Todos os personagens pertencem a Masashi Kishimoto. A história é de autoria de Lisa Kleypas do seu livro A Redenção – Série The Travis Family.

Essa fanfic é uma adaptação.

Capitulo 08

Quando um apartamento do 1800 Main ficava disponível, não permanecia assim muito tempo, apesar do preço milionário. Não importava se era uma unidade de 90 metros quadrados — o tamanho do meu apartamento de gerente, que eu adorava pelo aconchego — ou 400, dali tinham-se as melhores vistas de Houston. O prédio também oferecia serviços de recepcionista e manobrista 24 horas, cozinhas planejadas revestidas de granito e quartzo, luminárias de vidro de Murano, banheiros com chão de mármore travertino e banheiras romanas, armários que mais pareciam uma garagem, além de um clube no sexto andar com piscina olímpica e academia com personal trainer.

Apesar de todas essas comodidades, Naruto e Hinata tinham se mudado dali. Hinata não gostava de morar em prédio, e ela e Naruto concordaram que Boruto e Hanabi precisavam viver em uma casa com quintal. Eles tinham um rancho ao norte de Houston, mas era muito longe da cidade e dos escritórios de Naruto para que fosse a residência principal da família. Então, eles encontraram um terreno no bairro de Tanglewood e construíram uma casa em estilo europeu.

Depois que o apartamento ficou vazio, nossa corretora de locações, Kurenai, começou a mostrá-lo para potenciais compradores. Mas antes que qualquer pessoa pudesse visitar um imóvel no 1800 Main, Kurenai pedia referências bancárias ou de alguma firma de advocacia, para garantir que o interesse da pessoa era legítimo.

"Você ficaria espantada", ela me disse certa vez, "com a quantidade de malucos que gostariam de conhecer um apartamento de luxo."

Ela também revelou que cerca de um terço dos nossos moradores tinha pagado pelo imóvel em dinheiro, pelo menos metade era de executivos e quase três quartos era de gente que Kurenai considerava "novos ricos".

Cerca de uma semana depois que mandei entregar o paletó lavado a seco de Sasuke no escritório dele, recebi uma ligação de Kurenai. Ela parecia tensa e dispersa.

"Sakura, não posso ir trabalhar hoje. Meu pai teve dores no peito durante o fim de semana e está no hospital fazendo exames."

"Oh, sinto muito ouvir isso. Eu posso ajudar de alguma forma?"

"Pode", ela gemeu. "Você pode contar para a Mei? Eu me sinto péssima. Ela deixou claro que nós deveríamos avisar com 24 horas de antecedência uma ausência por motivo de doença."

"Mei não está aqui", eu a relembrei. "Ela tirou um fim de semana prolongado, lembra?"

Pelo que eu sabia, Mei tinha um namoro à distância com um sujeito de Atlanta, e ia visitá-lo pelo menos uma vez por mês. Ela não contou para ninguém o nome dele nem o que fazia, mas tinha me dado dicas de que era alguém podre de rico e poderoso, e que ele estava "comendo na mão" dela, claro.

Eu não podia me importar menos com quem quer que Mei estivesse namorando, mas tentei fazer cara de impressionada para não ofender. Mei parecia esperar que eu ficasse fascinada pelos detalhes banais de sua vida. Às vezes, ela repetia as mesmas histórias, como aquela em que ficava presa no trânsito, ou que a massagista disse que ela estava em ótima forma, duas ou três vezes, mesmo quando eu dizia que ela já tinha me contado aquilo. Eu tinha certeza de que ela fazia de propósito, embora não conseguisse entender o motivo, ou por que ela só fazia isso comigo.

"Mais alguma coisa, Kurenai?", eu perguntei.

"Eu agradeceria se você pudesse ir até o meu computador e imprimir o plano de marketing mais recente para o Gaara. Ele disse que iria até aí hoje, e seria muito bom ele dar uma olhada nisso."

"Vou fazer chegar nas mãos dele", eu disse.

"Ah, e mais uma coisa... tem um cliente que vai hoje às nove ver o apartamento. Você pode mostrar o imóvel para ele? Por favor, diga que eu sinto muito não poder estar presente, e que ele pode me ligar no celular se tiver qualquer pergunta."

"Claro. Ele é qualificado?", eu perguntei.

