em vez de me dizer como as coisas iriam acontecer, ele me explicava com muita paciência quais eram as minhas opções, e não discutia minhas decisões. Quando Sasori teve coragem de ligar no apartamento e exigiu falar comigo, e eu disse que o atenderia, Naruto se obrigou a me passar o telefone.
Foi uma conversa e tanto, basicamente unilateral, com Sasori falando e eu escutando. Meu marido despejou tudo que tinha, indo da culpa à fúria até chegar à súplica, alegando que o acontecido era tanto culpa minha quanto dele.
"Não dá para desistir de um casamento na primeira dificuldade", ele argumentou.
"Foi bem mais do que uma dificuldade."
"Quando duas pessoas se amam, elas encontram uma maneira de resolver as coisas."
"Você não me ama", eu sentenciei.
Mas ele disse que amava. Talvez ele não tivesse sido o melhor marido do mundo, mas com certeza eu também não tinha sido a melhor esposa.
"Pode ser que você tenha razão. Mas acho que eu não merecia que você quebrasse minha costela."
Sasori disse que era impossível ele ter quebrado minha costela, que isso deve ter acontecido por acidente quando eu caí. Eu fiz questão de ressaltar que ele me empurrou, me bateu. E fiquei atônita quando Sasori falou que não se lembrava de ter me batido. Talvez uma de suas mãos tivesse escorregado.
Eu me perguntei se ele não lembrava mesmo, se teria conseguido reescrever a realidade para si mesmo, ou se estava apenas mentindo. E então eu me dei conta de que isso não importava.
"Eu não vou voltar", concluí. E repeti depois de cada observação que ele fez depois disso. "Eu não vou voltar. Eu não vou voltar."
Desliguei o telefone e fui até Naruto, que esperava sentado na sala de estar. Ele tinha segurado com tanta força nos braços da poltrona de couro que seus dedos deixaram buracos fundos no estofamento macio, mas ele tinha me deixado lutar sozinha minha batalha, como eu precisava fazer.
Eu sempre amei Naruto, mas nunca tanto como nessa época.
Entrei com o pedido de divórcio por incompatibilidade de gênios, o que significava que o casamento tinha se tornado impossível devido a conflitos de personalidade que destruíam "a finalidade legítima do matrimônio". Esse era o modo mais rápido de encerrar o casamento, informou o advogado. Se Sasori não contestasse. Do contrário, haveria um julgamento, e todos os tipos de humilhação e sordidez surgiriam contra os dois.
"Sakura", Naruto me disse em particular, seus olhos azuis gentis, a boca apertada em uma expressão sombria. "Eu fiz meu melhor para me segurar e deixar você fazer as coisas do seu modo... mas eu tenho que lhe pedir algo agora."
"O que é?"
"Nós dois sabemos que o Sasori não vai deixar esse divórcio acabar amigavelmente se nós não fizermos valer a pena para ele."
"Você quer dizer pagá-lo?", indaguei e meu sangue ferveu quando pensei em Sasori recebendo uma recompensa financeira depois do modo como me tratou.
"Bem, lembre Sasori que eu fui deserdada. Eu..."
"Você ainda é uma Uzumaki. E Sasori vai jogar as cartas dele até o fim... um pobre rapaz trabalhador que casou com uma garota rica e mimada, e agora foi jogado de lado como um trapo velho. Se o Sasori quiser, Sakura, ele vai tornar esse processo o mais longo, difícil e público possível."
"Dê para ele minha parte do apartamento, então. É toda propriedade comum que nós temos."
"Sasori vai querer mais do que só o apartamento."
Eu sabia aonde Naruto queria chegar. Ele queria pagar para que o Sasori ficasse quieto tempo suficiente para o divórcio ser concluído. Sasori iria receber uma recompensa gorda depois de tudo que fez comigo. Aquilo me deixou tão furiosa que comecei a tremer.
"Eu juro", falei com uma sinceridade feroz, "que se conseguir me livrar dele, nunca mais vou me casar."
"Não, não diga isso", Naruto esticou a mão para mim sem pensar, e eu recuei.
Eu ainda não gostava de ser tocada, em especial por homens. Tenten disse que isso era um mecanismo de proteção, que com o tempo iria melhorar. Eu ouvi Naruto praguejar em voz baixa, e ele deixou os braços cair.
"Desculpe", ele murmurou e então suspirou. "Sabe, meter uma bala na cabeça dele seria muito mais rápido e barato do que o divórcio."
"Você está brincando, né?", eu olhei preocupada para ele.
"Claro", ele assumiu uma expressão neutra, mas eu não gostei do que vi em seus olhos.
