Beta: Alice Harvey
Peço desculpas pela demora, galera. Acontece que o tempo estava meio corrido por aqui, as coisas complicaram e eu ainda estou devendo alguns comentários. Mas me dediquei especificamente à escrita, quando consegui. Espero que me perdoem pela demora.
Beijos, desejo que apreciem a leitura! ^^
Capítulo 4 — Time of Dying — Tempo de morrer
Estremeceu enquanto sentia a tensão de cada músculo rígido, soltando um gemido dolorido. No geral, até a dor física se tornava insignificante quando tinha seus poderes, mas não ali; não naquele momento. Nada naquele aposento era inteiramente nítido, nada além das correntes que prendiam seus pulsos e tornozelos. Nada além dos olhares mortíferos acompanhados de sorrisos macabros. Nada além da crueldade que fazia seu coração encolher e seus olhos arderem pelas lágrimas que se negava a derramar. Uma regra não ditada em meio às ordens recebidas: chorar nunca era permitido. Nunca. E, se o fizesse, sabia, a tortura se estenderia por todo o tempo que o Mágico quisesse; até que sua raiva fosse embora.
‒ Está se divertindo, meu pequeno? ‒ o homem perguntou com mais um sorriso. ‒ Você gostou desse novo jogo?
Doppelgänger precisou de todo o autocontrole que possuía para não se debater quando os dedos gélidos roçaram suavemente em seu rosto, enquanto o coração acelerava consideravelmente. Sentiu as unhas cravando-se em sua pele macia, rasgando a carne e provocando mais uma ferida ardente, que fez um fio de sangue escarlate escorrer e colorir insanamente a pele pálida, então um breve arquejo de protesto escapou por entre seus lábios, apenas para que se arrependesse de tê-lo feito. A dor tornou-se mais intensa.
‒ Já não conhece as regras?! ‒ os olhos do Mágico tornaram-se duros, e ele soltou a face do garoto, que se permitiu relaxar um pouco. ‒ Já não brincou o bastante?!
Jensen balbuciou algo ininteligível antes de fechar os olhos com força, sentindo cada célula de seu corpo queimando. Gemeu baixinho pela dor quando as correntes machucaram ainda mais seus pulsos, apertando-os com mais violência. Sabia que não deveria ter oferecido nenhum tipo de resistência, mas o instinto de autopreservação ainda gritava em seu interior, fazendo algumas lágrimas caírem pelo rosto ferido. Sentiu o Mágico se aproximar, passando a língua pela extensão do pescoço manchado de sangue, num ato perigosamente conhecido pelo louro. E então o homem observou com naturalidade:
‒ Seu gosto é doce...
X-x-x-x—x-x-x-x-X
Sua cabeça latejava como se houvesse sido acertada por uma pilha de tijolos, e a visão estava embaçada. Os músculos enrijeceram quando tentou se mover; e isso provocou dor. Jared sentia algo ligeiramente metálico na boca, e, ao testar o sabor, descobriu que era sangue; o que o fez se retrair e cuspir o líquido viscoso o mais rápido que conseguiu, sentindo-se zonzo. Algumas lágrimas lhe surgiram nos olhos ao perceber que não era por causa da tontura que não conseguia enxergar, e então tudo se tornou dolorosamente nítido em sua cabeça; quando finalmente sentiu as grossas correntes que prendiam seus pulsos e tornozelos, o motivo de não ter conseguido se movimentar anteriormente.
Aquele maldito me prendeu! O Colorido me nocauteou e me arrastou para cá, seja lá onde isso for!
A respiração de Padalecki acelerou, e ele pôde sentir o sangue pulsando em suas veias enquanto o coração encolhia. Gotas de suor brotaram em sua testa, escorrendo por seu rosto quando fechou novamente os olhos. Estava com medo, estava assustado. Estava em pânico. Só não gritava porque não sabia se conseguiria fazê-lo, e também não queria atrair nenhuma atenção para si. Como saber que as pessoas que o levaram até ali não eram psicopatas? Era melhor não se arriscar.
O que eu devo fazer? Deus, o que eu devo fazer?
X-x-x-x—x-x-x-x-X
Mackenzie bocejou enquanto esfregava os olhos com o nó dos dedos e se dirigia para uma das cadeiras que estavam em volta da pequena mesa de madeira antiga. Sentia-se estranhamente sonolenta, mesmo que houvesse dormido durante a manhã toda. Havia um incômodo frio em sua barriga, havia borboletas em seu estômago, como um instinto que gritava que algo estava errado. Tomou o café da manhã com a incômoda sensação de que algo estava faltando, mas não sabia e nem fazia a menor idéia do que era. Somente quando estava saindo da estalagem, lembrou-se do sonho que tivera, e um calafrio percorreu sua espinha.
