Capítulo XII — Tumulus — Cume

Jensen acordou com o sol batendo em suas costas, aquecendo-lhe o corpo e a alma. Não abriu os olhos de imediato, apreciando a sensação da pele macia pressionada contra a sua. Um sorriso desenhou-se em seu rosto quando sentiu os braços de Misha ainda o envolvendo, e acabou rindo consigo mesmo.

–... Posso saber o que é tão engraçado? – Collins sussurrou com a voz rouca, fazendo círculos com a ponta do dedo em seus ombros.

– Você ainda está me abraçando... – o louro respondeu no mesmo tom, suspirando baixinho quando o contato se tornou mais forte. –... E... E isso é bom.

– Hm... – Misha sorriu, e logo em seguida depositou um beijo em sua testa. – Eu prometi que estaria aqui, não foi?

– Não necessariamente dessa forma... – Jensen ergueu o rosto para encará-lo, e um sorriso brincava em suas feições. – Mas, é. No geral, foi isso mesmo.

Aquilo arrancou uma risada mais alta do moreno, expondo os dentes brancos num esticar de lábios, ligeiramente encantador. Ackles observou a cena com a expressão sonhadora, logo recebendo um beijo.

– Precisamos nos arrumar. – Collins cantarolou alegremente. – Ou é bem provável que alguém venha aqui "nos acordar", porque acreditam que nós estejamos demorando muito.

Misha sorriu quando viu o rosto do menor corar consideravelmente com a hipótese, mas nem mesmo a timidez do rapaz lhe era demasiadamente estranha naquele momento. Simplesmente deixou-se levar pelo ímpeto, ignorando completamente o fato de também se sentir estranho naquela situação um tanto quanto diferente do normal.

– Quer namorar comigo? – as palavras escaparam sem que tivesse controle o suficiente para contê-las.

– Eu... O quê? – Jensen ficou ainda mais vermelho, e parecia desconcertado. – Mish, você não precisa...

– Não, não. Eu preciso saber. Não podemos ficar nessa relação de "chove, mas não molha". – o moreno segurou seu rosto entre as mãos, fitando-o de maneira profunda. – Jensen Ackles, de Palo Alto ou o que quer que seja: você quer namorar comigo?

O louro parecia ainda mais envergonhado naquele momento, e balbuciou algumas coisas desconexas por alguns instantes antes de se calar e encarar Collins de maneira um tanto quanto duvidosa. Enquanto os segundos se passavam, seus olhos se arregalaram e ele arfou.

–... Você... Você não está brincando?

Misha arqueou uma sobrancelha, sem entender.

– Por que estaria, Jen?

Ackles abriu a boca por breves segundos, e logo em seguida sacudiu a cabeça.

– Não importa. Eu... Eu aceito.

Aquilo arrancou um grande sorriso de Collins, que imediatamente inclinou-se para beijá-lo em resposta. Seus dedos entrelaçaram-se com carinho quando aprofundaram o contato.

– Eu já disse que te amo? – Misha suspirou baixinho quando o louro enroscou as mãos em seu cabelo e afagou com delicadeza. – Já disse o quanto?

–... Sim... – Jensen sorriu. – Mas é bom ouvir, de qualquer forma.

Collins revirou os olhos, encarando-o e tentando gravar os mínimos detalhes em sua memória. Afinal, precisaria daquilo para quando fechasse os olhos, quando quisesse sonhar acordado.

– Eu. Te. Amo. – cada palavra foi pontuada com um beijo singelo, arrancando um sorriso do menor.

– Eu também te amo, Mish.

[...]

Jared bateu ambas as mãos na mesa, quase perdendo a paciência e partindo para cima do irmão. Estavam naquela mesma discussão há horas, desde que acordaram, para falar a verdade, e Jeff simplesmente se negava a escutá-lo; como se sua opinião sobre o assunto não fosse nem um pouco importante. Chris estava sentado numa cadeira, amuado, como se ainda tivesse dificuldade em processar aquela idéia. A simples hipótese lhe causava arrepios.

– Eu já disse que não, Jared! – antes que tivesse a chance de dizer qualquer coisa, o outro Padalecki ergueu a voz. – E ponto final!

O moreno bufou de maneira impaciente, e estava quase dizendo coisas não tão delicadas ao irmão, quando Jensen e Misha apareceram; de mãos dadas. A cena foi um tanto quanto inusitada, mas ninguém pareceu dar demasiada atenção ao fato, pois logo todos os pensamentos se voltaram para o que havia acontecido na noite anterior.