"Vamos continuar com a opção do divórcio", eu disse. "Eu prefiro que Boruto e Hanabi não tenham que visitar o pai na prisão. Que tipo de condições você está pensando? E suponho que vou ter que rastejar aos pés do meu pai para implorar dinheiro para dar ao Sasori? ... Porque eu mesma não tenho nada."
"Pode deixar que eu me ocupo das condições. O acordo fica mais para frente."
Percebendo que meu irmão não ia apenas assumir as despesas do divórcio, mas também do acordo, eu lhe dei um olhar enviesado.
"Naruto..."
"Não se preocupe", ele disse em voz baixa. "Você faria o mesmo por mim. E não está causando dificuldades para ninguém, querida."
"Não é certo que você pague pelos meus erros."
"Sakura... ser forte também significa ser capaz de admitir que precisa de ajuda às vezes. Você entrou nesse casamento sozinha, sofreu bastante sozinha, e com certeza não precisa sair dele sozinha. Me deixe bancar seu irmão mais velho."
A determinação dele fez com que eu sentisse meus pés apoiados em terreno firme. Eu senti que talvez, algum dia, tudo pudesse ficar bem.
"Eu vou lhe pagar algum dia."
"Está bem."
"Acho que a única vez que me senti mais grata", falei para o meu irmão, "foi quando você resgatou a Bootsie do arbusto de alfena."
Eu engoli o orgulho e telefonei para o meu pai depois que o divórcio terminou, em fevereiro. Para meu imenso alívio, Sasori não apareceu no tribunal quando o juiz homologou o divórcio. Duas pessoas têm que estar presentes para o casamento, mas só uma basta para o divórcio. Naruto tinha me garantido que Sasori ficaria longe do tribunal naquele dia.
"O que você fez, ameaçou quebrar as pernas dele?", perguntei.
"Eu disse que se o visse, cinco minutos depois as tripas dele estariam penduradas no portão do tribunal", eu ri, e então percebi que Naruto não estava brincando.
Naruto e Hinata avisaram minha família que eu tinha voltado a Houston, mas que ainda iria demorar para conseguir ver alguém ou para falar ao telefone. É claro que meu pai, que sempre precisava estar no centro de qualquer coisa que acontecesse, ficou ofendido com minha reserva. Ele pediu para Naruto me dizer que, quando eu estivesse pronta para descer do meu pedestal, ele gostaria que eu fosse visitá-lo.
"Você contou para ele que eu estava me divorciando?", perguntei para Naruto.
"Contei. Não dá para dizer que ele ficou surpreso."
"Mas você contou o motivo?"
Eu não queria que ninguém soubesse o que aconteceu entre mim e Sasori. Talvez com o tempo eu contasse para Gaara ou Deidara, mas por enquanto eu precisava manter esse segredo. Eu não queria nunca mais ser vista como fraca ou desamparada, vítima. Acima de tudo, não queria que sentissem pena de mim.
"Não", Naruto disse, procurando me tranquilizar. "Eu só contei para o papai que não tinha dado certo, e que se ele quisesse ter algum relacionamento com você, era melhor manter a boca fechada a respeito do seu casamento."
Eu liguei, afinal, para o meu pai, com as mãos suadas crispadas no telefone.
"Oi, pai", eu tentei parecer despreocupada. "Faz um tempão que não falo com você. Só queria saber como você está."
"Sakura." O som daquela voz rouca era familiar e reconfortante. "Quanto tempo, docinho! O que andou fazendo?"
"Meu divorciando."
"Ouvi dizer."
"É, bem... está tudo terminado entre mim e o Sasori." Já que meu pai não podia me ver, eu franzi o rosto como se tivesse comido quiabo cru enquanto me obrigava a admitir: "O casamento foi um erro."
"Nessas horas eu nunca fico feliz de ter razão."
"Até parece", eu disse, e fui saudada pela risada rascante dele.
"Se você de fato se livrou dele", papai declarou, "vou telefonar para o meu advogado esta tarde e recolocar você no meu testamento."
"Ah, que ótimo! Foi por isso que eu liguei."
Ele precisou de um instante para se dar conta de que eu estava sendo sarcástica.
"Pai", eu falei, "você não vai segurar esse testamento como uma espada sobre a minha cabeça pelo resto da minha vida. Graças a você, eu tenho uma ótima formação, e não existe motivo para eu não conseguir arrumar um emprego. Então não se incomode de ligar para o advogado — eu não quero estar no testamento."
"Você vai estar no meu testamento se eu quiser", papai respondeu e eu tive que rir.
"Tanto faz. O verdadeiro motivo da minha ligação é que eu queria te ver. Faz muito tempo desde a última vez que tive uma boa discussão com alguém."
