Beta: Alice Harvey

Então... Mais mudanças! [risos] Agradecendo especialmente à Alice, por ter aceitado ser minha beta, e aos que leram e comentaram!

Espero que gostem! Beijos e boa leitura!

P.S.: respostas aos reviews no final do capítulo, porque ocuparia muito espaço por aqui. [risos]

Capítulo 2 — Hells Bells — Sinos do Inferno

Ele riu feito uma criança quando a primeira navalha pairou alguns centímetros acima da mesa num entusiasmo inocente que não lhe era comum, os olhos azuis brilhando animados. Contrariando todas as probabilidades, ali estava o loiro, fascinado, fitando o objeto que reluzia fracamente no aposento pouco iluminado que era aquela sala.

Amordaçada no canto mais sombrio daquela sala fria e úmida, uma pessoa se debatia em desespero, incapaz de vê-lo ou tocá-lo, mesmo que pudesse sentir sua presença, mas os movimentos eram plenamente ignorados pelo rapaz, que ainda observava as navalhas sobre a mesa ao mesmo tempo em que se deliciava pelo medo de sua vítima, afinal, qual seria a graça de torturar fisicamente, se seu psicológico não o estivesse? Ele perscrutou os diversos tipos de lâmina, repentinamente interessado no fio de corte de cada uma delas, planejando testá-las em breve na carne macia que se debatia logo atrás de si. Umedeceu os lábios com a ponta de sua língua escarlate, e ergueu um dedo na direção do teto, como se pedisse permissão para fazer alguma coisa.

Mais uma risada, porém, dessa vez, meio debochada.

E outras navalhas se ergueram.

O sorriso se esticou até parecer suturado em seu rosto, de maneira nem um pouco natural, como se fosse um lindo boneco de cera.

Let's play!

X-x-x-x—x-x-x-x-X

Balançou a cabeça ao ritmo da música de 30 Seconds to Mars que ouvia nos fones do celular, a expressão irritada, os olhos fechados, os dedos se chocando na coxa de maneira cadenciada ao baixo som da batida. Sentia como se estivesse acabado de receber um murro no estômago, e o pouco e claustrofóbico espaço dentro daquele carro não ajudava em nada a melhorar seu humor já afetado pelas três horas de puro aborrecimento com o restante da família. Sentia-se ferido, machucado. Magoado. Sua cabeça simplesmente se negava a processar a hipótese de mudar de cidade. Não queria se mudar de um lugar com pessoas civilizadas para o meio do nada onde só havia caipiras. Era algo que não podia aceitar, e não queria entender.

– Por que mesmo estamos nos mudando? – a pergunta da irmã mais nova, Meg, o retirou de seus devaneios, e ele desligou o aparelho para poder ouvi-la.

Ela parecia partilhar de seus pensamentos, e Jared agradeceu aos céus pela morena não ser como o restante do mundo, mesmo que por motivos completamente diferentes. Padalecki era um adolescente indisciplinável e irredutível de dezessete anos, para o desespero de ambos os pais, ao ponto em que ela... Bem, ela era a caçula, sempre recebia mais atenção, sempre era ouvida, enfim, era a mais "mimada", a princesinha da família. A única coisa que tinham em comum, pelo menos em aparência, eram os olhos claros, ora verdes, ora azuis, e as covinhas que apareciam todas as vezes nas quais sorriam.

Agora, ela o surpreendia com aquela pergunta. Uma vez que, no geral, era o rapaz que se mostrava o mais propenso ao preconceito quando se tratava de novas amizades, novos ares, novos conhecimentos. Não era como se ele de fato tivesse tanto problema com outras pessoas, mas após tantas mudanças, tantas coisas perdidas no decorrer dos anos, já estava habituado a ser cínico, mesmo que aquilo não fizesse parte de sua personalidade, e sim do ambiente no qual foi criado. O moreno percebia que se tornara difícil não agir daquela maneira, mesmo quando não tinha nenhuma intenção de magoar ou ferir as outras pessoas com suas atitudes.

