Capítulo XIII — Draco — Serpente fabulosa
Danneel trancou o carro e ligou o alarme, suspirando e encarando seu reflexo no vidro, perguntando-se não pela primeira vez o motivo de estar enrolando tanto. Viu ali uma ruiva assustada, com grandes olheiras logo abaixo dos expressivos olhos escuros. E, naquele momento, eles demonstravam medo; talvez até mesmo pânico. Os lábios tremiam, num sinal de que poderia começar a chorar a qualquer instante, e isso a deixava furiosa consigo mesma. O fato de sua mente se perguntar o tempo todo se não havia outra forma de fazer aquilo, não ajudava nem um pouco. Mordeu o interior da boca com força, fechando os olhos por breves instantes.
– Vamos lá, Dan. – sussurrou baixinho. – Pense nisso como uma apresentação da turma de ginástica no ginásio da sua antiga escola. Pense que todos estão olhando, esperando que você faça alguma coisa para iniciar o espetáculo. E você não faz a menor idéia do que deve fazer, mas precisa cumpri-lo antes que as cortinas se fechem e tudo termine sem aplausos.
Hesitou por alguns segundos, e logo em seguida cerrou os punhos e se virou para encarar a floresta, desafiando a si mesma a entrar no lugar. E então, sorriu, e, a passos lentos, dirigiu-se à mata; controlando a respiração e segurando a alça da mochila entre os dedos. Tentava aceitar o fato de que podia, sim, fazer aquilo. O fato verídico de que poderia encarar, de frente, tudo aquilo que havia passado, mesmo com medo.
Mas, alguma vez já lhe disseram que os piores pesadelos são aqueles que você precisa enfrentar de olhos abertos?
X-x-x-x—x-x-x-X
– Tem certeza? – Jensen repetiu a pergunta, parecendo estranhamente incomodado com a hipótese de adentrar na mata.
– Pode ficar aqui com o Jay e esperar. – Misha o encarou, esquecendo-se momentaneamente do fato de estarem rodeados pelos outros rapazes, demonstrando carinho. –... Não precisa ir, se você não quiser.
Ackles sacudiu a cabeça uma única vez, um pouco amuado. Desde que Collins voltou e propôs a idéia ao grupo, o louro parecia um fantasma de tão pálido. Pela primeira vez desde o momento em que colocou os pés no acampamento, parecia insatisfeito com alguma coisa. Mas não opinou, não falou nada; apenas ficou lá, quieto, ajudando-os a separar algumas coisas para a busca de Lauren. Bem ou mal, precisariam saber se guiar pela floresta.
– Você vai? – ele mordeu o lábio inferior com força.
Misha assentiu sorridente. Parecia feliz com a possibilidade de entrar na mata; como se houvesse acabado de descobrir que iria a casa daquele amigo cujo qual há muito não visitava. Parecia quase uma criança que acabara de receber um doce ou algo do tipo, mesmo com a seriedade da situação.
– Então eu vou também. – Jensen declarou num tom que não deixava espaço para dúvidas, mesmo que continuasse com a expressão de um homem torturado.
Aquilo fez com que Collins o olhasse com curiosidade, mas nada sobre o assunto foi dito nos momentos seguintes. Jared, silencioso, observava os amigos e o irmão juntando as coisas mais importantes que usariam para procurar Cohan: bússolas, alguma comida para o caso de precisarem, e também caixinhas de primeiros socorros, para o caso de a menina estar com algum ferimento leve. Se fosse algo grave, eles a levariam de volta — com alguém indo à frente do grupo para alertar Padalecki —, e chamariam uma ambulância. Era simples, ou assim Jeff pensava, mas o mais novo não era tão otimista. Nos poucos minutos que demoraram em juntar os apetrechos, Jared conjecturou mais de vinte e cinco possíveis acidentes que poderiam ocorrer com qualquer um dos "adolescentes" ali presentes; e isso não ajudou em nada a diminuir sua tensão cada vez mais crescente.
– Não mais do que um quilômetro. – sussurrava consigo mesmo, o tempo todo, como que para se lembrar de algo muito importante. – Eles não vão se afastar tanto, Jay. E, caso aconteça alguma coisa, estão em duplas. Eles podem se cuidar; é claro. Óbvio que podem.
