Todos os personagens pertencem a MasashiKishimoto. A história é de autoria de Lisa Kleypas do seu livro A Redenção – Série The Travis Family.
Essa fanfic é uma adaptação.
Capitulo 21
Quando você se vê, de repente, no meio de uma situação perigosa, seu cérebro se divide em duas partes, uma que está de fato passando pela situação, e outra que se distancia e tenta compreender o que está acontecendo. E as duas partes não trocam, necessariamente, informação uma com a outra. Assim, eu precisei de alguns instantes para me concentrar no que Sasori estava dizendo.
"...não pode me ignorar, sua vaca. Não pode me manter longe quando eu quero te ver."
Sasori queria que eu soubesse que ele era poderoso. Ele queria provar que eu não podia vencê-lo.
Minha boca ficou tão seca que eu mal conseguia falar, enquanto o suor começou a brotar no meu rosto.
"É", eu disse com a voz sufocada. "Você encontrou mesmo um jeito de me ver. Como conseguiu? Não pode ter adivinhado a senha."
"Eu usei uma chave mestra."
Cada apartamento do condomínio possuía duas chaves mestras, no caso de uma emergência ou de alguém esquecer sua senha de entrada. Um conjunto de todas as chaves mestras ficava guardado em uma sala atrás do balcão de recepção. O outro ficava trancado no escritório da administração.
"Mei deu a chave para você", eu concluí sem acreditar. Aquilo era ilegal. Motivo não só para demissão mas para um processo. Ela me odiava tanto assim que arriscaria ir para a cadeia só para me afrontar?
Parecia que sim.
"Eu disse para ela que precisava deixar umas coisas com você."
"Bem, aqui está você", eu disse, a voz fraca. "Obrigada pela pulseira. Mas não precisava trazer a pistola, Sasori."
"Você tem me ignorado..."
"Eu sinto muito."
"...me tratando como se eu não significasse nada para você." A pistola bateu na minha têmpora com força suficiente para deixar um hematoma. Eu fiquei imóvel, os olhos se enchendo de água. "Mas agora eu tenho certeza de que significo algo, não é?"
"É", eu sussurrei. Talvez ele tivesse aparecido com a única intenção de me assustar. Mas ele estava se irritando enquanto fazia isso, deixando a raiva crescer.
Depois que ele começava a ficar furioso, era uma avalanche, não dava mais para controlar.
"Você me ferrou no divórcio e me abandonou em Dallas, com todo mundo perguntando o que tinha acontecido, onde você estava... o que você acha que isso fez comigo, Hana? Você por acaso se importou com o que eu estava enfrentando?"
Eu tentei me lembrar do que Tenten tinha me falado, que um narcisista precisava sair se sentindo o vencedor.
"É claro que sim", eu disse, a respiração entrecortada. "Mas todo mundo sabia que você podia arrumar coisa melhor. Todo mundo sabia que eu não era boa o bastante para você."
"É isso mesmo. Você nunca vai conseguir homem melhor que eu", Sasori me empurrou com força e eu bati contra a parede e fiquei sem ar. A arma foi apertada contra meu crânio. Eu ouvi o clique da trava de segurança sendo retirada. "Você nunca tentou", ele murmurou, pressionando os quadris contra o meu traseiro. Uma onda de náusea passou por mim quando senti o volume da ereção dele. "Você nunca se esforçou. São necessárias duas pessoas para fazer um casamento dar certo, e você nunca fez parte, Hana. Você devia ter se esforçado mais."
"Me desculpe", eu disse, inspirando aos trancos.
"Você me abandonou. Foi embora do apartamento, descalça, como uma porcaria de sem-teto, só para fazer os outros ficarem com pena de você. Para me fazer parecer o vilão. E depois ainda fez o babaca do seu irmão forçar o divórcio. Quis jogar um pouco de dinheiro em mim, na esperança que eu desaparecesse. Essa papelada legal e toda essa merda não querem dizer nada para mim, Hana. Eu ainda posso fazer o que quiser com você."