Nunca sequer cogitou a hipótese de que Megan pudesse ter um lado rebelde, mesmo que aquela situação fosse realmente um pé no saco.

– Eu gostava da nossa antiga cidade... – disse a menina com a voz desanimada e tristonha, o rosto emburrado apoiado no punho fechado, observando com um olhar indiferente o pacato movimento das árvores pela janela de vidro com insulfilm.

A mãe, Sharon, suspirou pesadamente antes de massagear as têmporas. Para ela, era muito mais simples lidar com Jared, que não tinha vergonha de simplesmente sair por aí gritando e formando uma verdadeira balbúrdia; era indomável, incontrolável, chegava a ser bruto quando perdia o controle... A filha, por outro lado, "agia silenciosamente". Não como se não se importasse, mas simplesmente se negando a dizer algo sobre o assunto. E isso era infinitamente pior, já que acabava não dizendo nada a respeito do assunto, guardando as opiniões apenas para si.

Mas não lhes tirava a razão, de maneira alguma. Soltara a notícia no último segundo, e ali estavam as complexas conseqüências, desdobrando-se como um grande tapete vermelho, repleto de falhas, repleto de outras distantes cores que mostravam que as coisas não estavam nada bem para nenhum dos lados.

– Não vamos mais falar sobre isso. – Gerald findou a discussão antes mesmo que ela se iniciasse de verdade, e seu primogênito bufou de irritação. – Isso vai ser melhor para todos nós, Jared, Meg... Tentem entender, por favor.

Padalecki revirou os olhos, dividido entre a incredulidade e a descrença. Realmente não acreditava que o pai estivesse dizendo aquilo justamente para ele. Depois de praticamente obrigar o filho a ir morar em Minneapolis, ele simplesmente decidia que iriam morar em Virgínia; quando o garoto finalmente se habituara a morar naquela cidade. E Virgínia não era, nem de longe, parecida com a anterior. A diferença entre habitantes chegava a ser brutal de tão absurda, entre 374028 a mais para Minneapolis, e isso imediatamente o deixava tenso. Numa cidade pequena como aquela, era provável que todas as pessoas haviam nascido e crescido juntas, então como poderia se acostumar? Seria apenas um desconhecido naquele lugar... Um estranho do qual desconfiariam eternamente, até que se provasse digno de alguma coisa que não fofocas.

Eu odeio me sentir assim...

[...]

Os olhos claros se detiveram na estalagem, críticos e talvez até demasiadamente furiosos. Era um lugar um tanto quanto simples, com alguns andares, a pintura amarelada descascando e uma chaminé fumegante. Porém, não era isso que o irritava, nem de longe. Não era a modéstia do lugar, mas sim o fato de saber que seus pais sequer se importaram o suficiente para alertá-lo que não teriam uma casa de verdade até Gerald ganhar mais estabilidade no emprego e poder pagar pelo menos algo mais privado. Isso era algo que o enfurecia tanto quanto o magoava: ser tratado como uma criança. Às vezes, chegava até a admitir que cometia algumas infantilidades, mas já era crescido e maduro o suficiente para que não precisassem fingir tanto, esconder-lhe tantas coisas. Queria mais sinceridade por parte dos pais, para ele, sua rebeldia demonstrava transparentemente que era exatamente isso que queria.

Então por que seus pais agiam como se ele fosse um garotinho irresponsável de cinco anos?

– Que lugar é esse, mamãe? – a garota de quatorze anos foi a primeira a se pronunciar enquanto a família saía do carro, e seu cenho estava franzido, as mãos segurando a bolsa negra com força, os nós dos dedos brancos. – Eu pensei que nós fôssemos para casa...

– Querida... – Sharon suspirou profundamente, e engoliu em seco, procurando as palavras certas para explicar à garota eu era ali que iriam morar até terem um local fixo para a estadia na cidade.

