Beta: Alice Harvey

Capítulo 3 — Too Late — Tarde demais

O cheiro forte agora dominava o ar; de cinzas, de sangue. A um canto, se fosse prestada a devida atenção, era possível ouvir um provável cano estourado que gotejava num ritmo instável e ininterrupto. Uma gota d'água, depois outra... O local era diferente, semelhante ao último onde estivera, mas não igual. Dessa vez, mesmo em meio ao breu que se encontrava, era possível notar que o ambiente era pequeno e seco. As correntes que se chocavam mutuamente indicavam que havia algo, ou alguém que tentava a todo custo, se libertar. Porém, logo percebeu que seus esforços eram em vão.

– Por que está fazendo isso?! – o choro alto era agudo, enquanto a voz chorosa feminina soava assustada. – Por favor, me solte! Eu... Eu quero ir embora!

Silêncio, um afago gélido e carinhoso no rosto infantil tomado pelas lágrimas, como em uma suposta tentativa de mostrar que aquilo não era tão ruim. A ruiva fechou os olhos com força, sem tentar conter os soluços que lhe irrompiam do peito, cerrando as mãos em punhos para conter a dor forte que parecia ultrapassar o limite de seu autocontrole.

Seja uma boa garotinha. – sussurrou num tom doce. –Seja uma boa garotinha, Lílian... Eu prometo que não vou machucar você!

– Por favor... – a menina insistiu, resistindo ao impulso de gritar, afastando-se na medida do possível, virando o rosto. Não queria ver. Não queria ouvir. Não queria sentir. – Eu quero voltar pra casa! Eu quero meus pais! Eu... Eu quero voltar pra minha casa!

Você não vai voltar. – a voz se alterou por um instante, quase rude, e, logo em seguida, voltou ao tom suave. –Você vai ficar aqui comigo. Já está em casa, na sua nova casa!Eusou seu pai.

– Me deixe ir embora! – Lílian pediu num grito embargado. – Eu quero ir embora!

Você não pode, pequena Lily. Eu não vou permitir. – os arquejos e gemidos de dor que se seguiam compunham uma melodia repulsiva de agonia, algo tétrico que foi mascarado pelos gritos. –Se não quer ficar comigo pelo resto da eternidade, se não quer brincar... Então não está seguindo as regras do jogo.

Algo estalou, e então os clamores foram repentinamente calados.

Silêncio.

E isso significa que você perdeu a partida.

X-x-x-x—x-x-x-x-X

A cabeça latejava e o corpo doía como se houvesse acabado de sair de uma briga, e ele se sentiu zonzo enquanto abria os olhos. Na noite anterior havia dormido numa posição nem um pouco agradável, e agora todos os músculos se encontravam rígidos e tensionados, o que provocou uma série de palavrões por parte de Jared, assim que a consciência o arrebatou, para logo em seguida ele fechar os olhos e suspirar preguiçosamente. Na verdade, não havia conseguido dormir muito bem. Assim que fechava os olhos, sempre tinha a impressão de que estava fugindo de alguma coisa, a impressão de que estava correndo. E então ouvia os gritos. Acordou durante toda a madrugada crente de que eles não eram apenas sua imaginação lhe pregando peças, e, no entanto, não ouviu nada de mais além de um gato qualquer andando pelos telhados.

Está ficando louco, Jared; foi o que pensou consigo mesmo enquanto bocejava e esfregava os olhos com os nós dos dedos, sentando-se na beirada da cama. Literalmente. Não tinha ninguém gritando, e você ficou na cama durante todo esse tempo. As alucinações começaram outra vez?