"Sasori", eu consegui falar, "vamos sentar e conversar o quanto você quiser, só
abaixe a arma e...", eu fui interrompida por um grito de dor quando senti uma explosão seca atrás da minha orelha e ouvi um som metálico agudo. Um fio de líquido quente escorreu da minha orelha pelo pescoço. Ele tinha me acertado com a coronha da pistola.
"Com quantos homens você trepou?", Sasori quis saber.
Não existia uma resposta boa para essa pergunta. Qualquer coisa que eu dissesse levaria a conversa para o Sasuke, e o sentimento de humilhação do Sasori provocaria uma erupção de fúria em grande escala. Eu tinha que acalmá-lo.
Consolar seu ego machucado.
"Você é o único que importa", eu sussurrei.
"Você tem toda razão nisso", a mão livre dele agarrou meu cabelo. "Está vestida como uma puta, cortou o cabelo como uma puta. Antes você parecia uma dama. Uma esposa. Mas não conseguiu manter as aparências. Olhe só para você."
"Sasori..."
"Cale a boca! Tudo que você diz é mentira. Toda vez que você tomou uma daquelas pílulas foi uma mentira. Eu queria te dar um bebê. Eu queria que nós tivéssemos uma família, mas tudo que você queria era ir embora. Sua vagabunda mentirosa!"
Ele usou a mão que me prendia pelo cabelo para me arrastar para o chão. A raiva dele estava em ebulição total, e ele gritou mais alguns palavrões e forçou a arma contra minha cabeça. Meus pensamentos e minhas emoções se desconectaram do que estava acontecendo, da violência íntima que iria acontecer. Igual à última vez, só que agora com uma arma na minha cabeça.
Eu imaginei, atordoada, se ele puxaria o gatilho. O corpo dele esmagava o meu, pois Sasori usava o próprio peso para me prender. O hálito dele estava fétido e alcoólico quando murmurou perto da minha orelha.
"Não grite, senão eu te mato."
Fiquei rígida; todos os meus músculos se contraíram. Eu queria tanto sobreviver. Minha boca foi tomada pelo sabor de sal e metal. O toque conhecido e asqueroso de sua mão me paralisou quando Sasori começou a puxar a bainha da minha saia para cima.
Nós dois estávamos tão absortos em nossa luta selvagem — ele decidido a me machucar, eu a resistir com corpo e alma —, que nenhum de nós ouviu a porta se abrir.
O ar vibrou com um barulho bárbaro, e a sala toda explodiu, o caos irrompeu. Eu consegui olhar para cima, virando dolorosamente o pescoço, e vi uma forma brutal correndo para nós, e o cano de metal saiu do meu crânio quando Sasori levantou a arma e atirou.
Silêncio.
Meus ouvidos ficaram temporariamente surdos, meu corpo ecoando a força do meu batimento cardíaco aterrorizado. O peso sufocante tinha sumido. Eu rolei para o lado e abri meus olhos embaçados. Dois homens se enfrentavam em uma briga sem limites, socando, esganando, enquanto sangue e suor voavam.
Sasuke estava em cima de Sasori, martelando sem parar. Eu pude ver que Sasori ia perdendo o ímpeto conforme as lesões se acumulavam — ossos sendo fraturados, pele se rompendo. Ainda assim, Sasuke não parava. Havia sangue por tudo — o flanco esquerdo de Sasuke estava ensopado por uma mancha vermelha crescente.
"Sasuke", eu gritei, ajoelhando-me. "Sasuke, pare."
Ele não me ouviu. Tinha perdido a cabeça, com cada impulso e pensamento dedicado à destruição. Ele iria matar Sasori. E a julgar pela quantidade de sangue que Sasuke estava perdendo, ele iria também se matar.
A arma, jogada para longe da mão do Sasori, tinha ido parar a alguns metros.
