O espetáculo do domingo fora cancelado. Quando Lestrade chegou mais uma vez na sala de concertos, descobriu que Sherlock e John passaram a noite inteira revirando aquele lugar.

—Você não dormiu? —perguntou Lestrade discretamente para John, que respondeu com uma risada contida.

A disposição brecada de John parecia estar na mesma intensidade da agitação de Sherlock.

Olhando do palco para baixo, Lestrade viu o fosso. As cadeiras enfileiradas estavam um pouco fora de ordem, resultado da saída apressada dos músicos. As estantes de partituras ainda sustentavam as pastas abandonadas. Sobre a estante imponente que pertencia ao regente, a baqueta¹ permanecia solitária. Os instrumentos deixados para trás estavam intocados desde o momento do fim do primeiro Ato: instrumentos de percussão, uma fileira de quatro harpas, e duas fileiras que totalizavam doze contrabaixos.

—O que ele está fazendo ali em baixo? —perguntou Lestrade para John, que esfregava os olhos.

—Um dos contrabaixistas ou é suspeito ou pode ter tido contato com o assassino.

—Alguma maneira de me explicar rapidamente como ele chegou a essa conclusão?

John negou com a cabeça e percebeu que, pela porta que levava do salão abaixo do palco para o fosso, doze homens se apresentaram. Pareciam apreensivos. O soldado imaginou que devia ser, de fato, muito estranho para eles terem sido convocados.

—Quem usou este contrabaixo na noite passada? —perguntou Sherlock e, um deles, se apresentou timidamente:

—Eu usei.

—Você trocou uma corda dele? —mais afirmou que questionou, e observou o homem atentamente.

—Eu... —estranhou. —Sim.

—Poderia me dar mais detalhes?

—Bem, quando eu cheguei para tocar, faltava uma corda... Eu estranhei, porque é nossa política manter os instrumentos sempre em ordem. Acho que alguém usou o contrabaixo e a corda deve ter estourado quando ele não teria mais tempo de trocá-la. Deve ter apenas tirado o seus restos...

—Então você não trocou a corda. O instrumento estava sem uma corda. Você apenas colocou outra.

Os contrabaixistas começaram a se entreolhar, alguns soltaram risadinhas. Aquilo não podia ser uma investigação séria. Sherlock já havia percebido que aquele homem não poderia ser o assassino. Com um tom menos paciente, cortou-os dramaticamente:

—Vocês não vão continuar achando graça quando eu disser que o homem que vimos morto no palco ontem foi assassinado com uma corda de contrabaixo.

Todos emudeceram e o encaram espantados. Ele voltou o seu olhar para o contrabaixista em questão e continuou:

—Então, você não viu quem levou a corda.

—Não senhor! Eu apenas peguei o envelope com a corda nova e a coloquei!

—Sua corda?

—Não... Alguém deixou a corda próxima ao contrabaixo.

—Você ainda tem o envelope dela?

O homem afirmou com a cabeça e começou a revirar sua maleta. John chegou ao fosso, demorara um bom tempo se perdendo no caminho. Viu o pequeno envelope, que antes portara uma nova corda de contrabaixo, sendo entregue a Sherlock.

—Vocês podem ir embora—murmurou ele, já nem mais dirigindo qualquer olhar para os homens que não mais lhe interessavam. Observou de todos os ângulos para ver se continha mensagens. Não precisou cheirá-lo de perto para sentir o perfume que ele emanava.

Viu Lestrade e John o encararem com expectativa.

—Preciso pensar—disse passando por eles, deixando-os sem resposta. Mas, antes de sair, virou-se para John: — Você parece exausto. Volte para a Baker Street e descanse.

John estranhou. Nunca era dispensado daquela maneira. Algum telefone soou indicando o recebimento de uma mensagem. Sherlock saiu do fosso como se aquilo não tivesse ocorrido.

.o.

"Encontre-me na terceira Sala de Jantar Privativa – IA".

A demora na sua chegada foi apenas o tempo de percurso. Sherlock já estava se habituando aos caminhos, mesmo que a maioria ainda fossem desconhecidos a ele, entendera o padrão circular e pouco simétrico.

Ele segurou a maçaneta da porta e a abriu lentamente. A sala não estava vazia. Irene esperava por ele, com seu vestido longo azul escuro que contrastavam com seus lábios muito vermelhos.

Sherlock fechou a porta. Estavam a sós num teatro praticamente deserto. Eles dois e o assassino (ele não conseguia levar a sério a presença dos policiais...). Mas, naquela sala, sabia, só havia eles dois.

Ela sorriu para ele:

—Finalmente aceitou o meu convite para jantar?

