Capítulo 3
Ele entrou aos tropeços, um dos braços sobre os ombros de Ron, que fazia todo o esforço para sustentar o moreno sozinho, já que o mesmo não estava fazendo a mínima questão de ajuda-lo. Hermione vinha logo atrás, trazendo o peletó preto e o cinto do melhor amigo, que, por razões que apenas o excesso de álcool conhecia, teve a brilhante ideia de tirá-las no meio da festa. Felizmente, o ruivo conseguiu detê-lo assim que ele tirou o cinto e decidiu que Harry já tivera o suficiente por uma noite. Hermione, que dançava com Dirk durante o ocorrido, notou a comoção e concordou de imediato com o ruivo quando ele sugeriu que era uma boa ideia que levassem o amigo de volta para o apartamento dele.
O moreno estivera rindo descontroladamente desde o momento em que aparataram em um beco próximo da entrada do apartamento trouxa no centro de Londres, que ele havia adquirido há não muito tempo. Chegou a tentar explicar, sem sucesso, o porquê de sua alegria ao porteiro de seu prédio:
- Funcionou, Rubeus, não é maravilhoso? – Disse, com um enorme sorriso estampado em seu rosto, as palavras saindo emboladas. – Eu sou um gênio.
De imediato, o simpático senhor percebeu a situação e ofereceu um sorriso solidário para Ron e Hermione, ambos um tanto desconfortáveis com a cena.
- Meu nome é Phill, senhor Potter. – Disse o homem mais velho, ainda sustentando o sorriso. – Vejo que vai ter um dia difícil amanhã.
Harry franziu o cenho, parecendo confuso por um instante.
- O que houve com Rubeus?
- Nunca houve nenhum Rubeus aqui, senhor Potter.
Harry gargalhou.
- Bom, se o vir, diga que mandei-lhe lembranças. – Parecendo satisfeitíssimo consigo, voltou-se para subir os dois degraus que o levariam às portas do elevador e imediatamente caiu. Ron o ajudou a se levantar.
- O que diabos deu em você, cara? Tive que deixar Luna sozinha lá com aquele crápula do Scamander para trazer você para cá. Tem noção do quanto me deve por isso?
- Eu tive um plano. – Harry respondeu, como se fosse óbvio. Olhou para trás e sorriu ainda mais ao ver Hermione, que os acompanhava demonstrando total reprovação, mas sem dizer uma palavra sequer. O mau humor da bruxa só pareceu aumentar quando Harry passou a repetir inúmeras vezes, durante a viagem de elevador, como ela estava linda.
Ron o levou até o quarto e o soltou do lado da cama. A súbita falta de apoio o fez perder o equilíbrio instantaneamente e se Ron não o tivesse empurrado paro o lado onde a cama estava, ele teria caído no chão. Deitado na cama, Harry gargalhou. O amigo passou as mãos pelos cabelos ruivos, completamente perdido.
Hermione apoiou a mão sobre o ombro de Ron e disse:
- Eu me viro com ele agora, Ron. Pode ir tirar Luna das garras de Rolf.
Ron pareceu exasperado por um segundo.
- Nós não o chamamos pelo primeiro nome, Hermione. Não se dá intimidade para esse tipo de gente.
A morena levantou as mãos em sinal de derrota, rindo.
- Não sei qual é o seu problema, Ron. Acaso não está noivo de Luna?
- Motivo pelo qual devo protegê-la de possíveis ladrões de noiva como Scamander.
Hermione olhou para o relógio.
- Tem razão, já se passaram quinze minutos desde que saímos, garanto que esse é o tempo necessário para qualquer mulher perceber o erro que cometeu ao concordar em se casar com você.
Hermione achou que o ruivo retrucaria com algum comentário sobre ela ser quem estava solteira há mais tempo do que gostaria de contar, mas Ron pareceu entrar em pânico instantaneamente.
- Vo-você acha mesmo?
Hermione riu novamente de sua expressão.
- Vá embora logo, Ron.
O ruivo estava prestes a aparatar, mas lançou um último olhar para Harry.
- Tem certeza que consegue cuidar dele sozinha?
- Ron – Ela adotou o tom que usava quando tentava ensinar qualquer coisa a ele e tinha pouco sucesso – Harry está bêbado, não louco. Além do mais, ele está dormindo. Vou embora assim que deixar tudo pronto para a ressaca de matar que ele com certeza terá amanhã.
O ruivo franziu o cenho, confuso.
- Não vai usar magia?
Um sorriso lento se formou na boca da morena e ela disse simplesmente:
- Não dessa vez.
Depois de o amigo aparatar, Hermione retirou os sapatos e as meias do moreno, sentou-se na ponta da cama, ao seu lado, e passou a observá-lo enquanto acariciava seus cabelos. Ele soltou um ruído que pareceu de aprovação pela boca.
- O que diabos estava passando pela sua cabeça, Harry Potter? – Disse em seu melhor tom de repreensão, muito embora a expressão serena no rosto dele já tivesse atenuado quase toda a sua raiva. Ele parecia calmo e relaxado, o que era muito raro de se ver. Apesar de a guerra ter acabado há alguns anos, Harry ainda carregava muito de seu peso nas costas, e muitas cicatrizes que, ao contrário da que ainda tinha na testa, eram invisíveis. Quase ninguém era capaz de perceber, mas havia uma tensão persistente em seu rosto, como se ele estivesse esperando pela próxima batalha, pela próxima onda de dor e perda que parecia perseguí-lo. Ela sabia porque via a mesma tensão quando se olhava no espelho e também a via nas feições de Ron e de vários outros amigos que lutaram ao lado deles. Havia certas marcas de guerra que eram simplesmente impossíveis de serem apagadas e, infelizmente, eles adquiriram as suas muito cedo. Harry, desde seu primeiro ano de vida.