Eu engatinhei até ela e a peguei.
"Sasuke, deixe-o agora! Já chega! Acabou. Sasuke..."
Nada que eu dissesse ou fizesse importaria. Ele estava em um surto alimentado por adrenalina.
Eu nunca tinha visto tanto sangue. Não conseguia acreditar que ele ainda não tivesse desmaiado.
"Droga, Sasuke, eu preciso de você!", eu gritei.
Ele parou e olhou para mim, ofegante. Seus olhos estavam sem foco.
"Eu preciso de você", repeti e levantei, cambaleante. Fui até ele e o puxei pelo braço. "Venha comigo, venha para o sofá."
Ele resistiu, olhou para o Sasori, que estava desmaiado, o rosto triturado e inchado.
"Está tudo bem agora", eu disse, continuando a puxá-lo. "Ele apagou. Já era. Venha comigo. Venha", eu repeti essas palavras várias vezes, tentando convencê-lo e puxando-o para o sofá. Sasuke estava pálido e desfigurado. Seu rosto se contorcia enquanto o instinto matador ia diminuindo e a dor começava a atingi-lo.
Ele tentou se sentar, acabou desabando, os punhos suspensos no ar. Ele tinha levado um tiro no flanco, mas havia tanto sangue que eu não consegui localizar o lugar exato nem a extensão dos danos.
Ainda segurando a arma, corri para a cozinha e peguei alguns panos de prato dobrados. Coloquei a arma na mesa de café e rasguei a camisa do Sasuke.
"Sakura", ele disse por entre a respiração ofegante, "ele te machucou? Ele..."
"Não. Eu estou bem", limpei o sangue e encontrei o ferimento, um buraco surpreendente de pequeno e bem definido. Mas eu não vi um ferimento de saída, o que significava que a bala tinha entrado e, era provável, ricocheteado, causando danos ao baço, fígado ou rim... eu queria me desaguar em lágrimas, mas me obriguei a segurá-las e coloquei a pilha de panos sobre a ferida.
"Aguente firme. Vou colocar pressão no seu flanco para diminuir a hemorragia."
Ele soltou um gemido quando eu apertei. Os lábios dele estavam ficando cinza.
"Sua orelha...", ele começou.
"Não é nada. Sasori me acertou com a arma, mas não foi..."
"Eu vou acabar com a raça dele...", Sasuke tentou se levantar do sofá.
Eu o empurrei de volta.
"Fique parado, seu idiota! Você levou um tiro. Não se mexa", eu pus a mão dele sobre os panos dobrados, para manter a pressão, enquanto corri para pegar o telefone.
Liguei para a polícia, Shino e Gaara, enquanto mantinha os panos firmes sobre a ferida.
Gaara foi o primeiro a chegar ao meu apartamento.
"Puta merda", ele exclamou quando viu a cena diante de si — meu ex-marido se remexendo no chão, eu e Sasuke no sofá. "Sakura, você está..."
"Ótima. Fique de olho no Sasori para ele não fazer mais nada."
Sasori ficou sobre meu ex-marido com uma expressão que nunca vi em seu rosto antes.
"Assim que eu tiver uma chance", ele falou para Sasori com uma voz mortífera, "vou acabar com você, vou estripá-lo como um porco selvagem."
Os paramédicos chegaram, seguidos pela polícia. Os guardas de segurança do condomínio evitavam que vizinhos curiosos se aproximassem. Não percebi o momento exato em que Sasori foi levado do apartamento pela polícia, pois estava preocupada demais com Sasuke. Ele perdia e recuperava a consciência, sua pele estava úmida e fria, a respiração fraca e apressada. Ele estava confuso e me perguntou pelo menos três vezes o que tinha acontecido e se eu estava bem.
"Está tudo bem", eu murmurei, acariciando seu cabelo desgrenhado e segurando sua mão livre com firmeza enquanto um paramédico inseria uma agulha de soro. "Fique quieto."
"Sakura... preciso te contar..."