– Lauren não foi embora. – Christian falou de repente, e sua expressão era tomada pelo choque. – Ela tinha acabado de dizer que iria voltar logo, e então eu... Eu vim para casa, achando que ela não iria demorar... E depois...

As palavras morreram aos poucos, tornando-se apenas sussurros desconexos, cujos quais, ainda assim, foram ouvidos atentamente por todos ali presentes. A expressão de Jared se contorceu em desagrado antes de — ainda furioso — ele se virar para o irmão mais velho.

– Eu disse! Nós precisamos chamar alguém, Jeff!

O outro moreno lhe lançou um olhar irritado, mas não disse nada, e o silêncio que se seguiu foi tenso o suficiente para que todos se sentissem mal com aquilo.

– O que houve? – Misha arqueou uma sobrancelha, sem entender o que estava acontecendo.

Dessa vez, foi Jeff quem respondeu, em tom melancólico:

– Lauren. Ela não voltou para casa ontem à noite. Nós achamos que ela saiu da trilha e acabou se perdendo na mata.

Jensen ficou pálido feito um fantasma, enquanto Collins arregalava os olhos, e Jared viu ali sua chance para fazer com que finalmente todos o ouvissem. Não era como se não estivesse preocupado com a garota — estava, é claro. Seu estômago embrulhava apenas de pensar naquela suposição —, mas eles precisavam fazer alguma coisa; chamar a polícia, alertar os amigos de trabalho de Jeff, ouvir alguém mais responsável e experiente no assunto. Se a garota realmente havia se perdido na floresta, não havia nada que pudessem fazer além de rezar e esperar que tudo ficasse bem.

– Mish, Jen, tentem enfiar na cabeça desse idiota que nós precisamos buscar ajuda para que procurem a Lauren. – naquele momento, estava estático demais para escolher palavras melhores e menos indelicadas. – Nós simplesmente não podemos ficar aqui, esperando que ela surja de um arbusto, ou pior: arriscar-nos a procurá-la por aí e acabarmos nos perdendo também! Se todo mundo desaparecer, isso não vai ajudar ninguém!

– Jay! – Jeff virou-se para o rapaz com a expressão transtornada, e parecia à Ackles que era capaz de os dois saírem "no braço" ali mesmo. – É o meu trabalho que está em risco, e a vida dela também! Você não pode esperar que eu simplesmente escute o que está dizendo e aja como se não pudesse fazer nada a respeito!

– Que se foda o trabalho, Jeffrey! – o moreno explodiu. –... Você quer entrar na mata e brincar de "Chapeuzinho Vermelho"?! Vai lá, seu idiota!

–... Eu ainda sou o irmão mais velho, Jared Tristan Padalecki. – o menor cuspiu a palavras por entre os dentes trincados. – E você me deve respeito.

– Então que se foda o respeito, também! – Jared o encarou, mas havia algo errado em seu olhar, e o tom já não era mais tão exasperado. Na verdade, parecia quase em desespero. – Vai lá bancar o herói, Jeff, como da última vez... Só não espere que eu concorde com essa loucura toda.

De repente, a situação estava invertida. Jeffrey emudeceu-se com a declaração do mais novo, que saiu dali sem mais nem uma única palavra, enquanto Christian parecia finalmente acordar de seu transe, e Misha crispava os lábios em sinal de incômodo. Collins foi atrás do melhor amigo sem olhar em direção ao outro Padalecki, enquanto Ackles tentava apenas entender a situação sem parecer demasiadamente intrometido ou qualquer coisa do tipo.

– Não foi o que eu quis dizer... – Jeff sussurrou antes de deixar o cômodo, também em silêncio.

Era a primeira vez em muitos anos que via uma briga tão séria que não dentro de sua própria casa, e isso acabou fazendo com que Jensen se sentisse extremamente desconfortável naquela situação; um intruso em assuntos que não lhe diziam o menor respeito.

– Você não precisa se sentir assim. – Kane o sobressaltou com aquelas palavras, recebendo um olhar confuso do louro. – Digo... Não somos amigos nem nada do tipo, mas, bem ou mal, você já faz parte do grupo, Jensen. Esse é o tipo de coisa que não se pode evitar; principalmente quando se é próximo demais das pessoas. Uma hora ou outra, você acabaria ouvindo algo assim.

Ackles sacudiu a cabeça uma vez e o encarou sem entender. Tentou ignorar o fato de seus sentimentos sempre estarem "escritos em sua testa", como dizia carinhosamente Joshua.

