Capítulo XVI — Argutiæ — Jogo de palavras
Quando Misha saiu da gruta novamente, no primeiro momento, pareceu-lhe que o mundo havia congelado. Prendeu a respiração por meio segundo antes de balbuciar qualquer coisa incoerente e olhar ao redor. Não viu Jensen em lugar nenhum, e isso por si só já foi o suficiente para que parecesse que coração estava sendo fortemente apertado por uma mão invisível. Logo em seguida, foi arrebatado por um mau pressentimento com relação àquilo, e sentiu o cheiro leve de queimada no ar. Seus olhos imediatamente procuraram a inscrição na rocha, e, ao tocá-la, percebeu que já estava fria.
Suas pálpebras se fecharam por um longo instante, no qual suspirou cansado, e, logo em seguida, ao ler o que ali estava escrito, uma vez que não deu atenção para as palavras, a princípio, arquejou. Era a mesma sensação de levar um murro no estômago, e, por um instante, o ar lhe faltou completamente; sufocando-o de maneira tortuosa.
"JA → Home" era o que estava escrito, e seu cérebro decodificou a mensagem em questão de segundos, o que não adiantou em nada para diminuir seu medo. Jensen voltara? Como? Com quem? E com que Inferno ele descobrira a maneira certa de se usar o código? Collins conteve todas aquelas perguntas enquanto começava a correr em direção a casa, jogando a mochila num canto qualquer; não precisava dela e sabia disso, só havia aceitado para que Jared se sentisse melhor com a situação. Os olhos corriam de um lado a outro, captando os menores movimentos enquanto a pulsação acelerava, mas não se atreveu a parar para ter qualquer tipo de certeza.
A floresta parecia estranhamente ameaçadora à noite. Como se estivesse dizendo que iria machucá-lo, como se lhe confessasse algum tipo de segredo macabro que o impediria de ir embora. Os ruídos habituais se mesclavam ao restante, e o fato de a brisa lhe soprar ao ouvido palavras que não podia entender tinha em conseqüência um calafrio que lhe arrepiava a pele e o alarmava internamente.
Um fato interessante era que a lua ainda estava encoberta pelas nuvens.
Como se fechasse os olhos para não ver o rumo que a aventura tomaria.
X-x-x-x—x-x-x-X
– Você pode me explicar isso direito? – Jared quebrou o silêncio quando sabia que eles estavam a apenas alguns minutos de distância da casa, colocando as mãos nos bolsos. – Disse que a vida de meus amigos estava correndo perigo...
– E está. – Danneel se virou para encará-lo, e lhe parecia que estava assustada. – Olha, acredite em mim ou não, existe algo nessa floresta. Alguma coisa maligna, que não gosta de nada, nem ninguém.
Padalecki franziu o cenho, diminuindo o ritmo da caminhada, e, logo em seguida, jogou toda a cautela para o alto, segurando o braço da ruiva e fazendo com que ela parasse para olhá-lo, sem entender absolutamente nada do que se passava dentro de sua cabeça. O moreno estava confuso, irritado, com os nervos já à flor da pele; inquieto com toda aquela situação. Harris, em compensação, entraria em pânico a qualquer momento. Sentia as mãos tremendo, e mordia o lábio inferior o tempo todo, tentando pensar. Afinal, queria ajudar, mas não havia bolado nenhum plano — na verdade, sequer cogitara a hipótese —, para o caso de eles precisarem se esconder na floresta por algum tempo. Agora, sua cabeça trabalhava "a mil por hora", tentando encontrar uma solução plausível para o desfecho daquela atitude insana.
– Explique. – o rapaz exigiu num tom que não admitia uma negação. – Explique direito, e, não, eu não me importo com o tempo que vai durar. Diga-me por que está aqui, quem é você e o que quer.
Aquilo arrancou uma careta da ruiva, mas Jared não se importava tanto. Queria respostas. Queria saber o motivo de a garota parecer tão obstinada a impedir o que quer que esteja acontecendo, mesmo que seu medo estivesse tão aparente que ele sentia pena de levá-la até onde a menina havia pedido.
