Capítulo VIII — Spelunca — Gruta
Jared se sentia apreensivo ao se aproximar do quarto do melhor amigo. Quando Collins o chamara conversar naquela manhã, o maior já tinha uma leve noção do que deveria estar acontecendo. Sentia o coração se comprimir no peito, mas não de tristeza. Estava feliz por Misha, de verdade, mas também estava preocupado. Não só pelo amigo, como por Jensen. Não queria ver o moreno magoado, assim como não queria ver Ackles infeliz. Mas sabia que — caso precisasse escolher — ficaria ao lado de Collins, independentemente da situação. Apesar de o louro também ser seu amigo, não se manteria próximo ao rapaz, porque conhecia Misha há muito mais tempo. Ele o conhecia há anos.
Não é preciso todo esse alvoroço, repreendeu a si mesmo mentalmente. Você não sabe o que aconteceu Jay. Não tire conclusões precipitadas. E outra que ainda nem tem certeza de nada, foram apenas suposições. É cedo demais para decidir que vai ficar ao lado de alguém, porque nem houve uma discussão; não de verdade. Relaxa... E tenta não surtar.
Mas a tensão apenas aumentou, principalmente quando chegou à porta do aposento e ela estava aberta enquanto ouvia risadas altas vindas do lugar. Ao espiar para dentro do quarto, viu uma cena que de imediato o fez corar, mesmo que não fosse nada íntimo em demasia. Jensen ria feito uma criança enquanto se debatia, e Misha lhe fazia cócegas. Sentiu-se um intruso naquela "típica cena de filme americano". Pigarreou, tentando chamar a atenção dos amigos, mesmo que — internamente — aquela atitude carinhosa entre os dois rapazes não lhe incomodasse de maneira alguma. Era mais pelo fato de estar um tanto quanto ansioso com aquilo tudo.
Mais pelo fato de não saber como deveria agir com relação àquela novidade.
– Jared? – Ackles paralisou de imediato, a boca se entreabrindo num cômico "o". Logo em seguida, ficou vermelho feito um pimentão maduro; inquieto e surpreso. – O que você... O quê...
– Tá tudo bem, Jens. – Collins sorriu delicadamente, puxando o rapaz de maneira com que ele terminasse sentado ao seu lado. – Eu chamei o Jay para que nós pudéssemos conversar.
O louro o encarou com aparente confusão, e, novamente, Padalecki se sentiu como um invasor. Não era como se estivesse irritado de alguma maneira com os amigos, mas aquilo decididamente o deixava inquieto; sem saber o que fazer. Inquietação essa que só pareceu aumentar quando os olhos azuis do outro moreno se voltaram para ele.
– Oi Mish... – sorriu fracamente, arrancando uma gargalhada baixa do outro.
– Com tanta coisa pra me dizer agora Jay, você me vem com "Oi Mish"? – Collins segurou a mão de Jensen. – Vamos lá, cara, entra aí. Eu sei que você tem perguntas, porque posso ver as engrenagens da sua cabeça trabalhando enquanto você tenta calcular o tempo necessário para sair por essa porta sem que eu veja sua fuga.
Jared sorriu timidamente, aproximando-se do casal e sentando na borda da cama, perto de Ackles, mas não o suficiente para esticar a mão e tocá-lo. Achava melhor assim, ou, provavelmente, surtaria. Não no bom sentido, mas no que dizia respeito a começar a dizer coisas incoerentes e acabar assustando o louro, que já parecia intimidado o suficiente com sua presença. Talvez não fosse o único envergonhado com a novidade, no fim das contas.
– Então... Quando vocês... – as palavras custaram a sair, e o maior pigarreou, tentando não soar muito nervoso com a situação. – Hm... Quando...
– Ficamos juntos? – Misha tornou sua pergunta mais fácil e menos complicada, logo em seguida dando de ombros. – Há algumas horas, se quiser a resposta com exatidão.
