Bem, foi até esse que eu escrevi, queridos! Espero que curtam bastante a desenvoltura (E roam as unhas! [risos]) até o próximo.
Beijos e boa leitura! ;)
Capítulo XVII — Fuga
Jensen não fazia a menor idéia do que estava acontecendo quando Jeff o levou para um dos quartos do andar térreo e praticamente o jogou lá dentro, mas tinha a certeza de que aquilo era potencialmente perigoso. Sentia-se como uma criança quando se encolheu num dos cantos do cômodo, sentando-se no chão e abraçando os joelhos enquanto encarava o mais velho com raiva. Não sabia como Padalecki estava envolvido com aquilo tudo, mas tinha certeza, agora, de que o circo finalmente estava começando a pegar fogo.
Isso se já não estivesse carbonizado.
– Por que está fazendo isso? – estranhamente, mesmo com o caos em sua cabeça, conseguiu manter a voz indiferente, quase sorrindo ao receber um olhar surpreso do outro. – Por que está matando essa gente?... Não são seus amigos, não são seus parentes?... Eles não são importantes para você?
O moreno arqueou uma sobrancelha com ironia, recostado na porta, mesmo que tivesse a certeza de que Ackles não tentaria fugir. E, de fato, a hipótese sequer passara pela cabeça do louro. Estava assustado, surpreso, confuso? Claro que estava. Mas também estava curioso. Queria saber o motivo de Jeff estar agindo daquela maneira, fazendo o que quer que estivesse fazendo com o restante desaparecido daquela turma. Queria entender o que se passava em sua cabeça, entender os motivos que o haviam levado a agir daquela maneira.
– Gosta de lendas, Jensen? – Padalecki o encarou, esperando por uma resposta, mas nada veio além de um olhar vazio, e ele sorriu enquanto puxava uma cadeira para que pudesse se sentar, sem tirar os olhos do mais novo; estranhamente, lembrava Ackles dos predadores da floresta. –... Então eu vou te contar um segredinho, se me prometer que será um bom garoto: elas existem. Claro que... Algumas são apenas invenções de Hollywood, mas, no geral, é isso. Licantropia?... Ela existe, e mais: não tem cura. E, sabe, depois de algum tempo... Você aprende a gostar disso. Você aprende a apreciar a caça. Aprende a desejar todo tipo de presa que puder ter... E não existe sensação melhor do que vê-la gritar, depois, quando percebe que não existe maneira de escapar.
O sorriso sádico que se seguiu fez com que um calafrio percorresse o louro, que se controlou para não parecer um garotinho assustado. Mas era difícil. Difícil manter aquela pose que nunca havia tido. Principalmente para Jeff, alguém que parecia conhecê-lo tão bem, mesmo que, na verdade, eles só houvessem se tornado "amigos" há seis dias; praticamente uma semana. Não era o suficiente nem mesmo para que Ackles conseguisse decifrar as manias de algumas pessoas, que dirá conhecê-las o suficiente para agir daquela forma. Padalecki, por outro lado, parecia saber o suficiente de si para entender o significado de suas atitudes. E, a julgar por sua expressão doentiamente travessa, essa opção era a mais provável.
– Sabe, cara, eu gostei de você. – o moreno virou um pouco o rosto, avaliando-o com o olhar, e, logo em seguida, um sorrisinho tétrico surgiu em seus lábios. –... Mas só agora entendo o motivo pelo qual Misha o levou para a cama.
Jensen não conseguiu evitar corar furiosamente, dividido entre o choque e a vergonha. Queria ter um buraco para enfiar a cara naquele momento; não apenas por sua reação, que provocou um riso maldoso por parte do outro, mas também por compreender o significado daquelas palavras. E não era apenas a vergonha. Não. Se fosse isso, não se importaria tanto com a maneira com a qual seu coração batia acelerado. Mas precisava incluir a raiva na equação, precisava incluir a dor que o tomou quando aquelas palavras finalmente fizeram sentido, segundos depois de aquela frase ser proferida.
– Está mentindo. – odiou-se por gaguejar, e ficou ainda mais vermelho, mas, dessa vez, por raiva.
– Não estou. – Jeff cantarolou, ainda sorrindo. – E você sabe disso, não é?... Sabe que ele iria descartá-lo logo em seguida, mas, com o sumiço da Lauren, as coisas ficaram um pouco complicadas, principalmente agora que Jared já sabe... Não é mesmo; Jenny-Boy?