– Eu já disse. – mas ela se mostrou irredutível e irônica. – Sou Danneel Harris, quero encontrar meu melhor amigo, Jensen, e vim porque não quero que mais ninguém morra. Agora, podemos ir?
Padalecki trincou os dentes, igualmente irritado com a situação. Simplesmente não processava aquela idéia com tanta naturalidade. Afinal, quem o faria? Qualquer um teria uma reação igual, se não pior, que a dele. Talvez até chamassem Danneel de louca, ou a internassem num manicômio. Não fazia diferença, de qualquer forma.
– Não. – o moreno cruzou os braços, e repetiu: – Explique.
Harris bufou de raiva, e seus olhos correram pela floresta, como se cogitasse a hipótese de acertá-lo na cabeça com alguma coisa bem dura e logo em seguida fugir. Mas logo reconsiderou o fato, e, suspirando, ergueu o queixo para encará-lo; como se o desafiasse a contradizer qualquer palavra que saísse de seus lábios rosados. O rapaz esperou.
– Depois, não me diga que eu não avisei. – sem esperar por uma resposta, ela prosseguiu numa enxurrada de palavras: – Ok, você quer a verdade, seu velho ranzinza? Eu vou te dizer a verdade, Jared Tristan Padalecki. Sabe aqueles seus amigos que desapareceram? Esses já estão mortos. É tarde demais para eles, meu bem. Então, a menos que você queira impedir que um bando de humanos meio lobos malditos acabe com tudo aquilo que você chama de seu, eu diria que é melhor parar de fazer perguntas idiotas e seguir em frente de uma vez, porque, caso não tenha percebido, a lua já está no céu, mesmo que encoberta por nuvens, e eu acredito que isso não vá ajudar em nada para impedir que eles se transformem. Que tal me ouvir e poupar a vida de quem ainda a tem?
Jared a encarou por diversos segundos, piscando, sem ter uma reação, e então, logo em seguida, seus olhos se arregalaram e ele se afastou alguns passos, franzindo o cenho. Parecia dividido entre a vontade de rir, o choque e o nervosismo. Sua careta fez com que a ruiva tivesse vontade de lhe sorrir, mas ela não o fez em conseqüência da seriedade da situação.
– Humanos meio lobos? Lua cheia? Como assim Justin, Mark e Sandra estão mortos? – o moreno atirou as mãos para o alto, inquieto. – Está louca?!
Foi a vez de Danneel trincar os dentes, encarando-o com raiva e lhe cutucando o peito com força. Estava cansada. Cansada de ouvir que era louca, estava cansada de ouvir que aquilo que pensava não fazia o menor sentido. Cansada de ser ignorada enquanto as pessoas agissem como se fosse alguma maluca ou uma garota profundamente perturbada. Jared teve a mesma reação que os oficiais, quando tentou lhes dizer o que havia acontecido na floresta. Aquela podia não ser a intenção do rapaz, mas aquilo a afetara diretamente no âmago; como uma bofetada em seu amor-próprio.
– Escuta aqui, seu babaca: seus amigos estão desaparecendo, você está assustado, ninguém sabe o que está acontecendo, e eu aqui tentando ajudar um bando de idiotas que mal conheço, por causa de uma burrice quando falei com meu melhor amigo no celular! Então não venha me dizer que eu estou louca ou qualquer coisa do tipo, porque você está passando por essa situação agora, e eu sei o quanto é ruim, mas, já que você não quer me ouvir, o que eu posso fazer?! – quanto mais ele recuava, mais a ruiva avançava, até que o rapaz se visse preso entre uma árvore e Harris furiosa. – Nunca se perguntou o que está acontecendo aqui, Jared, com todos esses desaparecimentos e mortes? Nunca teve a impressão de que existe algo de errado com a floresta? Você nunca teve medo da natureza, nunca teve medo dos animais?... Não se lembra de nenhum incidente que tenha acontecido, no qual você pode jurar que havia algo mais, mas foi ignorado por todos aqueles nos quais confiou o suficiente para contar alguma coisa, e depois foi ignorado?