– Pensei que me odiasse. – admitiu num tom sincero, e, ao perceber que era encarado com surpresa, rapidamente prosseguiu: – Achei que ela também iria embora por minha causa. Seria suposto que todos vocês estivessem furiosos comigo.

– E por que estaríamos? – Christian sorriu fracamente. – Sei que a primeira impressão que passamos não é exatamente "amigável", mas... Lauren é uma boa pessoa. E, se ela diz que você vale à pena... Bom, não posso fazer outra coisa que não acreditar.

Jensen fitou o moreno durante alguns instantes, e, logo em seguida, deu de ombros. Se o outro estava falando que era essa a "impressão" que passava, não havia nada que pudesse dizer para mudar aquela opinião. Até porque estava cansado de tentar ser o que as pessoas queriam, e, ali, no meio da floresta, convivendo com aquele estranho grupo de desconhecidos, ele percebeu que não havia a necessidade de ser algo menos do que ele mesmo. E, se as pessoas gostavam ou não disso, precisava aprender a conviver com aquilo. Fazer amigos, o normal para qualquer um.

Haveria sempre alguém, como Mark, Justin ou Sandra, que acabaria por não gostar de sua presença. Haveria sempre alguém que não gostaria de si e iria embora por isso. Porque, embora ninguém houvesse falado nada a respeito de Hartley, ficava quase óbvio, principalmente pelo fato de ninguém mencioná-lo, que ele havia ido embora por causa daqueles "assuntos mal-resolvidos" no grupo. Mas não era sua culpa, no fim das contas. Era o que Christian estava dizendo, era o que quase todos tentavam enfiar em sua cabeça desde o momento em que chegou. Na época, ele só era teimoso demais para ouvir.

– Vocês são estranhos.

Aquilo arrancou um riso momentâneo de ambos, mas que morreu rapidamente em meio àquela tensão. Às vezes, algumas coisas acabam aproximando as pessoas. Quando elas têm um propósito em comum, ou uma amizade. Mesmo sem querer, acaba se tornando real. Christian não tinha a intenção de soar muito "manipulável" por meio das opiniões dos outros, mas queria deixar claro que acreditava no louro; que acreditava que a amizade dele valeria à pena. Jensen, por outro lado, queria apenas entender como pessoas tão diferentes conseguiam se encaixar tão bem. Não é "Os opostos se atraem", porque, subconscientemente, estamos sempre procurando alguém que tenha interesses em comum com os nossos. Para quem acredita, é o destino. Para outros mais céticos, como ele, são as conseqüências de escolhas feitas no passado.

Mas talvez não seja nada disso. Talvez seja uma mistura de tudo, não necessariamente tendo uma intervenção "miraculosa" ou qualquer coisa meio maluca do tipo. Mais ou menos o que chamaríamos de "livre-arbítrio" nos tempos antigos, ou o que quer que seja.

–... Então, seja bem-vindo ao clube, colega.

[...]

– Ei, Jay! – Misha correu para alcançar o amigo, que adentrava apressadamente na mata, como se fugisse de alguém ou alguma coisa. – Espera!

Padalecki parou de repente, dando tempo o suficiente apenas para que o moreno o alcançasse, antes de se virar para Collins com uma expressão decididamente furiosa.

– O que é? – grunhiu as palavras enquanto cerrava os punhos. – Vai tentar me dizer que eu fui um irresponsável, que preciso pedir desculpas, ou qualquer coisa do tipo? Tire o cavalinho da chuva, Misha. Já sou grandinho demais para essas coisas, ok?

Aquilo arrancou um sorriso fraco do moreno, que ergueu as mãos para o alto; num gesto estranho e ligeiramente bizarro. Jared arqueou uma sobrancelha.

– Você me pegou xerife. Vamos lá, leve-me para a cadeia e me condene a cem anos de prisão, sem direito à condicional.

Padalecki sorriu fracamente, enquanto Collins ria sem se importar com a tensão anteriormente formada. Bem ou mal, eles eram praticamente irmãos. Foram criados juntos, cresceram juntos, aprenderam praticamente tudo sempre um ao lado do outro. Certamente era um relacionamento estranho o dos rapazes, mas, assim como qualquer outro, tinha seus altos e baixos. Conheceram-se na pré-escola, quando Jared viu Misha brincando com terra no pátio da escola. Não era exatamente "brincar com terra", mas sim escavar a procura de insetos em conseqüência de muita coca-cola e uma semana inteira assistindo National Geographic, mas isso não importa muito no momento. A partir do instante em que perceberam seus interesses em comum: muita diversão, pregar peças, e, óbvio, atormentar os pais, eles não se largaram mais. Foi assim até o momento em que deveriam decidir que faculdade cursar, onde cada um seguiu por um caminho diferente. Mas isso não significava que a amizade deixou de ser importante; muito pelo contrário: a partir daquele momento, cada segundo que pudessem passar um ao lado do outro era de crucial importância. E o resto era apenas o resto.

