Capítulo IV — Subterraneus — Quem está sob a terra

A ruiva observava a janela em seu pequeno apartamento em St. Louis, vendo as gotículas d'água escorrendo pela vidraça de maneira lenta. Ela tamborilava os dedos sobre a mesa de canto ao lado da poltrona na qual se encontrava; os grandes olhos castanhos refletindo sua preocupação. Havia falado com Jensen há poucas horas, mas algo em seu âmago se revirava em todas aquelas vezes nas quais pensava que o rapaz estava prestes a acampar na floresta. Não conseguia se livrar da sensação ruim que parecia lhe gritar que o mais novo sairia machucado de lá.

"Perto de Blue Earth River, sabe?" a voz ecoou em sua cabeça, e levou um sobressalto tão grande que pulou na cadeira, praguejando em voz alta em meio aos palavrões. Afinal, como pudera ter se esquecido de algo tão importante?

Elta Danneel Harris colocou-se de pé num pulo, sentindo-se extremamente estática, pegou as chaves do carro e correu para fora do edifício, o coração batendo descontrolado no peito. Brigava consigo mesma mentalmente, chamando-se de todos os nomes possíveis, perguntando-se como pudera ser tão idiota. Deveria ter sido mais cautelosa, ter prestado mais atenção no que o amigo dissera. Danneel sabia que Jensen não era idiota, mas também sabia que não poderia lidar com aquilo, não sozinho.

Enquanto abria a porta do automóvel, pegou o celular e digitou o número do Ackles, torcendo internamente para que tivesse entendido tudo errado e ele fosse acampar bem longe de Blue Earth. Mas o telefone tocou, tocou e o mais novo não atendeu. As lágrimas surgiram em seus olhos.

‒ Ah, mas que droga! ‒ Harris socou o volante com força, e logo digitava outro número.

Alô?

‒ Tom, mais ou menos quanto tempo dura uma viagem de St. Louis até Blue Earth? ‒ não conseguiu nem mesmo dizer "Oi" antes de soltar a pergunta.

Dan? Hm... Eu acho... Acho que mais ou menos seis horas, por quê? ‒ do outro lado da linha, Welling encontrava-se arqueando as sobrancelhas.

‒ Por nada! Eu... Tenho que ir!

Jogou o aparelho no banco de trás e esfregou os olhos com o nó dos dedos. Precisava fazer alguma coisa o mais rápido que pudesse, ou então Jensen estaria correndo um sério perigo. E não somente ele, como também todos que iriam para o maldito acampamento. Assim como ela estivera, há tantos anos. Assim como suas amigas estiveram. A diferença é que ela teve sorte. Adrianne e Julia não haviam conseguido escapar.

Danneel passou os dedos pela lateral esquerda do corpo, e, mesmo com o tecido grosso da blusa de frio que vestia, pôde sentir uma leve elevação entre as costelas; algo que não tinha nada a ver com os ossos.

Mesmo depois de tanto tempo, as cicatrizes em formato de garras ainda eram sensíveis.

X-x-x-x—x-x-x-X

Jensen sentiu o queixo cair, e, no exato momento em que isso aconteceu, pôde ouvir Padalecki e Collins rindo ao seu lado, ambos achando graça de sua reação surpresa. Mas a verdade era que ele esperava tudo, literalmente, menos aquilo que viu. Estava acreditando que no acampamento haveria apenas a floresta; árvores, terra, grama, o de sempre. Ao invés disso, agora se deparava com uma espécie de casa feita de madeira antiga, com dois andares e uma sacada. Parecia um lugar confortável, mesmo que um pouco solitário e abandonado. Ackles finalmente entendia o que Jared quis dizer quando falou que não precisaria saber montar uma barraca.

‒ Surpreso? ‒ Misha deu-lhe tapinhas nas costas. ‒ Você ainda não viu nada, se é o que quer saber. E... É melhor fechar a boca, ou vai acabar comendo algum inseto voador.

O louro se virou para encará-lo ainda em estado de choque. O moreno sorria como uma criança travessa que acabou de ganhar um doce, e isso o fez corar um pouco, envergonhado pela própria reação, mas continuou a fitá-lo com interesse, querendo saber mais sobre o lugar.