"Ótimo", ele disse. "Pode vir."
E com isso nosso relacionamento voltou aos trilhos, com as mesmas falhas e frustrações de sempre. Mas eu procurei me lembrar que agora tinha limites, e ninguém iria violá-los. Eu seria minha própria fortaleza.
Eu era uma pessoa nova em um mundo igual, o que era muito mais difícil do que ser uma pessoa igual em um mundo novo. As pessoas acreditavam me conhecer, mas não conheciam. Exceto Sai, meus antigos amigos não eram mais relevantes para essa nova versão de mim. Então busquei apoio nos meus irmãos, e descobri que a vida adulta tinha feito maravilhas com a personalidade deles.
Deidara, fotógrafo comercial, fez questão de me dizer que tinha uma casa grande e que havia espaço de sobra se eu quisesse ficar com ele. Ele disse que passava muito tempo fora, e que não invadiríamos a privacidade um do outro. Eu lhe disse o quanto agradecia a oferta, mas que precisava do meu próprio lugar. Ainda assim, não teria sido nem um pouco ruim morar com ele. Deidara era uma pessoa de fácil convivência. Nunca o ouvi reclamar de nada. Ele encarava a vida um dia de cada vez, o que era uma qualidade rara na família Uzumaki.
Mas a verdadeira surpresa foi Gaara, o irmão com quem nunca me dei bem — ele que me fez um corte de cabelo horrível quando eu tinha três anos, e vivia me assustando com insetos e cobras-d'água. O Gaara adulto acabou se revelando um aliado inesperado. Um amigo. Na companhia dele, eu conseguia relaxar de verdade e minha sensação de ansiedade e medo evaporava como gotas de água pingando em uma chapa quente.
Talvez porque Gaara fosse tão descomplicado. Ele afirmava ser a pessoa menos complexa na família, e era provável que isso fosse verdade. Gaara era um caçador, à vontade com sua condição de onívoro predador. Ele também era um ambientalista, e não via conflito nisso. Qualquer caçador, ele dizia, devia fazer o possível para proteger a natureza, já que passa tanto tempo nela.
Com Gaara é fácil saber onde se está pisando. Se ele gosta de alguma coisa, diz isso sem hesitação. Em caso contrário, também vai ser sincero a respeito. Gaara gostava de mulheres fáceis, carros velozes, vida noturna e bebidas fortes, mas gostava mesmo de tudo isso junto. No entender dele, você é obrigado a pecar no sábado à noite, para ter do que se arrepender na manhã de domingo. Do contrário, o pastor pode perder o emprego.
Depois que Gaara se formou na Universidade do Texas, ele foi trabalhar em uma pequena administradora de imóveis. Com o tempo, conseguiu um empréstimo, comprou a empresa e a fez crescer quatro vezes o tamanho original. Era a ocupação perfeita para ele, que gostava de consertar coisas e resolver problemas. Da mesma forma que eu, Gaara não se interessava nem um pouco pelo jargão financeiro e pelas estratégias de investimento que meu pai e Naruto adoravam. Gaara preferia enfrentar questões práticas no trabalho e na vida.
Ele era bom em negócios secretos, em contornar burocracia, em falar de homem para homem. Com Gaara não existia nada mais forte que uma promessa feita com um aperto de mãos. Ele preferia morrer — literalmente escolheria a morte — a quebrar sua palavra.
À luz da minha experiência hoteleira no Darlington, Gaara disse que eu era perfeita para trabalhar na parte residencial de sua administradora, cuja sede era no 1800 Main. A gerente estava de saída por causa da gravidez, e ela queria passar os primeiros anos de vida do filho em casa.
"Obrigada, mas eu não posso", recusei quando Gaara sugeriu, pela primeira vez, que eu ficasse com o cargo.
"Por que não? É perfeito para você."
"Cheira a nepotismo", eu disse.
"E daí?"
"E daí que existem pessoas mais qualificadas para o cargo."
"E?"
Eu comecei a sorrir com a insistência dele.
"E as pessoas vão reclamar se você contratar sua irmã."
"Veja", Gaara retrucou, tranquilo, "essa é a vantagem de a empresa ser minha. Eu posso contratar a porra do palhaço Bozo se eu quiser."
"Isso é tão lisonjeiro, Gaara."
"Vamos lá", ele sorriu. "Pelo menos tente. Vai ser divertido."
"Você está me oferecendo um emprego para poder ficar de olho em mim?"
"Na verdade, nós mal vamos nos ver, pois vamos ficar ocupados o tempo todo."
