Capítulo 2
Seus olhos percorreram lentamente o ambiente ao seu redor. A neve cobria tudo que o olhar alcançava. Tudo permanecia igual a antes. As árvores, o rio...
E ela.
Ela era a peça destoante, era o que fazia com que este lugar, a princípio imutável, parecesse completamente diferente do que fora quando era pequena e, também, diferente do que fora quando o usou como refúgio, há pouco mais de um ano.
Ela mudara. Ela não era imutável. Ela não permanecera igual. Era uma intrusa naquele lugar constante.
Intrusa.
Um sorriso triste formou-se em sua boca, enquanto a palavra ressoava em sua mente. A ironia de sua intrusão ser a única coisa constante em sua movimentada vida era quase risível.
Quase.
Era uma intrusa em sua própria família, era uma bruxa em uma família de trouxas. Seus pais a amavam de todo o coração, sabia. Mas também estava ciente do "e se" que devia passar pelas cabeças deles de quando em vez, estava ciente da vida comum que podiam ter tido, caso não tivesse invadido tão inocentemente e tão cruelmente aquela normalidade.
Antes mesmo de Hogwarts, na escola, sua sede por ler e pelo saber afastava quem quer que fosse. Era uma intrusa, também, naquele mundo. Porque ela queria ler quando as outras crianças queriam brincar, porque ela não suportava a ideia de enganar a professora com mentiras, afinal, mentir era errado. Ela era diferente e sua presença naquele mundo de pessoas tão iguais gerava incômodo, revolta.
Repulsa.
Crianças podem ser cruéis. Crianças podem ser mais cruéis que adultos, algumas vezes.
Eram apenas palavras, apelidos.
Eram apenas risos.
Era apenas ela.
Isolada.
Empurrada para as sombras de uma solidão que não era acolhedora. Uma sombra que a perseguiu por anos. E a única luz que conseguia diminuir as sombras vinha dos livros. Daqueles mundos fantásticos, daqueles personagens inexistentes, mas tão bravos, tão decididos a achar um final feliz, que a faziam ter esperança de que também teria o seu. Esperança de que, um dia, o mundo de alguém a receberia de braços abertos, simplesmente por querê-la por perto, porque ela era suficiente. Não seria uma invasora. Uma intrusa.
E então a carta chegou e algo dentro dela se acendeu de novo. Finalmente pertenceria a algum lugar, e não era apenas isso. A haviam convidado a participar daquele mundo, desconhecido para ela, até então. Eles a queriam em seu mundo. Leu tudo o que pode sobre ele, não queria estar atrás de ninguém, não queria ser excluída por não ter crescido naquele mundo. Queria estar à altura de todos que faziam parte dele. A esperança de acender definitivamente a luz e extinguir as sombras que a seguiam a tomou por completo.
E, Merlin, não havia nada mais tolo que a esperança.
Porque as crianças bruxas eram quase iguais às trouxas. Parecia que tinha exagerado ao querer ser digna de fazer parte daquele mundo. Sabia tudo sobre ele, lera incontáveis vezes tudo o que esteve ao seu alcance. Aprendera até alguns feitiços. E nada disso importava. Ela se apaixonara por um mundo que não se apaixonara por ela. Era, mais uma vez, uma alma solitária vagando por corredores com quadros falantes, com escadas que se moviam e com pessoas que tinham em si o dom da magia. Infelizmente, esse dom não as permitia ver a sombra que tinha voltado a cobrí-la. E, Deus, ela havia tentado fugir. Tentado de verdade. Mas não havia nada em seus livros que ensinava como fazer amigos, e, mesmo em sua curta vida, não possuía experiência nenhuma nessa arte.
Observava Harry Potter, que sabia que, como ela, não tinha conhecimento nenhum de sua origem até recentemente. Ele, no entanto, atraía pessoas. Ele não as repelia. Ele sim tinha sido recebido de braços abertos por aquele mundo e, por um momento, ela o invejou.
O troll a atacou no exato dia em que a dor de se sentir tão indesejada, tão abominada, tão diferente chegou aos seus olhos e saiu em forma de lágrimas. Não ia dar a Ronald Weasley o prazer de vê-la fraquejar, de vê-la sucumbir à dor, quando lutava tanto para conseguir o seu final feliz.
Mas então, o menino a quem invejo quem odiou, de repente, estavam lutando para defendê-la, tentando impedir que um monstro, o qual nenhum deles sabia realmente como derrotar, pudesse machuca-la.
No fim das contas, a amizade que se formou foi resultado de mais uma intrusão. Não foram eles que a chamaram, não foram eles que a pediram para acompanha-los. Eles não pediram por sua amizade. Foi ela que decidiu estar sempre presente com eles. Foi ela que cansou de precisar de convite. Ela se convidou. Já estava acostumada a invadir mundos.
