Capítulo VII — Introrsus — No interior

Danneel já não sabia mais o que fazer. Havia chegado à Blue Earth há um dia, mas, ao descobrir que o grupo já partira há dois dias, toda a valentia pareceu se esvair com a mesma rapidez com a qual chegara. Estava disposta a ajudar Jensen? Sim. Ele era seu amigo, quase irmão. Ela o consolou em silêncio quando Ian o magoara. Ela havia permitido que ele chorasse em seu ombro, o havia abraçado e dissera que tudo ficaria bem. Mas entrar naquela floresta outra vez? Isso estava muito além de sua capacidade. Harris não conseguia cogitar a hipótese sem que o pânico se instalasse em seu coração e a obrigasse a recuar novamente.

Você não pode mais fazer nada para evitar, era o que pensava consigo mesma, e logo em seguida a dor lhe tomava o peito. Por que não se lembrou disso antes? Antes de desligar o celular, antes de deixar que seu melhor amigo entrar nessa por causa de um capricho idiota da família? Se ele se machucar, você não vai se perdoar. Se ele morrer, será sua a culpa.

Como poderia viver carregando aquele fardo? Precisava fazer alguma coisa. Mas como? Como poderia? Encarar a natureza estava muito além de seu desejo. Não podia fazer nada. Quer dizer... Até podia, mas sabia que não conseguiria. Além do mais, precisaria de uma boa desculpa para tirar o rapaz de lá, ainda mais se ele houvesse feito alguma amizade. Lembrava-se da época em que apresentara Ackles à Somerhalder. Quando eles começaram a sair juntos, se não lhe falhava a memória, foi a primeira a dizer ao louro que era melhor que ele e Ian permanecessem apenas na amizade, porque, apesar de ser um cara bacana, não era alguém fiel o suficiente para encarar um namoro. Jensen era um cabeça-dura. Quem disse que a escutou? E depois saiu magoado... Mas Danneel não o culpava. A princípio, até mesmo ela ficou surpresa com a atitude do moreno. Ele o havia pedido em namoro publicamente. Harris, confundindo malandragem com carinho, acabou ficando feliz por ambos os amigos. E depois, acabou se sentindo culpada por ter apresentado Ackles ao outro. Havia sido a primeira, a descobrir, sobre sua sexualidade, e confessava que havia sido um choque, mas aceitou até com naturalidade. Mas também foi a primeira, a saber, do carinho e respeito que Jensen sentia pelas pessoas, não importando quem fosse. E isso era o que o tornava um alvo fácil para quem queria se aproveitar da situação.

Como Ian fez...

– Desculpa Jen. – algumas lágrimas começaram a lhe rolar pelo rosto, e Danneel socou a mesa, logo em seguida afundando o rosto entre os braços, sentindo-se derrotada. – Mas eu sou covarde demais para enfrentar isso... Eu não consigo... Eu... Eu não quero enfrentar isso outra vez...

Eu estou com medo.

X-x-x-x—x-x-x-X

Misha soube que havia algo de errado quando, assim que ele e Jensen chegaram ao acampamento, havia um alvoroço próximo à porta. Ouvia a voz de Jared e Jeff se sobressaindo às outras, enquanto Lauren discutia fervorosamente com Chris e Sandra tentava dizer alguma coisa. Justin e Mark não pareciam estar em lugar nenhum, mas, ao se aproximar do grupo, não conseguiu descobrir o motivo da discussão. Jensen pareceu ficar perdido por alguns instantes, tentando entender o que se passava, mas logo pareceu desistir.

– Ei! – Collins gritou para se escutado, e o silêncio que se fez presente no momento seguinte permitiu que o rapaz prosseguisse num tom baixo, mas irritado: – Que Inferno está acontecendo aqui? O que houve agora?

– Mark desapareceu. – Jared respondeu prontamente, recebendo alguns olhares raivosos de Sandra. – O cara não está em lugar nenhum, e as roupas também sumiram. Nós achamos que ele foi embora.

– O quê?! – Misha arregalou os olhos, sentindo-se engasgar. – Jay... Diz que você tá brincando, cara...

