Capítulo XIV — Simius — Macaco
Caminhar naquela floresta estava sendo difícil. Havia muitas folhas, e, com a terra ainda molhada, aquilo definitivamente se tornava um tormento para pessoas com problemas de equilíbrio ou coordenação motora; pessoas como Jensen. Escorregava demais, muitas vezes precisando se segurar em Misha para não cair; consequentemente, quase derrubando o moreno consigo, provocando risos por parte de Collins. Isso o deixava envergonhado, é claro, mas tentava não se importar tanto assim. Tentava acreditar que não havia nada escondido sob nenhum arbusto, mas seu estômago embrulhava cada vez que via qualquer coisa se mexendo; o que, óbvio, apenas o deixava ainda mais nervoso. Mesmo quando era apenas a brisa.
– Está com medo? – Misha observou um pouco surpreso, ainda segurando sua mão com força.
–... Um pouco. – o louro admitiu meio a contragosto, corando e tentando não deslizar em nada, mas era uma tarefa meio complicada; andar enquanto se olha para o chão e conversa com outra pessoa. – Eu... Não gosto de florestas.
– Por que não? – Collins arqueou uma sobrancelha, sem se importar tanto com o fato de a terra estar terrivelmente lamacenta, divertindo-se profundamente enquanto pisoteava os troncos escorregadios.
–... Porque, quando eu tinha quatorze anos, quase quinze, a primeira vez que fui num acampamento... Bem, os outros rapazes, os veteranos, me jogaram no lago, com roupa e tudo. – Ackles apertou seu braço quando ameaçou cair, arrancando um riso falho do outro garoto, antes de tomar fôlego e prosseguir baixinho: –... E... Eu ainda não sabia nadar naquela época. Eles acharam que eu estava brincando, mas...
– E o que aconteceu? – o moreno virou-se para encará-lo, surpreso.
– Eu me debatia muito, então comecei a afundar. – apesar de não gostar da história, aquilo o distraia o suficiente para afastar o pânico que anteriormente o tomava. – Meu pé enroscou numa alga, então já pode imaginar que não conseguia me soltar, não sozinho. Como descobrimos depois, a água parecia rasa, mas era bem funda... Então, acho que foi mais ou menos aí que eles perceberam que eu não estava "fazendo de conta", e depois... Depois eu apaguei. – sacudiu a cabeça. – Não me lembro de nada entre isso e acordar numa cama na enfermaria, então creio que algum superior tenha visto e me tirado de lá... Quando o pior passou, quando eu voltei para a escola e a história se espalhou, as brincadeiras começaram. "Pé d'água", "Boca de lago*" e coisas do tipo; eles inventaram algumas bobagens, e as coisas foram mudando... Elas pioraram. Nem eram apelidos "maldosos", não a princípio, mas... Sabe Mish, as pessoas se transformam demais, e, às vezes, pra pior...
Você não precisa saber Mish, porque eu ainda tenho medo de contar, mas, naquele dia, eles disseram que era uma alga. O que eu acho? Não era uma alga... Quando eu tentei dizer isso para alguém, eles falaram que eu era louco, e os apelidos tornaram-se ainda piores... Mas, você quer a verdade?... Aquilo parecia uma mão.
Alguns minutos de silêncio se seguiram de uma caminhada lenta enquanto ambos os rapazes pensavam no que o menor havia dito. O moreno se perguntava quantas vezes o outro havia suportado tudo aquilo calado, sem ninguém para ouvi-lo quando tentava dizer algo a respeito. Claro que ele próprio já havia passado por algo do tipo — principalmente com relação a apelidos —, mas não se importava tanto, por ter Jared ao seu lado. Mas e Jensen? Quem estava lá quando ele precisava? Óbvio que tinha amigos, mas e se eles ainda não se conhecessem na época? Agora começava a entender um pouco todo aquele medo, toda aquela hesitação que existia no rapaz quando se tratava de fazer novas amizades ou conhecer novas pessoas. Isso não justificava tudo, é claro que não, mas algumas coisas, sim.
