Capítulo XV — Captare — Perseguição
Danneel tentava se guiar de alguma maneira pela floresta, mas havia ido ali há quantos anos? Quando foi a última vez na qual foi a uma floresta? Não se lembrava mais nem mesmo de como se identifica uma trilha. Com toda a certeza, haviam sido guiados por uma pessoa experiente, que conhecia aquela mata como ninguém. Não necessariamente sabendo mais do que todos os outros, mas apenas tendo experiência o suficiente para diferenciar algumas coisas das outras e saber que direção tomar.
Em questão de direção, era um completo desastre.
– Vamos lá. – Harris semicerrou os olhos. – Jensen, dívida, esqueceu? Essa porra toda é uma grande bola de neve que vai acabar te congelando também, mas vamos lá. Afinal, quem precisa desse medo? Quem precisa dessa esperança absurda de encontrar Ackles no meio do caminho e arrastá-lo para fora desse maldito lugar sem grandes explicações? É apenas uma floresta; ela não vai te morder.
Mas, a julgar pela maneira como seu corpo reagia a cada barulho ou movimento, a ruiva quase tinha essa impressão. Seus olhos corriam por todos os cantos que conseguia enxergar, tentando registrar cada imagem o mais rápido possível e tentar entender se havia algo ali que pudesse machucá-la. Era uma paranóia, para falar a verdade, mesmo que nas cidades não agisse daquela forma.
Estreitou os olhos por breves instantes quando pôde jurar que algo havia se movido no arbusto mais próximo, mas não ficou ali por tempo o suficiente para checar. Queria aproveitar a luz do dia e chegar àquela casa o mais rápido que pudesse, porque, quando a noite chegasse, teria de se escorar em alguma copa de árvore, e dormir seria praticamente impossível.
Ele é o seu melhor amigo, lembrou-se não pela primeira vez, e um sorriso acabou surgindo em seus lábios rosados. E você não vai largá-lo nem que ele implore. Então vamos, Dan, porque o Jensen precisa de você.
Talvez aquilo não fosse algo tão verídico assim. Talvez Ackles não precisasse dela para se livrar daqueles problemas. Apesar de tudo, ele tinha lábia, tinha carisma. Ele poderia simplesmente escapar dali sem grandes esforços, se o quisesse. Mas Danneel acreditava que, sim, o louro precisava dela.
Eu preciso acreditar.
X-x-x-x—x-x-x-X
Lauren estava exausta, faminta, e com sono. Seu corpo praticamente implorava para que parasse em algum lugar e se escorasse contra ele, meso que fosse uma árvore. Precisava fechar os olhos e fingir que nada daquilo era real — lembrar-se das últimas férias de verão —, e poderia sorrir e impedir que aquela dor a tomasse. Sentia-se entorpecida, mesmo que não soubesse exatamente o motivo. Os lábios estavam secos e rachados, mesmo quando tentava umedecê-los com a ponta da língua. Semicerrou os olhos por breves instantes, incomodada com a luz.
Suspirou longa e pesadamente, afastando o cabelo do rosto, os machucados ardendo, mas, pelo menos, não tinha mais aquela vontade insana de chorar; os olhos estavam secos, mesmo ardendo, e era como se tudo estivesse girando.
Incomodada com o fato de não conseguir andar nem meio metro sem se apoiar em alguma coisa, encostou-se numa árvore e se permitiu escorregar até o chão, relaxando aos poucos enquanto a brisa leve soprava. Apesar de não perceber, empalideceu com o gesto, trincando os dentes quando uma dor lhe atingiu entre as costelas, sufocando-a lentamente enquanto sentia o local aquecido; o que era estranho, se considerado o fato de ela toda estar gélida.
– Onde eu estou? – Cohan olhou ao redor, mas não havia nada que conseguisse identificar, não havia nada que conseguisse reconhecer; pelo menos, não ali. – Ah, mas que Inferno...
Eu estou tão ferrada...
X-x-x-x—x-x-x-X
– Misha? – Jensen chamou inquieto. – Não acha que é melhor nós começarmos a voltar? Já faz... Quase quatro horas... E... E se não voltarmos logo, é bem provável que o Jay surte ou algo do tipo...
– Espera. – Collins afastava o mato alto de uma encosta da montanha, usando um canivete que tirou do bolso da calça jeans. – Cinco minutos não vão fazer diferença, Jens. E o Jared vai ficar louco de uma maneira ou de outra, mesmo. Não faz mal.