Quando ele era bem pequeno, costumava dizer aos pais que havia um sorridente e amigável palhaço atrás dele, que lhe esticava a mão em todas aquelas vezes nas quais acreditava estar perdido. O que via era alguém usando roupas coloridas com diversos losangos remendados, e uma touca com guizos que tilintavam toda vez que inclinava a cabeça. Porém, em todas as vezes nas quais tentou mostrá-lo aos pais, puxando-os pelo braço ou simplesmente fazendo um escândalo, o palhaço já havia desaparecido, e eles agiam como se estivesse enlouquecendo; afinal, tinha mais de cinco anos naquela época. Depois de alguns anos Jared aprendeu que não podia contar a ninguém sobre aquela estranha figura, porque não podiam enxergá-lo ou vê-lo acenar com aquele sorriso costurado. Certa vez, chegou até mesmo a segurar a mão do palhaço, mas logo em seguida Sharon apareceu preocupada, passando-lhe um sermão e dizendo que não deveria se afastar enquanto ela estivesse distraída. O moreno nunca mais quis dizer nada aos pais, porque tinha plena consciência de que nenhum deles acreditaria em suas palavras, mas comumente via o "Colorido", como o havia nomeado, acenando enquanto se afastava, com o mesmo sorriso ainda presente.

Suspirou profundamente enquanto esfregava novamente os olhos, tentando se distrair com alguma coisa, porque era melhor parar de pensar naquilo ou acabaria ficando realmente maluco. O passado deveria permanecer no passado, de preferência bem enterrado e escondido em algum lugar que não estivesse à vista de ninguém. Porque se fosse desenterrar aquilo, poderia acabar em um hospital psiquiátrico com diagnóstico de esquizofrenia, e isso em nada o ajudaria.

Padalecki bocejou mais uma vez e foi até o banheiro para fazer sua higiene matinal. Por sorte, ou azar, estavam nas férias de verão, então ainda não precisava ir à escola e fingir que tentava se socializar com os outros adolescentes daquele lugar. Poderia apenas caminhar pela cidade e, quem sabe, conhecer alguns dos vizinhos. E não era como se quisesse, de fato, se tornar amigo de alguém por ali, mas ser educado não faria mal algum. E também não era da natureza do moreno se trancar no quarto o dia todo.

Além do mais, tinha a grande intuição de que aquele seria um dia longo.

Muito longo, diga-se de passagem.

[...]

Contrastando com as nuvens brancas enquanto alguns pássaros voavam para seus respectivos ninhos, o sol do final de tarde tingia o céu em delicadas nuances de laranja, vermelho e amarelo, num lindo espetáculo de cores e formas. Se Jared não sentisse tamanha tensão no ar, talvez lhe parecesse que tudo estava no ritmo natural. Mas era como se todos com quem se encontrasse estivessem com medo de alguma coisa, embora ninguém comentasse nada. Ele pressentia isso, e o fato fazia com que algo se agitasse em seu âmago. Os vizinhos não haviam saído de suas casas e, no entanto, ele sentia os olhares curiosos que lhe eram lançados por entre as frestas das cortinas e janelas, como se todos tentassem entender o que estava fazendo ali. Mas o moreno estava apenas sentado ao pé das escadas na entrada da estalagem, observando a mata na qual os animais se embrenhavam, ouvindo o piar das aves e o estalar de galhos ao longe.

Era uma cena um tanto quanto melancólica, até.

– E aí, está se divertindo muito em Virgínia? – o sobressaltando pela segunda vez desde o dia anterior, Mackenzie se sentou ao seu lado de maneira repentina.

Jared apenas a encarou com um ligeiro aborrecimento, tentando entender o motivo de ela aparentar ter um estranho fetiche em assustar as pessoas, principalmente quando estavam distraídas em demasia ou concentradas em alguma coisa. Isso era algo que o incomodava profundamente, mesmo que o rapaz não conseguisse entender o motivo.

– Queria me desculpar por ontem, porque provavelmente só te irritei com toda aquela conversa. – ela sorriu envergonhada. – Não é mesmo?

O rapaz apenas deu de ombros, sem responder enquanto preferia voltar os olhos para o céu do fim de tarde. Não sabia o motivo de se sentir tão inquieto e incomodado com a presença de Ackles, mas também não era como se ela o estivesse forçando a algo. Tinha plena consciência de que ela o deixaria em paz se estivesse disposto a pedir, e, ainda assim, não o fazia e não entendia o motivo. Era uma maneira distorcida e sem sentido de se sentir bem ao lado dela, talvez porque soubesse de alguma forma, que ela era uma pessoa incapaz de mentir. A morena era, com toda a certeza, a pessoa mais estranha que ele já havia conhecido em seus dezessete anos de vida, mas à sua maneira era também a mais impressionante.