O que havia, afinal, de tão errado com ela? O pensamento a pegou desprevenida. Por Merlin, era a bruxa mais brilhante da sua idade, havia não só sobrevivido, mas ajudado a ganhar uma maldita guerra! Existiam traumas mais urgentes a serem tratados do que os que destruíram sua autoestima. Não podia pensar nisso agora. Era errado, era egoísta, era fútil.
Não era, no entanto, menos doloroso.
Os medos que povoaram seus pensamentos durante anos nunca tinham se esvaído realmente, apenas tinham sido deixados de lado em algum canto intocável da sua mente, abafados por temores mais urgentes e palpáveis, como a guerra, como a morte.
Fechou os olhos e deixou-se invadir pelo familiar sentimento de desamparo. Deixou-se ser jovem novamente, deixou suas incertezas a invadirem, deu-se ao luxo de, por um momento, poder sofrer por si, e não pelos outros. Deu-se ao luxo desse instante de egoísmo.
Será possível que nunca seria boa o suficiente? Não era aprovação o que ela buscava, não era reconhecimento. Sabia que tinha ambos. Merlin, Harry e Ron não teriam durado dois dias sem ela. Harry teria morrido em seu primeiro ano se não fosse por ela.
Viktor fora a primeira pessoa a se aproximar sem que ela precisasse, de alguma forma, se impor. Sem que ela precisasse se esforçar para estar lá. Por um instante, ela não se sentiu tão insegura. Por um instante, ela foi o suficiente. Quase feliz.
Quase.
Porque não se pode ser feliz realmente quando o que se vê ao olhar ao redor são apenas barreiras entre si e o mundo que se recusou a recebê-la de braços abertos. Mundo esse que salvou sem pensar duas vezes. Mundo esse que agora tinha consciência de que precisava dela. Mundo esse que parecia se arrepender da injustiça que havia cometido.
E ela o perdoara, claro que o perdoara. Ela o perdoara no momento em que aqueles dois meninos ingênuos decidiram que ela merecia ser salva de um troll imenso. Não havia como não perdoá-lo. Fora o primeiro mundo a lhe dar amigos de verdade. E a amizade era uma coisa tão nova, depois de anos na solidão e no vazio, que ela estava disposta a aceitar qualquer migalha.
Havia pego o que podia para construir o frágil amor-próprio, antes inexistente. Era a melhor em todas as matérias; fora ela quem desvendara, juntamente com Harry, todos os mistérios aos quais foram expostos durante a guerra.
E agora que tudo isso acabara, o que lhe restava? Recusava-se a se impor na vida das pessoas novamente, não queria que se sentissem obrigados a aturá-la por mera gratidão. Ela merecia mais que isso.
Não merecia?
O problema de seu frágil amor-próprio era exatamente esse: era frágil. Sempre fora, desde que começara a construí-lo. Ele, no entanto, nunca esteve tão próximo de ruir novamente. Sentia seu íntimo sofrer só de pensar em voltar para as sombras da solidão de onde viera, sua alma implorava por uma salvação, suplicava para que deixasse seu altruísmo de lado, com medo do sofrimento que ele traria.
Inspirou o ar frio da Floresta e fechou os olhos, sentindo uma lágrima escorrer pelo rosto.
A morte teria sido uma solução tão simples, tão eficiente. Seus pais não teriam memórias suas, poderiam viver a vida que sempre quiseram. E seus amigos... Eles superariam. Já haviam passado por coisas piores. Ela quis rir de seu timing. Por que não pensara nisso com mais antecedência? Afinal, o que seria uma baixa a mais numa das piores guerras que o mundo bruxo já viu?
Uma mão quente segurou a sua com firmeza e ela teria sacado a varinha se já não tivesse esperando por ele. É claro que ele viria. Não lutou quando ele a puxou para si e a aconchegou cabeça dela em seu peito, enquanto deixava que o choro dela se intensificasse.
Não esperou por palavras, pois sabia que elas não eram exatamente seu forte. E ele pareceu entender que não era delas que ela precisava, pois sequer deu-se ao trabalho de tentar usá-las. Ao invés disso, apenas a abraçou e ela foi invadida pela segurança que apenas a presença dele já transmitia, por um segundo, o aceitou como seu apoio e agarrou-se a ele como a boia de salvação pela qual sua alma tanto ansiava.
Quando as lágrimas cessaram, ficou mais alguns minutos com o rosto enterrado em seu peito, apenas aspirando seu cheiro. Era quase como estar em casa. Era o mais próximo que sentia de pertencer de verdade a algum lugar e, por isso, ela não teve pressa para se afastar.
Quando o fez, apenas levantou a cabeça, encostando o queixo em seu esterno, para poder ver seu rosto. Ele inclinou a cabeça para baixo, de modo que ela pudesse olhá-lo nos olhos verdes através dos óculos.