Ackles olhou ao redor, sentindo-se mais tenso a cada segundo que se passava. Há alguns minutos perdera a conta de quantos metros eles haviam se afastado da casa, e, naquele momento, perguntava-se se conseguiriam encontrar o caminho de volta. De acordo com o moreno, ele conhecia cada canto daquela floresta, mas, ainda assim, o menor não se sentia seguro com aquilo tudo. O sol já começava a baixar, e não era nem mesmo pelo horário que estava se sentindo incomodado; era o simples fato de as copas das árvores serem altas em demasia, lançando sombras para todos os lados, dando a impressão de que era muito mais tarde do que realmente deveria ser. Como aparições indelicadas que ameaçavam levá-los para a escuridão sem nenhum aviso prévio, brincando com sua sanidade.
–... Por favor? – pediu, aproximando-se do outro, quase implorando; de fato, aquilo o estava assustando. – Podemos voltar, por favor?
Misha se virou para encará-lo, surpreso com a atitude repentina do louro, que não parava de lançar olhares para todos os lados, como se esperasse por alguma coisa. Sorriu fracamente, e afastou a franja do rosto, secando o suor da testa. Realmente não acreditava que alguém pudesse ter tanto medo assim da floresta.
– Posso só olhar ali dentro? – perguntou ainda sorrindo, e lhe pareceu que Jensen teria um ataque. – Ei, calma aí, cara. Não vai acontecer nada. É só uma fissura, mas dá pra passar...
– E por que ela estaria aí dentro? – a voz soou fraca, e Collins deu de ombros.
– Quando éramos pequenos, ela adorava entrar em cavernas quando começava a chover. – o moreno guardou o canivete no bolso. – Ela gostava de se esconder no pé da montanha, ou então subir até o cume e depois olhar ao redor. Talvez ontem, quando começou a chover, ela tenha procurado algo conhecido no meio de tanta confusão. Principalmente se escorregou em algum lugar ou qualquer coisa do tipo, porque ela teria de procurar alguma coisa familiar para saber se direcionar depois.
–... E se você não conseguir sair? – Ackles ainda estava indeciso, mordendo o lábio inferior com força enquanto olhava para a fresta escura no lugar. –... Mish, e se você se machucar?
Collins pendeu a cabeça para trás e riu, bagunçando os cabelos do menor com a mão, tentando lhe passar algum tipo de segurança, mas a expressão do rapaz era alarmada, e seus olhos não se fixavam num mesmo lugar por mais de dez segundos, sempre correndo de um lado a outro, procurando por alguma coisa suspeita.
– Eu praticamente cresci aqui nessa floresta, Jensen. Não precisa se preocupar.
O louro o encarou, como que inquieto, por minutos que lhe pareceram horas, como se avaliasse cada uma das possibilidades existentes naquela proposta que lhe soava tão errada. Não sabia se não queria que o namorado entrasse na "caverna" porque não queria ficar sozinho, ou se era porque não queria que ele acabasse se machucando, sem poder fazer nada a respeito.
– Mas... Misha...
O moreno sacudiu a cabeça, incapaz de aceitar o fato de o outro não confiar o suficiente nele para deixá-lo ir sozinho. Simplesmente não conseguia entender o motivo de Ackles ser tão assustado quando se tratava de agir; fosse qual fosse a maneira.
– Vamos lá, Jen, por favor. Dê-me cinco minutos, que tal?
Jensen fechou os olhos por alguns instantes, e, suspirando, acabou assentindo, arrancando um largo sorriso do namorado. Independentemente do que acontecesse, não conseguia resistir àquele olhar pidão do moreno.
– Não demore. – o menor pediu num sussurro fraco antes de o outro desaparecer novamente em meio aos arbustos.
– Não enlouqueça; ok? Eu não vou demorar, prometo. – Misha declarou em voz alta, os ruídos logo abaixando e se tornando nada mais do que meras impressões.
Ackles escorou-se na árvore mais próxima, com medo de acabar se perdendo do lugar caso resolvesse começar a dar voltas por aí. Mordeu o lábio inferior fortemente e começou a contar os minutos; que se passavam tão lentamente, que era quase como se quisessem torturá-lo por alguma coisa. Sabia que, sim, acabaria enlouquecendo daquela forma, mas não conseguia evitar.
– Por favor, por favor, não demora Mish... – Jensen ergueu os olhos para o céu, tentando se perder na imensidão alaranjada para não precisar perder a cabeça, mas as copas das árvores cobriam praticamente tudo, bloqueando sua visão. – Droga... Eu odeio esse lugar.