– Ele parece estar brincando, Collins?! – McCoy exclamou com fúria, o interrompendo. – Alguém aqui parece estar fazendo algum joguinho idiota?!

– Foi uma pergunta totalmente inocente, Sandy. – Lauren lançou-lhe um olhar significativo. – Você não precisa soltar os cachorros pra cima do Misha só por causa dessa besteira toda, tá legal? Mark resolveu ir embora, só isso. Já pensou em perguntar ao Hartley se ele não o viu por aí? Você sabe que eles são melhores amigos...

– Claro. – a morena revirou os olhos e prosseguiu de maneira irônica: – Eu realmente preciso saber, não é? Eu realmente preciso confirmar o que todos nós já sabemos. Se Mark foi embora, não foi porque quis. Vocês praticamente o obrigaram a ir, e tudo por causa de um babaca que nada tinha a ver com o grupo, que nada tinha a ver com nossas vidas. Um cara que nem mesmo deveria estar aqui. Não me interessa se ele veio sem saber, não me interessa que não tenha tido essa intenção. Na boa... – ela voltou-se para Jensen, arqueando uma sobrancelha, e o louro se sentiu quase insignificante perante aquele olhar enfurecido. – Será que você não percebeu que não era bem-vindo? Não poderia ter ido embora de uma vez, e nos poupado de tudo isso? Mark foi embora por sua causa. Era só você ter ido embora, ao invés de nos fazer passar por isso. De verdade, qual é o seu problema?

Ackles não teve uma reação que não entreabrir a boca, para logo em seguida fechá-la novamente, enquanto a McCoy se afastava a passos largos. Lauren lhe lançou um olhar de desculpas e foi atrás da amiga, enquanto o restante do grupo ainda parecia em choque. O louro umedeceu os lábios com a ponta da língua, e um sussurro fraco acabou escapando.

– Desculpe.

Logo em seguida, fugiu. Dos outros campistas, das perguntas, de Misha ou qualquer outro que tentasse se aproximar. Estava desesperado. Realmente não havia sido sua intenção fazer com que alguém fosse embora. Não havia sido sua intenção "dividir" o grupo, fazer com que tivessem de escolher entre ele e o outro rapaz. Ele não queria ter feito nada de mal há ninguém, mesmo que indiretamente. Por Deus, e pensar que aquilo havia começado com seus pais lhe importunando para ser mais sociável com as pessoas! Justamente com aquelas que o ignoravam, justamente com aquelas que o humilhavam e o importunavam, mesmo quando não fazia nada!

Você não deveria ter vindo até aqui, pensou consigo mesmo ao entrar no banheiro e trancar a porta, permitindo-se escorregar até o chão e abraçar os joelhos com força enquanto algumas poucas lágrimas lhe surgiam nos olhos. Kenzie disse que, se quisesse, era só ligar pra ela e pedir que viesse te buscar. Por que não foi embora quando percebeu que ninguém o queria por perto? Por quê? Já não basta ser excluído na faculdade, agora quer ser excluído nos outros lugares também?

Não era de todo verdade. Ele tinha Collins, tinha Padalecki. Isso não era o suficiente para suportar o que quer que fosse? Claro que sim, mas nunca quis afastar ninguém de Mark, por mais que o rapaz fosse um valentão de primeira. Ele não queria ser alguém que provocava algo que não asco nos outros. Por que não poderia ser normal, ao menos uma vez na vida? Por que não poderia parar de irritar as pessoas, onde quer que fosse?

Seria tudo tão mais simples se eu não existisse...

[...]

– Jensen? – não era a primeira vez que Misha chamava, mas tinha a certeza de que era a primeira vez que o louro ouvia. – Você pode abrir a porta, por favor?

Collins esperou por segundos intermináveis — ou, pelo menos, foi o que lhe pareceu —, mas a porta foi aberta e Ackles apareceu. Delicadamente, segurou sua mão e o puxou para o quarto, sabendo que era melhor permanecer em silêncio, porque, se resolvesse falar alguma coisa, provavelmente daria ao outro rapaz a sensação de que estava apenas tentando arranjar uma desculpa para que se sentisse melhor. E isso provavelmente faria com que Jensen se sentisse de alguma maneira, propenso a ir embora. Não era como se conhecesse o outro completamente, mas já sabia o suficiente para ter essa certeza.