Ackles prendeu a respiração, fechando os olhos com força quando o apelido carinhoso foi usado como forma de deboche. Isso fez com que Padalecki risse de sua reação, fazendo com que ele sentisse o rosto queimar pela timidez; mesmo que não de um jeito bom.
Você sabe que não é verdade, pensou consigo mesmo enquanto tapava os ouvidos com as mãos e mordia o lábio inferior com força. Sabe que ele está mentindo. Então pare! Pare de tremer, pare de agir exatamente da maneira que ele espera que você aja. Você sabe que isso é uma mentira. Sabe que Misha nunca mentiria dessa forma...
"Eu te amo", as palavras clarearam sua mente, fazendo com que a crise passasse, e pudesse respirar com mais facilidade outra vez. Quando ergueu o rosto novamente, Jeff já não mais sorria, talvez pelo fato de que não estivesse mais se divertindo com aquela situação. Ou apenas pelo prazer de saber que ainda poderia abalar psicologicamente o rapaz; de muitas outras maneiras, de muitas outras formas, usando muitas outras palavras. E eles ainda tinham grande parte da noite, apesar de sentir que seu controle sobre a "fera" era superficial.
Jensen virou o rosto para encarar a janela trancada, sentindo que poderia enlouquecer daquela forma. Quando suspirou, atraiu o olhar de Padalecki, que pareceu finalmente ter uma idéia de como poderia fazer para abalá-lo novamente. E isso provocou outro arrepio no louro, que respirou profundamente antes de voltar seus olhos para o moreno.
E ele não gostou nem um pouco do que viu.
– Relaxa e curte a noite, Jensen... Porque ela ainda está muito longe de acabar...
[...]
Jared tinha a nítida impressão de que nada estava no lugar em que deveria, e essa impressão só aumentava de acordo com os minutos, que pareciam demorar muito mais do que o normal. Também era difícil enxergar alguma coisa, pois agora o céu já estava escuro o bastante para que apenas a lua iluminasse o caminho. Ele tentava entender por que ainda não havia simplesmente jogado tudo para o alto, por que não havia falado que aquilo era insanidade, algo completamente impossível.
Porque, afinal de contas, era não era...?
– Por favor, diga que você não está pensando em voltar atrás. – Danneel interrompeu sua linha de devaneios, e o moreno voltou os olhos claros para encará-la.
– Dê-me cinco segundos. – Padalecki respirou fundo, levando as mãos ao cabelo e bagunçando os fios já rebeldes, tentando formular uma resposta que não soasse mentirosa. – Sem pânico. Eu só... Preciso pensar um pouco, tá legal?
Eles seguiram em absoluta tensão, prontos para encontrar qualquer coisa pelo caminho, mas a taciturnidade era pior do que a balbúrdia. Era pior, porque não sabiam o que conseguiriam suportar. Não sabiam se estavam verdadeiramente preparados para enfrentar o que quer que estivesse dentro daquela floresta, isso se houvesse alguma coisa. O moreno mordia o lábio inferior, e a menina não sabia muito bem o que deveria dizer.
– Sei que isso parece loucura... – Harris tocou seu braço, num breve consolo. – Sei também que você deve estar se perguntando por que motivo ainda não ligou para a polícia, ou me mandou para um manicômio. Mas você quer mesmo saber, Jared?... Você sabe, não é?... Mesmo que não conscientemente, você tem a noção de que isso tudo é real. Você simplesmente não consegue acreditar o contrário, por mais que esteja se esforçando, e eu consigo ver isso.
– Você não sabe. – o rapaz ficou pálido, e suas mãos se fecharam em punhos. – Você não tem idéia do que eu... Não tem a menor noção...
Ela fechou os olhos com força, tentando encontrar palavras o suficiente para se expressar, mas, antes mesmo de começar, sabia que não conseguiria. Padalecki ainda parecia irritado. Falavam em voz baixa, mas a moça tinha a impressão de que, mesmo se gritassem, aquilo de nada adiantaria. Eles não se ouviriam mutuamente. Eles não dariam atenção um ao outro; sempre tentariam fazer da forma que acreditavam estar correta. Ou eram demasiadamente diferentes, ou eram muito iguais. Muito orgulhosos, sempre achando que deveriam ser ouvidos. Definitivamente, aquela seria uma pedra no sapato. Uma pedra bem grande e difícil de tirar.