Não. Definitivamente, Jared preferia permanecer na ignorância com relação aos fatos explícitos.
–... Legal. – o moreno tentou não parecer demasiadamente apreensivo. – E...? Quero dizer... Por que você me chamou aqui? Eu... O que eu tenho a ver com o assunto?
Não era como se quisesse ser rude. Apenas não queria ter de passar por todo aquele constrangimento, como se, de alguma maneira, estivesse influenciando o relacionamento do melhor amigo. Não era como se esperasse que o outro "pedisse sua permissão" ou algo do tipo, mas também precisava de um tempo para processar aquelas informações e analisar a situação por outros ângulos. Precisava ver se aquilo seria "saudável", tanto para Collins, quanto para Ackles. E — droga! — ele definitivamente não estava pronto para encarar tudo aquilo de frente.
– Só achei que precisava saber. – o outro moreno sacudiu um pouco os ombros, e Padalecki viu que apertava carinhosamente a mão do louro ainda pálido; como se tentasse confortá-lo e dizer que tudo estava bem, que tudo ficaria bem. – Você é meu melhor amigo, Jay. Não quero esconder algo assim, porque eu não quero que você tenha que descobrir da pior maneira.
Jared concordou com um aceno, mas conseguiu manter a expressão neutra, prosseguindo num tom um tanto quanto sério:
– Não sou seu pai, Mish. Não precisa agir como se eu fosse tentar te proibir de fazer alguma coisa... Até porque, mesmo que eu tentasse, e eu não estou dizendo que o faria, eu sei que não adiantaria nada. – Padalecki sorriu de maneira irônica, provocando: – Se isso te serve de consolo, você é mais teimoso do que um burro quando empaca.
Collins revirou os olhos.
– Ora, cale a boca, Padalecki.
Dessa vez, quando eles sorriram, Jensen os acompanhou, mesmo que ainda um pouco nervoso com a presença do maior. Não era como se estivesse apreensivo quanto aos pensamentos que o rapaz teria sobre si, mas sabia que sua amizade era muito importante para Misha. Se Jared não aprovasse o namoro — por mais que Collins dissesse o contrário —, o moreno de olhos azuis definitivamente se sentiria culpado caso prosseguissem com a relação. De fato, era como se os dois fossem irmãos. Realmente queriam a aceitação um do outro para o que quer que fosse.
– Então... Quer dizer que você é meu mais novo cunhado, não é? – Padalecki sorriu de forma marota, fazendo com que Ackles corasse furiosamente. – Não precisa ficar me olhando desse jeito, cara, porque eu não mordo não.
E, como que para provar o que dizia — mesmo que aquilo não fizesse o menor sentido —, o moreno ergueu as mãos. Nisso, Misha abraçou Jensen pela cintura, o que não ajudou em muito para que a timidez do rapaz passasse.
– Eu realmente espero que não, Jay. – lançou um olhar significativo para o maior, e ambos começaram a rir da situação.
– Ei! – o louro ainda estava vermelho de vergonha, mas inconformado com o fado de estarem brincando com aquilo.
– Não tenha medo Jen. – Collins depositou um selinho em seus lábios, ignorando Padalecki por breves instantes enquanto sussurrava num tom carinhoso: – Eu te protejo.
Definitivamente, aquilo ainda causaria boas risadas depois, mas não naquele momento. Jared sorria enquanto observava a cena; Misha murmurando palavras doces ao outro, que acabava por se sentir mais confortável com a situação. Costumava não querer ser "vela" quando estava perto de um casal, mas estava abrindo uma exceção.