Eu gostei de ouvir aquilo — ficar ocupada o tempo todo. Eu queria trabalhar, realizar coisas, depois do ano em que passei sendo a escrava pessoal de Sasori.
"Você vai aprender muito", Gaara insistiu. "Você vai ficar a cargo do dinheiro — seguro, folha de pagamento, contas de manutenção. Você também vai negociar contratos de serviço, comprar equipamentos e suprimentos, e vai trabalhar com uma corretora de locação e uma assistente. Como administradora do edifício, você tem direito a um apartamento de um dormitório no local. Mas não vai ficar presa ao escritório o tempo todo... você vai fazer muitas reuniões fora. Depois, quando estiver pronta, você vai poder se envolver nos aspectos comerciais, o que vai me ajudar muito, porque estou planejando diversificar e começar com administração de construção, e depois, talvez..."
"Quem vai pagar o meu salário?", perguntei, desconfiada. "Você ou o papai?"
Gaara pareceu ficar ofendido.
"Eu, é claro. Papai não tem nada a ver com a minha empresa de administração."
"Ele é dono do prédio", eu lembrei.
"Você vai ser minha empregada, da minha empresa... e, pode acreditar, o 1800 Main não é o único cliente que nós temos. Nem de longe." Gaara fez uma expressão de paciência esgotada. "Pense bem, Sakura. Vai ser ótimo para nós dois."
"Tudo parece ótimo", eu concordei. "E não consigo pôr em palavras o quanto eu fico agradecida. Mas não posso começar por cima, Gaara. Eu não tenho experiência. E não vai ficar bonito, para nenhum de nós, você me dar um emprego desses sem eu fazer por merecer. Mas e se eu começar como assistente do gerente? Eu poderia aprender tudo."
"Você não tem que fazer por merecer", Gaara insistiu. "Você tem seus direitos por ser uma Uzumaki."
"Ser uma Uzumaki implica justamente ter que fazer mais por merecer", eu rebati.
Ele olhou para mim e balançou a cabeça, enquanto murmurava alguma coisa sobre bobagem liberal ianque.
Eu sorri para ele.
"Você sabe que assim faz mais sentido. É justo dar o emprego de gerente para alguém que fez mesmo por merecer."
"No mundo dos negócios", Gaara disse, "justiça não quer dizer merda nenhuma."
Mas ele acabou cedendo e disse que "longe dele" me impedir de começar por baixo, se era isso mesmo que eu queria.
"Pode cortar tudo", eu falei para Hinata, sentada no banheiro dela, envolta em plástico. "Estou tão cansada de ter tanto cabelo. É quente, fica embaraçado e eu nunca sei o que fazer com ele."
Eu queria um novo visual para começar no meu novo emprego. E, como tinha sido cabeleireira, Hinata sabia o que estava fazendo. Eu imaginei que qualquer coisa que ela fizesse já seria uma melhoria.
"Talvez fosse melhor avançar em estágios", Hinata disse. "Pode ser chocante para você se eu tirar muito de uma vez."
"Não, porque não dá para doar menos de 25 centímetros. Pode cortar", nós iríamos doar 30 centímetros do meu cabelo para o programa Mechas de Amor, que fazia perucas para crianças que sofriam perda de cabelo por razões médicas.
Hinata escovou habilmente meu cabelo.
"Ele vai ficar ondulado depois de cortar", ela comentou. "Todo esse peso puxa o cabelo para baixo e ele fica mais liso."
Ela trançou o cabelo e cortou tudo de uma vez na altura da nuca. Eu segurei a trança enquanto Hinata pegava um saco plástico, onde eu coloquei o cabelo, fechei e selei com um beijo.
"Boa sorte para a próxima pessoa que o usar", eu desejei.
Hinata borrifou água no meu cabelo e trabalhou à volta toda com uma navalha, tirando e desfiando mechas até formar uma pilha no chão.
"Não fique nervosa", ela disse quando me viu examinando uma mecha que tinha caído no meu colo revestido de plástico. "Você vai ficar ótima."
"Não estou nervosa", eu respondi, sincera. Não me importava minha aparência, desde que eu ficasse diferente.
Ela secou meu cabelo usando uma escova redonda, depois passou os dedos para deixá-lo solto e sorriu de satisfação.
"Dá uma olhada."
Eu ergui o rosto e levei um choque — agradável — ao ver meu reflexo.
Hinata tinha me deixado com uma franja longa que cruzava a testa e a parte de trás estava curta, um pouco abaixo das orelhas, e repicada em camadas, com as pontas delicadamente viradas para cima. Eu parecia ter estilo. E confiança.
"É irreverente", eu disse, brincando com as camadas.
