Todos os personagens pertencem a MasashiKishimoto. A história é de autoria de Lisa Kleypas do seu livro A Redenção – Série The Travis Family.

Essa fanfic é uma adaptação.

Capitulo 20

"A coisa toda é doida", eu disse quando Tenten terminou de ler o e-mail do Sasori. Eu imprimi a mensagem e pedi a ela que o lesse durante nossa sessão semanal de terapia. "Ele inverteu tudo. Pôs de cabeça para baixo. É como Alice no País das Maravilhas."

A mensagem tinha dez páginas e vinha recheada de acusações e mentiras. Eu me senti suja e maculada após ler aquilo, mas, acima de tudo, ultrajada. Sasori tinha reescrito nosso casamento inteiro, colocando-se como vítima e me pintando como vilã. De acordo com Sasori, eu fui uma esposa insana, histriônica e infiel, enquanto ele tentou em vão pacificar meus humores e surtos. E no final, quando ele perdeu a paciência comigo, foi porque eu fui longe demais ao rejeitar o esforço honesto dele para salvar nosso relacionamento.

"O que me deixa mais louca da vida", eu continuei, inflamada, "é como isto aqui é detalhado e convincente... como se Sasori acreditasse nessa mentira toda. Mas ele não acredita, acredita? E por que ele escreveria isto para mim? Ele acha mesmo que eu vou comprar alguma parte dessa história?"

Tenten estava com a testa enrugada.

"Mentir patologicamente é o modus operandi de um narcisista... eles não estão interessados na verdade, mas apenas em conseguir o que querem, que é atenção. Então, o que Sasori está tentando conseguir de você é uma reação. Qualquer tipo de reação."

"Tipo, eu o odiar é tão bom quanto amar?"

"Isso mesmo. Atenção é atenção. A única coisa que Sasori não consegue tolerar é indiferença. Isso cria o que é chamado de 'ferida narcísica'... e infelizmente este e-mail está dando fortes sinais disso."

Eu não gostei de ouvir aquilo.

"Então o que vai acontecer quando Sasori sofrer sua ferida narcísica?"

"Ele pode tentar te assustar de algum modo, que para ele é outro modo de satisfação. E se você se recusar a reagir, ele pode querer agravar a situação."

"Ah, que ótimo. Isso significa mais telefonemas? Mais visitas inesperadas?"

"Espero que não. Mas sim, é provável. E se ele ficar bravo o bastante, pode querer te castigar."

O pequeno consultório de Tenten ficou em silêncio enquanto eu digeria a informação. Não era justo. Eu pensei que me divorciar de Sasori seria o bastante. Por que ele tinha que fazer isso comigo? Por que ele esperava que eu fosse uma atriz coadjuvante no filme da vida dele?

"Como eu faço para me livrar dele?", perguntei.

"Não existe uma resposta fácil. Mas se eu fosse você, guardaria este e-mail e documentaria toda interação com ele. E tente não estabelecer contato, não importa o que ele faça. Recuse presentes, não responda e-mails e cartas, e não fale com ninguém que se apresentar em nome dele", Tenten olhou para o e-mail e franziu o rosto. "Se um narcisista se sentir inferior a algo ou alguém, isso acaba com ele até ele achar algum alívio. Até ele sentir que pode sair como o vencedor."

"Mas nós estamos divorciados", eu protestei. "Não há nada para ganhar!"

"Tem sim. Ele está lutando para manter a imagem que tem de si mesmo. Porque sem essa imagem de superioridade, dominância e controle... Sasori não é nada."

A sessão com Tenten não tinha ajudado muito a melhorar o meu humor. Eu me sentia ansiosa e brava, e queria conforto. E como Sasuke continuava sem atender o telefone celular, ele foi parar no alto da minha lista de insatisfações.

Quando meu telefone enfim tocou, verifiquei, ansiosa, o identificador de chamada. Minha esperança murchou quando vi que era o meu pai. Suspirando, atendi e respondi com má vontade.

"Alô?"