Ele não via problema algum em ser um pouco sincero também. Ela merecia isso.

– Posso saber o que houve com a vizinhança? – se virou para encará-la, encafifado pelo silêncio. – Por que ninguém saiu de casa até agora?

Ackles sorriu timidamente e brincou com os pingentes da pulseira em seu pulso esquerdo antes de responder com voz falha:

– Lílian Sherwin, a filha mais nova do padeiro, desapareceu nessa última noite. Os pais estão em pânico, porque ninguém faz a menor idéia de onde esteja a menina. – ela enroscou os dedos na grama próxima aos All Stars surrados que usava, encarando o horizonte. – É estranho... Parece até que uma maré de azar atingiu nossa cidade nos últimos anos.

–... Como? – Jared arqueou as sobrancelhas, confuso. – Essa garota, Lílian, não é a primeira a desaparecer em Virgínia?

Mackenzie sacudiu a cabeça em negação, e se virou para encará-lo. Parecia um tanto quanto triste, mesmo que fosse nítido que não compartilhava nenhum laço de amizade com Sherwin. Ele não entendia como a morena conseguia se importar tanto com pessoas estranhas, cujos quais ela aparentava conhecer apenas pelo nome.

– Meu irmão, Jensen, foi o primeiro. Depois dele, uma garota estranha que veio da Inglaterra ou algo assim, Elta Danneel Harris. Chad Murray e Misha Collins, ambos nascidos aqui, também desapareceram. – Ackles colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha, e havia um sorriso meio melancólico em seus lábios finos. – Estão começando a dizer que Virgínia é uma cidade amaldiçoada pelo próprio Lúcifer...

Padalecki não pôde deixar de perceber que ela não parecia se importar tanto com a informação que havia acabado de soltar, sobre os boatos.

– E isso é bom? – perguntou meio surpreso, os olhos ligeiramente arregalados. – Pensei que as pessoas evitassem morar em lugares com fama assim...

– Comumente. – Mackenzie admitiu sacudindo os ombros. – Mas a fama atrai os turistas, e isso pode ser bom para a economia da cidade. O problema é que provavelmente ninguém mais vai querer construir casas por aqui... As crianças não iriam gostar, e os pais perceberiam a insensatez que estavam cometendo.

– Não. – Jared interrompeu com um suspiro, e recebeu um olhar confuso antes de explicar: – Garota, em que mundo você vive? Os pais não ouvem o que os filhos dizem; nunca ouviram. Talvez isso fosse diferente antes, mas as coisas são assim agora. Por que você acha que os adolescentes são considerados rebeldes? A sociedade é uma hipócrita, porque ninguém quer ter seu ponto de vista avaliado e contestado. Ou você abaixa a cabeça e obedece, ou eles vão te esmagar antes que possa erguer a voz. É aquele velho ditado: "É preferível ver as crianças a ouvi-las". – havia certa mágoa na voz do garoto, e Ackles percebeu muito bem isso.

A morena apenas permaneceu o encarando de sobrancelhas arqueadas, e o rapaz revirou os olhos quando ela sorriu vagamente e começou a gesticular.

– Meu primeiro é um lírio que sumiu sem deixar rastros. Meu segundo é uma mudança indesejada. Meu terceiro é uma garota desligada. Meu tudo é um menino cabeça quente!

Padalecki se sentiu confuso e em alguma brincadeira provavelmente sem sentido da garota, que sorriu sem graça ao perceber que ele não entendeu absolutamente nada do que havia dito.

– Sabe o que eu penso? – Mackenzie sacudiu os ombros, indiferente. – Foda-se também! Ninguém precisa concordar com o que eu penso, mas eles também não podem me obrigar a pensar da mesma maneira. Ninguém me perturba, eu não perturbo ninguém: todo mundo feliz e ganhando.

– Não, não é isso. – o moreno sacudiu a cabeça, ainda confuso, resistindo ao impulso de sorrir. – Que tipo de pegadinha foi essa? Eu juro pra você que não entendi absolutamente nada.

Com isso ele conseguiu arrancar uma alta gargalhada de Ackles, que sorriu de orelha a orelha, parecendo estranhamente feliz. E Jared se sentiu como um garotinho tentando entender a conversa de dois adultos. Ou aquela menina era louca, ou ele era idiota demais para não perceber a lógica empregada em suas palavras e frases esparsas ao vento.