‒ Mãe? ‒ voltou correndo para a cozinha, afobada. ‒ A senhora viu o Jared por aí?
Donna terminou de secar os pratos e voltou-se para a filha, franzindo ligeiramente o cenho enquanto arqueava uma sobrancelha de maneira confusa. Apesar de parecer um pouco intrigada, não estava realmente interessada na pergunta da filha.
‒ O garoto dos Padalecki? Não, não o vi. Por que quer saber?
‒ Eu... ‒ a morena logo tratou de soltar a primeira mentira que lhe veio à mente. ‒ Eu emprestei um livro pra ele ontem, e queria saber se já leu.
A Ackles mais velha deu de ombros enquanto levava o escorredor até a mesa, e agora parecia realmente não se importar com o assunto sobre o qual conversavam. Mackenzie sentiu-se praticamente expulsa do lugar, pois tinha certeza de que a mulher não prestara a devida atenção em sequer uma única palavra que havia dito.
‒ Só vi o garoto no dia em que se mudou, e o restante do tempo sequer cruzei com ele. - A mais velha respondeu de forma indifirente, como se fosse uma resposta automática.
Mackenzie suspirou resignadamente, cruzando os braços finos na altura do peito, respondendo com desistência antes de girar os tornozelos em direção à saída da cozinha.
‒ Tudo bem. Deixa pra lá.
E em pensamento completou:
Obrigada por nada, mamãe.
A garota saiu da hospedaria pisando forte, sabendo que seria inútil tentar falar com qualquer outra pessoa. O que mesmo Padalecki lhe havia dito? Algo sobre os pais nunca ouvirem os filhos... Agora ela sabia que era verdade. De que adiantava falar com Donna, com Roger, ou quem quer que fosse? Ninguém lhe daria ouvidos, e de quebra ainda diriam que estava ficando louca.
Mackenzie olhou pelo ombro para ter a certeza de que ninguém a estava observando, e, lentamente, se dirigiu à floresta. Bom, se ninguém a iria escutar, ela sabia uma maneira de encontrar as respostas. Sozinha, apenas para variar um pouco. Ela, sua consciência e a natureza.
‒ Somos somente nós duas, outra vez, minha querida. ‒ a morena sorriu.
No pescoço da Ackles, um pingente com símbolo celta tremulou brevemente, como que em resposta.
[...]
Silenciosamente, seus dedos escorregaram pela superfície lisa da pedra na qual se deitara enquanto fitava o céu que pouco a pouco tomava uma coloração escurecida, podendo mostrar as primeiras estrelas surgindo entre as nuvens claras. Umedecendo os lábios com a ponta da língua, a Ackles pôs-se a falar com ninguém em especial, torcendo para obter ao menos uma palavra.
‒ De la nature, vie ma, dites-moi si Il ya moyen de montrer la vérité, dites-moi si il ya moyen de le sauver vie. [Natureza, minha vida, diga-me se há uma forma de mostrar a verdade, diga-me se há uma maneira de salvar vidas.] ‒ seus olhos correram pelas árvores, esperando algum sinal. Nada. ‒ Je voudrais pouvoir aider, mais pas d'utilisation de mes lèvres devient impossible. [Eu gostaria de poder ajudar, mas sem o uso de minha lábia se torna impossível.]
Estava prestes a desistir, quando finalmente sentiu um leve roçar de dedos cálidos em seu rosto, e logo Mackenzie sentiu um sorriso se formando. Apreciou a sensação por alguns instantes antes de se voltar para a garota loura ao seu lado, ligeiramente corada, observando os olhos escuros da outra.
‒ Ma chère? [Minha querida?] ‒ arriscou num tom de voz fraco.
‒ In magie cruels, prouve de plus em plus disposés à le voler. Sauve-toi, ma fille. Na pas aller dans les mots d'Arlequin, ne vous laissez pas berner par la magie de la Dame. [O Mágico cruel se mostra disposto a roubá-la. Salva-te, menina. Não acompanhe as palavras de Arlequim, não se deixe levar pela magia da Dama.] ‒ definitivamente, aquilo não era nada do que Mackenzie queria ouvir. E, só para fazê-la sentir-se derrotada, Lady ainda completou num tom doce : ‒ L'objectif est de retracer leurs prospres plaisanteries, même s'il n'est pas dans la façon dont vous vous attendez. [O Destino traça suas próprias brincadeiras, mesmo que não da maneira que você espera.]
Ackles virou o rosto para o céu novamente, franzindo o cenho de maneira ligeiramente angustiada enquanto as lágrimas lhe turvavam a visão. Praguejou baixinho consigo mesma e fechou os olhos. Por que, afinal de contas, precisava ser tão inútil? Por que não podia fazer nada para evitar que as pessoas que lhe eram próximas, acabassem se machucando? Por que tinha de ser a peça frágil do jogo? Estava cansada, ora essa! Cansada de ser descartada de novo e de novo. Cansada de ser sempre deixada de lado como um brinquedo velho.