– Quando eu fui num acampamento outra vez, quase aconteceu um desastre. – Ackles pigarreou, chamando novamente sua atenção. – Naquele verão, foi um diferente, e os veteranos quase me jogaram no lago de novo. Joshua, meu irmão mais velho, estava lá e... Bem, vamos apenas dizer que ele fez o maior escândalo que se possa imaginar, e, depois disso, começaram a me evitar. Sabe aquelas peças de mau gosto que os valentões adoram fazer com quem eles sabem que não vai revidar?... Eles prenderam Josh dentro de um armário, e depois foram me procurar.
Jensen dirigiu-lhe um sorriso fraco, e logo em seguida ergueu os olhos para o céu, parecendo pensativo. Collins o observou em silêncio, tentando absorver aquelas palavras, tentando entender o que se passava na cabeça do namorado, mas sem conseguir absolutamente nada.
– Todos nós fomos "expulsos", por assim dizer. Meu irmão nunca mais quis colocar os pés num acampamento, porque dizia que todos os que participavam dessas coisas eram uns idiotas sem tamanho. Os outros, eu não sei, nunca mais os vi. E eu... Bom, eu fiquei na minha. Não atrapalhava ninguém, não perturbava ninguém. Assim todo mundo sairia feliz. Em alguns, como aqueles nos quais a Danneel queria "acampar no jardim", eu até fazia companhia, mas nunca era algo muito sério. Nunca mais desejei vir num acampamento assim, no meio da mata, porque a primeira impressão sempre permanecia. – o louro se virou para encará-lo, e sua expressão era séria. – Você nunca teve isso, Mish? A sensação de que, às vezes, a natureza está furiosa conosco? Que todos esses desastres, essas chuvas, mortes por ataques de animais... Que eles são uma espécie de aviso?
Misha mordeu o lábio inferior, inquieto com a mudança de assunto, e seus olhos se voltaram para o chão, observando os galhos que eram esmagados por seus pés. Aquilo não era algo que o agradava. A natureza? Claro que a natureza estava furiosa. Com todas aquelas queimadas, todos aqueles desastres... As florestas, os animais, até mesmo os riachos; tudo começou a se portar de maneira antinatural. Exatamente como Jensen dissera: uma espécie de aviso.
– Às vezes. – confessou baixinho, e, logo em seguida, tentou desviar a conversa daquele rumo. – Mas, se você nunca mais quis ir num acampamento... Por que veio para Blue Earth? Digo, não é como se eu estivesse reclamando, mas... Você ainda não parece confortável com esse assunto sobre floresta ou qualquer coisa do tipo.
O louro sacudiu os ombros num gesto ligeiramente indiferente, voltando sua atenção para o lugar ao redor; sem se esquecer do motivo principal pelo qual estavam andando a esmo para fora da trilha. Felizmente, ainda tinham a bússola, então seria fácil voltar caso se perdessem.
– Sabe, quando se é anti-social, geralmente, a família é a primeira a ferrar com a sua vida. – um sorriso melancólico se formou em seus lábios. – Meus pais meio que me obrigaram, já que eu não quis ser um médico ou gerente de alguma empresa famosa e preferi fazer a faculdade de direito. Eles disseram que eu estava desperdiçando meu "talento" em algo que não daria frutos, e nunca me apoiariam numa coisa tão impossível. Roger, meu pai, não gosta muito disso tudo, mas nunca disse que iria me largar se eu precisasse de ajuda. Donna, minha mãe, já admitiu que, acredita que meus sonhos sejam um fracasso... Ou, pelo menos, é o que dá a entender, pela maneira com a qual ela fala sobre isso.
– Que coisa horrível de se dizer a um filho. – Collins arregalou os olhos, pasmo. – Não aceitar é uma coisa, e até aí tudo bem, mas dizer que vai ser um fracasso? Isso não é coisa que se fale!
