Capítulo IX — Vulgare — Revelar um segredo
Jensen acordou se sentindo confortável como nunca antes. Era aconchegante e cômodo, envolvido por braços fortes que pareciam niná-lo. Nos primeiros instantes, não abriu os olhos, porque a sensação era boa demais. Sentiu um pequeno sorriso se formando, e tentou conter o impulso de envolver o outro rapaz num abraço e apertá-lo o máximo que pudesse. Não conseguiu e acabou afundando o rosto no pescoço de Collins, inspirando profundamente e logo em seguida suspirando.
– Hm... – Misha resmungou, ainda dormindo, e se remexeu enquanto apertava o louro contra si.
Ackles não resistiu e riu algo com a atitude, acabando por acordar o rapaz, que o encarou de maneira sonolenta. O loiro roçou os dedos em seu rosto com uma expressão carinhosa.
– Desculpe. Não queria te acordar.
Collins franziu o cenho, e sua expressão era tão terrivelmente adorável, que Jensen não conseguiu não depositar um selinho em seus lábios.
–... Eu queria alguém pra me acordar assim todos os dias. – o moreno comentou um pouco surpreso com a atitude do outro. Parecia que, cada vez mais, o menor o estava encantando. – Você é muito fascinante, sabia Jen?
O louro corou de vergonha e tentou se afastar um pouco, mas Misha o prendeu em seus braços e aproximou o rosto ao do garoto.
– Não, não. Eu não disse isso como se fosse algo ruim. – roçou os dedos pela face de Ackles, vendo-o ficar ainda mais vermelho. – Eu gosto.
Jensen hesitou durante alguns instantes, ainda duvidando de suas palavras, mas acabou cedendo, e sorriu. Abraçou Collins com força, esfregando a ponta do nariz em seu peito e apreciando o perfume do rapaz. Não se lembrava de algum dia em sua vida, ter se sentido tão em paz como naquele momento. Misha afastava seus medos, como se pegasse os pedacinhos do que um dia fora seu "eu", e colasse um por um.
Como se houvesse se tornado a viga de ferro mais forte em seu coração de vidro.
– Sabe Mish... – o louro ergueu os olhos para encará-lo, e um sorriso surgiu em seu rosto quando viu o olhar preocupado do moreno. – Eu não vou quebrar; tá legal? Não precisa ficar me olhando desse jeito.
Collins revirou os olhos.
– "Eu não vou quebrar". – imitou a voz de Ackles, e logo em seguida depositou um beijo nos lábios do rapaz, surpreendendo-o. – Eu tenho certeza disso, Jen.
Por algum tempo, tudo o que havia naquele quarto era a felicidade.
E isso bastava.
[...]
Definitivamente, as coisas não estavam melhorando. Quando já estavam na mesa do café da manhã, Lauren contou a todos que Sandra havia ido embora; que lhe deixou uma carta. Contrariando todas as "palavras de despedida" da McCoy, ela permitiu que o papel passasse de mão em mão, até que todos eles soubessem o motivo pelo qual a morena se foi. E deixou bem claro — desde o momento em que apareceu ali com a expressão revoltada — que não partilhava de seus pensamentos. Na verdade, a loura parecia que iria explodir de raiva a qualquer momento, como uma bomba-relógio.
– Aquela idiota... – era o que Cohan resmungava o tempo inteiro consigo mesma. – Eu vou matá-la com minhas próprias mãos quando a vir novamente! Ah se vou!
Sem esperar por nenhum comentário por parte de alguém, a loura se virou de maneira furiosa para Jensen. Ackles se encolheu — já esperando alguma repreensão, e até mesmo uma bofetada —, mas arregalou os olhos pela surpresa quando a garota colocou a mão em seu ombro e o apertou por breves instantes; como se tentasse lhe passar ao menos um pouco de conforto.