"Sakura", a voz dele estava impaciente e presunçosa de um jeito que eu não gostei. "Preciso que você venha aqui. Tem uma coisa sobre a qual precisamos conversar."

"Tudo bem. Quando?"

"Agora."

Eu teria adorado dizer para ele que tinha outro compromisso, mas nenhuma desculpa adequada me veio à mente. E como eu já estava entediada e irritada, cheguei à conclusão de que poderia ir vê-lo.

"Claro, pai", eu disse. "Já vou para aí."

Dirigi até River Oaks e encontrei meu pai em seu quarto, que era do tamanho de um apartamento pequeno. Ele relaxava em uma poltrona de massagem na área de estar, apertando os botões do painel de controle.

"Quer experimentar?", ele ofereceu, batendo no braço da poltrona. "Quinze tipos diferentes de massagem. Ela analisa os músculos das costas e faz recomendações. Ela também segura e alonga os músculos da coxa e da panturrilha."

"Não, obrigada. Eu prefiro que meus móveis fiquem com as mãos longe de mim", sorri para ele e me sentei em uma cadeira comum ao lado. "Como estão as coisas, pai? Sobre o que você quer falar comigo?"

Ele demorou um pouco para responder, enquanto digitava um programa de massagem no painel da poltrona. Esta começou a zumbir e ajustar a posição do assento.

"Sasuke Uchiha", ele disse.

Eu meneei a cabeça.

"De jeito nenhum. Não vou conversar com você sobre ele. Seja o que for que você quer saber, eu não..."

"Não estou pedindo informações, Sakura. Eu sei de algo sobre ele. Algo que você precisa ouvir."

Cada instinto meu me aconselhou a ir embora naquele instante. Eu sabia que meu pai tinha informações de todo mundo, e não teria escrúpulos de cavar sujeiras do passado de Sasuke. Eu não precisava nem queria ouvir nada que Sasuke não estivesse pronto para me contar. Além disso, eu tinha certeza de que sabia do que meu pai queria falar: o pai do Sasuke, seu tempo na prisão e a detenção por dirigir bêbado. Então decidi ficar e ouvir meu pai, para colocá-lo em seu lugar.

O quarto ficou em silêncio, a não ser pelo zumbido dos rolos e engrenagens mecânicos. Vesti um sorriso tranquilo.

"Tudo bem, pode me falar."

"Eu te avisei sobre ele", papai disse, "e eu tinha razão. Ele vendeu você, querida. Então é melhor tirá-lo da sua cabeça e encontrar outra pessoa. Alguém que seja bom para você."

"Ele me vendeu?", fiquei olhando estarrecida para o meu pai. "Do que você está falando?"

"Hashirama Senju me ligou depois de te ver com Uchiha na sexta-feira à noite. Ele me perguntou o que eu achava de você ficar com um malandro como Uchiha, e eu lhe dei minha opinião."

"Que dupla de enxeridos!", eu disse, magoada. "Meu Deus, com todo dinheiro e tempo que vocês têm, não conseguem encontrar nada melhor para discutir do que a minha vida amorosa?"

"Hashirama teve a idéia de expor o calhorda que Uchiha realmente é... para te mostrar o tipo de homem com que você tem andado. Depois que ele me contou, eu concordei. Então Hashirama ligou para o Uchiha ontem..."

"Oh, inferno", eu sussurrei.

"...e lhe ofereceu um negócio. Ele disse que concordaria em assinar o contrato de arrendamento que Uchiha propôs um tempo atrás, abrindo completamente mão do bônus... Se Uchiha prometesse desistir de você para sempre. Nada de namorar, nem qualquer outro tipo de interação."

"E Sasuke mandou Hashirama ir se danar", eu disse.

Meu pai me olhou com pena.

"Não. Uchiha aceitou a oferta", ele se recostou na poltrona de massagem enquanto eu absorvia a informação.

