Todos os personagens pertencem a Masashi Kishimoto. A história é de autoria de Lisa Kleypas do seu livro A Redenção – Série The Travis Family.
Essa fanfic é uma adaptação.
Capitulo 09
"O cacete que ele vai morar aqui", Gaara exclamou, indignado, andando de um lado para outro no escritório, mais tarde naquele dia. Ele tinha passado para uma visita rápida, para ver como as coisas estavam indo. Embora ele nunca admitiria, acredito que Gaara se sentia aliviado por Mei não estar presente.
Sempre que estava por perto, ela ficava dando sinais discretos de que pretendia que o relacionamento deles fosse além do campo profissional. Ainda bem que ele não parecia interessado.
Enquanto Gaara fumegava por causa do Sasuke, eu fiquei sentada atrás da minha escrivaninha, tentando entender um software novo com o qual ainda estava atrapalhada.
"Eu penso assim", argumentei, erguendo os olhos do computador, " 'Mantenha os amigos perto, e os inimigos mais perto.' Que jeito melhor existe de descobrir o que Sasuke Uchiha está tramando do que com ele no nosso prédio?" Aquilo fez Gaara pensar.
"Eu acho que isso faz algum sentido. Mas por que ele quer morar aqui? Tem alguma coisa a ver com Naruto e Hinata..."
"Não. Honestamente, não acho que seja isso. Acredito que ele teria ficado com outro apartamento se houvesse."
Gaara sentou na borda da minha mesa.
"Ele está armando alguma jogada. Eu posso garantir."
Ele parecia tão certo que eu olhei para ele com cara de interrogação.
"Você já o conheceu?"
"Já, há cerca de um ano. Ele estava com uma garota que eu tinha namorado e por acaso eu a vi em uma boate. Então nós três conversamos por alguns minutos."
"E o que você achou dele?"
Um sorriso irônico curvou os lábios de Gaara.
"Odeio ter que admitir, mas se não fosse pelo que ele fez com o acordo de biocombustível do Naruto, e por ter aparecido sem convite no casamento, eu poderia ter gostado do sujeito. Nós conversamos sobre caça e pesca e ele me pareceu um cara ponta firme. E, gostando dele ou não, é preciso admitir que a empresa dele está mandando bem."
"Como você acha que ele conseguiu isso?"
"Ele reuniu uma equipe ótima, e sabe negociar bons contratos. Mas, acima de tudo, ele tem o dom de encontrar petróleo. Pode chamar de sorte, habilidade, o que for, mas algumas pessoas têm e outras não. Ele pode não ter feito faculdade, mas tem um conhecimento que não se tem como ensinar. Não sou eu quem vai subestimá-lo", Gaara passou a mão pelo cabelo, parecendo pensativo.
"Deidara também o conheceu."
Eu pisquei, surpresa.
"O quê? Deidara, nosso irmão?"
"É. Deidara tirou a fotografia para aquele perfil que fizeram sobre ele na Texas Monthly, ano passado."
"Que coincidência", eu disse, pensativa. "O que Deidara falou sobre ele?"
"Não me lembro. Você vai ter que perguntar para ele", Gaara franziu o rosto. "Você acha que Uchiha tem algum tipo de vingança em andamento contra a família Uzumaki?"
"Vingança por que motivo?"
"Porque Naruto casou com a antiga namorada dele?"
"Isso seria levar as coisas um pouco longe demais", ponderei, cética. "Quero dizer, eles nem transaram."
Gaara ergueu as sobrancelhas.
"Como você sabe disso?"
"Ele me disse."
"Você estava conversando sobre sexo com Sasuke Uchiha?", ele perguntou no mesmo tom que teria usado para dizer até você, Sakura?
"Não foi desse jeito", eu disse, constrangida. "Foi um tipo de referência casual."
Gaara me encarou por um longo momento.
"Se ele sequer olhar na sua direção, vou limpar o chão com a bunda dele..."
"Gaara, fale baixo..."
"...e vou deixar isso muito claro para ele antes que o contrato seja assinado."
"Se você vai me envergonhar desse jeito, pode procurar uma nova assistente de gerência. Eu juro, Gaara. Nem uma palavra para o Sasuke."