"Ele é tão qualificado que eu fico até meio tonta só de estar no mesmo ambiente que ele." Um suspiro dramático. "Solteiro e cheio da grana. Droga! Eu estava tão ansiosa por este dia. Meu único consolo é saber que Mei também não vai estar aí para conhecê-lo."

Eu dei uma risadinha.

"Pode deixar que vou falar algumas coisas boas a seu respeito para ele", eu disse.

"Obrigada. E garanta que ele tenha o número do meu celular."

"Pode deixar."

Enquanto eu refletia sobre a expressão "solteiro e cheio da grana", um arrepio engraçado percorreu minha espinha, e de algum modo... eu soube. Eu soube quem era o Sr. Solteiro-e-cheio-da-grana, e me perguntei que diabos ele poderia estar querendo.

"Kurenai", perguntei, desconfiada, "qual é o..."

"Ligação em espera", ela disse. "É o meu pai. Preciso desligar."

A ligação terminou e eu larguei o telefone. Fui até o computador da Kurenai e abri sua agenda, bem quando Shino, o recepcionista, tocou o intercomunicador.

"Kurenai, o Sr. Uchiha está aqui na recepção."

Quando minha suspeita foi confirmada, eu me vi ficar sem fôlego. Senti um misto de estarrecimento e preocupação, além de, por mais estranho que pareça, achar graça naquilo. Minha voz soou estranha aos meus próprios ouvidos.

"A Kurenai não veio hoje", eu disse ao Shino "Diga ao Sr. Uchiha que a Srta. Uzumaki vai mostrar o imóvel para ele. Vou descer em um minuto."

"Pois não, Srta. Uzumaki."

Eu dei uma conferida rápida em um espelho compacto, apliquei protetor labial colorido e afastei a franja comprida do rosto. Eu vestia calças marrom-escuras e um suéter com gola em v. Infelizmente, eu tinha escolhido calçar uma sapatilha sem salto nesse dia. Se eu soubesse que iria ver Sasuke Uchiha, teria calçado meus saltos mais altos, para não lhe dar muita vantagem na altura.

Dei uma conferida no arquivo que Kurenai tinha sobre Sasuke e passei os olhos pelo relatório de pré-qualificação. Quase derrubei os papéis ao ver os números. Quando Sasuke disse que sua empresa estava "indo bem", ele esqueceu de mencionar que estava no meio do processo de se tornar obscenamente rico. A propriedade no Golfo que ele disse estar "trazendo um bom retorno" deve ter sido um achado e tanto. Realmente um achado. E tanto.

Sasuke Uchiha estava no caminho de se tornar um barão do petróleo. Com toda certeza, eu era a última pessoa que poderia repreendê-lo por isso. Meu pai tinha laços imensos com a indústria petrolífera. E até meu irmão mais velho, com sua empresa de energia alternativa, não tinha cortado os combustíveis fósseis de uma vez do seu portfólio. Suspirando, eu fechei o arquivo e peguei o elevador até a portaria residencial.

Sasuke estava sentado em uma poltrona de couro preto perto da recepção, de onde conversava com Shiho. Ele me viu e se levantou, e meu coração começou a bater tão rápido que eu me senti um pouco tonta.

Eu coloquei uma máscara profissional, um sorriso profissional e estendi a mão assim que cheguei perto dele.

"Sr. Uchiha."

"Olá, Srta. Uzumaki."

Demos um aperto de mãos firme, impessoal e ficamos olhando um para o outro. Nós podíamos muito bem ser estranhos. Mas havia um brilho nos olhos de Sasuke que fazia o calor arder na superfície da minha pele.

"Eu sinto muito que Kurenai não esteja disponível esta manhã", eu comecei.

"Eu não sinto", ele passou um olhar rápido e minucioso por mim. "Obrigado por devolver meu paletó. Você não precisava ter mandado lavar."

Aquilo chamou a atenção de Shino. Ele olhou para nós, passando o olhar de um para outro com interesse indiscreto.

"Receio que tudo que eu vá conseguir fazer", eu disse, alegre, para Sasuke, "é acompanhá-lo em uma visita inicial, para que você possa ter uma ideia de como é o apartamento. Não sou corretora, e a Kurenai é a única pessoa que pode responder com precisão a suas perguntas."

"Tenho certeza de que você vai conseguir responder qualquer pergunta que eu tiver."

Nós fomos até o elevador, de onde saíram duas mulheres; uma mais velha, outra com idade próxima da minha. Elas pareciam mãe e filha saindo para fazer compras. Quando entrei no elevador e me virei para a porta, vi que as duas tinham olhado para trás para dar uma conferida em Sasuke.