– Meu primeiro é um lírio que sumiu seu deixar rastros, Lílian Sherwin. Meu segundo é uma mudança indesejada, em sua concepção, feita pela sua família. Meu terceiro é uma garota desligada, que eu reconheço como sendo meu âmago. Meu tudo é um menino cabeça quente: Jared Padalecki.

E o rapaz continuou a encará-la, perplexo, quando Mackenzie riu novamente. Para ele, de fato, aquilo não fazia nem o menor sentido, por mais que se obrigasse a pensar no assunto. Mas isso não significava, de maneira alguma, que ela estava errada. Entendera as palavras, e o significado da charada, mas não entendeu o motivo da piada.

– É uma brincadeira que Jensen me ajudou a inventar quando eu tinha seis anos. – a morena piscou. – É como um código entende? Pode ser com letras, palavras nas entrelinhas ou qualquer outra coisa, contanto que você e seu parceiro compreendam o que foi dito. É uma forma de se comunicar, como num Código Morse, mas por meio de frases escondidas num contexto maior que envolva algo que soa como uma piada a quem ouve de fora.

Jared franziu o cenho durante diversos instantes, mas já havia começado a compreender aquela lógica um tanto quanto confusa e insana que havia sido empregada naquela brincadeira.

– Meu primeiro é uma confusão total e sem sentido. Meu segundo é uma menina um pouco surtada. Meu terceiro é uma charada inexplicável. Meu tudo é um jogo de palavras...? – ele se arriscou, e conseguiu um sorriso luminoso.

– Esse é o espírito!

Padalecki conseguiu sorrir, apesar de se sentir ligeiramente envergonhado com tudo aquilo. Há algumas horas a última coisa que desejava era falar de novo com a garota. E, agora, era como se tentasse se tornar amigo de Mackenzie por meio daqueles enigmas propostos pelo que haviam se tornado um passatempo sem qualquer propósito que não diversão.

– Você é um garoto estranho Jared. – Ackles o surpreendeu novamente, mas sorria deliciada. – A maioria das pessoas diria que eu sou louca ou qualquer coisa do tipo. As crianças da vizinhança costumam dizer que eu sou a garota esquisitona da estalagem... Mas você não.

Ele não disse nada durante alguns segundos, mas logo sacudiu os ombros; a verdade é que aquelas palavras o haviam abalado. Como poderia explicar a ela que os dois não poderiam se aproximar demais? Como explicar que acabariam ambos machucados quando seu pai resolvesse que sua família já havia ficado em Virgínia por tempo o suficiente? A amizade era algo perigoso demais, e ele não estava disposto a sair machucado outra vez, como aconteceu quando moravam em Minneapolis.

Como aconteceu em tantas outras vezes.

– Talvez eu não seja como a maioria das pessoas. – respondeu ligeiramente emburrado enquanto apoiava o queixo nos joelhos e fitava o horizonte. – Talvez meu cérebro funcione de um jeito diferente e eu também seja um esquisitão.

– Não. – Mackenzie sorriu, enigmática, enquanto se levantava. – É impressionante.

O moreno prendeu a respiração quando ouviu aquilo, e observou enquanto a garota se levantava para ir embora. Suas palavras ecoavam na cabeça do rapaz. Impressionante não era exatamente uma palavra que as pessoas costumavam usar para descrevê-lo. Na verdade, diziam até que Padalecki era descontrolado, beirando ao ignorante. Ele sabia que não era um garoto fácil: tinha seus defeitos, tinha suas manias e seus vícios. Mas também não chegava ao ponto de ser ignorante. Não chegava àquele ponto.

– Meu primeiro são palavras doces que surpreendem. Meu segundo são as pessoas bizarras que observam. Meu terceiro é uma garota com a criatividade muito grande. Meu tudo é um Código quase Morse que não chega ao fim!

Jared riu consigo mesmo.

Apesar de tudo, estava feliz.

X-x-x-x—x-x-x-x-X

Ele vai ficar furioso... – o garotinho escondido no canto da sala sussurrou num tom fraco. –O Valete não conseguiu trazer a menina...