Um silêncio comprido enquanto meu irmão me encarava.
"Você está interessada nesse Uchiha?", ele perguntou.
"Não!"
"Ótimo. Porque — e não leve isso para o lado pessoal — eu não confio na sua capacidade de escolher um cara decente. Se você gosta de alguém, ele provavelmente não presta."
"Essa é uma imensa violação de limites", eu disse, indignada.
"Uma o quê?"
"Isso quer dizer que eu não faço nenhum comentário sobre o tipo de mulher que você namora, e você não tem o direito de julgar minhas escolhas."
"É, mas...", Gaara parou e fez uma careta. "Você tem razão. Não é da minha conta. É só que... eu queria que você conhecesse algum cara legal, sem tanta história."
Eu tive que rir. Minha irritação desapareceu e eu estendi o braço para tocar a mão dele.
"Se um dia você encontrar um", eu disse, "por favor, me apresente."
Meu telefone celular tocou e eu o peguei na minha bolsa.
"Tchau, Gaara", eu disse e atendi o telefone. "Alô?"
"Sakura."
O som da voz do Sasuke foi um choque sutil e agradável.
"Oi", eu disse e fiquei brava comigo mesma pela voz resfolegante.
Gaara, que estava saindo do meu cubículo, parou na entrada e me olhou com curiosidade. Eu acenei para ele ir embora, mas ele continuou onde estava, observando e escutando.
Eu adotei um tom decidido, profissional.
"Você tem alguma pergunta sobre o apartamento? Eu vou lhe dar o número da Kurenai..."
"Eu já tenho o número dela. Eu queria falar com você."
"Oh", eu mexi em uma caneta que estava sobre a mesa. "Como eu posso ajudá-lo?"
"Eu preciso que você me indique alguém para ajeitar o apartamento — escolher a mobília, as cores, esse tipo de coisa."
"Um decorador de interiores?"
"Isso, mas alguém bom. O que eu contratei para o meu apartamento anterior cobrou uma fortuna e deixou o lugar parecendo um bar de Forth Worth."
"E esse não é o seu estilo?"
"É exatamente o meu estilo. Esse é o problema. Eu preciso melhorar minha imagem."
"Você não precisa se preocupar com isso", eu disse. "O estilo formal já era. À vontade e confortável é a tendência."
"Eu tenho um sofá que pastava a céu aberto."
Não pude deixar de rir ao ouvir aquilo.
"Você quer dizer couro de vaca? Com as manchas e tudo? Oh, Deus, você realmente precisa de ajuda." Eu pensei em Sai. "Eu conheço alguém, mas ele não é barato."
"Tudo bem, desde que seja bom."
"Você quer que eu ligue para ele e marque algo?"
"Seria ótimo, obrigado. E queria te pedir um favor, será que você poderia estar presente quando eu me encontrar com ele?"
Eu hesitei e meus dedos apertaram a caneta.
"Eu não acho que poderia ajudar."
"Eu preciso da sua opinião. Meu tipo de decoração costuma envolver couro, pelos e chifres. Você não faz ideia do tipo de coisa que conseguem me convencer."
"Tudo bem", eu disse, relutante. "Vou estar presente. Quando você pode?"
"Estou preso o resto do dia e amanhã, terminando um AFE. Então depois de amanhã, ou qualquer outro dia, estaria bom para mim."
"O que é um AFE?"
"Basicamente, é um orçamento, com todas as estimativas para perfuração e finalização de um poço, incluindo salários, serviços e equipamento. Você pode se dar muito mal se não fizer um AFE bem feito e garantir que todo mundo o siga. Isso é muito importante para empresas pequenas com orçamento limitado."
"Então é você que faz todo mundo seguir o AFE?"
"É, eu sou o sócio mau", Sasuke admitiu. "Nenhum dos outros é bom nisso. Um é geofísico e se concentra no lado científico, e o outro não sabe lidar com confronto. Então, sobra para mim. Eu sei que não administrei direito um projeto quando não recebo pelo menos algumas ameaças de morte ao longo do caminho."
"Eu aposto que você é bom em confrontos", eu disse.
"Tenho que ser, às vezes. Mas não sou assim por natureza."