De repente, ele se virou para o lado dela e pegou a mão que acariciava seus cabelos, levando-a para junto do peito e abraçando-a como se fosse um bicho de pelúcia.
- Hermioni-ni. – Ele disse, a voz embargada.
A morena sorriu. Retirou os óculos do olhos cerrados dele e virou-se para coloca-los sobre o criado-mudo.
- Então quer dizer que você fala igual a Viktor quando está bêbado. – Quando ela se voltou novamente para ele, encontrou-o de olhos abertos, encarando-a fixamente e parecendo aborrecido.
- Meu nome é Harry. – Ele disse, completamente indignado. Hermione nem se deu ao trabalho de responder. Simplesmente o encarou com certa impaciência.
- Que tal um pouco de água agora que está acordado? – Ela se levantou e fez menção de sair, mas Harry a segurou pelo pulso. Ele a encarava de modo estranho. Suas feições tinham se suavizado e seu olhar, embora um pouco perdido, era terno.
- Krum não merecia você. – Ele se sentou na cama e a encarou como se sentisse dor. – Não é que ele não fosse um cara legal, ele era um cara bem legal, legal de verdade, mas não era suficiente para merecer você. Bragge também não merece você, Bragge é um grande idiota. Por que estava dançando com ele? O que diabos você viu nele, Hermione? Não gosto de ver você com ele, ele não merece você. Não, não. Nem um pouco. Na verdade, não há nenhum homem que mereça você, você é demais para todos eles. Você é boa demais para todos eles. Eles não merec-
- Harry! – Hermione o cortou, irritada. – Escute, você está bêbado e provavelmente não vai lembrar de nada disso amanhã, mas fique sabendo que, se algum dia eu resolver me envolver com alguém, não será por questão de merecimento, não será porque alguém fez algo que me agradou e, portanto, passou a me merecer. Não. Será uma questão de escolha, eu vou escolher com quem me envolver, baseando-me nos meus sentimentos por essa pessoa. Não sou um prêmio a ser disputado, entendeu?
Ele pareceu não ouvi-la porque ficou mudo por um tempo apenas olhando-a nos olhos.
- Gosto dos seus olhos. – Ele sorriu lentamente. – Eu sei que não digo muito isso, mas me sinto bem quando olho para eles ou quando penso neles. É como sua voz. Sabia que a escuto na minha cabeça de vez em quando? Como se fosse minha consciência. Estranho, não? Gosto da sua voz também.
- E essa suposta consciência não o impediu de se embebedar hoje sem motivo aparente? – Ela levantou uma sobrancelha.
Harry riu.
- Eu já disse: tinha um plano. – Ele voltou a se deitar na cama, parecendo se esforçar para manter as pálpebras abertas e continuar encarando-a. Hermione voltou a acariciar seus cabelos e ele fechou os olhos sob seu toque. – Você me escolheria, Hermione?
A pergunta saiu quase que em um sussurro, mas isso não a impediu de olhar quase em choque para o moreno, que pareceu cair em um sono profundo logo depois de fazê-la.
- Isso é um pedido? – Perguntou em voz igualmente baixa, mesmo sabendo que ele não responderia. Passou os dedos delicadamente pelo queixo e pelas bochechas dele. Seu olhar, então, se focalizou nos lábios dele e, instantaneamente, ela sentiu uma vontade quase incontrolável de beijá-lo ali mesmo, de dizer a ele que era um tolo por sequer cogitar a possibilidade de ela estar atraída por Dirk, quando a verdade é que estava tão intensamente apaixonada por ele – Harry – que era impensável, para ela, que houvesse outro capaz de fazê-la sentir algo minimamente parecido. O pensamento chegava a ser divertido de tão absurdo. Ela riu.
- Achei que minha escolha já estivesse bastante clara, seu grande e cego tolo.
No dia seguinte, Harry acordou com uma terrível dor de cabeça, além do sentimento de ter sido submetido ao fetiço Obliviate, visto que o máximo que se lembrava da noite anterior era de ter planejado a morte de Dirk Bragge das mais diversas maneiras, enquanto bebia quantidades absurdas de whisky de fogo. E, se se esforçasse um pouco mais, também lembraria de ter decidido que um strip-tease com certeza faria com que Hermione esquecesse Dirk e se descobrisse apaixonada por ele, de modo que certamente o acompanharia até seu apartamento. Ele gemeu de vergonha ao se lembrar dessa última parte, mas estava com toda a roupa no corpo, o que significava que, felizmente, seu plano não tinha sido concretizado.
Procurou os óculos sobre o criado mudo e os encontrou junto a um bilhete.
"Recomendo tomar dois comprimidos e muita água. Não usei mágica porque você merece o que está sentindo. Ron está pronto para mandar um Berrador para você, então se prepare. No mais, aproveite a ressaca.
P.S.: Também gosto dos seus olhos.
- Hermione"
A despeito da dor infernal em sua cabeça, Harry sorriu.
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N/A: Optei por fazer um capítulo mais leve, porque às vezes nossa mente precisa escapar um pouco das coisas que pesam.
O próximo já será o último.
Desculpem a demora para atualizar, mas, como eu disse antes, a vida por aqui é corrida demais.
E, mais uma vez, MUITO OBRIGADA MESMO pelos comentários.