– Desculpe. – o louro repetiu num tom baixo ao se sentar sobre a cama. – Eu não queria ter... Feito isso. Não queria ter feito Mark ir embora.

Misha não respondeu, apenas circulou os dedos na palma de sua mão, fazendo com que Ackles se voltasse para encará-lo, um pouco curioso com a falta de uma reação. Não era como se esperasse uma resposta que o fizesse se sentir melhor — claro que não —, mas era a primeira vez, desde que conhecia o moreno, que ele via o rapaz permanecer em silêncio durante tanto tempo.

Será que eu fiz alguma coisa errada?

– Desculpe.

– Pára com isso, Jensen! – Collins se revoltou, assustando ao rapaz. – Pára! Eu não... Não quero que você me peça desculpas... Você não precisa pedir desculpas... Nem pra mim, nem pra ninguém. Você não fez nada de errado, mas que droga!

–... Eu... Sinto muito. – Ackles o encarou com a expressão angustiada.

O moreno levou as mãos à cabeça e fechou os olhos com força, parecendo estranhamente perturbado. O louro não deveria estar fazendo aquilo, não deveria estar pedindo perdão daquela forma. Cada vez que o ouvia dizer aquelas poucas palavras, era como levar uma bofetada. Não queria se sentir daquela maneira, mas era algo que simplesmente não conseguia evitar. Chad costumava pedir perdão daquela mesma forma, com aquelas mesmas palavras. Sempre que acreditava ter feito algo errado, sempre que acreditava que o havia magoado. E Misha odiava isso. Odiava sentir que aqueles pedidos eram pelo simples medo de perdê-lo, pelo simples medo de feri-lo de alguma forma.

– Não sinta.

Jensen franziu o cenho, sem entender, mas, delicadamente, passou os braços ao redor do outro rapaz, puxando-o de encontro ao seu peito enquanto enroscava os dedos em seu cabelo. Não sabia o que estava acontecendo, mas sabia que deveria fazê-lo. Era como se Collins estivesse quebrando, de alguma maneira. Afagou os ombros do moreno com carinho, fazendo uma trilha por suas costas, braços, subindo para seu rosto...

– O que há? – perguntou num sussurro, e tomou a liberdade para prosseguir ternamente: –... Mish?

–... Ele dizia a mesma coisa... – Misha o abraçou com força.

Ackles prendeu a respiração por um instante, sem saber como reagir, mas acabou relaxando no momento seguinte, prosseguindo com as carícias.

– Ele quem?

–... Chad. – a voz do moreno saiu estrangulada. – Chad Murray... Meu namorado.

O louro se calou imediatamente, paralisado. Ok. Admitiu a si mesmo que não esperava uma resposta tão sincera. Mas também não esperou que a notícia doesse tanto. Claro. Não era como se ele fosse o único que já havia namorado por ali. Também não era o único ainda afetado por algo que não deu certo. Mas sua primeira impressão sobre Collins era aquela sensação de que ele seria alguém inabalável, de alguém que nunca se permitiria mostrar fraqueza. Teve a impressão de que ele era alguém gentil e simpático demais para não conquistar qualquer pessoa onde quer que fosse, alguém alegre demais para ser afetado por o que quer que fosse aquilo. Vê-lo assim tão afetado por algum outro rapaz — seu namorado — era completamente assustador.

– E o que aconteceu?

Geralmente, não prosseguiria com o assunto, não com qualquer pessoa. Mas, quando ele precisou de alguém para desabafar, Misha estava lá. Misha o abraçou e disse que deveria ser sincero, que estaria ao seu lado. Agora, com Collins naquele estado tão fragilizado, sabia que era sua vez de ser um ombro amigo. Era sua vez de acariciar seu rosto e dizer que tudo ficaria bem.

– Ele sumiu. – o moreno fungou baixinho. – Veio acampar e nunca mais voltou. Eles disseram... Disseram que era provável que estivesse perdido, mas, depois de algum tempo, as buscas pararam, e deram o caso como encerrado...