X-x-x-x—x-x-x-X
Jared estava praticamente na metade do caminho, quando, de repente, uma ruiva surgiu sabe-se lá Deus de onde, trombando consigo de maneira com que os dois acabaram caindo no chão. Não se importava realmente com a queda, mas ela parecia atordoada com o choque, como se não esperasse encontrar alguém tão logo.
– Ei, quem é você? – Padalecki se levantou e esticou a mão para que a garota pudesse levantar, mas ela praticamente rejeitou sua ajuda, e o moreno arqueou uma sobrancelha. – Garota?
– O acampamento anual de verão de Blue Earth é pra onde? – ela soltou num jorro de palavras, parecendo extremamente ansiosa, incapaz de sequer erguer os olhos para encará-lo.
O rapaz cruzou os braços na altura do peito, sentindo-se ligeiramente ignorado, mas não respondeu apenas por teimosia e pelo fato de estar ocupado demais indo para a cidade. Logo que percebeu que não obteve nenhuma palavra do garoto, a ruiva levantou o rosto, e pareceu sinceramente surpresa.
– Hm... Oi? – a moça passou a mão na frente de seu rosto, como que tentando chamar sua atenção, e Jared não conseguiu não sorrir ao ver as caretas que a ruiva fazia. – Eu... Desculpe. Sou Danneel Harris. E você é...?
– Padalecki. – ele apertou a mão esticada da garota. – Jared Tristan Padalecki.
Danneel sorriu, mesmo que parecesse meio apreensiva.
– Prazer em conhecê-lo Jared. Será que você poderia me dizer para que lado fica o acampamento de Blue Earth?
O moreno a encarou durante alguns instantes, como se não soubesse exatamente o que responder. Se lhe perguntassem, de longe ele saberia dizer que tipo de garota ela era: meio patricinha, mais ou menos rebelde, e um tanto quanto impulsiva em demasia. Agora, Harris queria ir ao acampamento? Aquela idéia lhe soava insana apenas de olhar para a ruiva: blusa de marca, short jeans até os joelhos, botas de cano longo e mochila ao "estilo aventureiro". Seria sua primeira vez numa floresta, ou ela o fizera de propósito? Fosse como fosse, resolveu que era melhor parar de pensar ou acabaria passando a impressão de ser alguém demasiadamente suspeito para que se pudesse confiar. Seria sincero, então.
– Na verdade, eu acabei de sair de lá. Estava indo para a cidade.
Diferentemente do que esperava, aquilo pareceu alertar Danneel a respeito de alguma coisa, e a ruiva recuou um passo, como que pronta para correr caso Padalecki repetisse aquele ato de não parecer confiável o suficiente.
Como se eu fosse algum tipo de psicopata, Jared pensou consigo mesmo enquanto franzia o cenho. Ou como se fosse persegui-la por aí e matá-la a facadas.
– Por quê? – a voz da garota falhou por um instante. – O quê... O que aconteceu?
– Eu juro que não faço a menor idéia. – o moreno sacudiu a cabeça, e, logo em seguida, cerrou os punhos. – Uma amiga minha sumiu, e meu irmão e os outros campistas foram procurá-la. Eles me mandaram esperar, mas, em minha concepção, já faz muito tempo que não voltam. Vou chamar a polícia, porque é a única coisa que eu posso fazer.
Durante alguns instantes, foi como se o tempo houvesse parado. Harris prendeu a respiração, e o rapaz observou sua reação com curiosidade. Não sabia o motivo de estar perdendo tanto tempo com a ruiva, ainda mais quando o que fazia lhe parecia tão importante, mas algo o instigava e praticamente o obrigava a ficar ali, parado, tentando entender o que se passava dentro da cabeça daquela garota esquisita e um tanto quanto bizarra.
– Há quanto tempo? – Danneel sussurrou tão baixinho que ele quase não a ouviu.
– Eu... O quê?
– Há quanto tempo sua amiga sumiu Jared? – ela o encarou tão seriamente que se sentiu ligeiramente intimidado. – Oh, meu Deus! Por favor, diga que o Jensen está bem! Céus, eu sabia que deveria ter vindo antes ou isso acabaria acontecendo! Droga, droga, droga!
Padalecki tentava ter alguma reação, quando a ruiva levou as mãos à cabeça, como que ameaçando rançar os cabelos, e ele finalmente compreendeu o que ela dizia, mesmo que, em sua mente, aquilo não fizesse o menor sentido.
– Do que você está falando, Danneel? – franziu o cenho, tentando achar algum nexo nas palavras da Harris. – Lauren sumiu ontem à noite, logo depois de Justin ir embora... Por quê? E... Espera, espera. Como você conhece o Jensen?