Eu tive que admitir que aquele homem estava demais usando jeans. A calça ficava levemente agarrada nos quadris dele e delineava as longas linhas dos notáveis músculos de suas coxas. E embora eu estivesse me esforçando para não conferir o traseiro dele, minha visão periférica estava se divertindo.

Eu apertei o botão do décimo-oitavo andar. Quando o elevador começou a subir, nós ficamos em cantos afastados.

Sasuke me estudava com interesse sincero. Seu suéter de caxemira azul descansava sobre as linhas definidas do peito dele.

"Agradeço por dedicar algum tempo para mim hoje, Srta. Uzumaki."

Eu decidi que nós tínhamos que começar a nos tratar pelo primeiro nome. Ele estava começando a dizer "Srta. Uzumaki" com um toque tão exagerado de respeito que começava a parecer deboche.

"Você pode me chamar de Sakura", eu murmurei.

"Sakura", ele repetiu. O som do meu nome pronunciado lentamente me deu uma pontada apreensiva de prazer.

"O que você está fazendo aqui?", perguntei, abrupta. "Está realmente interessado neste apartamento?"

"Por que não estaria?"

"Eu vi seu endereço no formulário de pré-qualificação. Você está morando em Post Oak. Não vejo por que iria querer sair de lá."

"Aquele lugar é alugado", ele disse, tranquilo. "Não é meu. E prefiro esta localização."

Eu estreitei os olhos.

"Você sabe quem morava neste apartamento, não sabe?"

"Seu irmão e sua cunhada. E daí?"

"E daí que eu acho um pouco esquisito você querer vir morar no lugar em que Naruto e Hinata moravam."

"Se você tiver outro apartamento disponível, eu gostaria de ver também."

Nós saímos do elevador no hall que dava acesso aos corredores que formavam uma letra H, decorados em tons serenos de creme e cinza. Eu me virei para encarar Sasuke. O ar entre nós quase estalava de tensão.

"A localização deste prédio não é tão melhor que Post Oak", eu afirmei. "Na verdade, em termos de custo-benefício, é provável que seja melhor você continuar onde está."

Sasuke ergueu uma sobrancelha, parecendo se divertir.

"Você está tentando usar alguma nova tática de vendas comigo?"

"Não. Só estou tentando entender seu verdadeiro motivo."

"O que você acha?"

Eu encarei de frente aqueles olhos impenetráveis.

"Eu acho que você tem alguma questão mal resolvida com a minha cunhada."

O sorriso dele sumiu.

"Você errou feio, querida. Nós nunca nem dormimos juntos. Eu desejo tudo de melhor para a Hinat,a mas não a quero desse jeito", ele se aproximou, sem me tocar, mas senti que ele estava prestes a... bem, eu não sabia dizer o que. Senti um arrepio nervoso descer pela minha coluna. "Então, tente de novo", ele provocou. "Você não pode me manter fora daqui se não tiver um bom motivo."

Eu me afastei dele e tomei fôlego.

"Você é um criador de confusão", eu disse. "Esse é um ótimo motivo."

Ele esboçou um sorriso com o canto da boca.

"Eu fui quando tinha meus vinte e poucos anos. Essa fase já passou."

"Pois me parece que você ainda tem um pouco disso."

"Não, senhora. Sou completamente domesticado."

Eu tive uma ideia vaga de como ele deve ter sido na escola, um garoto malandro tentando convencer a professora de sua inocência. E o charme manhoso dele era tão irresistível que eu tive que me virar para esconder um sorriso.

"Claro que é", eu disse e o conduzi até o apartamento.

Parando na porta, comecei a digitar os números na fechadura eletrônica. Eu estava impregnada pela intensidade da presença de Sasuke, tão grande e forte atrás de mim. Lá estava aquele cheiro outra vez, perturbador.

Eu apertei a última tecla, sem prestar atenção no que estava fazendo. Embora eu tivesse digitado aquela senha milhares de vezes enquanto estive hospedada com Naruto e Hinata, devo ter errado algum número. Em vez de produzir o clique que sinalizava sua abertura, a fechadura emitiu uma série de bipes.

"Desculpe", eu disse sem fôlego, tentando olhar para qualquer lado, menos para ele. "Eu digitei a senha errada. Quando isso acontece, ela demora um pouco para reiniciar. Você pode mudar a combinação para qualquer número que..."