Minha pele começou a coçar e pinicar. Minha cabeça rejeitava aquela idéia — Sasuke nunca teria aceitado um negócio daqueles. Não depois da noite que nós passamos juntos. Eu sabia que ele tinha sentimentos por mim. Eu sabia que ele precisava de mim. Não fazia sentido que Sasuke jogasse tudo isso fora. Não por um contrato que ele acabaria conseguindo com o tempo.

Que diabos estava se passando na cabeça do Sasuke? Eu tinha que descobrir. Mas antes...

"Seu velhote manipulativo", eu ralhei. "Por que você tem que se meter na minha vida particular?"

"Por que eu te amo!"

"Amor significa respeitar os direitos e os limites do outro! Eu não sou uma criança. Eu... não, você não pensa em mim como criança, você pensa que eu sou um cachorro que você pode controlar com a guia do jeito que..."

"Eu não penso que você é um cachorro", papai me interrompeu, fazendo uma careta. "Agora acalme-se e..."

"Eu não vou me acalmar! Eu tenho todo direito de estar furiosa. Diga-me, você faria esse tipo de bobagem com Naruto, ou Gaara. Ou Deidara?"

"Eles são meus filhos. São homens. Você é uma filha que já passou por um casamento ruim e estava se encaminhando para outro."

"Até você conseguir me tratar como um ser humano, pai, nosso relacionamento acabou. Cansei!", eu me levantei e pendurei a bolsa no ombro.

"Eu lhe fiz um favor", meu pai disse, irritado. "Eu só demonstrei que Sasuke Uchiha não serve para você. Todo mundo sabe disso. Até ele sabe disso. E se você não fosse tão cabeça dura, também admitiria."

"Se ele realmente concordou com essa proposta do Hashirama", eu disse, "então ele não me merece. Mas você também não, por fazer algo tão torpe."

"Você vai punir quem te deu a notícia?"

"Vou, pai, se quem me deu a notícia não consegue manter o nariz intrometido longe da minha vida", caminhei até a porta.

"Bem", eu ouvi meu pai murmurar, "pelo menos você está livre do Sasuke Uchiha."

Eu me virei para fazer uma careta de desdém por cima do ombro. "Eu ainda não estou livre dele. Não vou estar livre até descobrir o motivo. Um motivo real, não algum negócio malcheiroso que você e o Hashirama inventaram."

Eu não tinha com quem conversar. Todo mundo tinha me avisado, incluindo Sai, que aquele era o tipo de atitude que eu podia esperar de Sasuke Uchiha. Eu não podia ligar nem mesmo para Hinata, porque ele já tinha feito algo semelhante com ela uma vez, e Hinata não poderia me dizer que Sasuke não faria aquilo. E eu me sentia uma idiota, porque ainda o amava.

Parte de mim queria deitar em posição fetal e chorar. Outra parte estava louca da vida. E uma terceira parte se concentrava em analisar a situação e tentar encontrar a melhor forma de lidar com ela. Eu decidi me acalmar antes de questionar o Sasuke. Eu iria telefonar para ele na segunda-feira, depois do trabalho, e nós esclareceríamos tudo. Caso ele quisesse terminar tudo entre nós, eu teria que lidar com isso. Mas a coisa não seria resolvida por terceiros, por uma dupla de velhotes manipuladores.

O escritório estava inusitadamente calmo quando entrei, às oito da manhã de segunda. Os empregados, quietos e ocupados. Ninguém parecia disposto a contar detalhes do seu fim de semana, como normalmente fazíamos. Nada de fofoca em torno do bebedouro, nada de bate-papo amigável.

Quando a hora de almoço se aproximou, fui até o cubículo da Kurenai para perguntar se ela queria ir comer um sanduíche comigo.

Kurenai, sempre tão cheia de vida, parecia retraída e desanimada ali, sentada atrás de sua mesa. O pai dela tinha morrido duas semanas atrás, então eu sabia que ela precisava de algum tempo para voltar ao normal.

"Quer sair para almoçar?", perguntei com delicadeza. "Por minha conta."

Ela me deu um sorriso abatido e encolheu os ombros.

"Não estou com fome. Mas obrigada."