Padalecki não respondeu, sentindo-se sufocar. Estava tão branco, que Danneel se perguntou se não havia pegado pesado demais com o palavreado ou com a maneira cuja qual utilizara para dizer aquelas palavras. Apesar de estar furiosa, ainda queria ajudar, mesmo que ele não quisesse. Quando o moreno baixou os olhos para o chão e lhe afastou um pouco, a garota mordeu o lábio inferior, observando enquanto ele andava em círculos; dividido entre a vontade de sair dali e largá-la sozinha enquanto ia para a cidade novamente, e o intuito de voltar para casa apenas para checar se todos os amigos e o irmão estavam bem.
– Desculpe. – quando ergueu os olhos para encará-la, Jared se sentia ligeiramente envergonhado pelo comportamento anterior. – O que você pretende fazer? O que está acontecendo, por que aqui, por que agora?... E a última, mas não menos importante: por que nós?
– Está querendo saber por que eu quero ajudar? – a garota franziu o cenho, e recebeu um aceno negativo em resposta.
– Não. Eu quero saber por que nós temos de passar por isso. O que fizemos? E... O que diabo você quis dizer com "humano meio lobo"?
Harris pensou na melhor maneira de responder àquelas perguntas, mesmo que não soubesse o que dizer em relação a algumas. E eles ficaram assim, encarando-se mutuamente, por alguns minutos, até a ruiva decidir o que iria fazer. Mas o fato era: não podia fazer absolutamente nada. Nenhum deles podia. Eles tentariam, pela vida de todos aqueles a quem prezavam, mas aquilo podia não valer nada. Começaria, então, pela verdade.
Toda ela.
– Eu não sei Jared. – sacudiu a cabeça. – Eu não sei, talvez porque não deva saber. Talvez porque não deveria estar aqui, viva. Há quatro anos, quando eu tinha quatorze, vim acampar com minhas amigas, Adrianne e Julia. Nós passamos por essa mesma situação, por esse mesmo problema. E sabe por quê? Adrianne estava grávida, e abortou porque acreditava que nós iríamos abandoná-la numa situação dessas. E, tentando manter esse segredo, entrou em contato com alguém, por meio de ligações, enquanto nós acampávamos. – tinha de agradecer a Thomas por ter lhe contado aquilo, mas poderia fazê-lo depois. – Eu não sei como, uma vez que nenhum celular tinha sinal no meio da mata. Acho que a manipularam, e ela nos manipulou. E então, um por um, todos eles foram embora. E, quando chegou a nossa vez, a de nós três, eles apareceram. Homens, que eu não me lembro nunca de ter visto. E sabe o que eles disseram; Padalecki? Eles brincaram conosco. Eles gostaram de ver que estávamos assustadas, gostaram de ver a maneira como tentávamos proteger umas as outras. E o que aconteceu? Eles nos trancaram num quarto, para que a noite chegasse. Quando eu perguntei o motivo de eles não nos matarem logo, sabe o que um deles me disse? "Gostamos de carne fresca". – esfregou os olhos com o nó dos dedos, tentando evitar as lágrimas. – Àquela altura, pode imaginar o quão machucadas estávamos. Andando por aí, fugindo pela floresta, fugindo de um inimigo invisível, não poderíamos ter ido muito longe. E nenhuma de nós estava pronta para aquilo, então não sabíamos nem mesmo a direção que deveríamos tomar para escapar desse lugar. Adrianne... Ela contou a verdade. Nós estávamos encolhidas na cama, e a Julia estava chorando. Foi quando ela também começou a chorar, e falou tanto, tanto, tanto... Você sabe como é isso, Jared? Sabe como é ouvir aquelas mesmas palavras, o tempo todo, todo o tempo, martelando dentro da sua cabeça?