Eu não vou mais ser um peão nesse jogo de xadrez, decidiu consigo mesma. Nunca mais.
‒ E que se foda também! ‒ declarou em voz alta, arrancando o amuleto em seu pescoço. ‒ Eu não preciso de nenhuma senhora, principalmente uma metida à princesinha azul para me proteger! Então que se dane o ritual e toda essa bruxaria, ou o que for!
Antes que a garota loura pudesse reagir, a morena bateu o símbolo sobre a formação rochosa, estilhaçando o objeto em pequenas peças irreparáveis. Lady Blue ainda teve a chance de arregalar os olhos antes de tremular e desaparecer por completo. Mackenzie sentia-se quase nua sem a corrente, mas ainda assim conseguiu sorrir, experimentando uma estranha liberdade que brotava em seu peito.
‒ Eu sinto muito. Mas... Dessa vez, eu não vou ser apenas uma garotinha indefesa no campo de batalha. Eu vou lutar... Sozinha.
X-x-x-x—x-x-x-x-X
Padalecki realmente não queria abrir os olhos. Realmente, mas a curiosidade falou mais alto quando ouviu um barulho que se assemelhava a uma porta sendo aberta. Estremeceu e piscou diversas vezes quando o breu tornou-se mais intenso, mas acabou por se acostumar enquanto tentava enxergar alguma coisa em meio à escuridão.
‒ Não enfureça o Mágico, menino. ‒ uma voz infantil lhe sussurrou ao pé do ouvido, e Jared estremeceu, mas se recusou a fechar os olhos enquanto cerrava os punhos com força. ‒ Ele não vai te machucar, de verdade, mas pra isso... Você só precisa dizer sim... Por favor...
‒ Cale-se! ‒ Jared grunhiu por entre os dentes trincados, mesmo que estivesse um tanto quanto assustado. ‒ Por Deus, cale-se!
‒ Deus? ‒ outra voz, dessa vez ainda mais próxima, fez o rapaz virar o rosto tão rapidamente que seu pescoço estalou. ‒ Aqui não existe "Deus".
O moreno precisou de todo autocontrole que possuía para não gritar, mas se debateu ao ponto de esfolar os pulsos, gemendo baixinho pela dor. Padalecki encarou o garoto à sua frente, tão pálido que parecia brilhar, mas seu estômago se revirava de maneira desconfortável enquanto o cheiro de sangue preenchia o ar. Céus, com todos aqueles machucados, aqueles hematomas tão arroxeados que poderiam facilmente tornar-se pretos... Como aquele garoto ainda estava de pé?! As lágrimas lhe turvaram os olhos, e ele evitou olhar o corpo do garoto do pescoço para baixo, porque, afinal, aquelas roupas brancas só cobriam o suficiente para que ele não ficasse totalmente exposto.
‒ Eu quero ir embora... ‒ balbuciou num tom desesperado, odiando-se por soar tão fraco. ‒ Por favor... Eu... Eu quero voltar pra casa...
O louro arregalou os olhos e se aproximou de tal forma, que Jared podia sentir o hálito mentolado soprando em seu rosto, os cílios longos ameaçando roçar nas maçãs de seu rosto. As íris eram assustadoramente verdes, mas pareciam amedrontadas. Quando sussurrou novamente, sua voz transparecia preocupação, transparecia pena.
‒ Não... Não diga isso... Ele... Ele vai te ouvir... E... Você vai... Vai estar em maus lençóis...
‒ Ele quem? ‒ Padalecki engoliu o choro, tentando manter-se forte, apesar do pânico. ‒ O... O Mágico?
O garoto assentiu uma única vez, e depositou o dedo indicador sobre os lábios do moreno, que se remexeu inquieto quando ouviu o barulho de passos se aproximando. O maior realmente era um garoto corajoso, mas aquilo estava muito além do que poderia suportar. Já estava em seu limite. Literalmente.
‒ Eu quero ir embora... ‒ sussurrou num tom baixo. ‒ Eu quero voltar pra casa...
‒ Você não pode. ‒ o louro arregalou ainda mais os olhos, e parecia, estranhamente, uma criança assustada. ‒ Nenhum de nós pode. Eu...
E então ele saiu correndo. Assim, sem mais nem menos. Simplesmente desapareceu, sem explicar nada ou ao menos dizer aonde iria, fazendo Jared se debater com ainda mais força, sentindo alguns filetes escorrerem por seu braço, filetes de um líquido quente e pegajoso que ele imediatamente identificou como sendo sangue.