Essa é a nossa casa. – Jared foi mais rápido que Kramer, e sua expressão era um tanto quanto irritada. – É onde vamos ficar até o pai arrumar um emprego melhor e nos obrigar a mudar de cidade...Outra vez.

Isso fez com que recebesse um olhar zangado de Gerald, mas não se importou o suficiente e foi até o porta-malas pegar suas coisas, sentindo-se tremendamente aflito. Queria sair dali, e o mais rápido que pudesse, de preferência. Tentava não julgar nada errado, mas a primeira impressão que teve daquele lugar não foi nem um pouco boa. O estômago embrulhava com a simples hipótese de entrar naquela estalagem e perguntar aos pais qual era seu quarto. Padalecki não conseguia processar aquela informação. Não entendia o motivo daquela animosidade tão imediata, mas, no geral, seguia seus instintos.

Havia apenas um problema: não podia simplesmente pegar o carro e fugir dali. Já tinha uma carteira de motorista, uma vez que completara dezessete anos, mas isso não significava que poderia usar o carro e sair por aí fazendo o que bem entendesse. E, ao enfim se dar conta disso, Jared suspirou pesadamente e deu o primeiro dos passos que o levariam para dentro de sua nova "casa".

Algumas horas mais tarde, ele teria a certeza de que nunca deveria tê-lo feito. Sabia que, na verdade, deveria sim ter ouvido seus instintos, e saído dali o mais rápido possível. Mas, naquele momento, ainda não havia nada. Não havia nenhuma voz em sua cabeça, não havia o medo crescendo em seu peito, não havia pedaços irreconhecíveis de seu coração partido. Não havia nada lhe dizendo o que deveria ou não fazer, receios ou desafios. Não havia nada além dele mesmo.

Por enquanto, isso era o suficiente.

[...]

– Hey! – uma voz doce sobressaltou Jared ao ponto de saltar e se colocar de pé no exato instante em que a ouviu, arrancando uma risadinha da garota que o encarava, juntamente com um olhar surpreso. – Você é o garoto novo aqui da estalagem, não é?... Pode ficar calmo. Eu não mordo.

Padalecki voltou os olhos na direção dela, um tanto quanto descrente enquanto tentava se recuperar do choque e acalmar o coração que batia descontrolado. Era uma menina bonita, com longas madeixas escuras, pele alva e grandes olhos esverdeados que pareciam demasiadamente expressivos. Parecia alguns anos mais nova, entre os treze ou quatorze. Porém, por algum motivo que não compreendia no momento, não quis afastá-la no exato instante em que a morena se sentou ao seu lado no sofá, então permaneceu em silêncio, arrancando outro sorriso sincero dela.

– Mackenzie. – a morena esticou a mão, num gesto simpático. – Mackenzie Ackles, filha do dono.

O rapaz piscou durante alguns segundos, muito mais que surpreso. Geralmente as pessoas pareciam evitar se aproximar dele, como se imaginassem que o jovem poderia afastá-la aos gritos; o que não chegava a ser uma mentira ao todo, mas também não chegava àquele extremo. E, o mais estranho ainda, foi que ele sentiu o impulso de sorrir também, expondo suas covinhas de maneira adorável.

– Jared Tristan Padalecki.

Mackenzie foi educada o suficiente para não perguntar nada, mas seus olhos brilhavam com uma descrente admiração. O moreno sabia que seu sobrenome era um tanto quanto famoso, principalmente pelo fato de seu pai ter um temperamento explosivo, mas não entendia como Ackles podia conhecê-lo apenas pela menção. Não comentou porque realmente não queria saber, e o silêncio que se seguiu foi um tanto quanto desconfortável, mesmo que não tenso.

– Então... – a menina parecia incapaz de agüentar alguns segundos sem falar qualquer coisa, mesmo que um pouco insana para duas pessoas que praticamente haviam acabado de se apresentar. – O que te traz aqui, Jared Padalecki?