Ele tirou o envelope que o contrabaixista lhe entregara e o jogou na arrumada mesa de jantar:

—Ainda é de manhã.

—Um almoço talvez?

—É o seu perfume no envelope.

—Bravo! — elogiou rindo e aplaudindo.

Os dois ficaram em silencio, se analisando.

—Você tem se divertido—disse ela. —Mas, ainda não descobriu... A minha relação com o assassino.

—Você está encobrindo as pistas dele. Mas, ao mesmo tempo, foi você quem me chamou para o caso, o que significa que você quer que ele seja detido.

—Claro que te chamei. É o seu presente, este caso.

—Você me chamou porque está sendo ameaçada.

Ela engoliu seco e arregalou levemente os seus olhos azuis:

—Se eu estivesse sendo ameaçada, porque eu não diria claramente?

—Porque você é muito mais interessante do que isso.

Irene sentiu o seu coração disparar e ficou incomodada com aquilo, não queria que ele percebesse. Ele continuou:

—Você alterou esta evidência e pode ter alterado outras. Algum momento isso me traria até você. Você quer me contar algo.

Ela suspirou e sentou-se no sofá confortável, um pouco mais afastado da mesa, vencida pela clareza daquele homem:

—Há um mês eu recebi um convite pelo correio. Alguém sabia muito bem o meu nome. Alguém sabia que eu não havia morrido! E exigia que eu viesse para o espetáculo de hoje. Eu não sei quem é esta pessoa.

—Mas, você sabia que alguém morreria.

—O relojoeiro ou o príncipe. Sim. Por causa da carta que eu recebi—ela abriu a pequena e delicada bolsa e retirou o papel dobrado de dentro dela. Estendeu para Sherlock.

"Cara Srta. Adler,

Cinco são os que eu quero. O relojoeiro presenteou a garotinha com o que seria a imagem do seu futuro: o amado príncipe, que eu também quero.

Ela dança e eu não a desejo. Mas, pelo processo, deverá ser a segunda.

O terceiro é o homem da melodia fina e estridente.

O quarto e o quinto são um segredo meu.

Meu convite de retorno à Londres vem em anexo. Tenho um trabalho muito amistoso para você. Sei que é inteligente o suficiente para entender que não está em posição de recusá-lo.

Att,

T.P.".

"Cinco ou dez minutos", raciocinou Sherlock. "Não! Seis, precisamente. Através de uma mensagem, ele a chamará a algum lugar para...".

Ela percebeu o olhar de Sherlock parar na última linha: percebera algo, ou apenas raciocinava furiosamente. Como se algo tivesse sido finalizado nas engrenagens da sua mente, ele dobrou o papel e entregou novamente para ela.

—Como você sabia que era o meu aniversário?

Ela se surpreendeu. Era o tipo de coisa que esperava que ele tentaria deduzir até se fosse impossível de prever. Estranhando o fato de ter uma conversa normal com ele, mas apreciando o fato, respondeu:

—O seu casaco. Quando ficou no meu apartamento, no dia em que nos conhecemos. Não foi apenas o seu celular que eu vi, seus documentos também

Ele sabia. Ela sabia que ele sabia. Levantou-se e se aproximou dele.

—Porque voltar para Londres? Você podia ter tentado fugir para qualquer outro lugar. Tornar-se anônima mais uma vez.

Mas, perderia todo o contato com Sherlock por muito tempo. Talvez anos... Ele sabia. E ela sabia que ele sabia. Ficou intrigada e ele pôde ler isso nela. Ela se aproximou mais e o olhar dele continuava, absolutamente, convidativo:

—Sim—ele disse.

—O que? —perguntou, num sorriso de curiosidade.

—A resposta à sua pergunta: se eu já tive alguém. Sim, eu já tive alguém.

Ele havia previsto a reação dela: atirou-se sobre ele num beijo que ela vinha planejando há muito tempo. Sherlock estendeu sua mão para trás, enquanto a abraçava com a outra, e puxou a toalha da mesa. A louça se espatifou no chão e o barulho do estilhaçar cobriu o som de alerta do celular de Irene, que anunciava o recebimento de uma mensagem. A mensagem que se ela não visse, salvaria a sua vida por ao menos mais doze horas.

Sherlock a girou enquanto se beijavam e ela se sentou suavemente na mesa, o que justificou a ação prévia dele. Ela estava a salvo. Ele já podia parar com aquilo. Ela mudou seu abraço prendendo a nuca dele e puxou-o junto a si enquanto relaxava o seu corpo sobre a mesa.

Ele, sentindo seu corpo junto ao dela, percebeu a única coisa fora incapaz de prever: a sua própria vontade de continuar.

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[1] = item usado pelo maestro para deixar seus gestos evidentes para os músicos.