‒ Há quanto tempo vocês vêm aqui?

‒ Desde que somos pirralhos. ‒ Jared se intrometeu na conversa enquanto sacudia os ombros. ‒ Parece que o lugar não muda nunca. Até hoje eu me lembro do dia em que Jeff inventou que poderíamos pintar a casa de branco.

‒ Nossa Jay! ‒ Collins pendeu a cabeça para trás e gargalhou com vontade. Jensen admirou o gesto, ligeiramente fascinado pela facilidade que o rapaz tinha em se socializar com as pessoas. ‒ Como aquilo foi divertido!

‒ Claro que foi. ‒ o maior arqueou uma sobrancelha sarcástica. ‒ Você ouviu grande parte do sermão, não é mesmo? Sobre responsabilidade e maturidade...

‒ Detalhes. ‒ Misha desconsiderou com uma piscadela.

Ackles ouvia tudo com atenção, sentindo-se um pouco deslocado na conversa, mas não excluído por isso. Se conseguisse admitir a si mesmo, estava mais confortável do que acreditou ser possível após a tensão inicial que havia se formado. Era até mesmo divertido tentar entender o que se passava pela cabeça dos dois rapazes enquanto iniciavam aquela discussão sem motivo e ligeiramente irônica, e aquilo poderia se tornar um passatempo. Padalecki, um estranho a princípio, com expressão de alguém que seria capaz de matá-lo, mas logo se mostrando um rapaz simpático e sorridente. Collins, um misterioso e agradável, com um sorriso amigável e expressão sonhadora. É. Talvez o acampamento não fosse tão ruim quanto acreditava quer seria.

‒... Não é mesmo Jensen?

Ackles sorriu largamente, sentindo-se corar enquanto era encarado por ambos.

‒ Eu juro que não faço nem a menor idéia.

[...]

O grupo arrumou as coisas com rapidez surpreendente, e logo todos se encontravam no grande dilema da vez: quem seria o parceiro de quem na divisão dos quartos. Era óbvio que as garotas dormiriam no mesmo lugar, e Jeff, por ser o líder do acampamento, poderia ficar sozinho. Jared praguejara baixinho consigo mesmo, mas, para não precisar excluir Jensen e sim tentar enturmá-lo, acabou sugerindo que fizessem tudo "à moda antiga".

‒ Qual é Padalecki! ‒ Sheppard foi o primeiro a se opor, estranhamente revoltado. ‒ Pedra, papel ou tesoura?! Não somos mais crianças, cara! Ficou louco, é?!

‒ Mark... ‒ o moreno revirou os olhos com impaciência. ‒ Somos eu, você, Hartley, Mish, Chris e Jensen. Podemos muito bem ir tirando na sorte, e as duplas vão sendo escolhidas de acordo com quem vence. De verdade, qual é o problema?

‒ Eu não vou ficar no mesmo quarto que um estranho. ‒ o moreno olhou para Jensen pelo canto do olho, arrogante. ‒ Ele nem mesmo faz parte da turma! Nem mesmo deveria estar aqui!

Ackles sentiu-se alvo de olhares de todos os tipos. Lauren e Sandra o olhavam de maneira avaliativa, como se tentassem concluir se ele era ou não bom o bastante para o acampamento. Justin parecia concordar com Sheppard, vista sua expressão de escárnio enquanto encarava o louro de olhos verdes. Christian parecia um pouco surpreso com a declaração, mas não concordando de todo com aquela afirmativa tão veemente; afinal, também não conhecia o rapaz, e, na verdade, só não falara com ele porque sabia que não teria um assunto, porque não se interessara o suficiente com a presença do garoto. Misha franziu o cenho, irritando-se profundamente com a ignorância de Mark. Não eram nem mesmo amigos, e, para ser sincero consigo mesmo, poderia ter praguejado o quanto quisesse contra Sheppard naquele momento, pois saberia que estava com a razão. Afinal, ele que não deveria estar ali. Era o valentão do grupo, no fim das contas.

E Collins odiava os valentões. Quem tinha o direito de julgar outra pessoa sem nem mesmo conhecê-la? Quem tinha o direito de dizer se ela era ou não alguém digno de ter amizades? Quem tinha o direito de dizer quem deveria ou não permanecer, e quem deveria ir embora? Não tinha nada a ver com Jensen. Quer dizer, em parte, sim, mas não totalmente. Estava cansado de todo aquele egocentrismo do outro.

