Meus pesadelos eram sobre minha infância, sobre o dia que minha mãe chegou a casa com a Mackenzie e a colocou no meu colo. Depois todas as lembranças ruíam, iam embora, começava a correr atrás de minhas lembranças, mas quanto mais perto eu chegava mais lembranças desmoronavam, até que desisti. E quando eu desisti todas elas voltaram à tona, porém todas manchadas com uma cor vermelha. Acordo.

Jared ainda está dormindo, olho o relógio e são 5 da manhã. Deito e tento voltar a dormir, mas não consigo. Tudo que eu posso fazer é pensar nos meus pais em coma e minha irmã. Penso em como o Josh recebeu a noticia, com certeza ele recebeu a noticia, ainda sou menor de idade e o único que pode cuidar do velório e enterro da Mack é o Joshua, ele é o único parente que está por perto. Desperto pro pensamento de que agora eu vou viver com o Josh, meu irmão mais velho e único parente em condições para isso.

Será que vai ser assim pra sempre? Espero que não, honestamente, não quero perder meus pais, eles são tudo pra mim.

O sol começa a nascer. Ele está lindo, promessa de um dia lindo. Um dia lindo pra todos menos pra mim, hoje tenho que enfrentar um velório. O dia não deveria estar assim tão bonito ou deveria? Pensando bem, deveria. A Mack amava dias de sol e seu ultimo dia antes de estar a sete palmos seria assim, ensolarado.

Jared acorda quando o relógio marca seis e meia. E com isso começa o movimento da casa para o dia. Ligamos para meu irmão que –como eu previra- estava agilizando as coisas para a despedida da nossa irmã mais nova.

Sete e quarenta saímos de casa. Todos em silencio, nenhum deles sabia o que me dizer, nem mesmo Jared. A única coisa que ele fazia era segurar minha mão e, pra mim isso era suficiente. Eles me levam até o hospital onde eu encontro um Joshua totalmente diferente do que eu costumava ver. Ele estava abatido, com olheiras e com uma dor que era visível em seu olhar, andar e até mesmo no seu falar.


O velório estava cheio de amigas da Mackenzie, todos de preto com rosas brancas nas mãos. Misha e Evelyn também estavam lá, não eram amigos da Mack, mas estavam lá para me dar apoio.

Depois de muito tempo veio o enterro e depois disso todos vieram nos falar as mesmas frases, de modos diferentes. Me senti num filme, tudo passando em câmera lenta diante dos meus olhos. Nada passava despercebido, mas nada fazia sentido.

Joshua estava sempre ao meu lado e Jared ou Misha sempre vinham pra me dar um abraço. Depois fomos para o hospital visitar meus pais. Eles estavam na mesma, mas o médico disse que isso era uma coisa esperada. Ficamos lá durante algumas horas somente pra sentir a presença dos nossos pais e depois fomos embora. Tivemos a primeira conversa do dia.

-Jensen, eu acho que você vai ter que ficar um tempo na minha casa, só enquanto eu termino uns assuntos pendentes na minha cidade.

-Não. Mudar-me e ficar sem visitar nossos pais? Eu não sei se consigo.

-Se você não for comigo vai ter que encontrar a casa de algum amigo ou..

-Tenho certeza que eu posso ficar aqui na casa do Misha.

-Se é isso que você quer. É assim que vai ser. –O tom dele não poderia ser mais triste, mas eu não queria ficar longe de tudo.

Sei que não foi certo pedir pra ficar na cidade, eu devia ficar com meu irmão, dando apoio e dividindo a dor, mas não conseguia abandonar tudo que estava aqui, mesmo que fosse por uma semana.

-Ligue para o seu amigo e pergunte se pode ficar lá. Se puder vamos para casa pegar suas malas.

Liguei para Misha assim que Josh deu as costas, mas as noticias não foram muito animadoras. Não poderia ficar na casa dele, alguma coisa a ver com parentes. Senti a relutância dele pra me falar não, mas no fim ele não tinha escolha, a casa dele não é a maior do bairro e duvido que todos nós teríamos lugares confortáveis para dormir na casa dele.

Pensei em uma forma de ficar na cidade, peguei o telefone e liguei para o Jared.

-Posso ficar na sua casa essa semana? –Hesitei. –Só essa semana, eu não vou me mudar nem nada do tipo, é que meu irmão precisa.

-Não precisa explicar Jensen. Você pode ficar aqui sim.

-Você não vai perguntar pra sua mãe? –Perguntei confuso.

-Duvido que ela reclame da sua presença. Ela gostou de você e é um caso de necessidade.

Necessidade... Meus pais em como é uma grande necessidade.

-É, é um caso de necessidade. E obrigado, Jared. Muito obrigado mesmo.

-Que isso Jensen, apesar de ser uma amizade curta você pode contar comigo pra tudo.

Fiquei feliz por isso. Mesmo que as circunstâncias não tenham sido as melhores eu descobri que tenho um grande amigo. Na verdade ate com a Eve eu descobri que podia contar, ela foi tão gentil e solicita durante o velório que eu percebi que ela é uma pessoa em quem posso confiar.

Fomos a casa e pegamos minhas roupas. Não acredito que teria que ir para a escola amanhã, mas não posso perder o ano e tudo mais.

Jared me esperava na em frente a sua casa. Sua mãe estava ao seu lado e combinou algumas coisas com meu irmão, como, horário de visitas aos meus pais e atividades extracurriculares que eu tinha. Graças a minha mãe e suas longas ligações o Josh sabia todas elas. A mãe do Jared faz uma anotação mental de todas essas coisas e me manda entrar e me servir, pois o jantar já estava pronto.

Enquanto comia fiquei pensando em como a vida pode mudar em algumas horas. Talvez ela pudesse mudar até em segundos. A vida é uma coisa tão frágil, tão delicada. Talvez eu devesse dar a vida seu devido valor agora que tudo isso aconteceu.