"Pode contar depois."
"Erro..."
"Eu sei. Está tudo bem. Fique quieto e parado."
Dava para ver que ele queria falar mais alguma coisa, mas o outro paramédico colocou uma máscara de oxigênio nele e eletrodos de um monitor cardíaco. Depois, ele foi colocado em uma prancha estabilizadora para ser transportado. Eles atuaram com rapidez e eficiência. Aquilo que os profissionais de emergência chamam de "hora de ouro" tinha começado: o tempo entre o momento em que a vítima leva um tiro e o instante em que ela chega a um centro de trauma para tratamento. Se mais do que 60 minutos se passassem antes do início do tratamento, as chances de sobrevivência começavam a diminuir.
Eu fui com Sasuke na ambulância até o hospital. Gaara foi com seu próprio carro. Somente pelo bem de Sasuke eu consegui manter a calma por fora. Por dentro, eu sentia uma angústia que parecia grande demais para um coração humano aguentar. Nós chegamos na entrada de ambulâncias e os paramédicos puseram Sasuke em uma maca e o levaram para dentro.
Hinata e Naruto já estavam na unidade de trauma, pois tinham sido avisados por Gaara. Imaginei que o resto da minha família não iria demorar a aparecer. Eu não tinha parado para pensar no meu aspecto, com os olhos injetados e toda ensanguentada, mas percebi, pela expressão deles, que minha aparência era motivo de preocupação. Hinata pôs a jaqueta dela por cima da minha blusa e limpou meu rosto com lenços de bebê que ela levava na bolsa. Quando descobriu o calombo atrás da minha orelha, ela e Naruto insistiram para que eu fosse examinada, apesar dos meus gemidos de protesto.
"Eu não vou a lugar nenhum. Vou ficar aqui até descobrir o que está acontecendo com o Sasuke..."
"Sakura", Naruto se pôs diante de mim, seu olhar penetrante travado no meu. "Vai demorar muito tempo até nós termos alguma notícia. Eles vão verificar o tipo sanguíneo, fazer radiografias e ressonância... pode acreditar, você não vai perder nada. Agora deixe alguém examinar sua cabeça. Por favor."
Fui limpa e recebi um curativo, depois voltei para a sala de espera da unidade de trauma. Conforme Naruto tinha previsto, não havia nenhuma novidade. Sasuke passava por cirurgia, embora ninguém soubesse dizer o que estava sendo operado, nem quanto tempo o procedimento iria demorar. Sentei e fiquei encarando, sem enxergar, uma televisão no canto da sala, pensando se deveria ligar para a mãe do Sasuke. Decidi esperar até descobrir algo sobre o estado dele — de preferência algo tranquilizador — que pudesse informar junto com a notícia de que ele tinha sido ferido.
Enquanto eu esperava, a culpa me puxava como areia movediça. Eu nunca imaginei que Sasuke sofreria pelos meus erros do passado. Se pelo menos eu nunca tivesse me envolvido com Sasori... se pelo menos eu nunca tivesse começado um relacionamento com Sasuke...
"Não pense isso", ouvi a voz delicada de Hinata ao meu lado.
"Não pense o quê?", perguntei com a voz fraca, erguendo o joelho para cruzar as pernas sobre a cadeira de plástico duro.
"Seja lá o que for que colocou essa expressão no seu rosto", ela passou o braço pelos meus ombros. "Você não tem culpa de nada disso. Você é a melhor coisa que já aconteceu com o Sasuke."
"Ah, isso é óbvio", eu murmurei olhando para as portas que levavam ao centro cirúrgico.
Ela me apertou um pouco.
"Quando eu vi vocês dois na festa das plataformas-recife, na outra noite, não pude acreditar em como Sasuke estava diferente. Eu nunca o vi tão relaxado e feliz. Confortável em sua própria pele. Não achei que alguém pudesse fazer isso por ele."