"Eu posso, pelo menos, trazer um iogurte para você, ou...", parei quando vi o brilho de uma lágrima debaixo de um dos olhos dela. "Oh, Kurenai...", eu dei a volta na mesa dela e a abracei. "Sinto muito. Dia ruim, é? Pensando no seu pai?"

Ela anuiu e procurou um lenço de papel na gaveta da mesa.

"Em parte", ela assoou o nariz. "E em parte...", ela esticou a mão para uma folha de papel no outro canto da mesa e a empurrou para mim.

"O que é isto? Uma relação de despesas?", eu franzi a testa, curiosa. "Qual é o problema?"

"Meu pagamento é depositado automaticamente, todas as sextas-feiras. Então eu verifiquei o saldo da minha conta, esta semana, e estava muito mais baixo do que eu esperava. Hoje eu descobri o porquê." Ela abriu um sorriso torto. Seus olhos marejaram de novo. "Sabe aquele arranjo de flores imenso que a empresa mandou para o funeral do meu pai? Aquele com os nomes de todos vocês no cartão?"

"Sei...", eu quase não quis ouvir o que ela ia dizer a seguir.

"Bem, custou 200 dólares. E Mei descontou do meu salário."

"Oh, Deus."

"Eu não sei por que ela faria algo assim", Kurenai continuou. "Mas eu a deixei brava por algum motivo. Acho que foram aqueles dias que eu tirei depois que meu pai morreu... ela está fria e estranha comigo desde então."

"Você tirou alguns dias para ir ao funeral do seu pai, Kurenai. Nenhuma pessoa normal ficaria brava com você por causa disso."

"Eu sei", ela soltou um suspiro trêmulo. "Mei deve estar sob muita pressão. Ela me disse que foi o pior momento para eu me afastar do trabalho. Ela parecia tão decepcionada comigo."

Eu me senti tomada por uma raiva vulcânica. Eu tive vontade de destruir o escritório como um Godzilla e pisotear a mesa da Mei. Se Mei queria me atacar e desmerecer, eu podia aguentar. Mas atingir a pobre Kurenai logo depois de ela perder um ente querido... era demais.

"Não diga para ela que eu reclamei", Kurenai sussurrou. "Eu não aguentaria arrumar mais problemas agora."

"Você não vai arrumar nenhum problema. E Kurenai, a dedução desses 200 dólares foi um erro. Eles vão aparecer na sua conta agora mesmo."

Ela me deu um olhar de dúvida.

"Foi um erro", eu repeti. Puxando um lenço novo, enxuguei os olhos dela. "O escritório vai pagar pelas flores, não você. Eu vou dar um jeito nisto, está bem?"

"Está bem", ela conseguiu me dar um sorriso. "Obrigada, Sakura."

O intercomunicador na minha mesa tocou. Como o escritório era organizado em um sistema de cubículos abertos, tudo que Mei dizia no intercomunicador era ouvido por todos.

"Sakura, venha ao meu escritório, por favor."

"Pode deixar", eu murmurei, saindo do cubículo da Kurenai e indo para o escritório da Mei. Eu me demorei de propósito, tentando me acalmar antes de enfrentar minha chefe. Eu sabia que provavelmente seria demitida pelo que iria dizer, e que depois seria vítima de uma campanha de difamação muito eficaz. Mas isso não importava. Eu podia conseguir outro emprego. E o dano que ela pudesse fazer à minha reputação não era nem de perto tão importante como a atitude de enfrentá-la.

Quando cheguei ao escritório dela, Mei estava apertando o botão do intercomunicador outra vez.

"Sakura, venha ao meu..."

"Estou aqui", eu disse, indo direto à mesa dela. Não me sentei. Fiquei de pé e a encarei.

Mei olhou para mim como se eu fosse uma formiga subindo pela parede.

"Espere na porta, por favor", ela disse em um tom frio, "até ser convidada. Nós já não passamos por isso vezes suficientes para você se lembrar, Sakura?"

"Eu vou deixar essas regras de lado por alguns minutos. Isto é importante. Houve um erro com a folha de pagamento. E precisa ser corrigido."

