Os primeiros dias na casa de Jared não foram os dias mais interessantes de minha vida. Eu ia da escola para o hospital e do hospital para o cemitério e do cemitério para a casa de Jared.
Meu irmão me ligava duas vezes todos os dias para saber se aconteceu alguma mudança no estado de nossos pais e eu sempre respondia a mesma coisa. Sentia-me cansado e infeliz. Os dois na mesma proporção e isso estava acabando comigo.
Jared também não estava feliz e sabia que era por minha causa. No meio da noite sempre me encontrava chorando no quarto de hospedes e ficava lá comigo até eu parar-coisa que demorava a acontecer- e quando eu parava ele pegava um colchonete e dormia no quarto em que eu estava.
Depois de alguma-muita-relutância eu fui para o quarto de Jared. Ele era grande o suficiente para duas camas e ainda sobrava um grande espaço. Não me sentia bem ocupando o quarto dele, mas fui praticamente obrigado a dormir lá.
Em uma das noites que passamos Jared resolveu tentar me alegrar um pouco e alugou alguns filmes. No começo eu até que reclamei, mas a ideia não era de um todo ruim.
-Dia dos Namorados Macabro, Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo ou A Casa de Cera?
-Esses são os filmes que você alugou para me alegrar? Isso vai me deixar no mínimo com um medo mortal que vai te fazer juntar as duas camas para dormirmos juntos.. –Falei tentando fazer uma piada. – Pensei que você fosse alugar comédias e filmes de ação com efeitos ruins.
-Minha definição de alegria é assistir filme de terror com meus amigos.
-Está faltando a pipoca para ser a alegria completa. –Falei rindo.
-E doces também. Não existe alegria sem doces, Jensen.
-Como você consegue ser tão magro? –Precisava tirar essa duvida. –Você come doce feito uma formiga.
-Oh, Jensen pequenino inocente. Uso minha força todas as noites ou a maioria delas.
-Que nojo. Poderia morrer sem ouvir essa. Nunca mais repita essa frase. –Ri ainda mais.
-O que você pensa de mim? Eu uso minha força malhando. Como você acha que tenho esses braços? Levantando minhoquinhas de açúcar até a minha boca?
Jared conseguiu o que queria, aquele papo leve era tudo o que eu precisava naquele dia. Eu estava tão mal que eu não pensava mais em nada que fosse alegre.
-E então, vamos assistir qual deles? –Perguntou Jared.
-Vamos de Dia dos Namorados Macabro. Eu não gosto desse dia.
-E que solteiro gosta? Estamos fadados a ficar sozinhos e perdidos nesse dia.
-Sozinhos e perdidos... –Pensei alto.
Jared colocou o filme e em menos de dez minutos já estava falando em como o protagonista era bonito, que, por ironia do destino tinha o mesmo nome que eu.
-Deve ser mal de Jensen. –Falei divertido.
-Com certeza. Ele é um cara muito bonito.
Assistir filme de terror com o Jared era pior que assistir a esse mesmo filme com uma menina. Para ele se igualar a uma menina só faltava pular no meu colo escondendo o rosto.
Metade do filme ele passou elogiando o protagonista de todas as formas possíveis. "Que boca ele tem" "Olha Jensen, o Jensen também tem olhos verdes."
Desconfiei de sua declaração de amor a filmes de terror porque enquanto assistíamos o segundo filme que era um pouco mais pesado ele simplesmente agarrou minha mão e só soltou quando o fim do filme chegou.
Aquilo foi um tanto quanto esquisito, mas não reagi tão mal. Fiquei ali esperando que ele soltasse a minha mão e somente isso.
Minha amizade com o Jared cresceu de uma forma que é impossível. Ele estava se tornando meu porto seguro, um tipo de amigo que nem Misha era para mim. Misha era um ótimo amigo, o problema não era esse, mas Jared... O que eu tinha com ele era bem difícil de explicar.
Era bem complicado pensar que toda aquela desgraça teve que acontecer para eu me tornar tão amigo de Jared, mas era um complicado suportável de se levar.
Misha aparecia na casa de Jared para ver como eu estava e de vez em quando ele até tentava me chamar para alguma festa, mas entendia quando eu negava.
O dia estava bonito e eu esperava boas noticias do médico, já que ele tinha ligado para a casa do Joshua.
