Capítulo V — Aura — Brisa
Depois de dois dias tentando se socializar com o restante do grupo, Jensen ainda conseguiu se sentir surpreso quando Christian o convidou para a fogueira daquela noite. Ao que tudo indicava, haveria cantoria. Não era como se não tivesse conversado com o Kane nas últimas 48h, mas sua relação com o rapaz passava longe da que tinha com Jared e Misha. Parecia bizarro o fato de ter conseguido encontrar um nicho entre a amizade dos garotos, e até aquele momento o laço era estável. Jeff deixara escapar, em algum momento nas últimas oito horas enquanto tentava ensinar Padalecki e Collins a usar a laca de algumas leguminosas, que eles seriam "três pirralhos insuportáveis" se houvessem se conhecido antes. No primeiro segundo, Ackles ficara tenso enquanto esperava alguma reação negativa, mas, no momento seguinte, Jared gargalhou e disse que o irmão agia como se não gostasse da hipótese. O mais velho sorriu de maneira sem-graça e logo em seguida os deixou em paz. Agora, parecia estranho acreditar que o restante do grupo lhe daria uma chance de aproximação.
Mas, fosse como fosse, às seis horas já estavam todos sentados em troncos colocados estrategicamente ao redor das chamas. Nuvens escuras encobriam as estrelas e a lua, mas, de acordo com Justin, aquilo era bom, pois tudo ficaria mais misterioso e sombrio. E isso ocorreu segundos antes de Padalecki e Collins lhe pregarem uma peça. Hartley ainda pingava da cabeça aos pés, praguejando baixinho contra a água gelada do lago que existia próximo a casa, enquanto tentava se aquecer. Fora meio arriscado jogá-lo no lago, uma vez que poderia ter uma hipotermia ou algo do tipo, mas ninguém ali parecia se importar de verdade. Justin reclamou da temperatura da água, e não da brincadeira, então tudo parecia estar bem. Chegava a ser engraçado.
Mas ali estavam todos eles, sorrindo enquanto observavam Christian testando os acordes do violão. A expressão de Jensen, sentado ao lado de Misha, era um tanto quanto serena. Sentia-se em paz, afinal de contas. Como se finalmente houvesse encontrado o lugar ao qual pertencia, que não em meio aos livros. Era uma sensação boa, apesar de tudo. Fazia com que sorrisse por vontade e não por medo ou obrigação. Apenas sorrir, feliz por estar ali.
– E então? – Kane comprimiu os lábios numa expressão divertida. – O que vamos cantar essa noite?
– O bom e velho clássico! – Jared respondeu com prontidão enquanto sustentava um sorriso sacana. – Bon Jovi!
– Jay! – Misha revirou os olhos. – Não me venha com essa! Ninguém aqui agüenta mais ouvir você cantando durante a manhã enquanto toma banho!... Sem falar que sua voz é esganiçada que dói.
– Até porque nós já cantamos isso ontem. – Mark comentou com descaso.
Jensen sentiu o sorriso murchar um pouco, mas o manteve, pois sentiu sobre si os olhares culpados de Padalecki e Collins. A verdade é que eles não precisavam ter lhe contado nada, mas, ainda assim, sentiu-se ligeiramente desapontado. Não por saber que não fora convidado — podia conviver com isso —, mas por eles sequer terem se preocupado em lhe dizer algo. Talvez não devesse se apegar tão rápido. Sempre terminaria decepcionado, no fim das contas. Se não com os outros, consigo mesmo.
– Então... – Christian pareceu sentir a tensão no ar. – Que tal Highway to Hell?
– É uma boa. – Jared apressou-se em concordar. – AC/DC também é clássico.
Sheppard revirou os olhos com a escolha, mas não discutiu. Ackles não entendia o motivo de o rapaz não sair dali, uma vez que não gostava da música. Aliás, desde que chegara, parecia-lhe que Mark não gostava de nada.
– Living easy, livin' free... Season ticket, on a one, way ride…
X-x-x-x—x-x-x-X
Misha esfregou os olhos com o nó dos dedos, inquieto, enquanto se remexia na cama. A fogueira havia sido muito pior do que imaginara, com Sheppard mandando indiretas para Jensen em tempo integral. Ficava óbvio que Ackles só não saía dali porque tinha receio de ofender alguém, mas, ainda assim, a vontade de Collins fora socar Mark até não poder mais. No geral, era uma pessoa equilibrada. Nem irritado demais, nem apático. Tolerava algumas coisas, enfurecia-se com outras. Mas também era humano, afinal. Não tinha sangue de barata para agüentar tudo aquilo calado. Ainda conseguia se surpreender com a calma que Jensen manteve perante a situação. Ou ele realmente não se importava, ou aquilo era uma tremenda falta de amor-próprio.
Suspirando pela irritação de não conseguir dormir, o moreno se sentou na beirada da cama e se pôs a observar Ackles, fitando-o da mesma maneira que uma criança observaria uma vitrine de doces. Talvez surpresa não fosse exatamente aquela emoção que definia o que sentia quando olhava para o outro rapaz. Fascínio era uma palavra mais adequada. Era melhor. O louro havia sido fantástico durante todo aquele tempo. Qualquer pessoa teria desistido ou explodido, mas ele se manteve lá; firme.