– Claro que sim! – ela mordeu o lábio inferior e olhou ao redor. – Mas eu não entendo... Eu achei... Achei que fosse um só por noite...
– Ei. – Jared estalou os dedos à sua frente, fazendo com que os olhos escuros se encontrassem com os seus. – Pode me explicar o que diabo está acontecendo aqui, por favor? O que você está fazendo, procurando pelo acampamento?... E como assim "Achei que fosse um só por noite"?
Danneel suspirou longamente e afastou o cabelo do rosto, cerrando os punhos logo em seguida, fazendo com que o moreno arqueasse ainda mais as sobrancelhas, sem entender nem uma única coisa que a menina havia dito. O que estava acontecendo, afinal de contas? Do que ela estava falando?
– Deixe-me adivinhar: cada um dos seus amigos, um por noite, para sermos mais exatos, ia embora, alegando qualquer tipo de bobagem sobre não gostar do lugar ou alguma besteira do tipo. – Harris o encarou com seriedade enquanto gesticulava nervosamente. – E sempre havia alguém com uma desculpa na ponta da língua, sobre seu paradeiro. Mas era sempre uma; nunca duas ou mais, como se fosse uma espécie de padrão sem sentido, principalmente quando essas pessoas não avisam mais ninguém... Estou errada?
Jared sacudiu a cabeça uma única vez, pedindo para que ela prosseguisse; um tanto quanto surpreso pela quantidade de coisas que ela parecia saber. Estranhamente, aquilo causou toda uma seqüência de reações em seu corpo; reações bizarras. Seu estômago embrulhou.
– E então, eis que um dia: boom! – a ruiva o assustou, mas, sem perceber, prosseguiu como se nada estivesse acontecendo: – Alguém desaparece sem avisar e todos os outros vão procurar, com exceção, é claro, de você, que não fazia parte da minha equação, só esperando os amigos voltarem para poder chamar a polícia. Mas o que acontece então? Surpresa! Acaba decidindo que não pode mais esperar, porque eles demoraram demais, e então caminha para a cidade.
–... No mais, foi exatamente o que aconteceu. – Padalecki arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços quando um arrepio lhe percorreu a espinha. – Como você sabe disso tudo?
A garota parecia ocupada demais para lhe responder, e começou a andar em círculos, como se estivesse sofrendo uma séria crise de TOC. Apenas de vê-la, o rapaz se sentia incomodado com a situação. Era como se algo estivesse bem em sua frente, mas não conseguisse vê-lo ou tocá-lo. E isso era frustrante. Frustrante porque aquilo o estava angustiando, porque estava dando um nó em seu cérebro. Até as palmas das mãos começavam a suar pelo nervosismo, e não saber o motivo daquilo o estava matando por dentro.
– Droga! – Harris mordeu o nó do dedo indicador, como se tentasse pensar, e, logo em seguida, seu rosto se iluminou. – Jared, você precisa voltar!
–... Por quê? – ele mesmo não entendia o motivo da pergunta, e ela soou trêmula.
Danneel o encarou como se o moreno fosse louco.
– Você quer salvar a vida de seus amigos, não quer? Então vamos, porque já começou a escurecer!
Padalecki a guiou em silêncio, mas um nó começava a se formar em sua garganta, enquanto os olhos ardiam. Em momento algum, ele sequer duvidou das palavras da ruiva. Talvez porque ela soasse verdadeiramente preocupada, talvez porque conhecesse Jensen. Talvez porque parecesse um tanto quanto inocente em demasia, talvez porque aparentasse estar tão nervosa quanto ele. Ou, quem sabe, por nenhum desses motivos. Fosse como fosse, não havia o que fazer. Ela dissera que a vida de seus amigos estava correndo risco, certo? Seria melhor voltar para a cidade e chamar a polícia de uma vez, mas não conseguiu encontrar a própria voz para dizer qualquer coisa.
Então seguiram a trilha em direção a casa.
Em silêncio.
X-x-x-x—x-x-x-X
Christian já estava perdendo as esperanças. Quase pedindo a Jeff para que os dois voltassem antes que Jared enlouquecesse de vez. Quase. A hipótese de não conseguirem encontrar Lauren o estava aterrorizando por dentro, mas não por não confiar o suficiente na polícia — não; seu pai era policial, e ele tinha plena consciência do quanto a maioria deles se esforçava para encontrar desaparecidos —, e sim pelo fato de a angústia tomá-lo a cada vez que tentava sequer imaginar voltar para a cidade sem Cohan. "Cebola*" ele praticamente podia ouvi-la o chamando daquela forma, ou qualquer outro apelido infantil que sua mente excêntrica conseguisse inventar. Lauren era uma figura; divertida, doce, sorridente, mas com um gênio forte, personalidade difícil e uma grande noção do certo e do errado. Kane perderia toda uma vida caso tentasse a ousadia de citar algumas de suas qualidades sem soar bajulador, sem fazer com que ela desconfiasse de si, acreditando que iria querer algo em troca.