Ele a encarou sem entender enquanto franzia um pouco as sobrancelhas, sem entender o motivo de não está-la ignorando. No geral, não saía por aí dizendo o que pensava ou seus motivos para estar em determinados lugares. Não costumava se abrir para as pessoas, mesmo seus parentes, ou até mesmo expor qualquer coisa sobre sua família. E isso se aplicava àquela garota desconhecida e curiosa que agora lhe lançava um sorriso sem graça.

– Tudo bem. – a morena ergueu as mãos em sinal de rendição quando ele abriu a boca, provavelmente para responder que aquilo não era de sua conta. – Sei identificar quando uma pergunta não foi feita em boa hora. Desculpe.

– Não, tá legal. – Padalecki sacudiu a cabeça enquanto tentava acalmar a inquietação em seu âmago, e estreitou um pouco os olhos. – Só não gosto de falar sobre isso. Acontece regularmente na família, então...

Mackenzie deu um sorriso tristonho, talvez um tanto quanto compreensiva demais, e, meio que automaticamente, seus dedos buscaram alguma coisa na mesinha de canto ao lado do pequeno móvel no qual os adolescentes se encontravam. Era um porta-retratos de aparência antiga, porém bem conservada. Ackles permaneceu amuada durante tempo o suficiente para que o moreno se perguntasse se havia algo errado, e então sorriu novamente, escondendo a foto em seu colo e deixando-o curioso.

– Então, deixe-me adivinhar: você não aceita isso, e seus pais brigam contigo porque não entendem o motivo de estar sendo rebelde... Ou, ao menos, na opinião deles. E, enquanto isso, você se remói de raiva e fica magoado por tratarem-no como uma criança.

O rapaz arqueou ainda mais as sobrancelhas, de maneira completamente descrente, sentindo-se mais que frustrado. Estaria tão na cara assim, ou ela era perceptiva demais? Porém, no instante seguinte, a morena suspirou, e seus dedos passearam pelas bordas do retrato que tinha em mãos consigo desde que se aproximou dele, como se sentisse falta de alguma coisa, e ele compreendeu que não tinha nada a ver consigo, mas sim com um acontecimento passado. Ao ponto em que o deixou menos tenso, aquilo o encheu de uma rara surpresa.

– Reconheço o olhar... – ela mordeu o lábio inferior, e virou o quadro para fitá-lo novamente. – Meu irmão mais velho fazia a mesma coisa... E, quando nos mudamos para cá... Ele ficou furioso.

Jared observou a imagem. Normalmente ele ficava quieto em seu canto, sem procurar saber nada sobre ninguém, sem buscar novas amizades ou qualquer coisa do tipo. Mas aquela menina esquisita havia sido simpática o bastante para que o moreno não conseguisse nutrir nenhum sentimento de raiva ou qualquer coisa assim por ela, mesmo que tentasse. Às vezes, acreditava não custava nada ser um pouco mais gentil com certas pessoas.

Na foto havia uma família composta pelos pais e duas crianças pequenas. Uma garota, que Padalecki, com razão, imediatamente deduziu ser Mackenzie, e um rapazinho sorridente. Só era possível dizer que era loiro em consequência de a figura estar mais clara em seus cabelos, porque o restante da imagem era colorido por tons em sépia. As pessoas ali pareciam felizes, então não entendeu o motivo de Ackles estar tão abalada enquanto acariciava a imagem do garoto.

– Isso foi quando tínhamos seis anos. – a morena suspirou pesadamente quando ele a encarou. – A última foto em família que conseguimos tirar...

Padalecki bem que tentou reprimir toda aquela curiosidade, mas a frase enigmática da menina acabou inflamando aquele sentimento, e ele logo se viu dizendo:

– Última?... Por quê?