Jensen sabia que o outro estava chorando — afinal, podia sentir as lágrimas molhando sua blusa —, mas também sabia que ele precisava dizer o que quer que esteja entalado em sua garganta. Poderia já ter dito aquilo à outra pessoa, mas não completamente. Ele mesmo não havia dito tudo, na noite anterior.

–... Quando aconteceu?

– Eu... De que importa agora? – Misha tentou afastá-lo, mas Ackles o segurou. – Por favor, eu não quero mais falar sobre isso... Por favor...

– Então não fale. – o louro riu baixinho e fracamente enquanto secava as poucas lágrimas ainda presentes no rosto de Collins, que o encarava sem entender, parecendo surpreso. – Não vou te forçar a nada, Mish... Principalmente dizer algo sobre esse assunto, porque eu sei como é a sensação de tocar tão abertamente numa ferida.

O moreno arregalou um pouco os olhos, mas, no momento seguinte, jogou toda a cautela para o alto e se permitiu esconder a vergonha apoiando a testa no queixo do outro, sentindo a respiração acelerada bater em sua pele, como numa carícia suave. Sentia-se confortável naquele abraço, como há muito não lhe era permitido. Não era como se pensar em Chad não doesse — assim como sabia que, para o outro, pensar no "ex" também machucava —, mas a dor tornava-se menor ali. Sentia-se melhor. Sentia-se protegido. Seguro.

Apesar disso, Ackles estremeceu.

– Rápido demais? – sua voz saiu num sussurro delicado.

–... Não. – Jensen enroscou os dedos em seu cabelo outra vez. –... Isso... É bom...

Isso arrancou um sorriso de Misha, que roçou as pontas dos dedos nas maçãs da face do outro, apreciando a textura da pele. Lentamente, puxou o rosto de traços singelos em sua direção, buscando os lábios do rapaz que há muito o encantava.

O beijo foi hesitante, inseguro, enquanto um buscava no outro o carinho necessário para que aquelas feridas que há muito foram criadas, cicatrizassem. Era delicado e terno, sem a necessidade do desejo, apenas a emoção que aquilo lhes passava. Foi um toque apaixonado, mesmo que trêmulo, e Collins sentiu um sorriso se formar em seu rosto quando — ao fim do beijo — puxou o outro para mais perto, fazendo com que o contato fosse mais intenso, surpreendendo-o.

– Sabia que eu estava louco para fazer isso? – perguntou num tom baixo, sem conseguir se controlar.

–... Acho que sim. – Ackles admitiu um pouco vacilante, mas logo se deixou sorrir. – Então... Por que não o faz outra vez?

Collins sorriu.

– É. Acredito que seja uma boa idéia.

E foi mais ou menos aí que seus lábios se encontraram novamente, e a conversa deixou de existir.

X-x-x-x—x-x-x-X

Justin esfregou os olhos com o nó dos dedos, sentindo como se algo comprimisse seu peito com força. O rosto estava extremamente pálido quando fitou seu reflexo no espelho, e o corpo tremia sem que pudesse se controlar. Quando o telefone tocou, sentiu o coração falhar uma batida antes de acelerar consideravelmente, e cerrou os punhos com força antes de atender. No geral, seria suposto que ali, no meio da mata, o sinal não seria pego, mas há muito parara de se importar com aquilo.

– Alô?

Fez o que eu pedi?

Engoliu em seco, pensando seriamente em mentir, mas não conseguiu.

– Sim... E onde... Onde está o Mark?

Ótimo. – foi completamente ignorado, mas, do outro lado da linha, o homem sorriu. – Agora, escute com atenção...

Hartley teve a visão embaçada por lágrimas, porque, mesmo não tendo uma resposta, sabia. Se tivesse a chance de voltar atrás, o teria feito antes que pudesse formular uma frase concreta. Se conseguisse arranjar uma maneira de sair daquele pesadelo... Nunca teria aceitado o convite do melhor amigo para ir àquele maldito acampamento, e também não o teria permitido ir. Teria alertado a todos, sem exceção.

Mas, agora, já não havia mais uma maneira de voltar atrás.

Estava de mãos atadas.