Desde a adolescência, a loura se destacava entre todas as outras. Era destemida, irritadiça, hiperativa. Praticava esportes, entrava em brigas que não lhe diziam respeito, e adorava discutir com garotos. O moreno tinha que admitir que, quando começou a flertar com a menina, sentia o ciúme absurdo de todos os rapazes que se aproximavam de Cohan. Mas, depois de algum tempo, percebeu que aquilo nada mais era do que o medo absurdo de perdê-la para outro; e isso logo fez com que as crises passassem. Lauren já havia dito que nunca o trocaria por ninguém, e isso era o suficiente para que não se importasse mais tanto com o assunto. Depois de deixar de lado o ciúme e tentar ser mais sociável com os amigos da loura, percebeu que estava perdendo a chance de fazer novas amizades incríveis, de tão peculiares. Claro que, a princípio, não foi tão fácil assim. Justin e Mark eram dois idiotas que sabiam ser divertidos quando queriam, apesar do preconceito quando se tratava de pessoas fora do considerado "normal" pela sociedade. Misha, surpreendentemente, não lhe transmitira nenhuma sensação que não simpatia; era sorridente e afável, alguém fácil de afeiçoar. Jared foi quem mais lhe deu trabalho: era um namorador, e, muitas vezes, parecia-lhe que ele estava cantando Cohan. Logo que percebeu que eram apenas as habituais brincadeiras que existiam entre aquele grupo tão diferente que se completava tão perfeitamente, sentiu-se como um adolescente idiota. Mas foi perdoado, de acordo com os dois "Trolls" — Collins e Padalecki —, a partir do momento em que não os perseguiu até os confins do Inferno quando eles pintaram seu rosto com maquiagem enquanto dormia; apenas esbravejou e foi tirar aquela "arte" da pele. Depois, acabou que se tornou parte daquela turma tão esquisita e igualmente peculiar. Sentia-se parte daquela amizade tão bonita que existia entre aquele grupo, aquela "panelinha" que não se desfez nem mesmo quando ele e Cohan se afastaram durante algum tempo da cidade, em conseqüência do trabalho.
Lembrando-se daqueles tempos antigos — das épocas mais felizes —, o moreno sentiu o sorriso falho desaparecer de seu rosto, e o coração se comprimiu no peito. Não soube se tudo estava tão aparente assim em sua expressão, mas foi o suficiente para chamar a atenção de Jeff, que se virou para encará-lo e lhe lançou um olhar solidário, como se estivesse tentando confortá-lo de alguma maneira. Padalecki suspirou longamente por um instante, e logo em seguida sorriu, mas aquilo, naquele momento, mais parecia um esgar de dor.
– Acho melhor voltarmos, não é mesmo? – o mais velho pigarreou, como que tentando controlar a voz para não soar demasiadamente preocupado. Era sua função, no fim das contas: fazer com que todos acreditassem que tudo terminaria bem. – Digo... Jared já deve ter enlouquecido com a demora, e, a essa altura, provavelmente já chamou a polícia.
Christian deu de ombros por um instante, parecendo indiferente, mas a verdade é que não queria admitir que desejava, sim, voltar. Seria o mesmo que confessar que não conseguiria encontrá-la. E isso — para alguém orgulhoso como o Kane — era praticamente impossível. Pensou seriamente antes de responder qualquer coisa, mordendo o lábio inferior com força o suficiente para sentir o gosto de sangue. Interior e minimamente, aquilo o confortava um pouco, apesar dos apesares.
– Você pode ir à frente? – a voz soava fraca, e engoliu em seco antes de prosseguir, falando mais alto dessa vez: – Daqui a pouco eu vou.
Jeff o encarou por alguns segundos, como que se perguntando se seria sensato deixar um "adolescente" naquele estado emocional, sozinho numa mata. Então, logo em seguida, sacudiu os ombros; não num gesto de indiferença, mas como se estivesse dizendo que o moreno poderia fazer o que acreditasse ser o melhor, no fim das contas. Ele já era grandinho o suficiente para cuidar de si mesmo, a despeito de ainda ser jovem demais para passar por algo do tipo.
– Não demore, ou Jared vai matar a todos nós. – Padalecki lhe lançou outro sorriso solidário, e, segundos depois, começou a caminhar na direção onde ficava a casa.