"Hinata... alguma coisa deu errado nos últimos dias. Papai e o tio Hashirama..."
"É, eu fiquei sabendo. Minato me contou. Ele também me contou uma coisa que aconteceu hoje, e que você precisa muito ouvir."
"O que foi?"
"Acho que Minato deveria contar para você", ela me cutucou para que eu olhasse para a entrada dos visitantes, por onde chegavam meu pai e Deidara. Hinata ficou de pé e sinalizou para que meu pai se aproximasse. Ele se achegou e se sentou na cadeira ao meu lado. E apesar de toda minha raiva e da sensação de ter sido traída, eu me inclinei na direção dele e descansei a cabeça em seu ombro, inspirando aquele aroma paterno de couro.
"O que aconteceu, querida?", ele perguntou.
Eu mantive a cabeça no ombro dele enquanto contava. De vez em quando, a mão dele vinha tocar com delicadeza meu braço. Ele parecia surpreso por Sasori ter feito algo tão maluco, e perguntou o que aconteceu para que ele enlouquecesse daquele modo. Pensei em contar para ele que Sasori sempre foi assim, que as agressões dele tinham acabado com nosso casamento. Mas eu decidi guardar aquela conversa para um lugar e momento mais apropriados.
Então, apenas meneei a cabeça, encolhi os ombros e disse que não fazia ideia.
E então meu pai me surpreendeu com o que disse a seguir.
"Eu sabia que o Sasuke ia te ver esta noite."
Eu ergui a cabeça e olhei para ele.
"Sabia? Como?"
"Ele me ligou por volta das cinco horas da tarde. Disse que estava arrependido de ter concordado com o negócio do arrendamento, e que já tinha dito ao Hashirama para cancelar. Ele disse que não estava com a cabeça no lugar no sábado e que tinha sido um erro dos dois lados — do nosso, por oferecer, e dele, por aceitar.
"Nisso ele acertou", eu disse apenas.
"Então o negócio foi cancelado", papai disse.
"Ah, não foi, não!", eu fiz uma careta de deboche para ele. "Vocês vão manter o seu lado. Você vai garantir que Sasuke consiga o arrendamento pelo preço justo que ele ofereceu, e diga ao Hashirama para esquecer o bônus. Se você fizer isso, estou disposta a lhe dar outra chance em um relacionamento normal entre pai e filha."
Eu estava decidida que, uma vez na vida, Sasuke Uchiha ia conseguir tudo que queria.
"E você vai continuar a vê-lo?", meu pai perguntou.
"Vou."
Papai sorriu.
"É provável que seja uma boa ideia, considerando o que ele me falou de você."
"O quê? O que ele falou?"
Meu pai meneou a cabeça.
"Ele me pediu para manter segredo. E eu cansei de me meter. Só que..."
Eu soltei uma gargalhada.
"Só que o quê? Droga, pai, por que você vai cansar de se meter justo quando finalmente tem alguma coisa que eu quero ouvir?"
"Eu posso lhe dizer uma coisa. Dois homens vieram me falar de seus sentimentos pela minha filha. Um deles foi o Sasori. Não acreditei em nenhuma palavra que ele falou. Não porque você não merece ser amada. Mas Sasori não foi sincero. Sasuke Uchiha, por outro lado... ainda que seja um canalha e um caipira de nascença... eu acreditei nele hoje. Ele não tentou me vender alguma coisa. Ele só estava me contando como era. Eu respeito isso. E o que você decidir a respeito dele, eu também vou respeitar."
Duas horas se passaram. Eu andei de um lado para outro, assisti à TV e me enchi de café com gosto de queimado, leite em pó e adoçante. Quando eu pensei que iria explodir de tanta tensão por não saber nada, a porta foi aberta. Um cirurgião alto, de cabelos brancos, estava parado ali, vasculhando a sala de espera com o olhar.
"Algum familiar de Sasuke Uchiha?", ele perguntou.
Fui correndo até ele.
