Capítulo VI — Liber — Livre

Acordou com o corpo dolorido e a cabeça latejando, sentindo os olhos secos em conseqüência do choro da noite anterior. Jensen piscou durante alguns instantes, e logo em seguida suspirou de maneira tensa. Não sabia se realmente queria sair daqueles lençóis, principalmente se sentindo tão seguro, principalmente depois dos momentos que passara após a fogueira. Não sabia se conseguiria encarar Misha outra vez, ainda mais agora, depois de dizer tudo o que há muito estava entalado em sua garganta. Provavelmente, Collins ria de si naquele exato momento. Pensar nisso não animou muito ao louro, que acabou se encolhendo ainda mais na cama, apertando o travesseiro macio com força entre seus dedos, enquanto algumas lágrimas teimosas lhe turvavam a visão.

O que você estava querendo, afinal? Que ele estivesse aqui agora? Que o estivesse abraçando, que o estivesse consolando?... Como pôde ser tão idiota?!

Esfregou os olhos com o nó dos dedos e engoliu o choro, tentando se conformar com o fato de não haver um corpo quente ao seu lado para confortá-lo. Não poderia ficar a manhã inteira ali, no fim das contas. Não poderia ficar ali esperando, pois o mundo não iria parar para que pudesse pegar seus pedaços e recompô-los. O que antes era um trabalho árduo e lento, mas significativo, agora parecia não valer nada. Mexer em feridas antigas havia arrancado todos os pontos que cuidadosamente colocara. Havia feito com que as cicatrizes se abrissem e as bordas inflamassem. E doía. Deus, como aquilo doía! Era como levar um murro bem no meio do estômago e acabar perdendo todo o ar existente em seus pulmões. Jensen se sentia sufocar.

Acabou desistindo de levantar, uma vez que ninguém o estaria esperando, e permitiu que as lágrimas silenciosas escorressem livremente por seu rosto, enquanto o peito doía. De que adiantava ficar segurando aquilo — aquela dor — por tanto tempo? De que adiantava se esconder atrás de todas aquelas máscaras, quando nunca poderia fugir de si mesmo? De que adiantava segurar o choro, quando sabia que, cedo ou tarde, acabaria desabando? Era impossível. Simples assim. Estava cansado de lutar, cansado de fingir que tudo estava bem.

"Não me diga que tudo está bem, se não estiver, tá legal? Eu to aqui. Eu to aqui do seu lado, você não está sozinho..." lembrou-se das palavras de Misha, e um soluço baixo escapou por entre seus lábios enquanto fechava os olhos com força. "E, Jensen... Não precisa ter medo. Eu nunca faria com você o que ele fez."

Por que aquilo martelava tanto em sua cabeça? Por que queria chamar por Collins e lhe pedir para que o abraçasse novamente? Talvez porque se sentisse seguro com a presença do rapaz. Talvez porque ele fosse o primeiro que não o encarara de maneira como se sentisse nojo de si. Talvez porque ele aparentasse ser alguém gentil demais para se importar com sua opção sexual, mesmo que também houvesse confessado que era "do outro time". Não importava.

Porque, naquela manhã, Jensen se permitiu chorar, como há muito não o fazia. Pelo que perdeu e pelo que não queria perder. Pelo que o entristecia e pelo que o magoava. E até mesmo pelo que deveria fazê-lo sorrir. Era sua maneira de colocar para fora tudo o que há muito estava guardado em seu coração, de colocar para fora tudo o que pesava em seus ombros. Sua maneira de jogar fora tudo o que restava.

Era um desabafo.

X-x-x-x—x-x-x-X

Não pela primeira vez naquele dia, Misha se remexeu de maneira inquieta enquanto olhava ao redor, os dedos tamborilando de maneira irritante sobre a mesa na qual ele e o restante do grupo tomavam o café da manhã. Padalecki o observava de sobrancelhas arqueadas, os lábios franzidos em sinal de visível confusão. Jared não entendia o motivo de tanto nervosismo, e Collins não parecia nem um pouco disposto a explicar. Sentia o ar faltar a cada momento no qual olhava para a porta e não via Jensen saindo por ela.

Após a noite anterior, havia concluído por si mesmo que seria melhor deixar Ackles sozinho para pensar melhor sobre o que faria a partir daquele momento, mas agora já não tinha mais certeza sobre nada. Queria deixar o garoto hesitar antes de tomar alguma decisão, queria deixá-lo escolher o que fazer. Misha não queria forçá-lo a nada, muito menos fazê-lo conjecturar a hipótese de que poderia magoá-lo se não quisesse mais se aproximar tanto. Não era como se não fosse fazê-lo se aquela fosse seu julgamento final — e doeria muito —, mas era melhor do que não saber o que pensava.

– Mish, o que você...?

– Jay, me dá um tempo, tá legal? – Collins se levantou num rompante. – Eu tenho que fazer uma coisa.

Mas é claro! Foi idiota em acreditar que Jensen, automaticamente, não se culparia pelo fato de não estar lá ao seu lado. Foi bobo em confiar num julgamento incerto em relação a alguém tão emocionalmente desestabilizado e desequilibrado. Como pôde pensar que o louro ficaria bem caso simplesmente não estivesse lá quando acordasse? Aquilo foi realmente uma falha de sua parte. Talvez não houvesse se questionado o suficiente para tomar a decisão mais sensata, e houvesse acabado cometendo algum erro, no fim das contas. Ackles era autodestrutivo demais para pensar em outra coisa que não o fato de acreditar que havia sido abandonado novamente.