Céus, algumas lágrimas caíram lentamente e ele soluçou. Que lugar é esse, meu Deus? Eu quero sair daqui! Eu quero voltar pra casa! Eu... Eu não quero morrer...
X-x-x-x—x-x-x-x-X
Doppelgänger arquejou pela dor quando Valete agarrou seu cabelo e o arrastou, sem se importar com o fato de o garoto se debater com brutalidade, tentando se livrar do aperto de ferro em suas mãos. Jensen não estava habituado a se sentir daquela maneira, o que significava que o Mágico ainda deveria estar furioso. Isso, por si só, já era um fato preocupante. Nunca antes sua fúria durara tanto tempo. Nunca antes as coisas haviam dado tão errado. Nunca haviam saído tanto de seu controle.
"Deus" lembrou-se da pequena prece que o estranho fizera de maneira silenciosa, mas o gosto metálico em sua boca o fez perder a linha de pensamento.
‒ Ele tem um novo favorito, Doppel. ‒ Arlequim provocou com um sorriso maroto. ‒ Achou mesmo que ficaria no topo por tanto tempo? Ele me pediu para trazer o garoto... Ele o queria, especificamente, se eu não conseguisse enxergar a menina. E sabe por quê? Porque você se tornou um brinquedinho velho. Ele já te conhece o bastante. Logo ele vai te descartar, assim como fez com todos os outros. E quer saber de uma coisa? Ninguém vai sentir sua falta...
Jensen não respondeu, mas não era pelo fato de o maroto estar quase o sufocando. A verdade é que ele não tinha uma resposta. Porque ele sabia que o Valete não diria nada que não fosse ao pé da letra. Fora assim com os outros. Ele disse que a Dama tinha um sorriso lindo, e lá estava ela, sorrindo pela eternidade. Disse que os olhos da Lady Blue eram piedosos, e lá estava ela, só podendo ver quando ia ao mundo humano. Disse que o antigo Clown não tinha piadas interessantes, e o outro imediatamente foi dispensado.
Com ele não seria diferente também.
E sabia muito bem disso.
É o tempo de morrer...
X-x-x-x—x-x-x-x-X
O latejar começou de maneira lenta, primeiro em seus braços, alastrando-se como o crepitar das chamas numa lareira, vagarosamente, sem pressa, como se apreciasse finalmente ter alguém para atingir. A princípio, Jared acreditou ser apenas sua imaginação lhe pregando novas peças macabras, mas logo percebeu que não eram apenas seus pulsos que sangravam. Seu corpo todo se contorcia pela dor, mas de nada adiantava o fato de se debater. Se fosse sincero consigo mesmo, admitiria que aquilo, só piorava a sensação, mas não era de seu feitio ficar parado quando se machucava.
As lágrimas lhe surgiram aos olhos e começaram a escorrer sem seu consentimento pelo rosto com o cenho ligeiramente franzido enquanto mordia o lábio inferior com força. Deus, ele precisava acabar com aquele silêncio antes que enlouquecesse de vez!
E assim o fez, quando as dores pioraram. Os gritos escapavam inconscientes, sem nexo, apenas balbucios desesperados e repletos de pânico, enquanto, sem perceber, acabou debatendo-se novamente, fazendo com que as correntes se chocassem umas contra as outras.
Eu não quero morrer... Céus... Eu não quero morrer!
X-x-x-x—x-x-x-x-X
Vagueando os olhos pelas árvores, sacudia os pés no ritmo do vento, cantarolando uma música qualquer enquanto comprimia os lábios. A cabeça balançava de um lado a outro, as feições inexpressivas, o olhar perdido numa época qualquer que de certo não importava tanto quanto o sentimento que se alojava em seu peito fazia parecer. O rapaz estava prestes a apoiar-se sobre o áspero tronco para ver se o sono lhe abatia, quando algo finalmente chamou sua atenção, e ele teve um leve sobressalto ao se dar conta do horário.
Definitivamente, as coisas não estavam nem um pouco boas no equilíbrio do mundo sobrenatural... Talvez isso se devesse à quebra de um selo importante. E havia outra maneira de se deliciar com o caos que seguiria de perto aquela batalha?
Simon White sorriu satisfeito.
RESPOSTAS:
Medecris: Nossa pequena Lily tem um papel importante mais futuramente, lembre-se dela! ;)
O segredo por trás dessa ideologia tão confusa está escondido (bem) fundo, se procurar bastante nas entrelinhas conseguirá encontrar. Mas nada que não possa passar despercebido.
Todo mundo quis dar uns tapas no Jared, pra ele "cair na real", ou então acabar com o Valete! [risos]
Mackenzie é uma personagem com a qual tenho facilidade em trabalhar, mas tenho a impressão de que não estou modelando bem essa massa e que ela ainda não deu tudo o que tinha que dar... Enfim.
Beijos, obrigado por ler e comentar.