Ackles deu de ombros novamente.
– Não importa mais. Eu vou mesmo é seguir em frente, mas não para dizer que estava certo. É o meu sonho. É a minha vida. São as minhas escolhas. – Jensen entrelaçou seus dedos com os do moreno, sorrindo mais sinceramente do que no momento anterior. – E não me importa que eles não aceitem minhas decisões. Sou eu quem vai quebrar a cara, mesmo, no fim das contas.
– Não fala desse jeito, seu idiota. – apesar da leve reprimenda, Misha sorria. – Aposto que você vai ser um perfeito "pai de família", com aqueles ternos esquisitos e tudo mais...
O louro revirou os olhos e acertou-lhe uma cotovelada sutil, como que reclamando em silêncio daquela verdade, arrancando outra risada de Collins quando saiu pisando forte.
– Ah, vamos lá Jens! – o moreno, em largas passadas, correu até ele e abraçou-o pela cintura, sussurrando-lhe com carinho ao pé do ouvido: – Você sabe que eu estava brincando...
– Idiota... – Ackles lutou para manter a seriedade, arrancando outro sorriso de Misha.
–... Me perdoa? – o rapaz depositou um beijo em seu pescoço, obrigando-os a parar, escorregando as mãos pelo corpo trêmulo do louro. – Você pode me perdoar, Jensen?
A respiração do menor se tornou pesada, acelerando-se consideravelmente quando Collins escorregou os lábios pela pele alva da nuca, demorando-se no contato e sorrindo marotamente quando ouviu um suspiro em resposta.
– Isso foi um "sim"? – sussurrou num tom brincalhão, e teria recebido outra cotovelada, se não houvesse segurado os braços do louro. – Não, não. Seja um bom menino, Jens, e me diga: isso foi um "sim"?
Jensen resmungou qualquer coisa ininteligível antes de jogar a cautela para o alto e se virar para beijá-lo; ignorando a vergonha, a hesitação, e se esquecendo momentaneamente da "raiva" do instante anterior. A verdade era que, não importando o que Misha fizesse, Ackles acabaria por perdoá-lo sempre que o moreno utilizasse aquele tom de voz.
– Você sabe que sim, idiota. – resmungou por entre os dentes trincados, com os dedos ainda enroscados no cabelo do outro. – Você sabe...
– É bom ouvir. – Collins rebateu, mordiscando seu lábio inferior com carinho. – E... Eu odeio acabar com o clima, mas seria melhor se procurássemos Lauren agora.
O louro sorriu, sem se importar com o fato de o outro mudar de assunto. Claro, precisavam ficar centrados, ou acabariam cumprindo todos os medos de Jared e se perderiam na mata, mas, pelo menos, aquilo diminuiu a tensão que parecia existir entre os dois desde que saíram da casa. Podia não significar muito naquela situação tão séria, mas, para eles, aquilo era o que mais precisava ser "cultivado". Subconscientemente, tanto Collins quanto Ackles queriam demonstrar o quanto gostavam um do outro.
Infelizmente, tudo tem seus altos e baixos. Era um relacionamento lindo? Sim, era. Mas ainda existem segredos, ainda existem feridas a serem curadas. Talvez mais de uns do que de outros, talvez não tanto quanto; talvez igualmente ou muito mais que. Não importa.
São segredos. E, enquanto eles existirem, nada nunca estará bem.
[...]
– Você acha que vamos encontrá-la? – não pela primeira vez desde o momento em que colocaram os pés fora da casa, Christian se virou para Jeff, parecendo inquieto.
– De verdade? – Padalecki sorriu de maneira confortante. – Tenho quase certeza, Chris. Não precisa se preocupar tanto. Quero dizer, tudo bem, todos nós estamos incomodados com relação a isso... Mas ela é forte. Tenho certeza de que é bem capaz de ela voltar sozinha e encontrar Jared roendo as unhas por lá, e os dois nos pregarem uma peça pela "irresponsabilidade"... Ela é mais nova que eu, mas aquela menina é, inegavelmente, assustadora.