"Você pode virar as pontas para dentro ou para fora", ela explicou, sorrindo. "Gostou?"
"Adorei."
Hinata me virou para que nós duas pudéssemos ver o corte no espelho.
"É sexy ", ela disse.
"Você acha? Eu espero que não."
Ela sorriu para mim, zombeteira.
"Eu acho que é sim. Por que você não quer ficar sexy ?"
"Propaganda enganosa", eu disse.
A gerente que Gaara trouxe de seu outro escritório se chamava Mei Terumi. Ela era uma dessas mulheres muito bem arrumadas que provavelmente aparentava ter 35 anos quando tinha 25, e ainda aparentaria 35 quando tivesse 55.
Embora ela fosse de estatura média, seu corpo esguio e sua boa postura davam a impressão de que ela era muito mais alta. Seu rosto tinha ossos finos e um aspecto sereno por baixo do cabelo ruivo. Eu admirei sua compostura, que ela vestia como se fosse uma blusa abotoada até o pescoço.
A voz dela, clara e suave, não tinha muita força, parecendo gelo embrulhado em veludo. Mas, de algum modo, aquilo obrigava o interlocutor a prestar mais atenção, como se compartilhasse da responsabilidade de Mei se fazer entender.
Eu gostei dela a princípio. Ou, pelo menos, eu quis gostar dela. Mei foi amistosa, simpática, e quando saímos para beber depois do nosso primeiro dia de trabalho, eu me peguei confidenciando a ela mais do que devia sobre meu casamento fracassado e o divórcio resultante. Mas Mei também tinha se divorciado há pouco, e parecia haver tantas semelhanças entre nossos ex-maridos que foi um prazer fazer comparações.
Mei foi franca quanto à sua preocupação com relação ao meu relacionamento com Gaara, e eu fiquei grata pela honestidade. Eu lhe garanti que não tinha intenção de me encostar nem de passar por cima dela só porque ele era meu irmão. Minha intenção era oposta, na verdade. Eu iria trabalhar mais pesado, porque tinha que provar algo. Ela pareceu satisfeita com minhas declarações sinceras e disse acreditar que nós trabalharíamos bem juntas.
Mei e eu recebemos apartamentos no 1800 Main. Eu me senti um pouco culpada por isso, sabendo que nenhum outro assistente de gerência recebeu um apartamento, mas essa foi a única concessão que fiz ao Gaara. Ele insistiu nisso e, para dizer a verdade, gostei da segurança de morar tão perto do meu irmão.
Os outros empregados não moravam ali no prédio e vinham para lá todos os dias, incluindo a pequenina chamada Rin, subgerente do escritório, a corretora de locação Kurenai Yuhi, o agente de marketing Rock Lee, e Shikamaru Nara da contabilidade. Nós entrávamos em contato com o escritório comercial do Gaara sempre que havia necessidade de suporte legal, quando tínhamos dúvidas técnicas ou se havia algo com que não éramos capazes de lidar sozinhos.
Parecia que todo mundo que trabalhava com Gaara no escritório comercial tinha adquirido o mesmo estilo pessoal dele... todo mundo era tranquilo e quase jovial, em comparação com nosso escritório. Mei mantinha uma disciplina rígida, o que significava nada de casual Fridays e uma política de "tolerância zero a erros", que nunca era dita explicitamente. Contudo, todo mundo parecia considerá-la uma boa chefe — rígida, mas justa. Eu estava preparada para aprender com ela, seguir seu exemplo. Eu pensei que ela teria uma grande influência na minha nova vida.
Mas em questão de dias eu percebi que estava sendo manipulada.
Eu conhecia bem a tática, pois Sasori a tinha empregado bastante. Um tirano ou alguém com transtorno de personalidade precisa manter suas vítimas confusas, indecisas, sempre inseguras sobre si mesmas. Dessa forma, ele ou ela pode manipular você com mais facilidade. Pode ser qualquer coisa que faça você duvidar de si mesmo. Por exemplo, um tirano faz uma declaração sobre algo, e quando você concorda, ele discorda de sua própria declaração original. Ou ele o faz pensar que você perdeu algo quando não perdeu, ou o acusa de esquecer de algo que, na verdade, ele nunca lhe pediu.
O que me preocupou foi que eu parecia ser o único alvo de Mei.
Ninguém mais parecia ter problemas com ela.
Ela tirava uma pasta do lugar e me pedia para buscá-la, e ia aumentando a tensão até eu estar desesperada para encontrá-la. Se eu não conseguia, ela me acusava de ter escondido a pasta em algum lugar. E, então, ela aparecia em algum lugar esquisito, como embaixo de uma planta ou no alto de um armário, ou enfiado entre o carrinho da impressora e a mesa dela. Mei passava, para os outros, a impressão de que eu era descuidada e desorganizada. E eu não tinha prova das maldades que ela estava fazendo. A única coisa que me fazia não duvidar de mim mesma era minha noção incerta de sanidade.