Porém, ao mesmo tempo em que estava internamente satisfeito com a felicidade dos amigos, estava igualmente preocupado com o rumo que aquela relação tomaria. No passado, lembrava-se perfeitamente de precisar consolar Collins quando Murray desapareceu. Lembrava-se perfeitamente de precisar abraçar o rapaz e praticamente obrigá-lo a chorar, ou acabaria que ambos enlouqueceriam com a situação; Jared por ver o sofrimento do amigo e por não conseguir fazer nada para ajudar, e Misha por rejeitar toda e qualquer tentativa de aproximação, guardando o sentimento dentro de si, como uma bomba-relógio prestes a explodir. Sentia-se apreensivo, porque, na verdade, não queria ter de escolher entre os dois. Não sabia se Ackles já sofrera com relacionamentos no passado, mas, a julgar pela maneira como se portara desde que chegara ali — indeciso; hesitante e extremamente tímido —, Padalecki julgaria que sim. E agora não sabia o que pensar a respeito.
Estava com medo. Medo de que Collins estivesse confundindo as coisas; vendo em Jensen, Chad. Não era apenas a aparência — cabelo louro e olhos claros — que tornava o menor um garoto parecido com Murray. A personalidade também, no fim das contas. No pouco tempo em que convivera com Ackles, pôde ver o quão sincero ele era, o quão sorridente e amigável poderia ser, quando se sentia à vontade. Pôde ver o quão simpático o rapaz se tornava perto daqueles que julgava serem seus amigos. Chad era praticamente igual, com a diferença de que não era tão ingênuo quanto o louro. E, agora, Jared tinha medo de Misha estar ao lado do rapaz imaginando Murray em seu lugar.
Mas não era apenas por Jensen que se sentia apreensivo. Também tinha medo de que o melhor amigo saísse magoado no fim de tudo. Tinha medo de precisar consolá-lo novamente, de precisar pegar seus pedaços e colar outra vez. Já fora ruim o suficiente quando Chad desapareceu; já fora ruim demais. Se Collins desabasse, ele o levaria consigo. Padalecki não suportaria o fato de ver o moreno — tão verdadeiro e tão justo — triste novamente. Não agüentaria vê-lo destroçado, não agüentaria vê-lo chorar por outra pessoa. Acabaria quebrando também. Acabaria se tornando um grande nada, sem saber o que fazer para amenizar a dor que o outro sentiria.
E por que estava tão preocupado? Era algo que tentava entender. Ao ver Misha e Jensen rindo feito duas crianças — ambos esquecendo-se momentaneamente de sua presença —, ele não compreendia como ainda conseguia se sentir tão inquieto com o relacionamento que tinha tudo para dar certo. Talvez estivesse se tornando paranóico, no fim das contas.
Talvez, foi o que pensou antes de forçar um sorriso.
– E então... Eu realmente não quero virar uma vela, Mish. Posso sair antes de ver alguma coisa explícita que definitivamente vai me traumatizar?
Foi mais ou menos essa a frase que conseguiu formular antes de Collins lhe atirar uma almofada no rosto enquanto Jensen ria, envergonhado. No fim das contas, eles formavam um bom trio.
– Cale a boca, Jay!
Eu definitivamente não vou estar pronto se as coisas não derem certo.
X-x-x-x—x-x-x-X
Danneel franziu o cenho, suspirando quando o celular em sua mão começou a tocar, indicando uma nova chamada. Atendeu a contragosto, sem precisar olhar o visor para saber quem era. Desde que lhe ligara pedindo a informação de quanto tempo duraria uma viagem até Blue Earth, Welling não parara de atormentá-la; como que tentando entender o motivo daquilo.
– O que foi Thomas? – já estava se irritando com aquela situação, então nem mesmo se importou em dizer "Alô".
– Dan... – do outro lado da linha, houve um momento de hesitação. – Tem uma coisa que você precisa saber. É sobre... Sobre seu último acampamento, há quatro anos...
Aquilo imediatamente estimulou a curiosidade da garota, que se sentou sobre a cama, completamente inquieta com o assunto. O moreno já não lhe havia dito tudo o que sabia sobre o que acontecera? Já não lhe informara o essencial; aquilo que ela podia saber?
– Tom... – os olhos escuros faiscaram. – Comece a falar. Agora.