"Sou a noiva dele", pensei que isso me daria acesso a mais informações.
"Sakura Uzumaki."
"Dr. Kakashi."
Nós apertamos as mãos.
"O Sr. Uchiha usou toda sorte que tinha desta vez", disse o cirurgião. "A bala arranhou o baço, mas nenhum outro órgão foi danificado. Quase um milagre. Eu imaginei que a bala poderia ter ricocheteado mais um pouco, mas por sorte, não. Depois que retiramos a bala, pudemos fazer uma sutura relativamente simples no baço, salvando-o por completo. Considerando a idade e a excelente saúde do Sr. Uchiha, não há motivo para esperarmos qualquer tipo de complicação. Então eu diria que ele vai ficar no hospital por uma semana, depois mais quatro ou seis em casa para uma recuperação completa."
Eu senti meus olhos e o nariz arder. Passei a manga da blusa nos olhos para enxugá-los.
"Então ele não vai ter sequelas por causa disso no futuro? Um baço defeituoso ou algo assim?"
"Ah, não. Espero uma recuperação completa."
"Oh, meu Deus", eu soltei um suspiro que me fez estremecer. Foi um dos melhores momentos da minha vida. Não, foi o melhor. Eu me senti empolgada, fraca e sem fôlego. "Estou tão aliviada que me sinto até um pouco nauseada. É possível isso?"
"Ou é uma manifestação do alívio", disse delicadamente o Dr. Kakashi, "ou do café da sala de espera. É mais provável que seja do café."
A regra do hospital era que pacientes sob cuidados intensivos podiam ser visitados 24 horas por dia. A questão era, as visitas só podiam ficar quinze minutos por hora, exceto em circunstâncias especiais aprovadas pela equipe médica. Eu pedi ao Naruto que mexesse quaisquer pauzinhos necessários para fazer com que eu pudesse entrar e sair à vontade. Meu irmão pareceu se divertir um pouco com isso, e me lembrou o quanto eu havia protestado contra usar poder e dinheiro para conseguir tratamento especial. Eu lhe disse que quando se está apaixonada, a hipocrisia vence os princípios. E Naruto respondeu que, com certeza, ele entendia isso, e então foi conseguir permissão especial para que eu ficasse com Sasuke o tempo que quisesse.
Eu cochilei em uma cadeira reclinável no quarto do Sasuke a maior parte da noite. O problema é que um hospital é o pior lugar do mundo para se dormir. As enfermeiras entravam toda hora para trocar soro, verificar os monitores, a temperatura e a pressão arterial de Sasuke. Mas eu recebia bem todas as interrupções, porque adorava ouvir como ele estava melhorando.
Quando o dia nasceu, Naruto apareceu no hospital e disse que iria me levar para o apartamento para que eu pudesse tomar banho e me trocar. Eu não queria sair do lado de Sasuke, mas sabia que devia estar com a aparência de alguma coisa atropelada, então seria uma boa ideia ir me arrumar um pouco.
Sasuke já tinha acordado quando eu voltei às sete, e ele não estava nada satisfeito, para dizer o mínimo, quando se viu em um leito de hospital conectado a monitores. Eu entrei a tempo de ouvi-lo discutindo com uma enfermeira, exigindo que ela tirasse o soro e recusando-se a tomar o analgésico do qual ele, era óbvio, precisava. Ele não queria ser cutucado nem furado, Sasuke protestava.
Ele se sentia bem. Tudo de que precisava era um curativo e uma compressa gelada.
Eu vi que a enfermeira estava se divertindo ao discutir com aquele homenzarrão de olhos negros à sua mercê, e não pude culpá-la. Ele parecia perdido, um pouco ansioso e absolutamente apetitoso.
E era meu.
"Sasuke Uchiha", eu disse, entrando no quarto, "ou você se comporta ou eu piso no seu tubo."
A enfermeira pareceu chocada por minha falta de compaixão com o paciente.