O moreno o observou em silêncio, perguntando-se, não pela primeira vez, como o mais velho conseguia manter a calma numa situação tão complicada. Instantes depois, ele riu com amargura, consigo mesmo. Era o trabalho de Jeff, no fim das contas. Enquanto todos estivessem desesperados, ele deveria manter a calma e agir como se tudo fosse terminar bem. Deveria dizer que tudo ficaria bem, mesmo que a certeza fosse a contrária. Porque ele poderia não acreditar de verdade naquilo, mas eles precisavam.
Suspirou e fechou os olhos, pedindo silenciosamente para que tudo acabasse de uma vez. Que Lauren fosse encontrada, a salvo. Que eles pudessem voltar para casa e fingir que aquilo nunca aconteceu. Que Mark, Justin e Sandra aceitassem Jensen, que ele pudesse voltar para casa contando histórias do quão fora bom, mesmo que a princípio tenso, conhecer estranhos que no primeiro momento não haviam gostado de si. Era um desejo praticamente insano, mas valia, de qualquer forma. Não se importava em ter de esperar dias, talvez meses. Não se importava em ser tachado irresponsável por ter deixado a menina sozinha na floresta. Não se importava nem mesmo que talvez nem todos estivessem tão concentrados em encontrá-la; não tanto quanto poderiam estar.
Eu só quero que isso acabe de uma vez por todas...
X-x-x-x—x-x-x-X
Quando Misha não apareceu, Ackles sentiu o desespero começando a tomá-lo, sufocando-o de todas as maneiras. Queria se mexer e ir até a fresta da caverna, chamá-lo ou entrar para procurar Collins, mas seu corpo estava paralisado. Balbuciou qualquer coisa incoerente e fechou os olhos com força, contando silenciosamente consigo mesmo. Um, dois, três, quatro minutos até ouvir um barulho e se assustar com o sobressalto repentino. Olhou ao redor, cravando as unhas na palma das mãos.
–... Mish? – a voz falhou por um instante, quase em pânico.
Não conseguia nem mesmo enxergar mais do que alguns metros à sua frente, em conseqüência das longas sombras que tremulavam em meio à mata, escorregando, alertando-o de que era melhor sair dali ou acabaria por enlouquecer. Mas não podia. Não era como se não desejasse ir embora — ele o queria; e muito —, mas a simples idéia de sair e deixar o namorado ali, acreditando que ele o estaria esperando, causou-lhe náuseas. Não. Ele precisava esperar por Misha.
– Jensen? – a voz conhecida o teria deixado mais confortável, se não estivesse tão angustiado com aquela situação toda. Primeiro, Lauren, e agora Collins. – O que você está fazendo aqui?
Virou-se para Jeff se sentindo ligeiramente melhor, apesar de tudo, tentando conter o esgar de receio que surgiria em seu rosto.
– Esperando Mish voltar.
Padalecki o encarou com surpresa, como se não fizesse a mínima idéia do que aquilo significava, e, logo em seguida, percebeu a "gruta" que o mais novo parecia olhar com tanto nervosismo. O louro já parecia demasiadamente pálido, como se fosse um fantasma ou qualquer coisa do tipo.
Ora que bobagem, o moreno tentou sorrir, mas falhou miseravelmente. Fantasmas não existem, de qualquer forma. Não importa.
– O que é isso aí? – indicou a encosta da montanha com a cabeça, mas, antes que Ackles pudesse responder já se embrenhava nos arbustos, que quase lhe chegavam ao peito. Logo em seguida, arregalou os olhos. – Ah, mas eu não acredito que ele conseguiu encontrar isso!
– Isso o quê? – imediatamente, Jensen foi até o mais velho, ansioso.
Na rocha onde Jeff olhava diretamente, havia as iniciais "M" e "JT" cravadas na pedra, como uma espécie de demarcação que parecia definir exatamente que pessoas poderiam entrar ali; uma espécie de aviso para qualquer intrometido que resolvesse se intrometer em algo que não lhe dizia respeito. Não precisou de meio segundo para concluir: M de Misha e JT de Jared Tristan, e isso o surpreendeu.
– Mas o quê...