– Agora, alguém mais tem algo contra ele? – Lauren fulminou a sala com o olhar, sem encarar ninguém em especial. – Porque, se houver uma única coisa, eu vou fazer questão de passar a limpo, e não vai ser civilizadamente, tá legal?! Já chega desse preconceito todo! Até parece que nenhum de nós foi calouro no acampamento algum dia! E eu não me lembro de existir toda essa besteira! Então deixem de ser idiotas! Eu não estou dizendo que fiz certo, definitivamente não, porque também não fui nem um pouco simpática quando ele chegou. Jared e Misha foram os únicos que se atreveram a falar com Jensen, e eu os admiro por isso.
Terminou depositando um beijo singelo sobre a cabeça do louro, ainda estarrecido por sua atitude. Na verdade, todos pareciam em total estado de choque pelas palavras da garota.
– Não se importe tanto conosco, ou com o que pensamos; tá legal? Você não tem culpa. Não tem culpa nenhuma pela atitude boboca dos nossos amigos, ou de nós mesmos.
Sem mais nenhuma declaração assustadora e sem hesitar, Cohan saiu do lugar, ignorando as reações diversas de todos. Ackles ainda estava paralisado, Misha sorria um pouco confuso, Jared estava surpreso, e Justin revirou os olhos, mas não disse nada. Christian se levantou, lançou um olhar de desculpas ao "novato", e foi atrás da garota. Jeff era o único que sorria largamente — satisfeito com o desenrolar daquilo, já que não aprovava a atitude, mas sabia que, se tentasse se intrometer acabaria piorando a situação —, e, com um tom que certamente quebrou a tensão, comentou de maneira inocente:
– Garota de atitude. Então... Alguém mais tem alguma declaração extraordinária agendada para hoje, ou vocês podem me passar o pote da manteiga?
X-x-x-x—x-x-x-X
Danneel pegou as chaves do carro e olhou uma última vez para o apartamento antes de trancar a porta e sair. Havia tomado sua decisão. Definitivamente, não podia simplesmente ficar ali, parada, esperando que algo acontecesse. Ela precisava agir. Ela precisava fazer alguma coisa. Precisava ajudar Jensen, ela precisava ajudar os outros. Precisava fazer com que tudo não ocorresse igual há tantos anos atrás. Suspirando profundamente, a ruiva permitiu que as memórias lhe tomassem num turbilhão de emoções e sensações que fizeram brotar lágrimas em seus olhos.
"Você nunca entenderia." Adrianne parecia lhe sussurrar ao pé do ouvido. "Nunca entenderia meus motivos, Dan, se eu não tentasse explicar o mais detalhadamente possível. Sabe... Era pra sermos apenas nós três, lembra? Juntas. Eu não queria contar porque sabia que vocês duas não me apoiariam. E, sabe... Eu me arrependi. Não deixe que isso te afete também, Danneel. Porque, se o fizer... Tudo vai estar perdido. Segredos são perigosos. Quando a situação lhe sai do controle, você faz qualquer coisa para se sentir seguro novamente... Até mentir, fingir para seus melhores amigos que tudo está bem. Manipulá-los."
Sacudiu a cabeça, se negando completamente a aceitar qualquer coisa do tipo. Quando se é amigo — amigo de verdade —, você não finge. Pode até ter seus segredos, suas palavras escondidas nas entrelinhas, seu limite e sua quota de paciência. Mas você não mente, não manipula. Você não "faz de conta" que não existe nenhum motivo pelo comportamento estranho, quando, na verdade, há mais do que qualquer um poderia imaginar. Você tem seu tempo, tem seus medos, mas não deixa que tudo fale mais alto e age como se nada fosse culpa sua. Você assume os erros, assume as conseqüências. Pode demorar — pode demorar muito —, mas acaba acontecendo.
– Amigos de verdade não traem. – Danneel resmungou consigo mesma. – Podem até mentir, mas não traem, não vêem o desastre acontecendo, sabendo de tudo, e ficam em silêncio, sem alertar ninguém. Quem faz isso, são os covardes.