O que foi que eu fiz?

[...]

Depois de tomar um rápido banho e colocar roupas confortáveis, Jensen se sentou sobre a cama e esfregou um pouco os olhos com o nó dos dedos, ainda conseguindo senti-los arderem em conseqüência do choro excessivo, sem saber se conseguiria sair dali e encarar o restante do grupo, sem saber se conseguiria conter a dor. Suspirou longamente ao sentir o choro lhe subindo pela garganta, enquanto, outra vez, lágrimas irritantes anuviavam sua visão. Gemeu baixinho em protesto, e seus dedos foram de maneira automática para o pentagrama em seu colar, sentindo o objeto frio contra sua pele. Ele não conseguia se conformar com o fato de ter confiado em palavras tão doces, mesmo vindas de Misha. Era como se a história se repetisse de maneira incansável, como se a vida insistisse em brincar com suas emoções, como se ela fizesse com que seu coração se quebrasse em pedaços de novo e de novo, apenas por diversão. Apenas para vê-lo tentar se consertar pouco a pouco, para derrubá-lo novamente, como se ele fosse feito de vidro ou algo do tipo.

E talvez fosse mesmo.

– Jensen?

Sobressaltou-se ao ouvir a voz de Collins, e, de forma instintiva, virou-se para a porta já esperando por algum tipo de deboche ou repreensão. Mas o que recebeu em resposta, afinal, foi um sorriso hesitante de um garoto corado de vergonha. Sentiu o rosto esquentar, mas um sorriso tímido acabou se formando em seus lábios. Podia sentir a pulsação acelerando, e, talvez, aquilo poderia ser considerado algo tolo, mas, naquele momento, o rapaz não se importava nem um pouco.

– Eu... Hm... Você estava demorando... – Misha ficou ainda mais vermelho, remexendo na barra de sua blusa de maneira irrequieta enquanto lhe lançava um olhar apreensivo. – E eu... Bom... Eu queria saber se está tudo bem...

Ackles imediatamente soltou o colar, esquecendo-se completamente do embaraço enquanto se levantava e ia até o moreno, o abraçando sem o menor pudor. Uma lágrima caiu, mas por motivos completamente diferentes dos que a haviam formado. Quem sabe houvesse julgado tudo cedo demais. Quem sabe houvesse perdido a confiança nas outras pessoas, a confiança que costumava ter em palavras que acreditava serem gentis. É. Talvez o errado da história fosse ele.

– Está sim, Mish. – sorriu delicadamente quando se afastou, ignorando a surpresa do outro. – Está tudo muito bem.

Collins sorriu, sentindo o coração se acalmar aos poucos. Não parecia tão grave, no fim. Quem sabe houvesse exagerado um pouco em suas conclusões precipitadas, e aquela não seria a primeira vez que fazia isso. Talvez estivesse se tornando um pouco paranóico, principalmente depois de toda a tensão presente no acampamento naqueles últimos dias.

– Quer ir tomar café? – o moreno o puxou para fora do quarto com ternura. – Aposto que deve estar com muita fome.

– Mais ou menos. – Jensen respondeu um pouquinho desapontado. – Mas, na verdade, ia andar um pouco. Caminhar pela floresta, sabe?

Misha franziu o cenho por breves instantes, e, logo em seguida, deu de ombros e sorriu de maneira marota. Imediatamente, o louro soube que o garoto estava pensando em algo que provavelmente resultaria em provocações mais tarde. Não dos outros, mas de Jared.

– Legal. Posso ir com você?

Prendeu a respiração por dois segundos. De repente, o colar em seu pescoço parecia pesar bem mais do que deveria. Mordeu o lábio inferior, e a hesitação cruzou os olhos azuis do moreno, que se perguntou se, talvez, não estava indo rápido demais com as coisas.

– Claro. Por que não?

Não eram necessárias palavras naquele momento. Pelo menos, por algum tempo. Eles caminharam em silêncio, lado a lado, até saírem da casa, ignorando a mesa do café que os outros haviam colocado ao ar livre. Jensen se sentiu estranhamente livre sem a presença marcante de Mark para perturbá-lo — uma vez que ainda não o havia visto —, e isso acabou provocando um sorriso espontâneo em seu rosto.

– Qual é a graça? – Misha arqueou as sobrancelhas.

– Nada. – ele imediatamente respondeu de maneira sapeca, provocando um beicinho no outro. – Não faz essa cara de cão sem dono, Mish. Sabe que não vai funcionar.

Collins mostrou a língua.

– Não custa nada tentar.

Ackles sorriu, sentindo-se completo por ter conseguido levar as palavras numa boa, como uma brincadeira infantil. E não é que havia conseguido, de verdade, fazer amizade, tanto com o moreno, quanto com Padalecki? Céus, até mesmo algumas palhaçadas, ele agora conseguia compreender! Como naquele momento, no qual o outro rapaz imitara os famosos "Puppy eyes" de Jared. Nunca admitiria, mas chegara bem perto de ceder àquele olhar. É. Talvez fosse bem mais do que apenas uma amizade.

Sem que percebessem, os rapazes seguravam as mãos um do outro.

Desde o momento em que Jensen abraçara Misha.

Desde o momento em que o moreno retribuiu.

Quem sabe, nem tudo estivesse perdido.