"Claro", concordei, sorrindo com ceticismo. "Mais tarde eu ligo para passar o horário."
"Tudo bem, chefe."
O sorriso continuava pregado nos cantos da minha boca quando ergui o rosto e vi Gaara ali. Eu não sabia dizer se ele estava carrancudo ou debochando, mas sua expressão não era de felicidade.
"Não me diga que você estava falando com Sasuke Uchiha."
"Eu estava falando com Sasuke Uchiha. O que é que tem?"
"Eu não ouvia você dando suas risadinhas desde o colégio."
"Eu não estava dando risadinhas", retruquei na defensiva. "Eu nunca dou risadinhas. E antes que você diga qualquer coisa, lembre-se dos meus limites pessoais."
"Veja se Sasuke Uchiha se lembra dos seus limites pessoais", Gaara resmungou e saiu do meu cubículo.
"Sabe", Sai comentou, "Eu já tive muitos clientes com gosto terrível para decoração. Mas eles nunca admitem isso. Eles me contratam e depois ficam um tempão discutindo o projeto. Este é o primeiro cliente que admite ter um gosto horroroso."
"Eu acho que ele parece ter orgulho disso", eu pontuei.
Nós estávamos no elevador a caminho do décimo-oitavo andar, onde iríamos encontrar Sasuke em seu novo apartamento.
"Eu lhe contei o que Konan Tanaka disse quando eu falei para ela que iria fazer o projeto do apartamento dele?", Todd perguntou.
Konan era a garota mais linda do colégio, para não mencionar que foi a chefe das animadoras de torcida e princesa da classe. Quando ela se casou, deu uma das maiores festas que Houston já tinha visto, e se divorciou onze meses depois.
"Não, o que foi?"
"Ela disse, 'Você pode até cuidar do apartamento dele, Sai, mas eu cuidei dele'."
Fiquei de boca aberta.
"Konan Tanaka transou com Sasuke Uchiha?", sussurrei, escandalizada.
Os olhos escuros de Sai brilharam de deleite.
"Um caso de uma noite. Eles se conheceram na 'lua de divórcio'."
"O que é uma lua de divórcio?"
"É a viagem que as pessoas fazem depois do divórcio... você sabe, como uma lua de mel. Você não fez a sua?"
Eu lembrei que estava deitada no apartamento de Naruto e Hinata com um suporte para as costelas e uma concussão e dei um sorriso sombrio.
"Não exatamente."
"Bem, Konan fez. Ela foi para Galveston, e lá teve uma grande festa em que Sasuke Uchiha estava presente. Então, depois que eles conversaram por algum tempo, foram para o quarto dela no hotel. De acordo com Konan, eles fizeram sexo a noite toda, em todas as posições possíveis, e quando acabou ela estava se sentindo uma prostituta barata. Ela disse que foi fabuloso."
Eu pus a mão no abdome, onde alguns nervos estavam pulando. Pensar em Sasuke fazendo sexo com alguém que eu conhecia era desconcertante — de um modo estranho.
"Pena que ele seja hétero", Sai acrescentou. "Heterossexualidade é tão limitante."
Eu lhe dirigi um olhar de censura.
"Faça um favor para mim e não tente nada com o Sasuke."
"Claro. Você está dizendo que chegou primeiro?"
"Não. Nada disso. Eu só não quero que você o deixe nervoso. Com certeza ele não é bi-qualquer-coisa."
Enquanto saíamos do elevador e nos dirigíamos ao apartamento, eu imaginei o que Sasuke pensaria de Sai. Meu amigo não tinha nada de afeminado, mas ainda assim transmitia uma energia de que era capaz de jogar dos dois lados do campo. As pessoas normalmente gostavam dele. Sai tinha um ar descolado e tranquilo, de quem se sente à vontade consigo mesmo.
"Eu acho que você vai se entender bem com o Sasuke ", eu disse. "Depois vou querer saber sua opinião sobre ele."
Sai tinha uma habilidade infalível de ler os outros, de cavoucar os segredos que as pessoas revelavam sem nem mesmo saber. Linguagem corporal, hesitações verbais, diminutas mudanças de expressão... Sai enxergava tudo com a sensibilidade que um artista tem para os detalhes. Quando chegamos à porta, vimos que já estava aberta.