No geral, seria mais educada. Mas, se tratando de um assunto tão delicado para seu emocional, aquilo já a estava afetando. Tentava não pensar no acampamento, tentava não pensar na pior semana de toda a sua vida. Tentava simplesmente esquecer o que acontecera, e seguir em frente. Por que agora, depois de tanto tempo, aquilo precisava voltar para perturbá-la? Por que Welling estava se importando o suficiente para lhe contar aquilo, depois de tanto tempo?
– Você não vai gostar nada disso...
[...]
As lágrimas lhe rolavam sem controle pelo rosto, e os soluços altos pareciam ecoar pelo pequeno quarto do apartamento que alugara. Não fazia diferença, de qualquer forma. Harris chorava pela dor que há muito parara de afetá-la, mas que agora se fazia presente novamente. Sentia-se sufocar com a quantia de informações que recebera, e isso a havia abalado demais para que conseguisse manter-se firme. Pouco a pouco, experimentava a sensação de ter todas as barreiras e armaduras quebradas, enquanto praticamente vivenciava novamente a situação que a deixara — e ainda deixava — tão assustada.
"Eu não queria que vocês soubessem", ouviu a voz de Adrianne sussurrar de maneira chorosa. "Eu não... Você se lembra Dan? Quando nós... Quando pensávamos no futuro? Quando dizíamos que queríamos seguir a carreira de modelos?... Você se lembra, não é?"
Outro soluço, e seu coração pareceu se comprimir no peito, enquanto fechava os olhos com força. Definitivamente, ela não queria se lembrar. Não queria reviver tudo aquilo. Não queria ter que pensar no passado, porque aquilo só lhe trazia memórias dolorosas. Aquilo só a fazia se sentir mal com relação a tudo e a todos. Por que foi tão idiota? Por que não percebeu a maneira como Palicki se portara? Por que não percebeu como a garota parecia frágil; como parecia abalada? Claro, os legistas e os policiais disseram que o celular havia sido perdido na floresta, mas como pôde acreditar naqueles idiotas?! Danneel estava perto da loura e a vira guardar o telefone no bolso da calça. Por que nunca se perguntou o motivo de não terem dito nada sobre os dados no celular?
Porque, o tempo todo, a resposta estava bem ali. Porque eles não conseguiam entender a ligação que havia entre uma coisa e outra. A morte, o ataque do lobo. Porque elessimplesmente não conseguiram ver o que aconteceu.
Agora não era mais uma escolha. Ela definitivamente precisava entrar na floresta. Não importava o quanto aquilo lhe doesse. Ainda havia como salvar Jensen. Ainda havia como salvar muitas vidas. Ainda havia como poupar pessoas inocentes; mesmo que algumas nem tanto. Ela devia aquilo à Ackles. Mesmo que indiretamente — por inúmeras ligações —, foi ele quem a impediu de enlouquecer no período em que ficou no hospital, logo após os ataques. Ele a salvara; era sua vez de retribuir.
– Eu vou tentar Jen... Eu juro, por você, que eu vou tentar.
X-x-x-x—x-x-x-X
Justin mordeu o lábio inferior com força enquanto se aproximava da McCoy, que se encontrava escorada numa árvore enquanto olhava para o céu e resmungava consigo mesma. Sabia o que tinha de fazer, mas isso, com toda a certeza, não parecia tornar as coisas mais fáceis. Em sua consciência, algo lhe gritava que deveria sair dali o mais rápido que pudesse, mas sabia das conseqüências. E não estava nem um pouco pronto para aceitá-las.
– Sandra... – engoliu em seco ao se aproximar.
– O que é? – a morena se virou para encará-lo de maneira fulminante.
Hartley sentiu as gotas de suor brotando em sua testa, e tentou soar o mais convincente possível. Sempre foi um bom mentiroso, e estava na hora de colocar suas habilidades em prática. Estava na hora de usar aquilo a seu favor.