– Você vai continuar me olhando com essa cara de quem não consegue enxergar um palmo à sua frente? – teve um sobressalto tão grande que quase caiu no chão, arrancando um riso fraco de Jensen, que esfregava os olhos com o nó dos dedos, encarando-o com uma expressão um tanto quanto cansada. – Está me assustando, Mish. Jared me disse que vocês não eram psicopatas, mas eu juro que estou começando a duvidar.
Se não houvesse um sorriso tímido no rosto do garoto, Collins diria que ele estava falando a verdade, apenas por encarar seus grandes olhos verdes, repletos de uma calma tão grande que chegava a ser assustador. O moreno realmente havia se encantado com o louro.
– Desculpe. – baixou os olhos para o chão, envergonhado. –... Pelas duas coisas.
Ackles o fitou por breves instantes, e então sacudiu os ombros e se sentou também, bocejando pela sonolência que ainda o abatia. Misha observou a cena com o rosto ligeiramente corado, sentindo-se estranho. Era a primeira vez em anos — desde Chad — que conseguia se aproximar de alguém sem sentir o habitual receio de acabar por perdê-la. Diferentemente do Murray, o louro à sua frente transmitia-lhe alguma sensação de segurança.
– Não tem problema. Eu... Não me importo tanto assim com minha popularidade entre desconhecidos irritadiços e insuportáveis. – declarou num tom brincalhão, arrancando um sorriso do moreno.
– É. Acho que não.
Collins continuou a observá-lo, vendo Jensen remexer num colar que aparentava ser de prata, a corrente reluzindo delicadamente em seu pescoço, próxima à pele alva. O pingente ali exibido era semelhante a um pentagrama wicca, mas de uma maneira cuja qual a aparência era diferente de todos os pentagramas que já havia visto.
– Wicca? – perguntou um pouco surpreso, sobressaltando o outro.
– O quê? – Ackles se assemelhava a uma criança tímida naquele momento, mas logo a compreensão tomou conta de seu rosto. – Ah, não. Não. É só... Um presente... De um... Uma pessoa que eu conheci.
Misha o encarou, e um sorriso débil se formou em seu rosto. Parecia-lhe uma tremenda brincadeira de mau gosto do destino, feita apenas para que ele acabasse se arrependendo no final.
– Ex-namorado? – a pergunta escapou antes que pudesse contê-la, mas, na verdade, não tinha certeza de querer ouvir a resposta.
Jensen arregalou os olhos e o encarou de maneira assustada, sem entender como chegara àquela conclusão tão rapidamente, mas, no momento em que entreabriu os lábios trêmulos para dizer alguma coisa — possivelmente perguntar o motivo da presença do "o" na palavra —, Collins o interrompeu delicadamente, tentando acabar com um pouco da tensão ali presente:
– Estamos no mesmo barco, parceiro...
Ackles desviou o olhar e remexeu as mãos de maneira nervosa, e era óbvio que se sentia desconfortável naquele momento. O moreno se lembrou da vez na qual Jared conseguira lhe arrancar as respostas para todas as perguntas que fizera, logo depois do desaparecimento de Chad. Lembrava-lhe o momento em que finalmente explodiu e gritou tudo o que há muito estava entalado em sua garganta. Conseguia formar a cena em sua mente, vendo a reação surpresa de Padalecki quando finalmente assumiu sua opção sexual. Diferentemente do que imaginara o maior não o havia deixado de lado depois daquilo. Na verdade, era como se a amizade apenas houvesse sido fortalecida. Agora, via em Jensen aquele mesmo sentimento de pesar, via em seu rosto aquela mesma expressão de alguém desesperado.
A grande diferença, é que ele não o havia visto jogar tudo aquilo fora.
– O que houve? – o moreno sabia das conseqüências de invadir um espaço pessoal daquela maneira, mas não conseguiu evitar a pergunta. – Eu... Desculpa.
– Tudo... Tudo bem. – Jensen sacudiu a cabeça após se encolher por um instante, como se aquelas poucas palavras o houvessem acertado com força semelhante à de um murro. – Eu só... É um pouco difícil falar sobre isso...
Misha continuou a fitá-lo, sentindo-se idiota por ter tocado no assunto, mas ouviu com atenção tudo o que lhe foi dito. Bem ou mal, aquilo os aproximaria, e ele queria mais do que tudo poder se tornar um amigo para o rapaz.
– Ele era... Perfeito, sabe? Incrível. Nós estávamos no segundo ano do colegial, e ele jogava no time de basquete. Éramos... Amigos.
– Ele era um popular. – Collins deduziu automaticamente, e recebeu um aceno em resposta.
