Capítulo 1.2
Não era comum ser ele a iniciar toques. A não ser, claro, quando em situações perigosas, nas quais ele a guiava pela mão ou a puxava para si com o intuito de protegê-la. Todos os abraços e gestos carinhosos, no entanto, partiam primeiro dela. Ela não se importava realmente. Tinha plena consciência dos fatores que o levaram a ser tão relutante em começar qualquer tipo de contato físico. Foi exatamente esse conjunto de fatos que a levou a estranhar a textura peculiar de sua mão quando ele segurou seu pulso direito com delicadeza.
Ela estava dormindo tão serenamente que sequer ouviu a porta, geralmente barulhenta, do seu quarto ser aberta. Um pouco desorientada, em decorrência do sono, abriu os olhos lentamente e observou a familiar figura de seu melhor amigo sentada sobre sua cama. Alguns feixes fracos de luz matinal entravam pelas frestas de sua janela de modo que era quase possível vê-lo com nitidez. Os cabelos mais desgrenhados que o normal indicavam que também ele tinha acabado de acordar. Não podia ver seus olhos claramente, pois a luz do ambiente não era suficiente. Não precisou vê-los, no entanto, para perceber que algo estava errado. Para começar, não era realmente do feitio de Harry acordar àquela hora da manhã. Além disso, ela pode ver algumas gotas de suor em sua testa, muito embora sua mão estivesse gelada, e notou que tremia ligeiramente. Sob o aro dos óculos, era possível distinguir manchas escuras, que indicavam que dormira pouco ou praticamente nada. E, claro, havia o extraordinário fato de que ele entrara sorrateiramente em seu quarto para tocá-la.
Sua mão fria repousava sobre o pulso dela como se temesse quebrá-lo com qualquer movimento. Parecendo não perceber que a tinha despertado, ele continuou concentrado naquela determinada parte do corpo da morena até que, com um movimento sutil e carinhoso, levou o polegar de uma extremidade a outra do antebraço dela e repetiu o movimento diversas vezes com imensurável ternura. A princípio, Hermione ficou dividida entre o choque e o deleite. Bastou segundos, no entanto, para que uma onda de frio percorresse sua espinha e ela percebesse toda a angústia e sofrimento presente nas feições contraídas de seu melhor amigo. Ele respirava com dificuldade e todo seu corpo estava trêmulo. Ele parecia exausto, esgotado. Vulnerável.
- E-eu – sua voz estava fraca e vacilante. Ele inspirou profundamente antes de continuar – Eu sinto muito.
Ela estava prestes a responder que estava tudo bem, mas percebeu que ele não estaria tão abatido ou hesitante se estivesse se desculpando por acordá-la. Sentiu lágrimas encherem-lhe os olhos quando percebeu que o polegar dele acariciava, na verdade, a cicatriz que Bellatrix Lestrange deixara em seu braço. Uma terrível lembrança da noite em que fora torturada impiedosamente pela bruxa. Mas o que a fez sentir vontade de chorar não foi lembrar daquele momento terrível e sim a constatação de que Harry, como era típico, estava se culpando por ele.
Hermione levou a outra mão até a que ele mantinha sobre seu antebraço e a apertou delicadamente. Ele não pareceu surpreso, mas ficou completamente parado por alguns segundos, encarando a mão dela sobre a sua. Depois, entrelaçou seus dedos nos dela e levantou a cabeça para, enfim, olhá-la nos olhos. Hermione sentiu o coração apertar quando viu uma lágrima solitária escorregar lentamente pelo rosto dele. Devagar, mas sem soltar sua mão, sentou-se na cama, e manteve os olhos nos dele, que agora que a luz tinha aumentado ligeiramente, encontravam-se em um tom verde escuro. Ficaram fitando-se em silêncio, embora a cada segundo o ar parecesse ficar mais pesado, mais irrespirável. Aquilo a incomodava, fazia com que sentisse seu coração ser esmagado lentamente. Era quase insuportável a dor que via nos olhos dele. Mas não queria dizer nada. Não ainda. Sabia que tinha que ser paciente, pois ele provavelmente calculava se devia contar a ela qual era o problema ou se devia guardar tudo para si. No segundo caso, ela iria ter que quebrar uma baita barreira para chegar até ele. Por sorte ou azar, não precisou disso.
- So-sonhei com você. – Ele disse, mas o sofrimento em sua voz descartava completamente a possibilidade de ter sido um sonho minimamente bom. – Com a sua voz, na verdade. N-não reconheci, a princípio, mas acho que, no íntimo, soube a todo momento que era sua.