Ambos os rapazes riram com a hipótese. Às vezes, o mais novo realmente era um pouco nervoso em demasia, e isso gerava algumas piadas na turma, de como ele teria cabelos brancos antes da hora, de como ele seria um velhinho terrível, e coisas do tipo. Esse "às vezes" parecia tão antigo... Era como se anos houvessem se passado desde o momento em que entraram na floresta, e ninguém conseguia explicar o motivo disso.
– Ela é doce, se você souber onde procurar e o que dizer. – Kane rebateu, embora os cantos de seus lábios tremessem com a declaração.
Não era nenhum segredo — pelo menos para os habitantes de Blue Earth — que o moreno e Cohan namoravam praticamente desde o primeiro ano de colegial. Era uma relação definitivamente excêntrica, onde o rapaz era o mais centrado e a moça era "desleixada". Mas isso nunca havia sido um incômodo para ninguém, nem mesmo para os amigos de ambos; que acabaram se conhecendo e criando laços também. Era como se ambos soubessem como intercalar os momentos nos quais poderiam namorar, com aqueles nos quais o alvo era apenas a diversão. No geral, era algo bem equilibrado, apesar de, às vezes, eles passarem a impressão de que não eram mais que amigos quase irmãos.
Jeff nunca se colocaria no lugar de Christian, primeiro porque não tinha uma namorada, e depois, porque não queria sentir pena do moreno; sabia que o outro odiava que sentissem pena dele. Apenas comparava aquilo ao que havia sentido quando os pais morreram, há tanto tempo. Definitivamente, não havia dor que superasse aquilo. Se Kane a amava, não havia.
– E você sabe, não é? Sempre soube.
O moreno sacudiu os ombros num gesto que dizia "não importa mais", apesar de estar claramente ficando abalado com aquela conversa. Padalecki acreditou ser melhor mudar de assunto, mas não conseguiu conter a afirmativa:
– Vai ficar tudo bem, Chris. Você vai ver.
[...]
Jared franziu o cenho, mordendo o lábio inferior enquanto olhava para o relógio, perguntando-se quanto tempo já havia se passado. Duas; três horas? Não importava; se fosse sincero consigo mesmo. O nervosismo não passava, e, na verdade, aquilo já estava começando a lhe transmitir uma angústia cada vez mais crescente. Fechou os olhos com força, irritado.
Vamos lá, Jay. Você disse que esperaria seis horas no máximo. Então, lembre-se do que Misha disse. Ele falou que tudo ficaria bem, não falou? E você disse que aguardaria alguém voltar, ou ninguém, para ir chamar a polícia, porque o Jeff não pode perder o maldito emprego e todo mundo está preocupado com a Lauren, mas... Não, não. Pare com isso, Jared Tristan Padalecki. Sequer cogite a hipótese de sair daqui. Você praticamente prometeu...
– Quer saber de uma coisa? – colocou-se de pé num salto, sem conseguir conter a irritação cada vez mais crescente. – Que se foda o que eu disse! E que se foda o trabalho do Jeff também! Ele não pode simplesmente acreditar que eu vou ficar quieto enquanto alguma amiga minha desaparece dessa forma!
Ignorando completamente tudo o que havia dito anteriormente, Jared saiu da casa e rapidamente seguiu a trilha em direção à estrada. Poderiam ter ido até ali com táxis, mas não se importaria em caminhar de volta até a cidade, principalmente numa situação daquelas. Às vezes, ser impulsivo daquela maneira poderia ser um problema, mas, naquele instante, não era nada mais do que a insana vontade de ajudar.
Ele não olhou para trás.
—
*Boca de lago porque, como todos sabemos, quando uma pessoa cai na água, mar, piscina ou o que for, se ela não souber nadar, vai engolindo água, sem conseguir evitar. Seria mais ou menos como "Boca grande" ou algo do tipo.