Aquilo o deixou tenso, porque o moreno conhecia muito bem a hierarquia que existia nos colégios. Os populares no topo, geralmente ricos. O restante era apenas a base que os mantinha lá; eles eram os degraus. Ackles tinha cara de garoto rico, mas já o conhecia o suficiente para saber que era mais do que terrivelmente tímido, e muito inteligente. O tipo de garoto que poderia ser popular, mas permanecia com o restante dos "degraus". O tipo de garoto Nerd.
O tipo de pessoa inocente que sempre estava envolvida nas apostas que os populares faziam.
– Foi uma brincadeira. – o louro sacudiu a cabeça, e seus olhos estavam marejados. – Foi só uma brincadeira idiota, dentre as tantas outras que ele deve ter feito com quem acreditou... E, sabe... Eu sempre ouvia os boatos... Sempre ouvia as pessoas comentando... Mas eu nunca quis confiar naquelas palavras. Eu preferi ouvir o que ele tinha a dizer sobre aquilo. E, Deus, ele mentiu o tempo todo! E o babaca aqui acreditou!... Como eu pude acreditar nele?!
Misha sentiu o coração pesar ao ver grossas lágrimas rolando pelo rosto do rapaz, e não conseguiu conter o impulso de abraçá-lo com força. No primeiro instante, Jensen enrijeceu em seus braços, incapaz de aceitar uma reação tão espontânea e sincera, mas, aos poucos, acabou relaxando e retribuiu a ação, fechando os olhos com força. Naquele momento, não era mais do que uma criança assustada.
– Desculpa. – Collins repetiu baixinho enquanto encostava o queixo em sua cabeça. – Eu não... Não deveria ter me intrometido.
Ackles apenas assentiu, parecendo não confiar o suficiente em sua voz para dizer algo em alto e bom som. O moreno não se conformava com o fato de algumas pessoas conseguirem machucar as outras daquela maneira. Estavam sempre tão próximas, tão conectadas, fosse por celular, computador, cartas ou qualquer outro tipo de comunicação, mas elas estavam sempre tão indispostas a aceitar os outros, sempre tão incapazes de ajudar ao próximo, sempre tão arrogantes e prepotentes. Não era a primeira vez em que o rapaz pensava naquilo, não era a primeira vez em que se perguntava o motivo de tamanha falta de solidariedade, mas era a primeira vez na qual tentava ajudar alguém que passara por maus bocados em conseqüência dessa suposta "rejeição" imposta pela sociedade medíocre. O louro era incapaz de magoar alguém propositalmente, incapaz de se fazer "superior" apenas para manter uma imagem, incapaz de mandar indiretas maldosas, fosse qual fosse o propósito. Ele era simplesmente alguém amável e gentil, assim como Collins. Ambos eram pessoas que mereciam respeito.
– Tá tudo bem Jensen. Tá tudo bem. – ele enroscou os dedos nos fios louros, tentando acalmar Ackles. – Relaxa ok? Já passou. Você não precisa ficar pensando nisso outra vez. Desculpe por ter me intrometido desse jeito. De verdade. Esquece isso, tá? Esquece.
–... Misha, você não... – o rapaz balbuciou debilmente, mas seu corpo tremia. – Eu... Não precisa... Não precisa pedir desculpas... Não tem problema...
– Preciso sim. – Misha o abraçou com mais força, rindo fracamente. – Não seja tão autodestrutivo, cara. As pessoas também cometem erros. Ninguém é perfeito. Não aja como se fosse algum tipo de erro, ou como se tivesse desapontado alguém. Você é o que você é, e se não aceita isso, ninguém vai aceitar. Você precisa ter respeito consigo mesmo, porque as pessoas vão tentar se aproveitar dessa situação, se for o contrário. Então... Não me diga que tudo está bem, se não estiver, tá legal? Eu to aqui. Eu to aqui do seu lado, você não está sozinho...
– Obrigado. – Ackles soluçou. – Obrigado...
– Não precisa agradecer. – o moreno afagou suas costas delicadamente. – É pra isso que servem os amigos, esqueceu?
Mesmo daquela maneira desacertada e impulsiva, conseguiu arrancar um sorriso frágil de Jensen, que não se importou em permanecer o abraçando daquela maneira. Collins conseguia passar segurança quando queria, conseguia passar proteção e carinho. Era humilde, afinal de contas, e sabia valorizar uma amizade de verdade. Sabia o quanto uma mão amiga era capaz de mudar toda uma história. E saber que poderia ser aquela mão para Jensen acabou fazendo-o sorrir.
– Venha, deite. Precisamos dormir porque o Jay provavelmente vai nos acordar com aquela cantoria horrível que só ele faz. – Misha não conseguia resistir ao instinto de tentar deixar o clima mais leve.
E conseguiu, pois ambos deitaram, mesmo que calados, e Collins continuou a observar Ackles enquanto esse se escondia entre os lençóis, cobrindo o rosto pela pura vergonha. Sorriu incapaz de se irritar, e se aconchegou melhor no colchão macio, fechando os olhos rapidamente.
– E, Jensen... – Misha sussurrou carinhosamente em meio ao silêncio do quarto. – Não precisa ter medo. Eu nunca faria com você o que ele fez.