"Olá?", eu chamei, hesitante enquanto entrávamos no apartamento.
Sasuke veio nos receber, seu olhar passeando por mim antes de se deter no meu rosto.
"Oi", ele sorriu e esticou a mão para mim. Ele segurou minha mão um instante a mais, deslizando seu polegar pela minha palma antes que eu a puxasse.
Ele vestia um terno de grife, uma linda camisa social e um relógio bom. Sua gravata estava um pouco solta, como se ele a tivesse afrouxado, e seu cabelo caía em camadas negras que praticamente imploravam para serem tocadas. Ele ficava bem em trajes civilizados, mas ainda assim havia nele um toque de lutador, um indício de que não tinha sido feito para ficar preso em terno e gravata.
"Posso ajudar você com isso?", ele perguntou a Sai, que carregava uma pilha de materiais, incluindo um portfólio, catálogo de amostras, desenhos e pastas.
"Não, está tudo bem", Sai apoiou a pilha no tampo de quartzo cinza do balcão. Ele deu um sorriso amigável para Sasuke e estendeu a mão. "Sai Sarutobi. Seu apartamento é ótimo. Acho que nós podemos fazer algo espetacular com este lugar."
"Espero que sim", Sasuke apertou a mão dele com firmeza. "Eu vou fazer o possível para deixar o caminho livre e não atrapalhar."
"Você não precisa deixar o caminho livre. Eu pretendo levar seus gostos e desgostos em conta." Fazendo uma pausa, Sai acrescentou com um sorriso, "Nós podemos até incluir o sofá de vaca, se você tiver uma ligação sentimental com ele."
"Ele é muito confortável", Sasuke disse, com ar sonhador. "Eu tenho boas lembranças desse sofá."
"Nós todos vamos agradecer se você guardar essas lembranças para si", eu disse, enfaticamente.
Sasuke sorriu para mim.
"Na ausência da mobília", Sai continuou, "esta reunião vai ter que ser no balcão da cozinha. Se você se aproximar, Sasuke, vou lhe mostrar algumas ideias que comecei a desenvolver. Eu tenho uma cópia da planta, então já conheço a disposição..."
Enquanto Sasuke rodeava o balcão para se aproximar dele, Sai virou para mim e fez Uau com a boca, e seus olhos cintilaram de alegria. Eu o ignorei.
Os dois se debruçaram sobre o livro de amostras.
"Está vendo esta paleta de cores...?" Sai começou. "Tons terrosos, caramelos, verdes botânicos, um pouco de abóbora aqui e ali para realçar. Este seria um ambiente muito confortável. E ajudaria a suavizar a esterilidade do acabamento."
Eles concordaram com texturas e tons naturais, e com mobília feita sob encomenda. A única preferência que Sasuke manifestou foi não querer um monte de mesinhas e cadeiras espalhadas pelo ambiente. Ele queria peças grandes que não o fizessem se sentir apertado.
"É claro", Sai concordou. "Um homem grande como você... Quanto você mede, um metro e oitenta e cinco, um e noventa...?"
"Um e oitenta e oito."
"Certo", Sai me lançou um olhar de pura malícia. Era claro que ele tinha achado Sasuke tão delicioso quanto eu achei. Mas ao contrário de mim, Sai não sentia nenhum conflito a respeito.
"O que você acha?", Sasuke me perguntou quando eles tiraram algumas páginas de amostras do catálogo e as colocaram lado a lado sobre o balcão. "Você gosta disso?"
Quando me aproximei dele, senti o toque leve de sua mão nas minhas costas.
Uma onda de calor percorreu minha coluna, chegando na base no crânio.
"Eu gosto", falei. "Mas ainda tenho reservas quanto ao sofá de vaca."
"Ele acrescenta um toque extravagante", Sai insistiu. "Vai funcionar. Dê uma chance ao sofá."
"Nada de sofá de vaca se ela não quiser", Sasuke disse para Sai.
Sai arqueou a sobrancelha, irônico, ao olhar para mim.
"Que tal laranja, Sakura? Podemos usar laranja ou é demais para você?"