Mackenzie o encarou, e ele viu algumas poucas lágrimas brilhando em seus olhos, ameaçando cair a qualquer instante. Imediatamente o estômago do rapaz se revirou. A simples ideia de vê-la chorar era assustadora. Não porque entendesse aquele sofrimento todo, mas porque nunca gostou de ficar cara a cara com ele. Não costumava encontrar ninguém que simplesmente começasse a falar sobre assuntos tão íntimos com um desconhecido, sobre sua família, sobre qualquer outro assunto que fosse.

Ela era uma garota bizarra.

– Ele tinha onze anos e eu tinha nove, quando nos mudamos para Virgínia. Nenhum de nós nunca sequer cogitou a hipótese de vir morar por aqui, e isso causou algumas discussões durante o tempo em que arrumamos as malas. Depois, quando o pai quis matriculá-lo na escola daqui... Bem... Ele surtou. – Ackles secou o canto dos olhos com o nó dos dedos, distraída. – Eu não me lembro muito bem... Eles gritaram durante tanto tempo... Tanto... Eu estava com medo... Eu estava com tanto medo...

Padalecki a encarou com incômodo, o cenho sendo franzido de acordo com o mal-estar que lhe acometia. Não era como se quisesse se sentir próximo da morena, mas aquelas palavras o abalavam... Sacudiu a cabeça antes que pudesse se questionar a respeito do assunto, interrompendo a própria linha de pensamento. Não deveria se intrometer, de uma forma ou de outra. Não era sua família, não eram seus os problemas dos quais ela falava.

O que ele poderia fazer, afinal de contas?

– Sinto muito. – disse com sinceridade.

– Tá tudo bem. – a morena lhe lançou um sorriso trêmulo, e era nítido que estava mentindo. – Eu só... Fico furiosa com isso, às vezes, sabe? Queria saber o que realmente aconteceu naquela noite. Mas é que... O pai não fala muito sobre isso, e a mãe... Eles nunca voltaram a ser o que eram antes. Todo mundo percebeu, e ninguém comenta nada, principalmente porque... Bem, meu irmão nunca foi encontrado, e dizem que ele fugiu, ou foi levado. Mesmo que não faça sentido... Por que alguém iria querer levá-lo, é o que eu me pergunto todos os dias... Às vezes, por não nos mudarmos mais... Acho que é porque o pai e a mãe acreditam que ele vai voltar...

Jared franziu o cenho novamente, sentindo-se um estranho naquele assunto. Queria entender o motivo de Mackenzie estar lhe contando aquelas coisas, uma vez que não era nem mesmo seu amigo. Crispou os lábios e concluiu consigo mesmo que era melhor terminar aquela conversa antes que se envolvesse demais com a menina. Depois que os laços estivessem formados seria mais difícil se afastar. Sim, porque ele sabia que uma hora ou outra Gerald arranjaria um emprego melhor e levaria a família para bem longe de Virgínia. Claro, era melhor manter as amizades o mais longe possível, porque era ele quem acabaria saindo machucado no final, e sabia disso. Tinha plena consciência de que, por mais que se aproximasse da garota, por mais que pudessem realmente se tornar amigos, aquilo de nada adiantaria perante o olhar de seu pai.

Ele era um egoísta, isso sim.

– Sinto muito. – repetiu mesmo que por motivos diferentes. – Eu... Tenho que ir.

E assim ele foi embora, sem nem ao menos esperar por uma resposta, sem encará-la nos olhos por medo do que poderia ver. Padalecki não queria fazer aquilo, não de verdade, mas era um ato reflexo que seu instinto de proteção provocava. Não queria sair magoado no fim. Não queria sair ferido. Não queria voltar a ser um animal acuado, sem saber o que fazer, com medo ou assustado. Era por isso que usava uma armadura; ela impedia que se ferisse enquanto caía em queda livre no meio daquela corrida que não terminava. E isso, por enquanto, era o que bastava para mantê-lo seguro.

Ele sabia que era uma condição triste, mas que escolha tinha?