Hermione mordeu o lábio inferior com força, pois foi acometida pela súbita compreensão do que seu sonho se tratava. Aumentou o aperto sobre a mão dele.
- Você sonhou com a noite na Mansão Malfoy. – Ela disse lentamente e observou os músculos da mandíbula dele se contraírem.
- Eu não conseguia me mexer. – Ele baixou a cabeça, fechou os olhos e franziu o cenho, como se tentasse expulsar uma memória muito dolorosa de sua mente. – Eu não conseguia ver. Você gritava e gritava e eu... – Ela o sentiu apertar ainda mais a sua mão, mas não se importou com a dor. – Eu não conseguia, não conseguia fazer absolutamente nada. Nada! Eu juro que tentei, Hermione, mas meu corpo não me obedecia.
Ele começou a tremer violentamente e, para uma maior surpresa de Hermione, a puxou com firmeza para si, abraçando-a com força. De olhos fechados, a pressionava contra si com afinco e roçava o nariz suavemente no cabelo dela, absorvendo seu calor e seu o cheiro, como para reafirmar para ele mesmo que o sonho tinha de fato acabado.
- Por Merlin, ela te torturou tão cruelmente. – Cada palavra saía com sufoco, sua voz embargada. – Eu sinto tanto, Hermione. Eu sinto muito. – Ele a apertou mais ainda. – Merlin, eu me senti completamente inútil. Eu não conseguia pensar, Hermione! Se não fosse o Dobby... – Ele parou e respirou fundo, provavelmente relembrando o elfo. Mais uma morte pela qual ele se culpava, Hermione constatou. Ele a soltou e baixou a cabeça, evitando seu olhar. Não a estava tocando mais. De repente, ela sentiu um vazio estranho preenchê-la. Depois de alguns longos segundos em silêncio, ele concluiu em voz baixa e trêmula: – Eu nunca devia ter arrastado nenhum de vocês para aquele inferno maldito.
Aquilo foi o suficiente.
- Harry, olhe para mim. – Ela disse, por fim, com a voz controlada. Ele lentamente levantou a cabeça, mas evitou seus olhos. – Não. Em meus olhos. – Relutantemente, ele obedeceu. – Agora me escute: eu odeio ter que ser a responsável por lhe dar esse provavelmente chocante banho de realidade, mas não, Harry, você não é tão importante a ponto de ter uma guerra que fosse sua e unicamente sua. – Ele deu um sorriso fraco. – Você não é e nunca foi o responsável pelo que aconteceu. Houve um processo que começou muito antes de você ter nascido, muito antes de você ter assumido um papel importante nessa guerra. Tudo isso ocorreu porque a sede de poder dele não tinha limites, ele queria dominar tudo e todos. Ele queria subjugar os Trouxas e todos aqueles que tivessem qualquer simpatia por eles. Essa guerra nunca foi sua Harry, essa guerra foi de todos nós.
Os olhos dele continuavam fixos nos dela, mas com o mesmo tom de tristeza. Hermione sabia que nada do que dissera atenuara qualquer culpa que ele sentia. Ela respirou fundo e continuou:
- Fomos nós quem escolhemos entrar naquele "inferno maldito". Fomos nós que escolhemos seguir você, ajudar você, não só porque você era nosso amigo, mas porque, mesmo cientes sobre o perigo que corríamos, sabíamos que era o certo a fazer, se quiséssemos acabar com aquilo tudo. E veja só: nós conseguimos. Sei que tivemos muitas perdas pelo caminho, mas também sei que não se arrependeriam de ter se sacrificado por esse objetivo. – Ele baixou a cabeça novamente e fechou os olhos com força. Hermione levou ambas as mãos às bochechas dele e a puxou para cima novamente. Ele abriu os olhos. – Não existe guerra sem perdas e não há guerreiros sem cicatrizes, Harry. Ron tem as dele, eu tenho as minhas e você definitivamente tem muito mais do que deveria. Então, por favor – Ela lhe lançou um olhar implorante. – Pare de se culpar por todas elas. Se há alguém a quem culpar, é Voldermort e apenas ele.
Ele encolheu-se sob a menção do nome. Antigamente, não seria um problema, pois lhe remetia ao próprio dono do nome e ele se recusava a ter medo dele. No entanto, agora era um lembrete de tudo por o que tinham passado, de tudo que tinham perdido. E isso era muitas vezes mais doloroso.