Eu estudei a paleta e toquei uma amostra do veludo cor de chocolate.
"Na verdade, eu gosto deste marrom."
"Já estou usando isso na poltrona", Sai argumentou.
"Então faça a poltrona laranja e o sofá marrom."
Sai refletiu sobre isso e fez anotações.
Eu ouvi o toque de um telefone celular. Sasuke olhou para nós dois.
"Desculpem. Vocês se importam se eu atender? Vou terminar o mais rápido possível."
"Fique à vontade", Sai disse. "Nós estamos à vontade."
Sasuke atendeu o celular e foi até o quarto ao lado.
"É o Uchiha", ele disse e fez uma pausa enquanto a pessoa do outro lado da linha falava. "É só ter certeza de que eles vão penetrar devagar com a broca quando forem enfiar... e eu quero que acertem o ângulo, entendido? O equipamento aguenta. É, nós não vamos penetrar muito fundo, nada além de um raio médio..."
Não existe atividade com terminologia mais fálica do que a atividade petroleira. Depois de ser exposta a três minutos de uma conversa com penetração, buracos, fluidos e brocas, até uma freira beneditina teria pensamentos impuros. Sai e eu ficamos em silêncio, escutando com avidez.
"...diga-lhes que vai ser de comprido, na horizontal."
"Eu queria ver o comprido dele na horizontal comigo", Sai comentou.
Eu sufoquei uma risada.
"Eu admito, ele é fofo."
"Fofo? Não! Ele é sexy como o diabo. Infelizmente, também é muito hétero. Então... é seu."
Eu meneei a cabeça.
"O divórcio ainda está muito perto. Eu não o quero. Além disso, ele sabe ser um cretino, e eu já tive muito disso."
"Você deixa que ele te toque", Sai observou como quem não quer nada.
"Eu não deixo", falei e arregalei os olhos.
"Deixa sim. Uns toquezinhos aqui e ali. Ele põe a mão no seu braço, nas suas costas, fica perto de você, fazendo com que se acostume com ele... é um ritual de acasalamento. Como a marcha dos pinguins."
"Não tem nada a ver com ritual de acasalamento. É uma coisa do Texas. As pessoas aqui são muito de toque."
"Principalmente quando elas querem comer você no meio da semana que vem."
"Sai, cale a boca", eu murmurei e ele abafou uma risada.
Nós dois fingimos estar olhando o livro de amostras quando Sasuke voltou para a sala.
Mais alguns minutos de discussão e então Sasuke olhou para o relógio.
"Eu sinto muito ter que pedir isto... mas vocês se importam se nós terminarmos alguns minutos antes?"
"Claro que não", Sai disse. "Eu já tenho mais que o suficiente para começar."
"Obrigado. Agradeço a compreensão", Sasuke afrouxou a gravata e desabotoou o colarinho da camisa. "Hora de tirar a fantasia. Nós estamos com problema de perfuração em um poço secundário, e eu preciso ir até o local ver o que está acontecendo", ele pegou a pasta e um chaveiro e sorriu para mim. "Até aqui o buraco está seco. Mas eu estou com a sensação de que logo vai esguichar."
Não me arrisquei a olhar para o Sai.
"Boa sorte", eu disse. "A propósito, tudo bem se eu e Sai ficarmos mais alguns minutos?"
"Claro."
"Eu tranco quando formos embora."
"Obrigado", Sasuke passou por mim, roçando os dedos levemente na minha mão que descansava sobre o balcão. O toque ligeiro provocou sensações que subiram pelo meu braço. O olhar dele conectou-se com o meu em um piscar de negro profano. "Tchau."
A porta se fechou atrás dele. Eu me apoiei no balcão, tentando pensar direito, mas meu cérebro tinha me abandonado.
Passaram-se pelo menos trinta segundos antes de eu olhar para o Sai. Os olhos dele estavam ligeiramente nebulosos, como se estivesse acordando — de má vontade — de um sonho molhado.
"Eu não sabia que ainda faziam homens desse jeito", ele suspirou.
"Que jeito?"
"Descolado, durão, com uma masculinidade antiquada. Do tipo que só chora se alguém atropelar o cachorro dele. Um cara de peito largo em que podemos saciar nossos patéticos complexos paternos."