Parecia prestes a explodir de tão nervoso, o que provocou um sorriso fraco em Misha, que, apesar da tensão, não conseguia deixar de tentar tornar o clima menos pesado. Era sua maneira de dizer a si mesmo que tudo ficaria bem, no fim das contas. Afinal, se não houvesse alguém para deixar tudo mais leve, alguém como ele, quem o faria? Quem iria sorrir e dizer que tudo daria certo no final? Não ter uma resposta para essa pergunta o assustava, e fazer piadinhas o deixava mais propenso a aceitar fosse qual fosse o rumo que aquilo tudo estava prestes a tomar.
– Vamos? – mas, na hora de saírem, até Jeff parecia ansioso. – Se quisermos voltar antes de anoitecer, precisamos ir agora.
– Ok. – não houve outra resposta que não o breve resmungo de Chris enquanto pegava sua mochila.
Jared os olhou de maneira apreensiva, e logo em seguida, fechou os olhos com força.
– Tomem cuidado. – aquilo soou mais como uma ordem, arrancando um sorriso de Misha.
– Claro que sim, mamãe. – disse num tom brincalhão, surpreendendo a Jensen, ao seu lado.
Curiosamente, aquilo lhe lembrou o momento no qual Mackenzie o deixara ali, alegando que poderia ligar para ela buscá-lo. Aquilo lhe causou um arrepio, porque, se não lhe falhava a memória — e ela nunca falhava —, os primeiros minutos dentro daquele acampamento, haviam sido um verdadeiro tormento.
– Mish?... Você pode segurar minha mão?
Recebeu um olhar confuso, e, logo em seguida, um sorriso.
– Claro que sim... Sempre.
X-x-x-x—x-x-x-X
Lauren acordou com o corpo dolorido e a cabeça latejando. Estava numa posição estranha, meio encolhida, encurvada numa posição meio fetal. Tremia de frio, e, quando se levantou, precisou se apoiar numa árvore para não cair novamente. Estava um caco: suja de terra, com folhas grudadas nas roupas e no cabelo, ainda encharcada pela chuva da noite anterior. E, definitivamente, não fazia nem a menor idéia de onde estava.
Franziu o cenho, olhando ao redor, perguntando-se que horas seriam. Aliás, durante quanto tempo ela ficou ali, jogada, desfalecida no chão duro da floresta? A simples hipótese de ser muito lhe causava arrepios por toda a espinha. Tentou a todo custo conter as memórias da noite anterior, mas tudo lhe veio à mente num turbilhão incontrolável; logo seguido de grossas lágrimas, que lhe escorreram pelo rosto sem o menor pudor.
Soluçou baixinho, esfregando as palmas das mãos na blusa, tentando limpá-las apenas o suficiente para que pudesse tirar a sujeira do rosto, mas a pele ardeu e Cohan logo desistiu. O que raio, ela estava pensando, saindo sozinha à noite, afinal de contas? Era completamente insano acreditar que poderia simplesmente sair ilesa daquela insanidade; completamente errôneo. A loura queria bater em si mesma, apenas para ter a certeza de que aquilo não era nenhum tipo de pesadelo, mas sabia que o ato não surtiria efeito algum.
Fechou os olhos com força durante alguns segundos, e logo em seguida suspirou pesadamente, sentindo algumas lágrimas teimosas continuarem a cair. Definitivamente, aquilo não ajudava em nada a reconstituir seu emocional já em demasia abalado. Desejava poder esquecer tudo o que havia visto, desejava poder esquecer tudo o que havia ouvido, mas sabia que isso era uma proeza completamente impossível. Não apenas pelo fato de ser algo forte demais para sua cabeça, mas também porque poderia ser comparado a um grande pesadelo do qual não conseguia escapar de maneira alguma. Talvez fosse algo do tipo, no fim das contas. Talvez fosse apenas uma alucinação de sua mente demasiadamente paranóica. Talvez tudo não passasse de um grande erro.
E você realmente acredita nisso?
Não. Lauren sabia muito bem que, por pior que fosse, aquilo tudo não era sua imaginação lhe pregando uma peça de mau gosto.
Apenas a veracidade a muito conhecida pelo homem:
Às vezes, a natureza pode ser perigosa.