– Quando eles eram pequenos, Jay e Misha adoravam brincar de esconde-esconde. – Jeff explicou, sorrindo fracamente. – Eu, é claro, era o "pegador". Eles sumiam, sempre. Eu tinha de ficar horas andando por aí, procurando, mas nunca encontrei. Quando já tinham "mais idade", Misha e Jared me chamaram, porque diziam que queriam me mostrar uma coisa. Claro que, àquela altura, eu já tinha até esquecido dessas brincadeiras. Eles me disseram que sabiam onde poderiam se esconder, num lugar onde eu jamais os acharia. Onde eu já tinha encontrado, havia dois J entalhados, como que avisando que eu já tinha noção de onde ficava o esconderijo. Esse foi o único onde eu nunca, repito: nunca, consegui encontrá-los. Não porque não havia entrado, mas porque é extenso. Se você não souber para onde ir, pode acabar se perdendo numa câmara qualquer formada no decorrer do tempo.
–... Ele entrou aí há algum tempo. – Jensen admitiu meio a contragosto, ainda mais preocupado. – Você acha que existe a chance de ele ter esquecido o caminho?
Padalecki se virou para encará-lo, e então sacudiu os ombros, parecendo um pouco mais relaxado naquele momento, sorrindo enquanto se lembrava dos velhos tempos. Ackles nunca havia notado que ele também possuía covinhas. Deveria ser algo relacionado à genética, no fim das contas. Tanto faz.
– Collins, esquecer-se de alguma coisa? – Jeff acenou com a cabeça. – É praticamente impossível, mas há uma remota chance de isso acontecer... Jared disse que foi ele quem descobriu essa gruta.
O louro passou a mão pelas iniciais, sentindo a aspereza da rocha na ponta de seus dedos e sorrindo falhamente para si mesmo, tentando se convencer de que tudo estava bem. Não funcionou.
– Precisamos voltar para a casa. – Padalecki o surpreendeu com aquelas palavras, e o outro rapaz se virou para encará-lo. – Jay vai enlouquecer se não aparecermos por lá logo. Chris já deve aparecer por lá.
– Mas e Mish? – Jensen franziu o cenho, olhando para dentro da fresta escura. – Eu disse que iria esperá-lo até que retornasse...
– Seria melhor voltar. – Jeff discordou, mas sacudiu os ombros. – Agora, se você quiser esperar, quem sou eu para dizer o contrário? Encontramo-nos na casa, então.
– Eu... Não sei. – Ackles bagunçou o cabelo com as mãos. – Eu quero voltar, mas e se ele achar que eu o larguei aqui?
– É esse o problema? – o mais velho sorriu. – Então podemos cuidar disso agora!
O outro o fitou, sem entender, enquanto o moreno pegava alguma coisa em sua mochila; um isqueiro. Observou enquanto Padalecki pegava um canivete no bolso e se aproximava das iniciais cravadas na rocha. Ele escorregou a ponta da lâmina no lugar, trabalhando lentamente enquanto era encarado com curiosidade pelo louro, que não fazia nem a menor idéia do que ele planejava.
Jeff escreveu um cuidadoso JA, e, logo em seguida, usou o isqueiro para queimar as iniciais, causando um forte cheiro no ar. Imediatamente, Ackles se afastou, franzindo o cenho e fazendo uma carreta logo em seguida; ato que provocou um riso por parte de Padalecki.
– JA Home de Jensen Ackles, casa. – ele explicou, mantendo o sorriso. – Foi invenção do Jay, aquele teimoso, quando Misha inventou de explorarmos a gruta. Cravar iniciais em alguma coisa e queimar. Ele vai sentir o cheiro, que deve permanecer por algum tempo, e acredito que vá reconhecer o código. É o suficiente para você?
O mais novo o encarou, e, novamente, franziu o cenho. Perguntava-se mentalmente se era o único garoto que nunca havia feito nada do tipo com os amigos. Não que ele tivesse muitas amizades, mas eles não costumavam fazer coisas em grupo ou qualquer "bobagem divertida" que soasse daquela forma tão distraída e ao mesmo tempo nostálgica.
– Acho que sim. – sequer tentou forçar um sorriso; ainda estava pensativo demais para tal.
– Então vamos. O tempo passa e a gente nem vê.
Ackles seguiu Jeff em silêncio, tentando voltar sua atenção para a busca que não havia dado certo; quando entraram na trilha, lembrou-se de que ele e Misha não haviam se afastado muito da casa, principalmente pelo fato de ele não conhecer muito bem a floresta. "Não quero que se desespere se eu me machucar, e, além do mais, é uma medida de segurança", Collins alegou, quando lhe perguntou pela primeira vez o motivo daquilo. Mas estavam meio longe, sim. Há duas horas, no máximo, e uma e meia, no mínimo, se a caminhada fosse demasiadamente lenta.