Adrianne era sua amiga. Sua melhor amiga; muito mais do que Julie. Harris definitivamente acreditava que Palicki nunca seria capaz de um ato tão egoísta, principalmente quando não era apenas ela envolvida naquele problema todo. E estava errada. Deus, como ela estava errada! Foi idiota, inconseqüente, e totalmente boba. Confiou cegamente na situação, sem perceber ou notar qualquer coisa errada.
A outra não somente havia mentido como também fingiu que nada havia de errado e fez com que pessoas inocentes morressem. Muitas pessoas inocentes. E depois, sobrou para Danneel. Ela precisou mentir, precisou ocultar todo e qualquer indício de que sabia o que havia acontecido. Disse que bateu a cabeça na fuga, e que desmaiou perto da estrada, com uma sorte inexplicável. Os policiais acreditaram, é claro. Seu estado emocional demasiadamente abalado ajudou nesse quesito, e Harris se sentiu o pior verme da face da Terra ao perceber o quão falsa poderia ser.
Você me fez sentir na pele o que é esconder as coisas, Ad. Você me fez ver tudo pelo seu ponto de vista, e esqueceu que eu também estava assustada com aquilo. Esqueceu que eu também estava com medo, que eu também queria ajudar. Um segredo vale tudo isso? Todas essas vidas; todas essas mortes? A amizade de alguém vale tão pouco?
Não conseguia se confirmar com aquilo. Não conseguia simplesmente acreditar que Adrianne escondeu tanto, mentiu tanto. Elas haviam feito uma promessa, mesmo que fossem apenas crianças. E, depois de tantos anos, Palicki acreditou que uma gravidez pudesse mudar tudo. Acreditou que Harris poderia se voltar contra ela, jogar algumas verdades em sua cara, virar-lhe as costas quando mais precisava. E então, o que fez? Abortou, é claro! Porque o estúpido pai da criança não queria assumi-la!
– Você não precisava ter feito isso, Adrianne. Não precisava.
Mas não era a hora de ficar pensando no que havia ou não acontecido, no que deveria ou não ter sido feito. Danneel já tinha uma idéia do que poderia estar acontecendo naquele momento, uma idéia bem cabeluda do que estavam fazendo com o acampamento. E precisava impedir. Precisava fazer com que eles lutassem para sair daquela floresta. Eles precisavam sair daquela floresta.
Só torcia para que Jensen ainda estivesse vivo se chegasse a tempo.
Ainda havia cinco dias de lua cheia antes de tudo terminar.
X-x-x-x—x-x-x-X
– Foi estranho hoje, não foi? – um pouco inseguro, Jensen se virou para encarar Misha, ainda deitado sobre seu peito. – Lauren...
Eles haviam tomado café e conversado um pouco com os outros, apesar de Christian e a Cohan não terem voltado. Não havia nada mais a ser feito. Talvez logo todos voltassem para Blue Earth e se divertissem por lá mesmo. As coisas estavam terrivelmente tediosas por ali, e ninguém parecia disposto a inventar um passatempo. Jared ainda se divertia brincando com os joguinhos de seu celular que não tinha sinal, mas isso era porque Padalecki não se importava. Mas parecia que todos ali queriam fazer algo em grupo, algo sociável, mesmo que ninguém tivesse idéias boas.
– Ela é estranha. – Collins admitiu, afagando as costas do louro. –... Mas é bacana, Jen. Você não precisa se preocupar. Até porque todo mundo leva mais em consideração o que ela diz, porque é uma garota com um gênio e tanto, e simplesmente odeia ser ignorada... E ela tem razão. Você vale à pena.
Mas Ackles ainda estava inquieto com tudo aquilo. Sua expressão denunciava o quanto aquela dúvida o estava consumindo por dentro. A dúvida de estarem brincando com sua cara, o provocando sem que soubesse. Misha acabava de admitir a si mesmo que isso seria normal, principalmente se Jensen estivesse acostumado com pessoas brincando com sua auto-estima daquela maneira, mas aquilo o fazia se sentir mal. Saber que já haviam feito aquilo com o louro, que o haviam feito perder a confiança em si mesmo... Isso, definitivamente, era o suficiente para que, fosse quem fosse, recebessem sua antipatia.