Mas o olhar brilhante de Sasuke encontrou o meu em um momento de alta voltagem, e ele relaxou, reconfortado de um modo que nenhuma compaixão melosa teria conseguido.
"Isso só funciona se for um tubo de oxigênio", ele respondeu.
Eu fui até a bandeja sobre a mesa de cabeceira e peguei os comprimidos de Vicodin que a enfermeira estava tentando fazer com que ele tomasse, e também um copo de água.
"Tome isto", eu mandei. "Chega de discutir."
Ele obedeceu e olhou de relance para a enfermeira, cujas sobrancelhas estavam ligeiramente arqueadas.
"Ela é pequena", Sasuke lhe disse, "mas é brava."
A enfermeira saiu, sem dúvida imaginando por que um pedaço de mau caminho como aquele homem não poderia encontrar uma namorada mais legal.
Quando a porta se fechou, eu fui até a cama e mexi um pouco com ele, ajeitando as cobertas e afofando o travesseiro. O olhar dele não deixou meu rosto.
"Sakura", ele murmurou, "me tire daqui. Eu nunca estive em um hospital antes. Não aguento ficar preso a toda essa porcaria. Tudo que eu preciso é..."
"Renda-se ao processo", eu lhe disse, "e você vai sair daqui muito mais rápido", eu o beijei na testa. "Você vai se comportar se eu deitar aí com você?"
Sem hesitação, Sasuke se afastou para o lado, grunhindo de dor com o esforço. Eu tirei os tamancos e subi na cama com cuidado, apoiando a cabeça no braço dele. Ele suspirou fundo, um som de contentamento.
Eu aninhei o rosto no pescoço quente dele, inspirando-o. Sasuke cheirava a antisséptico e remédios, como se tivesse sido borrifado com eau-de-hospital. Mas debaixo do vazio esterilizado, eu encontrei a fragrância familiar dele.
"Sasuke", murmurei, tocando seu pulso, "por que você aceitou aquele negócio estúpido com meu pai e o Hashirama? E por que você o cancelou?"
A mão dele encontrou a minha, seus dedos longos se dobraram sobre a minha palma.
"Eu fiquei um pouco maluco depois que vi meu pai na noite de sexta-feira."
"É mesmo? Eu não reparei."
"Eu paguei a fiança dele e o deixei em um motel com um pouco de dinheiro. E eu lhe disse para sumir. Mas o que eu não contei para você... e deveria ter contado... é que nós conversamos por alguns minutos. E ele disse..." Sasuke parou e apertou mais a minha mão.
Eu esperei enquanto ele tomava fôlego.
"Ele ficou bravo quando eu falei o que faria com ele se voltasse a procurar minha mãe", Sasuke murmurou. "Ele disse que era engraçado ouvir isso de mim, porque... eu era a razão de eles terem se casado. Mamãe tinha parado de sair com ele, mas então ela teve que voltar porque estava grávida. Foi minha culpa ela ter ficado com aquele filho da puta. A vida toda dela foi um inferno por minha causa. Ela sofreu..."
"Não. Sasuke...", eu levantei a cabeça e encarei aqueles olhos ônix. Meu peito doía de compaixão. "Você sabe que não é bem assim. Você sabe que não foi sua culpa."
"Mas é fato que se eu não estivesse a caminho, mamãe não teria se casado com ele. E depois que ela foi viver com ele, a vida dela acabou."
Eu compreendia os sentimentos do Sasuke, ainda que não concordasse com sua lógica. Mas a culpa irracional e a angústia que ele sentia não seriam resolvidas com um lugar-comum. Ele precisava de tempo e amor para fazer as pazes com a verdade. E eu tinha esses dois itens de sobra para lhe dar.
Sasuke beijou minha cabeça. A voz dele saiu grave e áspera.