– Já que o Mark... Já que o Mark foi embora... – o nome arranhava sua garganta, e não se sentiu nem um pouco melhor ao ver o olhar da garota amenizar. – Por que não fazemos o mesmo?
–... O que quer dizer com isso? – McCoy franziu o cenho, sem entender.
E ele viu ali a chance que precisava.
– Olha... Eu não gosto do Ackles, você também não, e Mark foi embora por causa dele. – Isso é mentira, mas você não precisa saber. – Por que não esperamos o próximo acampamento, quando ele provavelmente não vem, para curtirmos apenas com a nossa galera? Podemos voltar pra casa agora, e esquecer esse tormento todo.
– Você está louco. – Sandra sacudiu a cabeça, mas não era como se negasse. – Jeffrey nos mata se nós formos embora agora.
– Ele não precisa saber. – Hartley se sentiu sufocar com aquelas palavras, pois sabia que as estava tornando definitivas. – Podemos sair à noite.
– É perigoso. – a morena argumentou.
Justin definitivamente não estava pronto para ter cada palavra contra-argumentada, e precisou pensar o mais rápido que conseguiu, ou acabaria atraindo a curiosidade da moça.
– Qual é Sandy. – revirou os olhos de maneira teatral. – Falando desse jeito, até parece que você quer ficar aqui. Acabou se apaixonando pelo garoto Ackles, é?
– Não seja idiota! – ela o empurrou, irritada. – Eu o odeio!
– Pois não parece. – Hartley a encarou. – Olha, se você quiser ir embora, eu vou essa noite, primeiro porque sei o caminho, e depois porque não é uma floresta de nada que vai me fazer perder a coragem. Se não quiser, ótimo; fique aí e aprecie a ignorância dos insuportáveis.
Ao virar as costas, já esperava sentir a mão da garota o segurando pelo ombro.
– Ei, Justin, espera. – McCoy suspirou, mas o encarou quando ele se voltou para observá-la, arqueando as sobrancelhas de maneira irônica. – Eu vou com você, tá legal? Mas eu juro que, se o Jeff nos pegar, eu te mato, ok? Literalmente.
Hartley relaxou, sentindo-se mais confortável naquela situação. Dessa vez, seu sorriso foi mais sincero do que nas anteriores.
– Não precisa ter medo, Sandy. O que de pior pode acontecer?
X-x-x-x—x-x-x-X
As coisas estavam correndo como esperava. Assim como sempre ocorriam. Era só pegar um segredo, jogá-lo contra uma pessoa, e pronto. O desespero a fazia agir sem pensar, e isso era um ponto positivo. Não apenas porque acabavam ganhando tempo para esconder as provas, mas também porque o ato impulsivo dos egoístas acabava fazendo com que, no final, só sobrassem os principais. Os dois rapazes, e talvez a garota. Talvez. Nada garantia que não pudessem mudar de idéia, no fim das contas. Eles tinham tempo. Eles podiam fazer o que bem entendessem, quando quisessem.
Exceto quando se tratava do alvo principal. Com toda a certeza, não valia a pena arranjar briga apenas pelo fato de existir algum boboca que tentava infringir as regras.
No fim das contas, havia mais de uma exceção.
Quem sabe os dois rapazes não se tornassem três.
X-x-x-x—x-x-x-X
A noite veio mais rápido do que poderiam acreditar, mas, dessa vez, não houve fogueira. Sete horas e já estavam todos em seus respectivos quartos, em silêncio. Por pior que aquilo soasse, Mark até fazia falta. Não por suas provocações — claro —, mas por sua capacidade de criar infinitas situações que pudessem utilizar para se divertirem no acampamento. Há dois anos, por exemplo, fora Sheppard que inventou a "Tradição da Pira" — como carinhosamente a chamara —, e até os dias atuais eles costumavam se juntar, com Chris no violão enquanto todos cantavam alegremente. Parecia estranho, agora, ficar sem ter o que fazer porque o rapaz fora embora. Então, naquela noite, Misha tomou a liberdade para ocupar o espaço vazio ao lado de Jensen, surpreendendo ao rapaz, que se virou para encará-lo com os olhos arregalados. Abriu e fechou a boca diversas vezes, antes de — finalmente — conseguir sussurrar com a voz falha:
–... O que você... Mish... O que você está... Fazendo?