Bem... Até aquele momento.

– Vai me dizer o que houve? – o sorriso do moreno se desfez, enquanto a brincadeira parecia terminar, e ele viu uma rápida sombra de dor cruzar o semblante do melhor amigo.

– Ele quer procurá-la na floresta, Mi. – Jared sacudiu a cabeça, afastando a franja dos olhos num gesto de nervosismo. – Ele quer entrar na mata para procurar a Lauren, ao invés de deixar isso nas mãos de pessoas mais experientes que nós.

–... As mesmas pessoas experientes que buscaram por Chad? – Collins mordeu a língua após a declaração, com raiva de si mesmo por não conseguir conter o impulso, recebendo um olhar tristonho do outro rapaz.

– Quer que eu me sinta ainda pior com tudo isso? – a voz soou fraca, e Misha amaldiçoou-se silenciosamente pelo descuido. – Não é de grande ajuda, cara, mas nós teríamos os mesmos resultados que eles, com a diferença de que acabaríamos nos perdendo também, e aí a coisa toda seria uma grande bola de neve.

O moreno suspirou baixinho antes de dizer qualquer coisa, sabendo que o que quer que fosse não poderia desculpar a verdade que havia acabado de esfregar na cara do melhor amigo. Jared não tinha culpa. Não. Padalecki não tinha culpa alguma. Ele era o culpado. Se houvesse ido com Murray àquele último acampamento, as coisas poderiam ter sido diferentes.

– Eu sei. – esfregou os olhos com o nó dos dedos. – Mas, Jay... De uma maneira ou de outra, não vai adiantar nada. E se ela tiver se machucado? E se estiver presa em alguma caverna ou algo do tipo? Ninguém conhece a floresta melhor do que nós dois e Jeff, nem mesmo os outros guardas florestais. Nós praticamente crescemos aqui... E poderíamos fazer a diferença, não poderíamos?

O maior desviou os olhos e ergueu os olhos para o céu; encoberto por nuvens negras que pareciam se mover cada vez mais rapidamente para a floresta, quase acabando com a pouca luz existente no lugar.

–... E se não der certo? – sua voz falhou. – Mish... Eu não quero perder mais ninguém nessa maldita floresta. Nem você, nem Jeff, por mais que ele seja um boboca. Nem mesmo os outros... Eu já perdi tudo uma vez... E não quero perder de novo.

– E você não precisa. – Collins o encarou, colocando a mão em seu ombro num gesto de solidariedade. –... Façamos o seguinte: hoje, nós procuramos por Lauren. Você fica na casa, e, se nós não voltarmos até o pôr-do-sol, chama a polícia. Quem voltar vai com você para a cidade e fica lá.

– Está louco?! – Jared arregalou os olhos e voltou-se para encará-lo. – Essa é a idéia mais insana que eu já...

– Então diga uma melhor. – Misha o interrompeu, arqueando uma sobrancelha. – Pense Jay. Vamos combinar um limite de distância que podemos percorrer para longe da casa. Tempo o suficiente para procurarmos os possíveis lugares nos quais ela poderia estar, e tempo o suficiente para que tanto você quanto Jeff façam as pazes. E aí nenhum de nós vai precisar ouvir essas discussões, e vocês se acertam antes que a situação piore.

Padalecki hesitou por alguns minutos, como se calculasse os prós e os contras daquela hipótese maluca criada pela mente de seu melhor amigo. Não era exatamente ruim, mas isso não significava, necessariamente, que era boa. Como sempre, aliás.

–... Eu ainda vou me arrepender disso. – Jared suspirou longamente antes de se virar para Collins, erguendo o queixo num gesto de desafio. – Seis horas. É o tempo máximo que eu vou aceitar esperar, Mish. Nem um minuto a mais, nem um minuto a menos.

Aquilo arrancou um largo sorriso do moreno. Não era como se quisesse aquilo, mas sabia que era melhor do que nada. Jeff não daria o braço a torcer, era um filho da mãe de um teimoso, mesmo que Jared estivesse certo. Só torcia para que tudo realmente ficasse bem, no fim das contas.

– Não vamos chegar a tanto, Jay. Não precisa se preocupar, tá legal?

Eu realmente espero que não, Misha... Eu realmente desejo que não...