"Eu não tenho um complexo paterno patético."
"Ah, não? Diga-me que você não se imaginou sentada no colo dele", Sai sorriu quando eu corei. "Você sabe o que é o cheiro dele, Sakura? Testosterona, transbordando pelos poros."
Eu cobri as orelhas com as mãos e ele soltou uma gargalhada. Sai esperou até eu tirar as mãos das orelhas antes de continuar.
"Você precisa tomar cuidado com ele, querida", ele disse em tom mais sério.
"Cuidado? Por quê?"
"Eu tenho a sensação de que por baixo do exterior de olhos ônix e moço trabalhador, ele é um pouco conturbado."
Senti meus olhos arregalando.
"Conturbado do tipo doente?"
"Não. Conturbado tipo conturbado, ardiloso, que gosta de desafiar regras, fazer intrigas."
"Não concordo. Ele é igual ao Gaara. Um homem direto, franco."
"Não, isso é o que ele quer que você pense. Mas não acredite nisso nem por um minuto. É uma fachada, esse papel de caipira simplório que ele interpreta. Ele faz isso para envolver as pessoas. E então ele dá o bote."
"Você está dizendo que Sasuke é algum tipo de mestre da manipulação?", eu perguntei, cética. "Ele veio de um estacionamento de trailers, Sai."
"A única pessoa que eu conheço que é quase tão boa nesse tipo de dissimulação calculada... quase tão boa... é o seu pai."
Eu dei uma risada incrédula, mas senti um arrepio percorrer minha coluna.
"Você acha que ele é um homem mau?"
"Não. Mas tem muita coisa borbulhando por baixo da superfície. Mesmo quando interpreta o sujeito comum, ele está analisando e aprendendo o tempo todo."
"Você captou tudo isso só de conversar sobre sofás com ele?"
Sai sorriu.
"As pessoas revelam demais quando falam de seus gostos pessoais. E eu captei muita coisa enquanto o observava observando você. Acho que você ainda vai passar muito tempo com ele, querida."
"Você acha que eu devo ficar longe dele?", perguntei, com a voz esganiçada.
Sai demorou um bom tempo para responder.
"Meu conselho é: se você está disposta a ir nessa direção, vá de olhos abertos. Pode ser legal deixar que alguém manipule você, Sakura, desde que saiba o que está acontecendo."
"Eu não quero ser manipulada."
"Ah, eu não sei", um sorriso tocou os lábios dele. "Com um homem desses... isso pode ser divertido."
Quando terminou meu horário de almoço, eu voltei para o meu cubículo e a voz suave e clara de Mei soou no intercomunicador.
"Sakura, venha ao meu escritório, por favor."
Eu pensei no mesmo instante que não tinha feito nada errado, portanto não poderia ser nenhum problema, mas cada uma das palavras dela me atingiu como se eu tivesse sido alvejada no coração com uma arma de pregos.
Eu tinha certeza de que o fim de semana romântico da Mei não tinha ido bem, porque ela voltou com um humor do cão. Ela usava a mesma máscara de serenidade de sempre, mas quando estávamos só nós duas no escritório, ela derrubava "por acidente" o porta-lápis e me pedia para recolher tudo do chão. E então ela derrubava uma pasta e me pedia para recolher os papéis que tinham se espalhado pela sala. Eu não podia acusá-la de fazer essas coisas de propósito.
Afinal, todo mundo tem momentos atrapalhados. Ela parecia quase jovial quando eu terminava de reunir os papéis. Eu percebi que, em um curto período de tempo, tinha aparecido outra pessoa na minha vida para eu temer.
"Ela faz o mesmo tipo de manipulação egoísta, pomposa, que o Sasori fazia", eu contei para Tenten durante nossa última sessão. "Só que ela é mais dissimulada. Ela é uma narcisista furtiva. Deus, quantos desses babacas existem por aí?"
"Mais do que deveriam existir", ela constatou, pesarosa. "Eu já vi diversas estatísticas, mas dá para dizer que de 3 a 5% da população ou tem fortes tendências ou já tem o transtorno instalado. E embora eu tenha lido que três quartos dos narcisistas são homens, minha experiência pessoal diz que a divisão é meio a meio."