– Ei, sem pânico, está bem? – Collins sorriu docemente e acariciou o cabelo curto do outro. – Eu gosto de te ver dormir, Jen. Tem problema se eu ficar aqui com você, só essa noite?
Ackles ainda o encarou por diversos segundos, antes de engolir em seco, e o moreno não gostou de vê-lo desconfortável daquela forma. Quando o menor desviou o olhar, o rapaz segurou seu queixo e o fez fitá-lo diretamente. Assim: olhos nos olhos.
– Se não quiser, é só dizer, Jensen. – como que para reforçar o que disse, completou: – Eu já disse e repito: não me diga que está tudo bem, se não estiver. Eu não vou te forçar a nada. Juro.
Misha já estava prestes a sair e voltar para sua cama, quando o louro segurou seu pulso e o puxou de volta. Collins não disse nada quando Ackles o abraçou com força e escondeu o rosto em seu peito. Não era como se o garoto estivesse se sentindo obrigado a fazer alguma coisa, mas parecia um tanto quanto incomodado com a proximidade.
– Está tudo bem, Mish, de verdade. – Jensen ergueu os olhos para encará-lo, mas o gesto não durou mais do que alguns segundos. – É só que... Promete que vai me abraçar?
O moreno não entendeu aquele pedido, mas, ainda assim, envolveu Ackles em seus braços e sorriu carinhosamente, sem saber como — exatamente — deveria estar se sentindo. Não era como se não estivesse bem ao lado do rapaz, mas, assim como não queria agir de alguma forma que acabasse o magoando, também não queria que o outro se sentisse forçado a fazer algo apenas por não querer que se afastasse. Afinal, por que ele era tão inseguro?
Ele não via que, na verdade, era sua presença, a força e segurança que ele passava sem perceber, que faziam com que Jensen se sentisse bem. Que, na verdade, fora isso que fez o garoto jogar fora o pentagrama que recebera como presente de Ian; porque não precisava mais de um alerta para saber o quanto doeria. Misha o concertaria. Misha o faria completo outra vez. Misha o amaria. E Jensen não precisava pedir mais nada, porque, para ele, isso era o bastante.
Até porque sentia o mesmo pelo rapaz.
– Isso é algo fácil de realizar. – o moreno observou enquanto acariciava as costas do rapaz, que, pouco a pouco, relaxou. – Se quiser que eu saia, é só falar, ok? Pode até me chutar pra fora da cama, se quiser.
– Não seja bobo. – o louro riu fracamente, puxando-o para mais perto. – Eu nunca faria isso, e você sabe, não é?
Collins sorriu e tentou fazer com que o outro se sentisse mais à vontade, mas, ao mesmo tempo, mantendo-o próximo. Era bom tê-lo daquela maneira; aconchegado contra si como se estivesse se sentindo seguro, como se, ali, nada pudesse afetá-lo. Era bom ver que, em seus braços, Jensen se sentia inteiramente protegido. Misha não saberia descrever com exatidão que emoção o tomava ao compreender aquilo.
– Boa noite, Mish. – Ackles bocejou antes de depositar a cabeça em seu peito.
– Boa noite, Jens. – o moreno depositou um beijo em sua testa.
Definitivamente, sentia-se bem, sentia-se completo com o louro ali. Como há muito não lhe era permitido. O rapaz parecia trazer paz para seu corpo, como uma peça que faltava. O calor que emanava do rapaz, sua respiração pesada soprando em sua pele... Não havia maneira de descrever a forma como Collins se emocionava. Com toda a certeza.
– Durma com Deus, meu anjo.
Então, por que não começar com um "Eu te amo"?