No mesmo instante em que ele terminou de falar, Doppelgänger se colocou de pé, alarmando a todos os outros. Chasseresse, trajando roupas de pele e brandindo um longo arco, foi a primeira a se fazer ouvir com uma voz imponente, seu olhar era duro, e ao mesmo tempo, indiferente na direção do loiro:

– O que houve?!

Jensen estremeceu por um instante, se encolhendo enquanto olhava para a porta retorcida em metal. Seu âmago se revirou com a simples possibilidade de o Mágico estar enraivecido com alguma coisa. Já conseguia ouvir o zunido distante dos lamentos, e a estrutura do aposento serpenteava, como que em algum tipo de declínio. Mordeu o lábio inferior com força o suficiente para sentir o gosto de sangue, tendo plena consciência de que seria punido no lugar de Valete; o Maroto sempre escapava dos castigos que deveriam ser recebido.

– Rápido! Escondam-se! – sobressaltou-se o loiro pálido, com a urgência de proteger os outros que estavam ali.

Afina, ele estava ali há mais tempo. Ele era o mais velho. Era seu dever cuidar dos mais novos, das outras lendas. Como o bom soldado que era.

– Rápido! – Ordenou ao perceber que os outros apenas o olhavam com os olhos arregalados, e assim que receberam a segunda ordem, começaram a se mexerem silenciosamente.

A Dama com o manto branco se escondeu ao lado do Fantasma no canto da sala, e Clown, com as devidas vestimentas de palhaço, pulou sob as cobertas da cama mais distante. Uma figura altiva e loira, de um rapaz com olhos claros, que balançava a cabeça num ritmo ininterrupto, sorrindo vagamente e sem vontade, foi o único que permaneceu recostado à parede, aparentemente sem se importar com aquelas palavras. Chasseresse se encolheu ao lado do Lobisomem no meio do aposento, e Doppelgänger se voltou para a porta, prevendo o perigo enquanto engolia em seco.

Medo não era algo que Doppelgänger sentia com frequência; ele provocava o medo. Mas quando o Mágico estava furioso, tudo saía do ritmo natural.

O mundo deles saía do equilíbrio e a harmonia se perdia.

A porta se abriu lentamente, e um frio lhe percorreu a espinha quando um homem apareceu. Aparentava ser algum atuante de circo, com a cartola e o manto negro, com pouco mais de vinte e cinco anos, mas o rapaz tinha plena consciência de que era bem mais do que isso. O colar de raízes e os olhos vermelhos denunciavam o quão perigoso ele era. Não que o objeto significasse grande coisa, mas sempre que brilhava naquele tom acinzentado, representava que uma nova cela estava sendo criada, e isso comumente era um mau sinal.

Queria dizer que alguém seria torturado.

Venha comigo pequeno Doppelgänger... – o Mágico esticou a mão num gesto amigável, mas o olhar contradizia qualquer simpatia que poderia ser transmitida pelo gesto. –Vamos brincar um pouco. Eu tenho um novo jogo... Quero ensiná-lo a você.

Jensen deu o primeiro de muitos passos que o levariam a ser acorrentado outra vez. Como quando chegou naquele mundo, assim como todos os outros; como quando Valete perdeu duas crianças de uma só vez; como quando assumiu a culpa pela morte da Dríade do Lago Azul. Porém, naquele momento, não pôde deixar de ter a nítida impressão de que aquela vez seria bem pior do que todas as anteriores.

Teve a impressão de que seria muito mais dolorosa.

E agora era tarde demais para voltar atrás.

X-x-x-x—x-x-x-x-X

Padalecki acordou num sobressalto, sentindo o coração bater célere no peito, enquanto o suor escorria pelo rosto corado de medo. Os olhos estavam arregalados, e o corpo estava ligeiramente trêmulo, dolorido. O garoto bem que tentou controlar a respiração antes de fazer qualquer coisa, mas não conseguiu, e logo em seguida se sentou sobre a cama, esfregando os nós dos dedos por toda a extensão de seu rosto, buscando se manter desperto, mesmo que tivesse plena consciência de não adormeceria tão rápido.

Mas que raio de pesadelo foi esse?!