"Sakura", ele me interrompeu em voz baixa e esperou até eu conseguir olhar para ele.

Eu agarrei a maçaneta como se minha vida dependesse disso. Eu tive que pigarrear antes de conseguir produzir algum som.

"O q-que foi?"

"Por que eu deixo você tão nervosa?", a voz dele era suave e alcançou um lugar sensível e dolorido dentro de mim. Um sorriso irônico tocou os lábios dele.

"Você está com medo que eu vá tentar alguma coisa com você?"

Eu não consegui responder.

Eu não aguento isso, pensei, desesperada. Senti uma onda de calor e camadas de cor me recobrindo. Meu coração operava com batimentos dolorosos. Tudo que eu conseguia fazer era encarar Sasuke sem piscar, minhas costas pressionando a porta enquanto ele se curvava sobre mim.

Ele se aproximou até eu começar a sentir a pressão dos músculos firmes de seu corpo em vários lugares ao mesmo tempo. Eu fechei os olhos, mortificada pelas rajadas rápidas da minha própria respiração.

"Então vamos acabar logo com isso", Sasuke murmurou, "para que você pare de se preocupar."

Ele baixou a cabeça e aproximou a boca da minha. Eu pus meus punhos entre nós, com meus braços sobre o peito em um bloqueio rígido. Eu não consegui me fazer empurrá-lo, mas também não consegui deixá-lo me abraçar por completo.

Ele colocou os braços à minha volta, um abraço firme, mas gentil, como se estivesse tomando cuidado para não me esmagar. Nossas respirações se misturaram e o calor cresceu em um ritmo agitado.

Os lábios dele se moveram, capturando meu lábio superior, depois o inferior, abrindo-os. Toda vez que eu pensava que o beijo iria parar, continuava mais um pouco, ia mais fundo, e minha garganta pinicava como se eu estivesse ingerindo algo doce. Eu senti o toque sedoso da língua dele... um gosto suave... outro... eu me senti fraca, dissolvendo-me na sensação.

A delicadeza dele foi me desarmando até eu quase esquecer o nó de medo no estômago. Eu fiquei ali respirando-o, sentindo-o... mas ele estava à minha volta toda, poderia me dominar facilmente se quisesse. Eu não conseguia lidar com aquele sentimento de impotência, não importava o quanto ele fosse gentil.

Afastando minha boca, eu interrompi o beijo com um lamento.

Os lábios de Sasuke roçaram o alto da minha cabeça e ele me soltou aos poucos. Ele baixou o rosto para mim, um calor negro em seus olhos.

"Agora me mostre o apartamento", ele sussurrou.

Por pura sorte — eu ainda não conseguia extrair um pensamento coerente do meu cérebro — consegui digitar a combinação correta e abrir a porta.

Como eu não tinha certeza de que conseguiria caminhar sem cambalear, deixei Sasuke explorar o imóvel sozinho. Ele vagou pelo apartamento de três dormitórios e examinou acabamentos, utensílios e vistas em cada aposento. Na área de estar, um imenso janelão de vidro que ocupava toda a parede revelava uma vista espetacular de Houston, uma cidade sem zoneamento que se espraiava em uma confusão de escritórios, shopping centers e mansões e barracos, o barato e o grandioso se misturando à vontade.

Observando a silhueta longilínea de Sasuke em frente às janelas, pensei que o apartamento combinava com ele. Ele queria mostrar para os outros que tinha chegado para ficar. E não se podia culpá-lo por isso. Em Houston, se você queria um lugar à mesa, tinha que possuir as roupas, os carros, o apartamento no arranha-céu, a mansão. A mulher alta e loira.

Precisando quebrar o silêncio, eu afinal reencontrei minha voz.

"A Hinata me contou que você costumava trabalhar em plataformas de petróleo", eu me encostei no balcão da cozinha enquanto o observava. "O que você fazia?"

Ele me olhou por cima do ombro antes de responder.

"Eu era soldador."

Não é de admirar, eu pensei, e não percebi que tinha falado isso em voz alta até ele responder.

"Não é de admirar o quê?"

"Que você... tenha esses ombros e esses braços", eu disse, envergonhada.

"Oh", ele se virou para mim, as mãos ainda enfiadas nos bolsos. "É, eles normalmente pegam os sujeitos maiores para fazer a soldagem nas plataformas, as coisas que não puderam fazer nas oficinas em terra firme. Então eu tinha que carregar um power-con de trinta quilos por toda a plataforma, subindo e descendo escadas... isso faz você entrar em forma bem rápido."