‒ Escute aqui Sheppard...

‒ Tá legal! ‒ Jared jogou as mãos para o alto, prevendo a discussão. ‒ Então eu mesmo vou dividir os parceiros, ok? Ah... E se você reclamar outra vez, Mark, eu juro por Deus que eu mesmo calo a sua boca!

Jensen olhava de um para outro esperando que alguém lhe dissesse o que deveria fazer. Sair dali, talvez? Parecia uma boa idéia, considerado o fato de que ninguém ali, além do próprio Jared e de Misha, aparentava aceitá-lo ao menos como um companheiro de acampamento. Apertava a alça da mochila com força, sentindo-se deslocado novamente. O que estava pensando, afinal? Padalecki e Collins poderiam ser os dois rapazes mais peculiares que havia conhecido durante toda a vida, mas isso não significava que podia simplesmente aparecer por ali e esperar ser aceito logo de cara pelos amigos dos garotos.

‒ Não seria melhor se eu...? ‒ sua voz morreu antes que pudesse concluir a pergunta, atraindo o olhar de Misha, que pareceu conseguir lê-lo apenas por sua expressão aflita.

‒ Nem pense nisso. ‒ o moreno crispou os lábios, os olhos azuis faiscando. ‒ Acha que seria justo? Cara, de onde você veio mesmo? Idaho? Los Angeles?

‒ Palo Alto, Califórnia. ‒ Ackles sacudiu a cabeça. ‒ Mas eu não achei que traria tantos problemas...

Collins revirou os olhos e o encarou com seriedade, fazendo o louro sentir-se um garotinho infantil de cinco anos enquanto baixava os olhos para o chão. A verdade é que, realmente, queria um motivo para poder voltar atrás. Não que estar ali fosse ruim, mas também não queria ser um estorvo. E Misha não ajudava em nada fazendo aquela expressão tão perigosamente parecida com a de Somerhalder quando queria alguma coisa.

‒ Problemas? Jensen, você viajou por praticamente um dia inteiro para acampar no meio do nada com um bando de desconhecidos irritadiços e insuportáveis! ‒ Misha arregalou um pouco os olhos. ‒ Acha que alguém aqui faria isso? Você está louco se acha que vou deixá-lo ir embora depois disso! Além do mais, que mal há? Mark é um babaca, mas ele não vai fazer nada para prejudicá-lo, e o resto do pessoal até é um pouco legal. Só por causa de uma primeira impressão, você não pode acreditar que vamos te chutar daqui, na primeira oportunidade.

Ackles sorriu fracamente enquanto as mãos começavam a suar pelo nervosismo. Por que inferno se sentia daquela maneira quando via o moreno sorrir? Já não havia sofrido o suficiente com Ian? Já não havia se machucado o bastante? O garoto bizarro de olhos azuis, à sua frente, nada tinha a ver com sua vida. Não o conhecia e também não queria ser conhecido pelo rapaz. Por que não podia simplesmente se negar a continuar com aquela loucura?

‒ E outra que você vai ser meu colega de quarto mesmo. ‒ Collins passou o braço por seu ombro, como se o guiasse, e o louro podia ouvir Jared rindo baixinho enquanto escutava a conversa, enquanto todos os outros pareciam não entender a situação um tanto quanto estranha, uma vez que Misha completou em voz alta: ‒ Eu não mordo não, tá legal? Relaxa aí e curte a viagem, Jenny-Boy.

Jensen não conseguiu fazer outra coisa que não seguir o rapaz. Mas, estranhamente, não se importava tanto com o que os outros haviam pensado sobre si. O moreno e o Padalecki, ao menos, não haviam ignorado o rapaz da mesma maneira que os outros. Tentaram ser simpáticos, mesmo que cada um à sua maneira. Isso não era o bastante, afinal?

‒ Louco. ‒ sussurrou num tom envergonhado, e recebeu um sorriso reluzente em resposta.

‒ Você não faz idéia do quanto.