Ainda estava amedrontado, e seu coração doía no peito. Não entendia o motivo daquela sensação ruim na boca do estômago, revirando-o e dando um nó em seu cérebro já demasiadamente perturbado pelo susto. As palmas das mãos suavam, e ele as friccionou contra a calça do pijama para que a sensação pegajosa desaparecesse de uma vez.

Suspirou pesadamente quando finalmente conseguiu se acalmar, após alguns minutos de silêncio.

– Você está ficando louco. – sussurrou apenas para quebrar a taciturnidade do momento, que se mantinha e o importunava profundamente. – Louco. Louco de vez.

Uma pedra bateu na janela, e ele saltou na cama, o coração parando de bater por alguns segundos, para logo em seguida praguejar baixinho consigo mesmo, descrente. Quem poderia ser? Já esperava ver Mackenzie lá fora, com aquele sorriso infantil e travesso, porém, quando abriu a janela e colocou a cabeça para fora, sentiu o que restava de sangue em seu rosto se esvair tão rapidamente que era como se nunca houvesse chegado.

A boca escancarou-se num cômico "o", enquanto ele tentava raciocinar direito.

Você só pode estar brincando...

Colorido se encontrava logo embaixo de sua janela, um sorriso de orelha a orelha estampado em seu rosto como uma pintura caótica; exatamente da maneira que se lembrava de ser antes. As roupas também eram as mesmas, esfarrapadas, porém, ainda assim emitindo uma luz própria que parecia irradiar em consequência de estar sendo tocada pelo tímido brilho da lua. Jared sentiu a pulsação acelerar consideravelmente, e o suor voltou a escorrer pela face pálida.

– Mas que Inferno é esse?! – perguntou baixinho numa exclamação.

O palhaço fez um gesto com a mão, como se tentasse chamá-lo, e seus olhos azuis quase pareciam brancos de tão claros. A cena assustava um pouco ao Padalecki, que choramingou consigo mesmo. Não era como se não gostasse de palhaços, mas da última vez que havia ido a um circo, o ator havia caído da arquibancada e se estatelara bem à sua frente. Não foi uma cena agradável, e até aquele momento a imagem estava cravada em sua memória como ferro em brasa. Tinha medo do que poderia acontecer se seguisse o dito cujo até sabe-se lá onde.

Porém, Colorido continuou a gesticular quase timidamente, e, passo a passo, afastou-se da estalagem até estar à beira da floresta. Jared mandou todo o cuidado às favas, pegou um moletom e saiu; descalço e com pijama, sem se importar com o que os vizinhos iriam pensar se o vissem vestido daquela maneira tão bizarra. Simplesmente correu o mais rápido que pôde sem fazer muito barulho enquanto descia as escadas e abria a porta do lugar para continuar a correr, e dessa vez com menos cautela.

Adentrou cada vez mais fundo na floresta, sentindo diversos galhos lhe cortando a sola dos pés, ouvindo o som das folhas secas sendo esmagadas enquanto continuava a fitar diretamente o palhaço. Parecia incrível como, mesmo andando, o outro conseguia ser mais rápido que ele. Padalecki se sentia como uma criança perdida tentando encontrar os pais, ouvindo o piar de corujas ao longe, o silêncio letífero que permanecia na mata àquela altura da noite.

No entanto, o palhaço parou numa clareira iluminada, por onde era possível ver todas as estrelas no céu, e a floresta não lhe pareceu mais tão assustadora; seria uma cena maravilhosa, se não estivesse tão sobressaltado. O moreno arfava pelo esforço de correr atrás de Colorido sem perdê-lo de vista, então se apoiou nos joelhos enquanto o fitava, tentando entender o motivo de ele ter reaparecido, após tanto tempo.

Se é que algum dia realmente existiu.

– Você... Você é real? – perguntou num sussurro falho enquanto tentava se acalmar, a respiração ainda pesada, mas não entendia o motivo de estar falando como se esperasse uma resposta convincente o suficiente para desfazer o nó em seu cérebro. – Você é real, Colorido?