Chegando ao hospital-como eu imaginei-recebemos uma boa noticia. Meu pai estava mostrando alguns sinais de recuperação. Minha mãe não teve progresso, mas minha vida já ficou bem alegre com a boa noticia do meu pai.
Fui para a escola e lá tive o desprazer de encontrar Karen me esperando no armário. Ela tinha uma certa vocação quando o assunto era me perseguir. Ela veio com uma conversa estranha.
-Jensen, acho que nós deveríamos conversar.
-Conversar sobre o que? Não temos um assunto pendente.
-Precisamos conversar sobre nós.
-NÓS? Não creio que exista "nós" a bastante tempo. Você deixou bem claro.
-Jensen.
-Sem essa de "Jensen"... Saí daqui. Minha vida já está ruim o bastante sem você.
-E por falar nisso, sinto muito por sua irmã e seus pais.
-Não fale isso se você não sente verdadeiramente.
-Eu sinto, Jensen. Eu realmente sinto. –E com isso ela foi andando pelos corredores da escola.
Misha e Evelyn estavam na porta da sala quando cheguei para a aula. Eles estavam conversando sobre uma noite de pôquer que teria na casa de um dos meninos da sala.
-Jensen, você quer ir?
-Ir onde? –Perguntei totalmente disperso.
-Ir à casa do Marcos. Teremos uma noite de pôquer.
-Não. Prefiro ver TV.
-O que você fez com o Jensen que todos nós conhecemos? –Perguntou Evelyn
-Ele cresceu um pouco. –Disse com um sorriso que não chegava aos meus olhos.
-É.. Cresceu. –Disse Misha abraçando Eve pela cintura e a levando para dentro da sala.
Aula de história. Era a melhor aula da semana e com certeza era com o melhor professor.
Depois que passei por todas as aulas do dia - e um teste de matemática- fui para a casa do Jared. Ele iria ficar na escola arrumando alguma coisa para o trabalho de Biologia.
Minha escola era muito exigente com seus trabalhos. Um a cada semana e sempre exigindo muita pesquisa.
Lembrei que esse deveria ser um dos meus últimos dias na casa de Jared. Meu irmão com certeza já deve ter organizado suas coisas para vir morar comigo.
Chagando à casa a mãe de Jared me recebe com um sorriso –que parecia forçado- e me diz para lavar as mãos e que meu irmão iria almoçar conosco.
Voo escada acima e me preparo para a visita do meu irmão, é bem provável que ele venha para falar que amanhã mesmo voltarei para minha casa. Como estou com saudades do meu quarto, minha cozinha e até meu banheiro.
Jared chega da escola quarenta minutos depois de mim e pela sua cara ele não estava apenas fazendo um trabalho. Ele estava feliz demais pra quem estava preso numa biblioteca fazendo um relatório de Biologia.
Decido perguntar o que aconteceu, mas sou interrompido pela mãe de Jared anunciando a chegada do meu irmão e sua esposa.
Todos nos sentamos a mesa e começamos a conversar sobre coisas casuais. Todos evitando o assunto acidente, afinal, não era um assunto bem vindo numa mesa.
Quando terminamos Josh e sua esposa foram conversar com a mãe de Jared em particular.
Eu e Jared passamos um longo tempo tentando ouvir a conversa que eles estavam tendo na outra sala, mas decidimos desistir quando a única coisa que ouvimos foi um burburinho.
Quando eles saíram da sala foi a minha vez de conversar com Joshua. Ele estava com uma cara não muito boa, como se a noticia que ele ia me dar fosse muito chata. E certamente era.
-Jensen, você sabe que eu tenho uma vida em outra cidade. Eu sou casado e nem tudo depende de mim, minha esposa tem que concordar com o que eu vou fazer também.
-Josh, eu não vou me mudar. –Falei com a voz firme.
-Não terminei de falar, Jen. –Falou de uma forma meio rude.
-Então, continue. –Falei em um tom bem sarcástico.
-Eu não posso me mudar pra cá, mas não significa que você vai se mudar para lá. –Olhei para ele completamente confuso. Como eu iria morar sozinho se nem sabia cozinha? –Você vai ficar aqui, mas vai ficar na casa do Jared.
-Josh, não quero ser um estorvo na vida da Sra. Padalecki.
-Você não será. Já combinei minha participação nas conta única coisa que eu posso fazer. Eu não posso me mudar pra cá se minha esposa não quiser.