Mei não estava acostumada com os outros estabelecendo a pauta.

"Eu não tenho tempo para isso, Sakura. Não chamei você ao meu escritório para falar de folha de pagamento."

"Você não quer saber do que se trata?" Eu esperei. Quando ficou óbvio que ela não responderia, eu meneei a cabeça, bem devagar. "Não, porque você já sabe. Não foi um erro, foi?"

Um sorriso curioso, arrepiante, se espalhou pelos lábios dela.

"Tudo bem, Sakura, vou entrar na sua brincadeira. O que aconteceu?"

"Kurenai foi cobrada pelas flores que o escritório mandou para o funeral do pai dela", eu esperei algum tipo de reação, um ligeiro arregalar dos olhos, um brilho de vergonha, uma careta. Qualquer coisa. Mas Mei demonstrou toda emoção de um manequim de loja. "Nós vamos corrigir isso, certo?"

Um silêncio excruciante se passou. Silêncio era uma das armas mais eficazes da Mei... ela ficava me encarando até eu sentir que desmoronava como uma torre de blocos, e então dizia algo, qualquer coisa, só para preencher aquele vazio enervante. Mas eu sustentei o olhar dela. O silêncio se arrastou até se tornar engraçado. Mas eu consegui aguentar mais do que ela.

"Você está se excedendo", ela me informou. "Como eu decido gerenciar os empregados não é da sua conta, Sakura."

"Então descontar o dinheiro do salário da Kurenai é algum tipo de técnica de gerenciamento?"

"Eu acho que é melhor você sair do meu escritório agora mesmo. Na verdade, tire o dia de folga. Eu já aguentei demais a sua atitude malcriada."

"Se você não concordar em colocar o dinheiro na conta da Kurenai", eu disse, "vou falar com o Gaara."

Isso conseguiu uma reação. O rosto dela ficou sombrio e seus olhos chisparam.

"Sua vaca mimada!", ela explodiu, a voz ganhando um tom agressivo. "Sasori me contou tudo sobre você... como você usa as pessoas, o quanto é egoísta. Como você mente e manipula os outros para conseguir o que quer. Preguiçosa, traidora, parasita chorona..."

"É, essa é a propaganda que o Sasori faz de mim", fiquei me perguntando se ela realmente tinha saído com meu ex-marido. Senhor, como seria um encontro entre dois narcisistas? "Mas não era disso que nós estávamos falando, era? Você vai devolver o dinheiro dela ou vou ter que falar com o Gaara?"

"Se você ousar falar uma palavra para ele, eu vou ter que dizer a verdade. Quando eu terminar de contar para ele como você é, Gaara vai ficar tão enojado quanto eu. Ele vai lhe dizer para..."

"Mei", eu disse em voz baixa, "ele é meu irmão. Você é mesmo tão arrogante a ponto de pensar que vai conseguir fazer com que ele se vire contra mim? Você acha que ele vai ficar do seu lado, em vez do meu? Gaara é leal. Você pode falar mal de mim o quanto quiser, mas isso não vai lhe ajudar em nada com ele."

O rosto dela começou a ficar manchado, a fúria trazendo marcas vermelhas que pareciam flutuar sobre a pele dela, como gotas de óleo sobre a água. Mas de algum modo ela conseguiu manter a voz sob controle.

"Saia do meu escritório, Sakura. E não volte. Você acaba de ser despedida." Eu estava calma por fora, embora meu coração estivesse em um ritmo alucinante.

"Foi o que eu achei que você diria. Tchau, Mei."

Fui até minha mesa pegar a bolsa. Quando virei no corredor, fiquei espantada de ver Kurenai, Shikamaru e Rin parados ali, todos com expressões idênticas de choque. Se eu não estivesse tão dispersa, poderia ter achado engraçado o jeito deles.

"O que está acontecendo?", perguntei, entrando no meu cubículo. Parei de repente quando vi Gaara ao lado da minha mesa. Ele olhava para o intercomunicador, corado e com a boca crispada.