X-x-x-x—x-x-x-X

A lua crescente se erguia de maneira majestosa sobre as copas mais altas das diversas árvores que rodeavam a caverna, iluminando o caminho com sua luz tímida e pálida, deixando a natureza com o ar mais etéreo, mais imprescindível e misterioso. As "agulhas" de alguns pinheiros enroscavam-se nas grossas roupas de dois vultos que caminhavam de maneira lenta, os pés esmagando galhos quebrados e folhas secas.

‒ Daqui a dois dias começa a lua cheia. ‒ o mais alto observou, e pelo tom de voz rouco era possível perceber ser um homem.

‒ Eu sei.

‒... O que iremos fazer?

‒ De verdade? Nada. Vamos ficar aqui, espreitando, esperando, como sempre. Se ele não liderasse, se não fosse o primeiro, sinceramente, acredito que você sairia matando qualquer um a qualquer momento, e ainda teria a cara-de-pau de querer escolher suas vítimas. Contenha-se, homem. Aquele que permanece adormecido sob a terra, ali ficará até a meia-noite da última lua cheia do ano. Nossa hora ainda vai chegar. E, quando isso acontecer... Pode acreditar, haverá carne o suficiente para todos.

Mesmo sob a penumbra, poderia ser dito que ambos sorriam. Ou, talvez, fosse apenas uma impressão que ambos eram capazes de causar. Afinal, eles estavam ali, vendo os adolescentes caminhando por entre as árvores. Eles viram as discussões, observaram e aprenderam. Cada segundo era valioso, afinal.

Porque, dentro de 48h, eles seriam as presas.

X-x-x-x—x-x-x-X

‒ Cara, você ainda tá acordado? ‒ Misha bocejou enquanto caminhava até Jared, apoiado numa janela da pequena cozinha, observando a floresta e, mais especificamente, o céu. ‒ O que há Jay? Vamos, fala. Eu sei que tem alguma coisa te perturbando desde que nós chegamos.

‒ Eu não sei Mish... ‒ Padalecki suspirou e virou-se para encará-lo enquanto o menor esfregava os olhos com os nós dos dedos. ‒ Você não tem a sensação de que tem alguma coisa... Errada por aqui? Não tem a sensação de que tem alguma coisa lá fora?

Collins o fitou durante alguns instantes, e então foi até a janela também, esfregando as mãos enquanto tentava aquecê-las, um tanto quanto solidário.

‒ A verdade? ‒ ele voltou os olhos para o céu. ‒ Eu não sei Jay. Sempre existiu algo errado com essa floresta. Você não lembra, quando éramos pequenos, quando encontrávamos animais mortos ou coisas do tipo?

‒ Você queria enterrar a todos. ‒ o maior sorriu fracamente. ‒ Mas quem acabava tendo que usar a pá era o Jeff...

Misha corou, envergonhado, e virou-se para encará-lo, dando de ombros.

‒ A natureza é assim Jay. A gente não pode dizer o que está certo ou errado. É só... Olhar e aprender entende? Nunca teremos certeza o suficiente para dizer o que pode ou não ser real, o que é ou não impressão. Pode ser, pode não ser... Mas se você espera que eu te abrace e diga que vai ficar tudo bem, tire o cavalinho da chuva, Sasquatch. E não, você não faz o meu tipo.

Padalecki gargalhou baixinho e empurrou o menor delicadamente, provocando-o.

‒ Eu não pedi para você me abraçar, seu babaca.

‒ Pois me pareceu. ‒ Collins deu de ombros com descaso, e logo exibia um sorriso travesso.

E eles continuaram conversando, sem perceber, enquanto, observando a cena, próximo à parede, Jensen sorria, divertido. Ouvira uma parte da conversa, mas por acidente. Acordara com o barulho de passos, e, como estava com sede, resolveu que poderia descer e pegar um copo d'água. Agora, fitava as brincadeiras inocentes e desafios bobos que os garotos faziam entre si. Era uma amizade bonita, afinal de contas. O fazia ter vontade de participar.

Eu... Posso tentar? Posso tentar formar laços por aqui? Vocês são diferentes... E... Eu poderia jurar que acabaria sendo rejeitado, mas vocês me aceitaram... Ou vocês são muito loucos, ou realmente vale à pena.

Jensen preferia acreditar na segunda opção. Em ambos os casos.