-Eu te entendo, Josh, mas como eu vou ficar na casa de uma pessoa que eu mal conheço?
-Você está aqui até hoje, não é? Eles não te querem mal e o Jared parece ser um amigo bem próximo de você.
-Sim , ele é, mas isso não significa nada. Eu vou mudar a rotina de uma família. –Minha voz subiu alguns tons.
-Jensen. –Disse Josh quase gritando. –Você não vai ficar aqui por muito tempo. E, ou você fica aqui ou você se muda comigo.
-Quantas escolhas você está me dando. Muitas escolhas.
-E qual será a sua escolha?
-Eu vou ficar, Josh. Você sabe que vou ficar. Não posso ir embora daqui. –Disse com uma voz que era quase um choro.
-Então é isso. Você vai ficar aqui. Agora, vamos lá para fora porque eu ainda preciso terminar de tratar algumas coisas com a mãe do seu amigo. –Disse com uma voz de negociador que me deixou com raiva.
-Ok.
Josh e Sharon conversaram por mais algum tempo e logo Josh foi embora.
Eu e Jared fomos até a minha casa buscar mais coisas minhas. Peguei até um dos ursos da Mackie. Entrar em seu quarto me deu uma enorme vontade de chorar, mas engoli esse choro e segui pela casa em busca de alguma coisa que me servisse enquanto estivesse vivendo com Jared e sua mãe.
Levei meu travesseiro, muitas roupas, meus perfumes e algumas coisas que eu não conseguiria passar mais uma semana sem usar.
Tanto no caminho de ida quanto no caminho de volta ficamos em silêncio e até que foi um bom silêncio. Jared sabia quando era a hora de conversar e quando não era.
Quando chagamos à casa dele levamos minhas malas para seu quarto e eu fui arrumando minhas roupas num espaço que ele me deu em seu armário. Fomos até a sala e ligamos a TV. E foi nesse momento que eu lembrei que tinha uma coisa para perguntar a Jared.
-Ei, o que você estava fazendo hoje?
-Que horas? Hoje foi um dia bem grande. –Disse com um sorriso travesso.
-Tenho certeza de que você sabe do que estou falando, Padabobo.
-Que raio de apelido é esse? –Perguntou com uma cara estranha.
-Ai, sei lá. Me deu vontade de te chamar disso e eu chamei. Mas não mude de assunto, Jay. Eu quero saber.
-Me diga que horas.
Soltei um olhar furioso em sua direção, mas disse de que hora eu estava falando.
-Essa hora? Aaaaaah, eu estava com um cara.
-U-UM C-CARA?
-Jensen, não sei se você esqueceu, mas eu gosto de meninos. Lembrou?
-Não. Eu não me esqueci disso. Eu só achei que você não saísse ficando por aí.
-Eu não estou ficando com ninguém. Nem interessado nele eu estou. Ainda.
-Então você estava com ele por qual motivo?
-Eu queria saber algumas coisas sobre uma pessoa aí.
-E você quer alguma coisa com a pessoa que você quer "saber algumas coisas" - Eu disse com uma raiva clara na voz.
-Não. Sim. Não sei. –Disse ele com certo divertimento na voz. Parecia estar gostando de alguma coisa que estava acontecendo.
-Jared, você não sabe como são as pessoas daqui. Não pode sair conversando com qualquer um e..
-Eu não conversando com qualquer um. Ele parece ser uma pessoa muito legal e estava me dando informações valiosíssimas.
-Não vou falar mais nada para você, Jared.
-Está com ciúmes, Ackles? Mesmo que eu arranjasse um namorado eu não te expulsaria da minha casa. Nem te expulsaria da minha vida. Você é um amiguinho muito fofinho. –Falou com uma voz infantil e com tom de deboche.
-Você vai ver só, Padalecki.. Você vai ver.
-Ver o que?
-Ver isso. – O joguei na cama e comecei a fazer cocegas. –Isso- apontei para a minha outra mão fazendo cocegas- é por você ser uma pessoa tão evasiva na hora de responder minhas perguntas sobre seus romances.
Jared só conseguia rir e ficamos assim até os nossos pulmões pedirem para pararmos com as risadas.
Fazia muito tempo que não me sentia tão bem. Bem de um jeito que só Jared me fazia sentir. E isso era muito bom.
Nota: Dia dez eu volto a estudar(escola estava em greve), então, eu vou postar sempre a noite. E feliz 7 de Setembro. KK
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