"Power-con é um tipo de gerador?"

Ele anuiu.

"Os modelos mais novos são feitos com os cabos afastados, para que duas pessoas possam carregar juntas. Mas a versão antiga, a que eu tinha que levar comigo, só podia ser carregada por um. Diacho, meus músculos ficavam tão doloridos...", ele sorriu e massageou a nuca, como se lembrasse de incômodos antigos. "Você deveria ter visto os outros soldadores de plataforma. Eles me faziam parecer minúsculo."

"Eu não consigo imaginar isso", admiti.

Ele se aproximou de mim sorrindo e foi se encostar do outro lado do balcão.

"Você gostava de trabalhar como soldador?", perguntei, hesitante. "Quero dizer, era isso que você queria fazer?"

"Eu queria fazer qualquer coisa que me tirasse de Welcome."

"A cidade em que você cresceu?"

Ele anuiu.

"Eu estourei um dos joelhos jogando futebol, então adeus chance de uma bolsa na faculdade. E em Welcome, se você não for para a faculdade, suas opções são limitadas. Eu sabia soldar, por causa do meu trabalho com cercas. Não precisei de muita coisa para ganhar um certificado. E eu tinha um amigo que trabalhava na manutenção de uma plataforma. Ele me disse que soldadores ganhavam oitenta pratas por hora."

"Você imaginou que chegaria a... aqui?", eu gesticulei para o apartamento imaculado e reluzente à nossa volta.

"Não", Sasuke respondeu de imediato. "Eu nunca imaginei que...", mas enquanto ele encarava meus olhos, parou de falar. Parecia que ele pesava as consequências de suas palavras, imaginando como eu reagiria se ele dissesse a verdade. "Sim, eu sabia aonde iria chegar", ele disse, afinal, a voz suave. "Eu sempre soube que faria o que fosse necessário. Vivendo em um estacionamento de trailers, correndo com um grupo de garotos descalços... minha vida toda estava traçada para mim, e eu com certeza não gostava do que via. Então eu sempre soube que aproveitaria minha oportunidade quando ela aparecesse. E se ela não viesse, eu faria algo acontecer."

Quando eu começava a entender que motivação tremenda ele devia possuir, fiquei surpresa por perceber algo parecido com vergonha escondido no fundo daquela confissão.

"Por que você se sente constrangido em admitir que é ambicioso?"

Ele me deu um olhar demorado, como se nunca tivessem lhe feito aquela pergunta. Uma pausa cautelosa.

"Eu aprendi desde cedo a não falar sobre isso", ele respondeu, afinal. "Do contrário, os outros debocham de você."

"Por quê?"

"Funciona como caranguejos em uma caixa." Vendo que eu não tinha entendido, ele explicou, "Você pode manter vários caranguejos em uma caixa baixa, e nenhum deles vai conseguir fugir. Porque assim que um deles tenta escalar a lateral do recipiente, os outros o puxam de volta."

Nós nos encaramos diretamente, nossos antebraços apoiados no balcão entre nós. Aquilo estava muito íntimo, muito forte, como se alguma corrente elétrica corresse entre nós dois. Eu me afastei e desviei o olhar, interrompendo a ligação.

"O que você fazia em Dallas?", eu o ouvi perguntar.

"Eu trabalhei em um hotel durante algum tempo. Depois fiquei em casa por cerca de um ano."

Os olhos de Sasuke faiscaram em um brilho de deboche.

"Fazendo o quê? Sendo uma esposa-troféu?"

Eu preferiria morrer a deixar que ele soubesse a verdade.

"Sim", eu disse, despreocupada. "Foi bem entediante."

"Foi por isso que seu casamento acabou? Você ficou entediada?"

"Mais ou menos", lendo a expressão dele, eu declarei em tom de pergunta: "Você acha que eu sou mimada, não é?"

Ele não se preocupou em negar.

"Eu acho que você deveria ter casado com alguém que soubesse fazer você se divertir."

"Eu simplesmente não deveria ter casado. Não nasci para isso."

"Nunca se sabe. Você pode querer tentar de novo um dia desses."

Eu neguei com a cabeça.

"Nenhum homem nunca mais vai ter esse poder sobre mim."

Um leve traço de desprezo se fez ouvir na voz dele.

"Você tinha todo o poder, querida. Você é filha de um milionário."