Afinal de contas, ninguém daria o braço a torcer.
Pelo menos, não ainda.
– Eu só estou tentando dizer que talvez possamos fazer algo a respeito. – a ruiva se apressou a interrompê-lo, mesmo que ele estivesse afastado, arredio. – Só estou dizendo que... Você pode, sim, ter passado por uma situação parecida, mesmo que não queria dizer nada... Mas, se chegarmos àquela casa e não houver ninguém nela... Você vai saber que eu estive certa desde o começo...
As palavras morreram em sua boca antes que pudesse prosseguir, até porque nem mesmo Harris acreditava nelas. Quando olhou ao redor, buscando algum tipo de conforto consigo mesma, percebeu que precisariam de mais tempo para se habituar um ao outro, mas que ainda não confiavam o suficiente em si mesmos para fazer qualquer coisa a respeito de si próprios.
– Eu ainda não entendo... – Jared balbuciou num tom fraco, e sentia o nó em sua garganta. – Era pra ser só um acampamento de verão. Era... Porra, era pra ser algo perfeito!
Diante aquele argumento, ela não tinha nada a dizer. Porque sabia, sim, como ele se sentia. Tinha noção do quão desesperador era, saber que alguém estava correndo um grande perigo, e também ter a certeza de que talvez ninguém pudesse fazer nada para evitar. Sabia que era uma sensação sufocante, de impotência. Como se estivessem duvidando de sua capacidade, debochando.
Como se fosse uma brincadeira cruel do destino, conhecer alguém em uma situação tão complicada. Não era só fazer uma piada, não era só sorrir e esperar que tudo terminasse bem. Ali, eles eram os roteiristas. Eram eles quem decidiam o que iria ser da história, o que aconteceria. Se alguém desistisse, as coisas não iriam dar certo; simples assim. Cada um precisava fazer sua parte, cada um precisava seguir seu caminho, fazer suas escolhas, porque era isso que iria compor cada pedacinho de suas vidas, mesmo que agora estivessem comprometidos com algo que provavelmente nunca daria certo.
E Jared estava confuso. Estava confuso porque acreditava em Harris, mesmo que não completamente. Estava confuso porque não sabia qual seria seu papel, não tinha a menor idéia do que deveria fazer para ajudar, mesmo que minimamente. Eles poderiam morrer, de uma forma de outra. Por que a vida havia mudado tanto, e tão de repente?
Em silêncio, Danneel simplesmente colocou a mão no ombro de Padalecki, suspirando longamente antes de sussurrar num tom baixo:
– Fique calmo, ok? Nós vamos cuidar disso... Eu prometo.
[...]
Jensen encolheu-se contra o canto da parede, sentindo um arrepio lhe correr a espinha ao observar Jeff do outro lado do quarto, brincando com uma faca; cuja lâmina parecia reluzir, mesmo sob a fraca luz do aposento. O maxilar ardia, e ainda estava um pouco atordoado em conseqüência do murro que o moreno lhe acertara quando tentou se aproximar e Ackles recuou; talvez por diversão, talvez sem nenhum motivo em especial. Fosse como fosse, ele não queria descobrir. Mas, apesar de ter plena consciência de que só precisava se concentrar para conseguir respirar, aquilo o estava sufocando.
–... Por que não me mata de uma vez? – a voz soou rouca pelo nervosismo, recebendo um olhar travesso de Padalecki.
A verdade é que estava com medo. Sim, e não tinha vergonha de admiti-lo. Quem em sua situação não estaria? Em total pânico, e isso parecia agradar ao mais velho. Queria sair dali, queria voltar para casa. Queria saber onde estava Misha, onde estavam todos os outros. Queria apenas ter a certeza de que poderia sair daquele pesadelo e ver todos eles vivos. Em que raio se metera, afinal de contas? Aquilo deveria ser apenas um acampamento de verão, ora essa...
– Eu não vou te matar.
Jensen o encarou de maneira tão cética, que aquilo arrancou uma alta gargalhada do moreno.
– Não agora, pelo menos... Gostamos de carne fresca.