Padalecki ouvia com atenção tudo o que lhe era dito, tentando absorver cada palavra e cada informação o máximo que pudesse, mesmo que tudo estivesse um caos em sua cabeça. Mas não. Ele tinha de manter a calma. Ele precisava manter a calma, porque, caso surtasse ali, naquele momento, em nada poderia ajudar seus amigos. Misha, Jeff, Jensen, Christian... Todos eles estavam correndo perigo. Todos. Sem exceção. E isso era o suficiente para conter aquela desordem em seus pensamentos.
– Julia tinha um grampo. – Danneel riu antes de soluçar. – Nós estávamos morrendo, e ela tinha aquele maldito grampo no cabelo! Elas abriram a janela, e iríamos fugir. Mas doía muito. Doía quando nos mexíamos, no corpo todo. E sabe quem era a única que ainda conseguia fazer alguma coisa sem reclamar de dor o tempo todo? Isso mesmo: eu. Eu tive de sair por aquela janela, mas não porque não queria ajudá-las, e sim por medo. Medo de me machucar. Medo de morrer. E sabe o que aconteceu? Eu as ouvi gritar quando eles voltaram. Então, corri. Corri para me esconder apenas por tempo o suficiente para sair dessa floresta maldita. Foi mais ou menos aí que me pegaram. – secou as lágrimas que caíam e franziu o cenho, irritada consigo mesma. – Eu acho que bati a cabeça, ou qualquer coisa do tipo. Quando acordei, adivinha? Estava deitada à beira da estrada, rodeada de gente, e todas essas pessoas ficavam me fazendo perguntas esquisitas. Todas, sem exceção. E eu não faço a menor idéia do motivo pelo qual "eles" me deixaram viver. Apaguei de novo, e logo em seguida estava no hospital.
Jared a observou enquanto Harris esfregava os olhos com o nó dos dedos, e logo a garota erguia o rosto para encará-lo de frente.
– Eu não quero que ninguém passe pelo que eu passei. E não quero que ninguém sofra o que eu sofri. – ela se virou para a trilha. – Quero que isso termine. Quero ver meu melhor amigo bem; quero vê-lo vivo. E se para isso eu precisar aturar você, se você precisar me aturar, então, sim, eu não vejo problema nenhum em fazê-lo. Até porque duvido que você não tenha ninguém importante nessa droga de lugar e não queira protegê-lo.
O moreno ainda conseguiu sorrir fracamente quando colocou a mão no ombro da ruiva e ela o fitou, sem entender o que ele tentava dizer.
– Não faço a menor idéia de como eu estou acreditando nessa loucura toda, mas... Vamos. Sejamos loucos juntos, então.
– Se "nossos" amigos não estivessem morrendo e se essa situação já não fosse bizarra o suficiente... – Danneel arqueou uma sobrancelha. – Eu juraria que você está me cantando.
– Tanto faz. – Padalecki deu de ombros, voltando a caminhar, e, dessa vez, mais rapidamente, mas não conseguiu conter a língua. – Entenda como quiser.
E, como se já não bastasse todos aqueles problemas, a situação tensa, os inocentes em jogo, agora Harris tinha mais essa para decifrar.
Eu só ferro com a minha vida mesmo!
X-x-x-x—x-x-x-X
Um estalido agudo, e, logo em seguida, a dor o tomou tão furiosamente que quase não conseguiu conter o grito de dor. Mordeu o lábio inferior na falha tentativa de amenizar aquele sofrimento, enquanto sentia o vento lhe fustigar a face com força. A lua podia estar encoberta, mas sabia que não tinha muito tempo antes da transformação, e isso não ajudou em nada a fazer com que se sentisse melhor. Na verdade, interiormente, torcia para que as nuvens fossem embora de uma vez.
Um uivo cortou o ar, e ele teve a certeza:
A caçada havia começado.