Não havia como prever o humor ou as solicitações de Mei. Eu aprendi a guardar tudo, depois que ela me pediu para escrever três versões diferentes de uma carta e então se decidiu pela primeira versão, que eu já tinha apagado. Ela me dizia para comparecer a uma reunião a uma e meia. Quando eu chegava, estava trinta minutos atrasada. E ela jurava que tinha me dito uma da tarde. Ela dizia que eu não tinha prestado atenção.
Mei comentou que durante anos teve uma assistente chamada Konan, e a teria trazido consigo para o novo emprego, só que eu já tinha ficado com aquela posição. Não tinha me ocorrido que eu poderia ter atrapalhado uma antiga parceria profissional e roubado de alguém uma vaga que essa pessoa merecia.
Quando Mei pediu que eu telefonasse para Konan, que continuava no emprego antigo, para pedir o telefone da manicure favorita dela, eu aproveitei a oportunidade e pedi desculpas a Konan.
"Nossa, não precisa se sentir mal", Konan disse. "Foi a melhor coisa que podia ter acontecido comigo."
Eu quis pedir demissão naquele momento, mas eu estava presa ali, e Mei sabia disso. Com meu currículo magro, eu não podia sair de um emprego logo depois de começar. E eu não sabia quanto tempo eu demoraria para encontrar outra coisa. Reclamar de Mei estava fora de questão — isso me faria parecer uma diva exigente, uma louca paranoica ou as duas coisas. Então eu decidi aguentar por um ano. Eu faria contatos e construiria meu próprio caminho para sair dali.
"Por que eu?", perguntei para Tenten, minha terapeuta, depois de descrever a situação com Mei. "Ela poderia ter escolhido qualquer um naquele escritório como alvo. Eu tenho 'vítima' escrito na testa, ou algo assim? Eu pareço fraca?"
"Não creio", Tenten disse séria. "Na verdade, é mais provável que Mei te encare como uma ameaça. Alguém que ela precisa dominar e neutralizar."
"Eu, uma ameaça?", meneei a cabeça. "Não para alguém como Mei. Ela é autoconfiante e equilibrada. Ela é..."
"Pessoas autoconfiantes não são manipuladoras. Eu aposto que a confiança aparente de Mei não é nada além de fachada. Uma personagem falsa que ela construiu para cobrir suas deficiências", Tenten sorriu da minha expressão de ceticismo. "E, sim, você pode representar uma ameaça para uma pessoa insegura. Você é inteligente, bonita, tem formação... e ainda existe a questão do seu sobrenome. Vencer alguém como você aumentaria muito a sensação de superioridade da Mei."
Na primeira sexta-feira depois que comecei a trabalhar na Uzumaki Management Solutions, Gaara apareceu no meu cubículo trazendo uma grande sacola de compras com um laço.
"Tome", ele disse, passando a sacola para mim por cima da montanha de papel sobre minha escrivaninha. "Uma lembrancinha para comemorar sua primeira semana."
Eu abri a sacola e encontrei uma pasta feita de couro cor de chocolate.
"Gaara, é linda! Obrigada."
"Esta noite você vai sair comigo e com a Ino", ele me informou. "Essa é a outra parte da comemoração."
Ino era uma das integrantes do harém de mulheres com quem Gaara saía. Como ele era muito franco a respeito de não querer se amarrar, nenhuma delas parecia esperar qualquer compromisso da parte dele.
"Eu não quero ser a vela no seu encontro", avisei.
"Você não vai nos incomodar", ele disse. "E você nem é uma vela de sete dias. É mais uma velinha de trinta minutos."
Revirei os olhos. Fazia tempo que eu já tinha aceitado que era uma verdade inexorável da vida eu ser o alvo de piadas de baixinhos dos meus irmãos imensos.
"Estou cansada", eu disse. "Acredite em mim, não sou capaz de sair para festejar com você e Ino. Um drinque e é provável que eu apague."
"Se isso acontecer, eu ponho você em um táxi e te mando para casa." Gaara me deu um olhar inflexível. "Eu vou arrastar você daqui se precisar, Sakura. Estou falando sério."
Embora eu soubesse que ele jamais usaria de força comigo, senti que fiquei pálida e rígida na minha poltrona. Não me toque, eu quis dizer, mas as palavras ficaram presas atrás dos meus dentes, debatendo-se contra eles como pássaros selvagens engaiolados.