É claro. Era assim que parecia do lado de fora. Ninguém pode imaginar que eu não tivesse poder nenhum, sobre nada.

"Todo esse papo sobre casamento é entediante", eu disse. "Principalmente o meu. E eu prefiro que você não me chame de querida." Eu saí de trás do balcão, meus braços cruzados sobre o peito. "O que você achou do apartamento?"

"Eu gostei."

"Espaço demais para um homem solteiro, não acha?"

"Eu cresci em uma família de cinco dentro de um trailer. Depois disso, nenhum espaço é grande demais."

Eu tentei me lembrar do que Hinata tinha me falado sobre a família dele.

"Dois irmãos e uma irmã, certo?"

"Certo. Itachi, Obito e Naori", uma sombra passou pelo rosto dele. "Minha irmã morreu no ano passado. Câncer de mama. Lutou muito. Dupla mastectomia, quatro meses de quimioterapia. Ela foi ao Centro Anderson de Oncologia da Universidade do Texas. Eu a teria levado a qualquer lugar no mundo, mas todos disseram que esse era o melhor lugar. Perto do fim, eles começaram a lhe dar Arimidex, que ela disse ser pior que quimioterapia. Nada impedia que os marcadores de câncer continuassem crescendo."

"Eu sinto muito." Eu queria expressar o quanto eu o entendia, até mesmo nas coisas que ele não tinha dito. Eu me peguei indo na direção dele e me encostei no mesmo lado do balcão que ele estava. "Eu sei como é perder alguém desse modo. Minha mãe também morreu de câncer de mama. Só que ela nunca passou por quimioterapia. Quando descobriram, era tarde demais. Ela estava no estágio quatro, com metástases no pulmão. Minha mãe preferiu ter uma vida mais curta, com mais qualidade, em vez de estendê-la com cirurgia e tratamentos, que de qualquer modo não teriam funcionado."

"Quantos anos você tinha?", ele perguntou.

"Quinze."

Olhando para mim, ele esticou a mão para afastar minha franja, que tinha caído sobre um olho.

"Sakura... se você me disser para não ficar com o apartamento, eu não fico. Do contrário, eu quero morar aqui. Mas você decide."

Eu arregalei os olhos.

"Eu... eu... sua decisão não tem nada a ver comigo. Não me torne parte dela."

"Você se incomodaria se eu morasse aqui?"

"Claro que não", eu disse, um pouco rápido demais.

Ele abriu um sorriso preguiçoso.

"Eu não sou um homem de muitos talentos... mas os poucos que eu tenho são bons. Um deles é sempre saber quando alguém está mentindo para mim."

Eu não tive escolha senão admitir a verdade.

"Tudo bem. Talvez me incomode um pouco."

"Por quê?"

Ele era bom em me deixar sem jeito. Eu podia sentir meu pulso acelerando, agitado. Eu não sabia o que Sasuke tinha, que fazia com que conseguisse vencer minhas defesas. Droga, como ele era astucioso. Agressivo, dominador, mas esperto o bastante para disfarçar tudo isso com um charme tranquilo. Ele era dez vezes mais homem que Sasori e era simplesmente demais, em todos os sentidos.

Eu imaginei que, se algum dia eu o deixasse se aproximar de mim, eu teria o que merecia, e o resultado não seria bonito.

"Olhe", eu disse, incisiva, "você mudando para cá ou não, não estou interessada em nenhum tipo de... sei lá o que... com você."

O olhar dele não se afastou do meu. Seus olhos estavam um tom mais escuro.

"Defina 'sei lá o que' ", ele pediu.

"Neste caso significa sexo."

"Esse é outro dos meus talentos", ele se gabou.

Agitada do jeito que eu estava, quase sorri.

"Tenho certeza de que isso vai deixar algumas das moradoras do 1800 Main bem felizes", eu fiz uma pausa para acrescentar ênfase. "Mas eu não serei uma delas."

"Entendi. Então onde eu vou ficar, Sakura? ...aqui ou em Post Oak?"

Eu fiz um gesto impaciente para indicar que tanto fazia.

"Venha para cá, se quiser. O país é livre."

"Tudo bem, então eu virei."

Eu não gostei do modo como aquilo soou, como se nós tivéssemos feito algum tipo de acordo.

Espero que estejam gostando .

Capitulo dedicado aos meus amores Obsidiana Negra e Lary, obrigada pelo incentivo!