Subiu as escadarias com pressa enquanto procurava se lembrar do número do quarto, sentindo-se demasiadamente estranho. Algo se revirava violentamente em seu âmago, e aquela sensação de desconforto não melhorou nem mesmo quando se atirou na cama após trancar a porta, e a única coisa que ele pôde fazer foi afundar o rosto no travesseiro e morder o lábio inferior com força.

Sentia que estava vulnerável.

Isso aqui é um maldito Inferno...

X-x-x-x—x-x-x-x-X

Ele abriu os olhos, e a expressão era quase completamente vaga, vazia, sem qualquer tipo de reação, fosse ela boa ou ruim; talvez apenas um leve desconforto pela pontada de dor nas costas, causada pela posição estranha, ficando meio deitado no chão, meio recostado à parede. Apesar da bela aparência, aquela apatia lhe dava um ar mais misterioso, taciturno, como se pudesse matar alguém a qualquer momento; o que não era de todo um fato que poderia ser observado com leviandade, se considerada a verdadeira capacidade do rapaz.

Os lábios vermelhos se esticaram no sorriso sacana que acabou por se tornar sua marca registrada naquele lugar, nos dias em que acordava daquela maneira, como se estivesse bem humorado. Não deveria, mas estava; quem o iria repreender por isso? Há muito que seus sorrisos pararam de significar o fato de sentir algo, assim como suas lágrimas e sua aparente timidez. Era apenas um ato reflexo que tentava torná-lo novamente no que um dia fora, mesmo que tivesse plena consciência de que aquilo era impossível. Toda dor que sentia não era tão intensa quanto poderia ter sido; pelo menos a física, pois não havia mais nada de emocional dentro de si. Com o tempo aprendera a ignorar e desprezar, porque, afinal, não havia nada que pudesse fazer para evitar toda aquela indiferença. Nada.

Ah, o tempo... Para uns, tão importante e crucial. Para outros, como ele, tão monótono e tedioso. A rotina tornava-se cada vez mais repetitiva, idêntica, de certa forma, torturante, e aquilo acabava com todo e qualquer resquício de felicidade momentânea que algum dia poderia ter sentido. Fazia parte de sua natureza agir daquela forma. Afinal, era um Doppelgänger.

Sem nome. Sem identidade. Sem face.

Sem coração ou alma.

Ele era seu mais doce sonho, ou seu pior pesadelo. Tudo o que você poderia ser, tudo o que você não queria ser, tudo o que você era. Doce ou amargo, sincero ou falso, não importava. Ele assumia a forma daquilo que você mais temia se tornar, ele assumia a forma daquilo que você mais almejava se tornar; a forma daquilo que você podia ou não se tornar. Era relativo demais, de acordo com a personalidade de cada um. Não havia pensamentos originais, ele era apenas aquilo que queriam que ele fosse, sem desejos, vontades ou caprichos. Apenas uma casca vazia, uma massa disforme esperando para ser moldada por mãos hábeis. Assim como todo Doppelgänger deveria ser, assim como rezava a lenda.

Assim como o Mágico queria. Assim como sempre seria.

Não era uma escolha.

[...]

Os dedos finos e alongados se enroscaram nos fiapos da barra do moletom negro que usava, brincando com o zíper enquanto seus olhos passeavam distraídos pelas jaulas e salas que se formavam por meio de fios e cordas distorcidas, todos emitindo luzes das mais diversas nuances de cores, cada um tentando chamar atenção, à sua maneira. Os gritos e gemidos que escutava não eram nada se comparados aos que ouvira no passado; eles poderiam ser iguais a alguma canção de ninar, mesmo que não se lembrasse de nenhuma naquele momento. Na verdade, lembrava-se muito bem de tudo que havia vivido, mas era como se aquelas memórias não se tornassem nada mais do que um passado distante que jamais voltaria. Preferia permanecer como estava, e aquelas lembranças seriam apenas isso: lembranças.

I swear, I never meant to let it die. ‒ cantarolou baixinho num tom infantil, sem se importar com os pedidos de socorro que ouvia em meio ao extenso corredor. ‒ I Just don't care about you anymore...