"Oi, Gaara", eu disse, espantada. "O que você está fazendo aqui?"

"Eu vim te levar para almoçar", ele respondeu devagar.

Rin se aproximou e tocou meu braço.

"O intercomunicador estava ligado", ela murmurou.

Mei devia ter esquecido de desligá-lo quando eu irrompi no seu escritório. E Gaara e os outros ouviram cada palavra.

Gaara pegou minha bolsa e me entregou.

"Vamos", ele disse, a voz áspera.

Eu o acompanhei e fiquei branca quando me dei conta de que estávamos indo para o escritório da Mei. Gaara abriu a porta fechada sem bater e ficou parado na entrada, encarando-a com firmeza.

O rosto da minha chefe ficou branco.

"Gaara", ela disse, surpresa. E então lhe deu um sorriso caloroso, e ela parecia tão agradável e elegante que eu fiquei atônita ao ver a mudança. "Que bom ver você. Entre, por favor."

Meu irmão sacudiu a cabeça, seus olhos verdes e frios. E ele disse três palavras em um tom que não deixava espaço para negociação.

"Arrume suas coisas."

Eu passei o resto da tarde com Gaara, explicando como Mei tinha tentado me intimidar e manipular, e que agora estava querendo fazer a mesma coisa com Kurenai. Quando eu terminei meu relato, Gaara tinha parado de balançar a cabeça e praguejar. Ele parecia apenas enojado.

"Santo Deus, Sakura... por que você não me contou nada antes?"

"Eu não queria bancar a estrela mimada. Eu queria o que fosse melhor para a empresa, e eu sabia que ela tinha feito um bom trabalho para você no passado."

"Dane-se a empresa", ele disse. "As pessoas são mais importantes que os negócios. Não me importa se um gerente é espetacular se ele se comporta como um terrorista filho da puta nos bastidores."

"A princípio, eu pensei que ela melhoraria com o tempo, ou que conseguiríamos encontrar um meio de convivência. Mas eu percebi que esse tipo de gente nunca melhora. Não tem como solucionar os problemas. Ela é igual ao Sasori. Uma narcisista maligna. Ela não sente mais remorso por machucar um ser humano do que eu e você podemos sentir ao pisar em uma formiga."

Gaara estava com os lábios brancos de tão contraídos.

"Você encontra muita gente assim no mundo dos negócios. E embora eu odeie dizer isso, parte desse comportamento... ser ambicioso, implacável e egoísta... pode fazer alguém ir longe em algumas empresas. Mas não na minha."

"Você vai mesmo se livrar dela?"

Ele anuiu de imediato.

"Ela já era. Vou ter que arrumar alguém para substituí-la." Uma pausa significativa. "Alguma idéia?"

"Eu posso fazer isso", eu logo me prontifiquei. "Não estou dizendo que vou ser perfeita. Vou cometer erros. Mas eu sei que posso assumir a responsabilidade."

O rosto do meu irmão se abriu em um sorriso.

"Você está cantando uma música diferente de quando começou."

Meu sorriso de resposta foi irônico.

"Minha curva de aprendizado anda bem acelerada."

Nós discutimos a situação do escritório por mais algum tempo, e então a conversa virou para assuntos pessoais. Não consegui evitar de contar ao Gaara sobre meu desentendimento com nosso pai. A respeito de Hashirama, Sasuke e do acordo de arrendamento.

Gaara ficou satisfatoriamente furioso com a coisa toda, dizendo que eram todos uns babacas. Ele também concordou comigo que eu precisava chegar às verdadeiras razões para tal comportamento do Sasuke, porque aquilo não fazia sentido.

"Hashirama tem propriedades ótimas", Jack disse, "mas ele não está sozinho no mercado. E o seu garoto Sasuke pode fazer negócio com quem ele quiser. Ele pode querer esse contrato, mas não precisa dele. Então eu diria que esse é o modo que Uchiha encontrou para terminar com você. Ele fez uma coisa que sabe que iria te forçar a acabar com tudo."