- Eu só... – Ele se interrompeu e respirou fundo. – Nenhum de vocês merecia ter essas cicatrizes.
- Nenhum de nós. - Ela o corrigiu, levando a mão à dele e apertando-a. Ele retribuiu. – Mas, Harry, nós temos. E muitas. E você vai ter que aprender a conviver com elas. E estou falando das suas também.
Ele baixou o olhar para o braço dela novamente e suspirou.
- Não é fácil.
- Se fosse, você não se chamaria Harry Potter.
Um sorriso fraco formou-se na boca dele.
- Tem razão, a culpa é toda do nome. Por que não me chamaram de Harold ou algo assim? Você não concorda que Harold parece alguém que jamais se meteria em problemas?
Ela riu.
- Harold não combina com você.
- Exatamente.
Ele fitou os olhos dela e ela sustentou o olhar, sabendo que ele estava em um universo paralelo, onde vivia feliz e sem cicatrizes, Harold Potter. Hermione bateu no lugar vago da cama, a seu lado.
- Deite-se, Harry. Logo, logo vai amanhecer. Vamos ficar apenas em silêncio e encarando o teto, enquanto imaginamos como seriam as vidas de Harold Potter e Emilia Granger em outra realidade.
Ele hesitou por um momento, encarando o lugar vazio para onde ela o chamava e subitamente consciente de que estavam sozinhos em um quarto. Tossiu, como que para aliviar a tensão, e se deslocou lentamente para o local que ela havia apontado.
- Emilia Granger? – Ele disse, disfarçando o desconforto. – Não. Eu gosto de Hermione.
Ela deitou-se de lado, de frente para ele, notando que ele tinha posto uma distância cuidadosa entre eles, sempre evitando ser o primeiro a iniciar um toque, mesmo que acidental.
- E eu gosto de Harry. – Ela disse, a voz suave, fitando-o intensamente.
Ficaram inúmeros minutos em silêncio e olhando para o teto, como ela havia sugerido, ambos perdidos em um mundo irreal de felicidade plena, onde não havia guerra, nem dor, nem perdas irreparáveis.
Ela se aproximou dele e passou um braço sobe seu abdômen, abraçando-o, a cabeça deitada sobre seu peito. Ela havia fechado os olhos. Ele ficou estático por alguns segundos e pareceu relutante quanto ao que deveria fazer. Optou por deixar o braço e a mão apoiados nas costas dela, sustentando-a delicadamente contra si.
- Nós vamos conseguir, você sabe. – Ela disse, baixo, ainda com a cabeça encostada nele. – Conviver com elas.
Ele suspirou e passou a acariciar quase imperceptivelmente as costas dela.
- Eu sei.
Adormeceram depois de alguns minutos, naquela mesma posição. E, em algum momento entre a consciência e a inconsciência, sentindo-a junto a si, como um escudo protetor, Harry pensou que, de repente, não parecia tão difícil.
N/A: Primeiramente, Feliz 2018 a todos!
Tenho os quatro primeiros capítulos dessa fic escritos há, aproximadamente, três anos e meio. A princípio, a fic "Abandono" iria fazer parte dessa loucura toda, mas preferi mantê-la como uma short separada. A loucura da vida e da faculdade me impediram não apenas de terminar como de postar a fic, pois acabei me afastando muito do universo de Harry Potter como um todo nos últimos anos. Porém, nos últimos dias, resolvi matar a saudade e decidi que, se queria publicar a fic, seria agora ou nunca.
A fic inteira se passa no pós-guerra. Alguns capítulos, como este, quase que imediatamente após e outros, como os próximos, algum tempo indeterminado após. Como vocês vão poder perceber, eu estava numa vibe muito "vamos explorar o trauma que essas benditas crianças sofreram, não é mesmo?". Os capítulos poderiam funcionar de forma independente, mas resolvi juntá-los porque se tem algo para o que eu gostaria de chamar atenção é para Harry-fui-abusado-durante-a-infância-inteira-e-por-isso-sou-relutante-quanto-a-contato-físico-Potter. E, claro, para como o meu (e de Harry Potter) eterno anjo, Hermione Granger, consegue ser exatamente isso: um anjo.
P.S.: Estou bastante ciente que a cicatriz no braço da Hermione não é exatamente "book canon", mas foi um dos toques que eu mais gostei dos filmes e achei excelente para escrever esse capítulo.
No mais, espero que gostem!