– Mas eu...
– Pára. – o moreno suspirou. – Jensen, pára, por favor. Não precisa ficar desse jeito, ok? Eu sei. Todos nós, sem exceção, fomos uns babacas quando você chegou. Mesmo que eu e Jared tenhamos conversado com você, eu sei que não fomos de todo agradáveis. E eu sei que é ruim, porque dá a sensação de que nada que você faz é o suficiente. Mas chega; tá legal?
– Desculpa. – o louro desviou o olhar.
– Não peça desculpas. – Misha segurou seu rosto e o obrigou a fitá-lo. – Não peça, Jen. Olha, não precisa disso tudo. Não precisa dessa insegurança. Não precisa agir como se eu, ou qualquer um aqui, fosse te quebrar em pedaços irrecuperáveis. Ninguém vai te machucar. Eu não vou deixar; ok?
Aquilo arrancou um sorriso de Ackles, que escondeu o rosto em seu peito. O moreno afagou suas costas novamente antes de beijá-lo; e dessa vez foi um beijo mais intenso. Quando sentiu o menor enrijecer em seus braços, Collins se afastou e o encarou sem entender.
– O que foi? – ele sussurrou baixinho, como se estivesse com medo de que falar em voz alta pudesse assustar o outro.
Jensen sacudiu a cabeça uma vez antes de abraçá-lo, e sua expressão imediatamente relaxou com o contato. Misha permaneceu em silêncio, sem entender o que estava acontecendo.
– Jen?
– Você pode me abraçar de volta, Mish? – o louro pediu num murmúrio choroso. – Por favor?
O moreno se assustou um pouco com o tom, e, ao envolver Ackles em seus braços, ouviu um soluço, e isso foi o auge de sua preocupação.
– O que aconteceu Jensen? Eu te machuquei? O que foi?
–... Eu estou com medo. – admitiu com voz falha.
– Medo de quê? – Misha ainda não entendia, e aquela atitude o estava angustiando. – Por favor, me fala o que aconteceu! Estou ficando assustado, Jen!
– Eu não quero me machucar outra vez, Mish. – Ackles ergueu o rosto para encará-lo, e sua expressão era desesperada. – Eu não quero acordar sozinho na cama outra vez. Não quero ter que pedir um abraço porque estou sentindo falta de alguma coisa. Eu não quero simplesmente ser usado e depois jogado fora como um brinquedo quebrado. Você diz que não vai me machucar, mas eu já ouvi isso tantas e tantas vezes, que agora... Agora eu... Desculpa... Desculpa Mish...
– Não peça desculpas. – o moreno secou algumas lágrimas que caíram. – Não precisa ter medo. Olha, tudo bem. Tudo bem você se sentir inseguro, tudo bem você acreditar que existem coisas cuja culpa é sua, mas... Eu sei que não vale muito, mas pode confiar em mim. Eu juro pra você. Eu nunca vou te machucar; ok? Não precisa se sentir forçado a nada, porque eu não vou te obrigar. Cada coisa no seu tempo. E se você precisar de muito... Que mal faz? Eu não quero te ver chorando, não quero te ver frágil e assustado. Então... Confia em mim, só dessa vez? Eu prometo que vai valer à pena.
O louro esfregou os olhos com o nó dos dedos, parecendo uma criança, e suas mãos apertavam a camisa que Misha usava; quase como se precisasse ter a certeza de que aquilo tudo era real, que não era apenas um sonho. Collins o encarou, e sorriu delicadamente, afagando seu rosto com carinho e secando a lágrima que escorreu. Ackles relaxou, e um suspiro aliviado escapou por entre seus lábios, lançando um olhar.
– Lembra que eu disse que tinha certeza de que você não iria quebrar? Eu ainda tenho certeza disso, Jen, e você quer saber como?
Jensen assentiu uma vez, e recebeu um singelo beijo antes de ouvir a resposta, que lhe arrancou um sorriso trêmulo, mas sincero. Misha também sorria.
– Eu sei, porque eu... Eu não vou deixar você cair.