"Eu odeio ser filho dele. Eu odeio a metade de mim que é dele, e eu posso sentir essa parte que é ruim, baixa, desprezível, e quando Minato e Hashirama vieram até mim com a proposta, eu pensei, por que não? Eu tinha que deixar você de qualquer modo. Porque eu te amo demais para te arrastar para baixo comigo."
Ergui a mão para acariciar a linha rígida do maxilar dele.
"Por que você mudou de ideia?", sussurrei.
"Depois que me acalmei um pouco e tive a chance de raciocinar, eu pensei... eu te amo o bastante para tentar fazer por merecê-la. Eu faria qualquer coisa, seria qualquer coisa por você. Noite passada, eu fui até seu apartamento para implorar que você me desse outra chance. Eu estava tremendo, pensando que você talvez não me perdoasse pelo que aconteceu na sexta-feira à noite."
Eu corei ao me lembrar das horas compridas e eróticas que passamos na escuridão do apartamento dele.
"É claro que eu... quero dizer, não há nada para perdoar", minha voz baixou para um sussurro envergonhado. "Eu queria fazer tudo aquilo com você."
O corpo dele ficou tão quente que eu me perguntei se ele também estaria corando.
"Eu pensei que podia ter sido demais para você", ele disse. "Eu exagerei, depois de tudo que você passou com o Sasori... bem, eu fiquei com medo de que você não me quisesse mais na sua vida. Então eu fui ao seu apartamento para lhe dizer que sentia muito. Que eu seria mais delicado daqui para frente. E mesmo se você não me quisesse mais, eu queria apenas que você... me deixasse ficar por perto. No caso de precisar de mim para alguma coisa."
Eu nunca o tinha visto assim tão humilde, e nunca imaginei que isso seria possível. Eu trouxe o rosto dele para o meu até os narizes quase se tocarem.
"Eu preciso de você para muitas coisas, Sasuke. Para uma vida de coisas."
Ele me beijou com força surpreendente, a boca quente e exigente.
"Eu te amo", eu sussurrei. E foi um testemunho do vigor daquele homem que, apesar da perda de sangue, dos medicamentos e de um ambiente hospitalar que não tinha nada de romântico, ele tenha tentado vir para cima de mim — para valer.
"Não", eu disse com uma risada trêmula enquanto a mão livre dele passeava, descarada, pela frente do meu corpo. "Nós vamos fazer o monitor cardíaco disparar. E eles vão me pôr para fora por comprometer sua recuperação."
Mas Sasuke não ligou para isso, é claro, e continuou a fazer o que tinha vontade.
"Sabe", eu disse, arqueando as costas um pouco enquanto ele beijava meu pescoço, "eu disse à equipe do hospital que era sua noiva, para que me deixassem ficar aqui com você."
"Eu odiaria fazer você passar por mentirosa", Sasuke alisou meu cabelo.
"Mas depois do que aconteceu na noite passada, você está se sentindo grata, e eu não quero tirar vantagem disso. Então amanhã, depois que a gratidão tiver passado... eu acho que vou pedir você em casamento."
"Eu acho que vou dizer sim", eu disse.
Sasuke puxou minha testa para a dele, e eu fiquei perdida nas profundezas escuras e brilhantes de seus olhos.
"Logo?", ele sussurrou de encontro aos meus lábios.
"O mais breve que você quiser."
Depois eu pensei que talvez devesse ter me sentido nervosa com a ideia de casar de novo, à luz da minha experiência anterior. Mas tudo era diferente com Sasuke. O amor dele vinha sem condições, e para mim isso era o maior presente que um ser humano podia dar para o outro.
"Sabe", confessei para o Sasuke na noite do nosso casamento, "eu sou a mesma quando estou com você e quando não estou."
E como Sasuke entendeu o que eu queria dizer, ele me puxou para seus braços, para seu coração.
Próximo capitulo será o ultimo!
Obrigada a todos que acompanham minha adaptação, em especial minha Diva Obsidiana Negra pelos comentários de sempre e minha linda Ana Luh pela cobrança de sempre rsrsrs
Beijos!