"Idiota passivo-agressivo", eu disse. "Se ele quer terminar comigo, vai ter que ser cara a cara."

Gaara sorriu.

"Eu quase sinto pena do filho da mãe. Tudo bem, você lida com Uchiha enquanto eu esclareço algumas coisas para o nosso pai."

"Não", eu disse no mesmo instante. "Não faça nada com o papai. Você não pode consertar meu relacionamento com ele."

"Eu posso dar uns toques nele."

"Obrigada, Gaara, mas não preciso disso, e com certeza chega de interferência."

Ele pareceu aborrecido.

"Bem, por que você gastou todo esse tempo reclamando para mim se não quer que eu faça algo a respeito?"

"Eu não quero que você resolva meus problemas. Só queria que você me escutasse."

"Pode parar, Sakura. Converse com uma amiguinha se tudo que você quer é um par de orelhas. Nós, homens, detestamos quando vocês nos dão um problema e depois não nos deixam fazer nada a respeito. Isso faz a gente se sentir mal. E aí o único jeito de nos sentirmos melhores é rasgando uma lista telefônica ao meio ou destruindo algo. Então, vamos deixar isso claro — eu não sou um bom ouvinte. Eu sou um homem."

"Com certeza", eu levantei e sorri. "Quer me pagar uma bebida em um bar para se ir depois do trabalho?", falei, usando a terminologia dele.

"Agora a gente está falando a mesma língua", meu irmão disse, e saímos do escritório.

Era cedo ainda quando voltei para o meu apartamento. Eu me sentia melhor depois de um drinque e algumas horas na companhia tranquila do Gaara. A coisa que mais me surpreendeu foi meu irmão não criticar Sasuke, principalmente pela posição que ele tinha adotado antes.

"Não sou contra nem a favor dele", Gaara me disse, depois de um grande gole de cerveja. "Eu consigo entender esse negócio com o Hashirama de duas formas: ou Sasuke fez a coisa errada pelo motivo errado...", outro gole demorado. "...ou ele fez a coisa errada pelo motivo certo."

"Como pode existir um motivo certo para o que ele fez?"

"Diacho, não sei. Dê uma chance para ele se explicar, é o que estou dizendo."

"Sai acha que Sasuke é ardiloso e traiçoeiro", eu disse, desanimada.

Por alguma razão, aquilo fez Gaara rir.

"Bem, você precisa se acostumar com isso, ainda mais tendo nascido na família Uzumaki. Não existe nenhum de nós — talvez com a exceção do Naruto — que não seja torto como o pinto de um pato. E o mesmo vale para o Sai."

"Você está me assustando", eu disse, mas não consegui segurar um sorriso envergonhado.

Eu continuava sorrindo quando entrei no meu apartamento, mas estava nervosa e só pensava em ver o Sasuke. Quando vi a luz da secretária eletrônica piscando, meu coração deu um pequeno salto. Fui até a máquina e apertei o botão para ouvir a mensagem.

"Preciso ver você", era a voz do Sasuke. "Por favor, ligue para mim quando chegar."

"Tudo bem", eu sussurrei, fechado brevemente os olhos. Mas eu os abri em seguida, porque alguma coisa tinha chamado minha atenção. Algo reluzente perto da base do telefone. Perplexa, estendi a mão para o objeto e fiquei atônita ao descobrir que era a pulseira de berloques. Da tia Tsunade. Mas como tinha ido parar ali? Estava com o Sasori...

Antes que eu pudesse emitir qualquer som, alguém veio por trás de mim e uma mão se fechou no meu pescoço. O cano de uma pistola encostou, frio e duro, na minha têmpora. Eu soube o que estava acontecendo antes de ouvir a voz exultante.

"Agora eu te peguei, Hana."

Continua!

Bem só mais dois capítulos e essa história que tanto amo irá se encerrar...

Obrigada a todos que acompanham essa adaptação, em especial a linda Ana Luh que mesmo depois de ler o livro ainda continua me cobrando atualização *...*

E minha diva Obsiana Negra que sempre me incentiva a continua!