Gaara piscou, surpreso, enquanto me observava.
"Ei... eu só estava brincando, querida. Pelo amor de Deus, não olhe para mim desse jeito. Eu fico me sentindo culpado para caramba, e não sei o motivo."
Eu me forcei a sorrir e relaxar.
"Desculpe. Foi só uma lembrança ruim."
Eu refleti que Sosori não iria querer que eu saísse à noite, que me divertisse e conhecesse pessoas. Ele iria querer que eu ficasse em casa, isolada.
"Tudo bem", eu me ouvi dizer. "Acho que aguento um tempinho. O que eu estou usando serve?", eu vestia uma saia simples, blusa de gola rulê preta e scarpins.
"Claro. É só um bar normal."
"Não é o tipo de bar para se conhecer gente?"
"Não. Esse é um tipo de bar para se beber depois do trabalho, para relaxar. Depois é que se vai para o bar de conhecer gente. E se conhecer alguém legal lá, vai com esse alguém para um bar tranquilo, sossegado. E se funcionar, leva a companhia para casa."
"Nossa, isso parece muito trabalhoso", eu comentei.
Mei apareceu na abertura do cubículo, esguia, elegante e afetada.
"Que divertido", ela disse, seu olhar desviando de Gaara para o presente sobre a mesa. Ela me confundiu com um sorriso caloroso. "Bem, você merece uma recompensa, Sakura... Você fez um ótimo trabalho esta semana."
"Obrigada", fiquei surpresa e agradecida por ela me elogiar na frente do meu irmão.
"Fez mesmo", ela acrescentou, sorrindo. "Nós vamos ter que dar um jeito de usar seu tempo de maneira mais produtiva", ela piscou para Gaara. "Alguém gosta de enviar e-mails para os amigos quando deveria estar trabalhando."
Aquilo não era verdade — eu me senti ultrajada —, mas não podia discutir com ela na frente do Gaara.
"Eu não sei de onde você tirou essa ideia", eu disse, calma.
Mei deu uma risadinha.
"Eu reparei como você minimiza os programas quando eu passo", ela se virou para Gaara. "Eu ouvi dizer que vocês dois vão sair?"
Senti um aperto no coração ao perceber que ela queria ser convidada.
"Vamos", Gaara disse, tranquilo. "Nós precisamos de algum tempo em família."
"Que ótimo. Bom, eu vou ficar em casa, descansando e me preparando para a semana que vem." Ela piscou para mim. "Não festeje demais, Sakura. Vou precisar que você esteja a toda velocidade na segunda-feira."
Querendo dizer, pensei com amargura, que eu ainda não tinha alcançado minha velocidade máxima.
"Tenha um bom fim de semana", eu disse e fechei meu notebook.
Gaara não tinha exagerado — era um bar bem à vontade, mesmo que o estacionamento parecesse uma exposição de carros de luxo. O interior era moderno, nada romântico e lotado, com revestimento de madeira escura nas paredes e iluminação fraca. Eu gostei da namorada do Gaara, Ino, que era risonha e animada.
Era uma daquelas noites de inverno em que o clima de Houston não conseguia decidir o que queria fazer. A chuva ia e vinha, e algumas rajadas de vento nos acertavam por baixo do guarda-chuva enquanto Gaara nos levava para dentro. Percebi que Gaara era cliente assíduo daquele lugar — ele parecia conhecer o segurança na porta, dois dos barmen, algumas garçonetes e praticamente todo mundo que passava pela nossa mesa. Na verdade, Ino também parecia conhecer todo mundo. Eu fui apresentada a um desfile contínuo de Houstonitas exaustos que pareciam desesperados para conseguir seu primeiro drinque naquela noite de sexta-feira. Algumas vezes, Ino me cutucava por baixo da mesa quando algum homem atraente passava por nós.
"Ele é bonito, não é? Eu o conheço, posso apresentar vocês dois. E aquele ali adiante — também é bonito. Qual dos dois você prefere?"
"Obrigada", eu disse, agradecendo o esforço dela. "Mas ainda não superei o divórcio."
"Ah, você precisa arrumar um cara para tirar o atraso", Ino brincou. "Os caras para tirar o atraso são os melhores."
"São mesmo?"
"Eles nem sonham em querer um relacionamento sério, porque todo mundo sabe que ninguém quer isso logo depois do divórcio. Eles só querem estar no comitê de boas-vindas quando você recomeçar a fazer sexo. É o seu momento de experimentar, garota!"
"O mundo é minha placa de Petri", eu disse, levantando o copo.