O outro pendeu a cabeça para o lado por um instante, e o gesto era assustadoramente infantil, quase ingênuo. Jared cambaleou para trás, e os machucados em seu pé arderam quando foram pressionados à relva molhada e à camada de terra que se encontrava exposta ao redor da clareira. Se havia algo que o assustava mais do que ser pego de surpresa, no meio da madrugada, por uma visita de alguém que acreditava não passar de uma alucinação, era vê-la agir como uma criancinha inocente de cinco anos, como se estivesse curiosa e ao mesmo tempo hesitante.

O palhaço esticou a mão num gesto simpático, e Padalecki pensou muito antes de se dirigir lentamente até ele. Um passo, depois outro, até estar logo à sua frente, na defensiva, de punhos cerrados, pronto para correr ou brigar se algo acontecesse; se fosse necessário. Porém, logo aceitava o cumprimento de Colorido, sentindo-se relaxar um pouquinho ao apertar sua mão.

– Eu sabia que não era só imaginação... Sabia que era real.

E então o Valete sorriu.

"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." — Friedrich Nietzsche.

RESPOSTAS:

Alice Harvey — Alice, seria muita insanidade eu confessar que quase chorei com seu review? Sendo sincera, você não tem idéia do quando me sinto agradecida por ter aceitado me ajudar com a betagem dessa história! Também pelos reviews, pelo incentivo... Por estar me ajudando! Não tem noção do quanto fico imensamente grata por tudo que você fez até hoje! Aliás, foi minha primeira leitora, não é mesmo? E não importa se eu tenho um, nenhum ou mil. O mais importante sempre vai ser escrever para divertir as pessoas, para fazê-las sentir as coisas que eu senti quando escrevi, ou até depois, me jogar de cabeça no projeto, mesmo que ninguém comente. (O que não é o caso [risos]) É realmente maravilhoso escrever, mas as coisas sempre ficam melhores quando temos algum apoio, independentemente de quem seja. Então, por isso e por todas as outras coisas, obrigado.

Eve Ackles — Oi! Pra ser sincera contigo, não faço a menor idéia de como responder aos comentários. Acho que perdi a prática. [risos] Na verdade, pensei bastante nessa história antes de sequer começar a fazer os rascunhos. Propositalmente, tentei deixar certa tensão no ar, tentar manter algo mais sombrio. Quando misturo a realidade com o sobrenatural, tento manter esse gostinho de "ilusão", mesmo que na maior parte do tempo seja fraco.

Se Jared será ou não o último a se juntar a esse circo de horrores, isso eu não posso dizer, mas ainda tem muito caminho pela frente, então vou deixar que você conclua por si mesma. [risos] Beijos, obrigado por ler e comentar!

Waldorf SaN — Bem, na verdade, quem não sabe o quão satisfatório é ler comentários assim, são vocês leitores. É por isso que todos nos dedicamos cada vez mais para escrever coisas que merecem ser lidas. Porque sabemos que aqueles que lêem buscam isso, essa necessidade do palpável. Agora, se gosta de minhas pequenas linhas tortas que foram ornamentadas pela beta, fico feliz!

Vou adiantar uma coisa pra você, Alice: no começo do capítulo, não era o Jensen. [risos] Sendo um Doppelgänger, seria realmente insano colocá-lo com entusiasmo em ver alguém assustado ou torturar essa pessoa. "Se esvaziar e deixar que outras pessoas te encham com suas vontades e desejos" é uma boa descrição da lenda. De fato, ele chega a ser uma marionete num show que nunca termina. Mas agora, diga-me: como você se sentiria em relação a uma pessoa que não se revolta, ou não se irrita com tudo o que acontece de ruim com aquelas que estão próximas, mesmo que não passem de estranhos; como se sentiria se ela estivesse indiferente à essa violência? É aceitável o fato de ele não ser "bem visto" por ali.

Jared realmente é um garoto fora dos padrões, e quem sabe ele e a irmã não pudessem ser encaixados nessa classificação de pacientes loucos e perigosos, presos em alas psiquiatras? [risos] A verdade é que ambos realmente estão frustrados com isso, e talvez isso também ajude um pouco no momento de irritação. Devo admitir que você me surpreendeu com sua definição do personagem com relação aos laços. Melhor do que eu poderia determinar.

Fábrica de maldades? [risos] Continuo adorando a idéia do circo, tanto quanto gostei dessa sua nova concepção sobre o assunto.