- Obrigada. – Ela disse, com uma voz tão rouca e profunda que sequer parecia a sua. De certa forma, era adequado, porque ela não se sentia como ela mesma, no momento. Ainda precisava se recompor.
- Eu estava um pouco cansado de ser o único consolado por aqui. Também tenho o direito de ser forte, por um momento, não acha? Afinal, eu sou o herói do mundo bruxo. Devia começar a agir com tal.
E apenas assim, ela riu, sentindo os olhos serem preenchidos por lágrimas de alívio. Porque ali estava ele, tão ou até mais quebrado do que ela, tentando ser sua base e ela sabia que ele não tinha forças para fazer o trabalho sozinho. Mas Harry Potter era absurdamente altruísta, Harry Potter não desperdiçava a chance de ser o herói.
E, naquele momento, ela o amou.
A constatação não foi um choque. O pensamento não a pegou de surpresa, não era obtusa a esse ponto. Passara metade de sua vida amando Harry Potter. Nada mudara dentro de si realmente, mas era bom finalmente poder nomear.
Ela deu um passo para trás, saindo do seu abraço e respirando fundo, reerguendo mentalmente as suas estruturas.
- Deve estar se perguntando o que estou fazendo aqui e como a encontrei. – O ouviu dizer.
- Não realmente. Você tem uma tendência a ser enxerido e eu deixei um bilhete, dizendo que era para cá que viria.
Ele sorriu, culpado, mas logo voltou o olhar para o ambiente ao redor, parecendo finalmente se dar conta de onde estavam. Assumiu uma postura distante, deixando a mente ser preenchida pelas lembranças que o lugar trazia.
- Faz você se sentir um pouco deslocado, não é? – Ele disse, sem buscar realmente uma resposta.
- História da minha vida. – Ela murmurou, amargamente, para si. Se Harry ouviu, não deixou transparecer. Ela respirou fundo, resignada, e focou olhos na vista à sua frente.
- Hey. – Ela ouviu a voz suave dele chamá-la e sentiu novamente a mão firme na sua. Levantou um olhar questionador para ele, que pareceu hesitar, por um momento. – Me desculpe por aparecer tão de repente, sim? Não era realmente minha intenção invadir seu momento a sós. Eu só... – Os olhos verdes intensos focaram-se nos dela. – Bom, resumidamente, tive um dia ruim e sua presença tem a tendência de fazer com que eu me sinta melhor, então, decidi ser um pouco egoísta. – Ele lhe lançou um sorriso pequeno, parecendo um pouco envergonhado. – Importa-se com a intrusão?
Hermione sentiu algumas lágrimas voltarem a seus olhos e seu coração inchar de amor por ele.
Porque ele estava ali sem que ela tivesse pedido.
Porque ele havia, espontaneamente, vindo ao seu encontro.
Porque ele precisava dela.
Porque ele precisava dela por perto.
Porque, dessa vez, ele era o intruso.
Porque ela não se importava minimamente que ele fosse.
- Não. – Ela respondeu, a voz carregada de emoção. – Eu não me importo.
Ele apenas sorriu, aliviado, e assentiu, puxando-a um pouco para mais perto de si.
Porque Harry-não-sou-muito-de-contato-físico-Potter ainda estava segurando sua mão.
E, por enquanto, aquilo foi suficiente.
N/a: Olá! Cá estou novamente!
Queria agradecer imensamente pelos comentários, fiquei realmente muito feliz com todos eles!
Tenho três pontos sobre esse capítulo:
O primeiro é que, para quem não percebeu, o capítulo se passa na Floresta de Dean, onde nosso precioso OTP ficou isolado por um tempo, em RdM.
O segundo é que eu tentei escrevê-lo mais ou menos como um espelho da fic "Abandono", já que a ideia inicial era que ambos pertencessem à mesma fic.
E o terceiro é que: vocês já notaram sobre como Hermione não menciona em momento algum amigos Trouxas? Supondo que ela ia pra escolas trouxas antes de se descobrir bruxa, é de se esperar que ela tenha feito alguns amiguinhos, que não é o que parece. VOCÊS CONSEGUEM IMAGINAR A SOLIDÃO DO MEU ANJO DURANTE TODA A INFÂNCIA DELA PRA DEPOIS CHEGAR NUM LUGAR MÁGICO E CONTINUAR SENDO EXCLUÍDA? E, vamos ser sinceros, essas crianças ficaram dos 11 aos 17 anos lutando uma guerra, você não tem tempo para ser um adolescente normal, cheio de inseguranças e dúvidas. Então, eu dei espaço pro meu anjo sofrer sofrimentos de seres humanos normais, pra variar um pouco. Espero que gostem!