"Bem, o que eu faço para parar de atrair esse tipo de gente?" Eu quis saber e Tenten sorriu.
"Você não atrai narcisistas, Sakura. Nenhum de nós pode se furtar a ter que lidar com um narcisista de vez em quando. Mas eu diria que você está melhor equipada do que a maioria para lidar com isso."
Sim... eu sabia como lidar com narcisistas. Você nunca pode discordar deles. Você tem que parecer espantada com tudo que eles fazem, e não perder nenhuma oportunidade de adulá-los ou elogiá-los. Basicamente, você tem que se vender de todas as formas possíveis, até que não reste nada da sua dignidade, autoestima ou alma.
Mei não se preocupou em erguer os olhos da mesa quando entrei pela porta aberta em seu escritório.
"Eu gostaria que você batesse na porta antes de entrar", ela disse, ainda concentrada na tela do computador.
"Sente-se."
Eu sentei na cadeira em frente à sua mesa e olhei para ela, esperando. Era injusto que alguém tão podre por dentro pudesse ser tão bonita. Os olhos dela eram redondos e leves em um rosto oval, e seu cabelo caía em uma perfeita onda ruiva sobre os ombros.
"Eu gostaria que você arrumasse a área do café e limpasse a máquina", Mei disse.
"Eu limpei a máquina ontem", afirmei.
"Receio que você tenha que limpar de novo. O gosto do café não está bom." Ela ergueu as sobrancelhas. "A menos que você acredite que isso é muito humilde para você? Eu não quero que você faça nada que a deixe constrangida, Sakura."
"Não, tudo bem", eu lhe dei um sorriso vazio, inócuo. "Não tem problema. Algo mais?"
"Sim. A respeito de suas atividades no horário de almoço."
Eu não respondi, só fiquei olhando, inocente, para ela.
"Você estava fazendo alguma coisa com o novo morador no apartamento dele, esta tarde."
"Eu o apresentei a um decorador de interiores. Ele me pediu."
"Você não pediu minha autorização."
"Eu não me dei conta de que era preciso", eu disse com cautela. "Foi mais um favor pessoal."
"Bem, eu tenho uma regra que deveria ter explicado antes, Sakura. Não é possível 'ficar pessoal' com nenhum dos moradores deste prédio. Isso pode gerar confusão e impedi-la de fazer seu trabalho com eficiência."
"Pode acreditar, eu não...", eu me interrompi. Ela tinha me pegado desprevenida. "Não existe nada acontecendo entre mim e o Sr. Uchiha."
Pelo menos parte da minha consternação deve ter sido percebida por Mei, porque a felicidade dela era óbvia. O rosto dela se suavizou com a preocupação típica de uma irmã mais velha.
"Fico feliz em saber disso. Porque alguém com seu histórico de relacionamentos fracassados podia arrumar uma confusão enorme com o morador."
"Eu..."
Meu histórico de relacionamentos fracassados? Eu só tive um. Um casamento fracassado. Eu ardi de vontade de lembrar Mei que ela também tinha passado por um divórcio, e não podia ser a primeira a atirar pedras. Mas consegui manter minha boca fechada enquanto meu rosto ficava vermelho.
"Então", Mei disse com um sorriso gentil, "nada de encontros particulares com o Sr. Uchiha, certo?"
Eu olhei para aqueles olhos claros, para aquele rosto tranquilo, impassível.
"Certo", eu meio que sussurrei. "Mais alguma coisa?"
"Na verdade... eu reparei que uma das máquinas de lanche perto da sala de reuniões não está funcionando. Eu gostaria que você pegasse o número da assistência técnica na máquina e pedisse que viessem consertá-la."
"Vou fazer isso agora mesmo", forcei meus lábios em um sorriso e me levantei.
Eu saí do escritório dela e limpei a máquina de café, pensando sombriamente que eu podia aguentar qualquer coisa que Mei Terumi inventasse.
Continua!
Obrigada minha Diva Obsidiana Negra e Ai No Majou pelos comentários, esse capitulo é dedicado para voces e Lary ;)
Ah Ai No Majou, sim essa adaptação é um pouco longa, mais irei postar dois capítulos por semana.