Perguntou a si mesmo por que diabo Lauren sumiria sem deixar pistas. A conhecia há muito pouco, mas o suficiente para ter a certeza de que Cohan jamais o faria se algo sério não houvesse ocorrido consigo. Ela parecia tremendamente responsável, apesar de meio patricinha, incapaz de desaparecer sem deixar ao menos um papel dizendo onde havia ido. E, de acordo com Christian, dissera que voltaria logo para casa. Então por que não o fez?
Mordeu o lábio enquanto acelerava o ritmo para acompanhar Padalecki, tentando associar um fato a outro, interligando todas as informações que conseguisse recordar, para formar uma espécie de mosaico e tirar alguma conclusão a respeito do assunto. Era sua maneira de pensar, sua maneira de sentir que poderia fazer algo para ajudar; algo que não se resumia apenas em encontrar uma ligação naquilo tudo, como também achar o lugar onde ela possivelmente estaria enquanto calculava o tempo necessário para alcançar as localidades mais próximas nas quais, alguém poderia se abrigar.
Era complicado, mas não menos importante do que a ação.
Mas talvez estivesse sendo precipitado demais. Não havia nenhuma prova concreta de que Cohan havia se perdido. E se fosse algum outro fator, como um animal ou algum... Psicopata, talvez? A hipótese fez com que os pelos de sua nuca se arrepiassem, e Jensen sacudiu a cabeça, incrédulo, mas não menos curioso com a idéia que acabara de lhe ocorrer. O ritmo de sua caminhada diminuiu um pouco enquanto calculava, consigo mesmo e silenciosamente, durante quanto tempo a menina havia desaparecido. Encaixou até mesmo Mark, Justin e Sandra na equação. Porque, no fim das contas — por bem ou por mal —, eles também faziam parte daquilo tudo.
E então, fez-se o quebra-cabeça em sua mente.
[...]
Enquanto se aproximavam da casa, sentiu a garganta repentinamente seca, o ar lhe faltando nos pulmões. Durante aquele tempo, havia feito todos os "mosaicos" possíveis, todos os cálculos, juntado todas as hipóteses que sua mente conseguiu imaginar; mesmo que uma ainda pouco provável. E nenhuma era nem um pouco reconfortante. Na verdade, elas faziam com que ele se sentisse cada vez pior, mas se manteve em silêncio, sem dizer absolutamente nada, sem olhar ao redor, porque sabia que aquilo o iria sobressaltar e chamar atenção. Negava-se veementemente a compreender uma das idéias que lhe ocorreu. Algo insano, onde faltava um único fato para chegar a uma conclusão.
Jensen sentia o coração bater célere no peito, muito embora não soubesse o motivo. Na verdade, até sabia, mas não tinha a menor intenção de acreditar. As mãos começaram a suar quando entrou na casa, e sua expressão contorceu-se em surpresa quando percebeu que o lugar parecia ainda mais abandonado que nunca; silencioso, com todas as janelas e cortinas fechadas. Voltou os olhos para Jeffrey, entreabrindo os lábios para dizer alguma coisa — qualquer coisa —, mas as palavras morreram em sua garganta antes que tivesse coragem o suficiente para proferi-las.
Padalecki sorriu sinistramente, enquanto trancava a porta.
– Eu realmente desejava não ter de fazer isso, de verdade... Mas, já que estamos aqui, por que não aproveitar essa chance? A matilha não vai brigar comigo, até porque não existe essa possibilidade... Você não vai sair vivo daqui, de qualquer forma.
... E foi aí que a última peça do quebra-cabeça se encaixou.
– Sinto muito, Jensen.
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*Quando eles tinham pouco mais de quatro anos e começaram a surgir os "Porquês" da vida, Lauren gostava de passar o tempo observando a empregada cozinhar. Num dia, quando a mulher chorou enquanto cortava uma cebola, a menina perguntou o motivo, querendo saber se era triste talhar um vegetal. A empregada, sorrindo, explicou para Cohan que, na verdade, era uma substância da cebola que fazia os olhos arderem, e, consequentemente, vinham as lágrimas. Mas ela era pequena demais para entender o que aquilo significava, então concluiu, por si só (e com a imaginação ainda demasiadamente fértil), que aquele vegetal era muito tristonho, e, a cada vez que uma nova rodela saia, ele dispersava essa tristeza, fazendo com que os outros chorassem. Associou uma coisa a outra; simples assim.
O tempo passou, e passou, e até os dias atuais, Lauren chama de "cebola" aqueles que demonstram uma melancolia estranha, ou quando quer puxar o saco dos colegas, apenas pelo fato de no passado ter ligado tristeza ao vegetal, mesmo que não faça o menor sentido para quem ouve de fora.