Fechou os olhos, deleitando-se com a sensação que o dominava de maneira tão bruta. Isso era algo que apreciava, apesar de tudo. Era como se daquela maneira possuísse uma personalidade só dele, sem precisar partilhá-la com ninguém, mesmo que fosse algo impossível. Por isso, aproveitava enquanto o Valete não descobria o segredo, e mantinha aquilo guardado dentro de si. Afinal, todo mundo cometia seus deslizes, seus erros. Mesmo um Doppelgänger não poderia ser diferente. Ainda mais um como ele. Um soldado, sempre disposto a obedecer, sempre disposto a perder a vida pela causa. O quê, exatamente, era a tal causa, ele não sabia, mas acatava as ordens com honra e as cumpria com maestria. Até aquele momento não falhara, e por isso o Mágico o mantinha por perto. Quando não conseguisse completar uma missão, seria descartado. Assim como todos eram, depois de algum tempo. Estar ali o fizera perder toda a noção de dias ou semanas, mas não havia importância, estava ali há muito mais do que qualquer um dos novatos. O Mágico parecia ter um apreço especial por si, e isso, por ora, era o suficiente. Era o bastante para mantê-lo seguro.

Ignorou os gritos e abriu a porta no final do corredor, atravessando-a já com a expressão vazia novamente. Os olhos tornaram-se opacos e anuviados, assim como deveria ser. Não havia mais nada além de uma ordem a ser acatada, outra vez. Era seu dever cuidar da Ala-1 até que o novo e último membro chegasse. Torcia internamente para que o Clown ainda estivesse adormecido, uma vez que era fácil manter-se em silêncio estando ao lado da Dama do Sorriso, assim como a Chasseresse. Nenhuma das duas parecia disposta a manter uma conversa com o Doppelgänger, mesmo que por motivos distintos. Com o Clown a história era outra, uma vez que sua única motivação era fazer o que o Mágico lhe mandara. E falar com as pessoas incluía até mesmo o Doppelgänger. Não havia nada que pudesse fazer quanto a isso, mesmo que seu dever fosse apenas agir como um segurança daquele quarto, e não como um anfitrião ou algo do tipo.

Passando pelo Valete, que montava guarda nas maiores jaulas, impedindo que os recém-criados fugissem, ele ainda podia ouvir os gemidos e gritos distantes, todos eles tomados pela dor. Jensen Ross Ackles esboçou um sorriso melancólico, mas não o sentia de verdade, mesmo quando tentava por si só demonstrar algum tipo de emoção ou sentimento, algo como pena. O fato é que apenas pensou na ingenuidade daqueles que gritavam, como se existisse alguém disposto a salvá-los, inexperientes.

Seria insano em demasia admitir que, em sua cabeça, tudo aquilo soava como um bater de sinos?

Sinos do inferno...

RESPOSTAS:

Alice Harvey — Vamos ver se eu consigo prender sua atenção até os capítulos inéditos então, Alice! Vamos ver se você me suporta até lá, na verdade, não é? [risos] De boa, fofa. Só comente se quiser, ou quando tiver tempo. E, quanto aos leitores, não tem tanto problema. Mesmo com poucos, admiro aqueles que tenho, aqueles que ainda me acompanham, e até aqueles que não estão mais lendo, por terem um dia dado uma chance. Então... Tá tudo bem. ^^

Waldorf SaN — Me importo muito, de verdade! Cada detalhe e cada construção do psicológico dos personagens. Até no momento de retratar as emoções. Fico feliz que esteja gostando, de verdade! Torço para que continue mantendo esse ritmo e que continue apreciando a leitura, até o final.

Medecris — Nunca vou desistir! Não só por mim, mas também pelos leitores e por todos aqueles que resolveram acompanhar por aqui. E não chora não, querida! [risos] As coisas melhoram... Bem lá pra frente, mas melhoram, ok? ;)