Depois de beber lentamente um Martini e meio de vodca, eu estava pronta para ir para casa. O bar estava ainda mais cheio, e os grupos de corpos passando pela nossa mesa me lembraram de salmões subindo a correnteza. Eu olhei para Gaara e Ino, que pareciam não ter pressa de ir a lugar algum, e senti aquele tipo de solidão que surge quando você está em uma sala cheia de gente que parece estar se divertindo, menos você.
"Ei, vocês dois... eu estou indo."
"Não pode", Gaara disse, franzindo a testa. "Não são nem oito horas."
"Gaara, eu já tomei dois drinques e conheci 328 pessoas...", eu parei para sorrir para Ino, "...incluindo dois caras para tirar o atraso."
"Eu vou te apresentar para um deles", Ino disse, entusiasmada. "E vamos sair todos em um encontro duplo!"
Quando o inferno e metade do Texas congelarem, eu pensei, mas sorri.
"Parece ótimo. Depois a gente combina. Tchau, queridos."
Gaara começou a se levantar.
"Vou te ajudar a arrumar um táxi."
"Não, não... fique com a Ino. Vou pedir para um dos porteiros me ajudar", sacudi a cabeça, exasperada, quando vi que ele parecia preocupado. "Eu consigo encontrar a porta da frente e arrumar um táxi. Na verdade, o 1800 Main é tão perto que dá para ir andando."
"Nem pense nisso."
"Eu não estou planejando ir andando, só estava dizendo que... não importa. Divirtam-se."
Aliviada com a perspectiva de voltar para casa e tirar meus sapatos de salto alto, eu me joguei na massa de corpos em movimento. Aquilo me deu uma sensação desagradável, estar perto de tanta gente.
"Não acho que seja exatamente uma fobia", Tenten disse quando eu lhe contei que achava que tinha desenvolvido sexofobia. "Isso estaria no mesmo nível de um transtorno, e não estou convencida de que o problema esteja tão enraizado. O que acontece é que, após uma experiência como a que você teve com Sasori, sua mente inconscientemente diz 'vou atribuir sentimentos de aversão e ansiedade ao sexo oposto, para que eu evite ser machucada outra vez'. É só uma questão de religar os fios."
"Bem, eu gostaria de religar os fios ignorando sexo, então. Porque acho que não está em mim virar gay."
"Você não precisa virar gay ", Tenten disse com um meio sorriso. "Você só precisa encontrar o homem certo. Vai acontecer quando você estiver pronta."
Olhando para o passado, eu desejei que tivesse feito sexo com alguém antes do Sasori, pois alguma associação positiva poderia me ajudar a voltar à ativa. Com tristeza, eu imaginei com quantos homens eu teria que me deitar antes de começar a gostar de sexo. Eu não era boa para adquirir gostos novos.
A massa de gente engrossava perto do bar. Cada banco estava ocupado, com centenas de drinques dispostos ao longo do mosaico reluzente de mesas pelo salão. Não havia outro modo de chegar à porta que não acompanhando o rebanho. Uma sensação de asco revirava meu estômago toda vez que eu sentia o toque impessoal de um quadril, uma barriga, um braço. Para me distrair, comecei a calcular quanta gente havia naquele bar além da lotação estabelecida pelo Corpo de Bombeiros.
Alguém no rebanho tropeçou ou hesitou. Foi um efeito dominó, com uma pessoa esbarrando na outra até eu sentir o impacto de um ombro no meu. O ímpeto me lançou de encontro aos bancos junto ao balcão, fazendo com que eu derrubasse minha bolsa. Eu teria batido forte no balcão se alguém sentado ali não tivesse me apoiado.
"Desculpe, moça", alguém na multidão falou.
"Tudo bem", eu disse, ofegante, à caça da minha bolsa.
"Espere, pode deixar que eu pego", disse o rapaz sentado no banco, abaixando-se para pegar a bolsa.
"Obrigada."
Quando o sujeito se endireitou e me entregou a bolsa, eu me deparei com dois olhos negros que fizeram tudo parar; o som das vozes, a música de fundo, cada passo, piscada, respiração, batida de coração. Só uma pessoa que eu conhecia tinha olhos daquela cor. Deslumbrantes. Diabolicamente ônix.
Eu demorei para reagir, tentando fazer meu coração voltar a funcionar, e então meu pulso batia forte demais, rápido demais. Tudo que eu conseguia pensar era na última vez — a única vez — em que vi Sasuke Uchiha. Eu estava enroscada nele na adega da casa do meu pai.
Capitulo dedicado a todas vocês que acompanham, em especial, Daniele Uchiha, Lary e minha Obsidiana Negra!
Até o próximo capitulo que infelizmente vai demorar um tiquim
