Beta: Sem beta, dessa vez! A Alice está em Hiatus por tempo indeterminado, por motivos pessoais. Então, sou só eu e meu dicionário ;)

Capítulo 5 — The Nightmare comes to Life — O pesadelo toma vida

Esfregou as mãos uma na outra, com a vã esperança de aquecê-las mesmo que minimamente em meio à frieza do local, mas, assim como já esperava, não houve nenhum resultado com a tentativa. Os olhos no furioso tom rubro passaram a um cálido e suave escarlate enquanto observava suas pequenas crianças por meio da magia. Havia um sorriso em seu rosto, sem o habitual sadismo; porque elas eram suas crias. Eram seus filhos. De maneira errônea e descontrolada, ele acabaria fazendo com que eles o amassem. Sim. Eles o amariam. Eles o amariam acima de tudo, assim como ele os amava. Eles seriam seus como há muito lhe fora proibido, como há muito lhe fora roubado.

Arrumou a cartola negra sobre a cabeça, pressentindo a aproximação de Valete, trazendo consigo seu garoto mais velho. Poderia ser uma grande falha, mas se apegara à Doppelgänger. Não deveria, mas o loiro acabara por se tornar uma espécie de favorito. E agora, por bem ou por mal, Doppel ensinaria à Shadow — o novato —, tudo o que sabia. Pois, por bem ou por mal, todos os caprichos criados por sua mente eram ali atendidos com prontidão, revelando o quão importante se tornara para Paradox Parallel. Paralelo por seguir sempre o ritmo do mundo humano, aquilo que todos chamavam de vida real. Por ter — mesmo que a maioria não pudesse ver — uma grande semelhança com todos os continentes, mares, oceanos, florestas e países do lugar. Paradoxo por contradizer todas as afirmações feitas pela ciência, por mostrar que ali, nenhuma lei humana era de grande consideração. Paradox Parallel era seu mundo, criado a partir de sua magia. Seu poder. E ninguém iria tirá-lo de si, jamais.

Deixe-o aí. – declarou em seu conhecido tom de voz. – E vá embora.

– Sim, senhor. – Valete deu um pequeno sorriso maroto e se desfez no momento seguinte. Ah! Um bom garoto! Cheio de truques adoráveis.

O Mágico levantou, aproximando-se de Doppelgänger com cuidado, caminhando lenta e calculadamente. O garoto loiro tremia, mas o homem tinha plena consciência de que era apenas o choque de ter voltado ao seu normal daquela maneira tão... Estridente. De certo não sabia os motivos de sua raiva ter passado tão rapidamente, e teria se sentido aliviado, se sua alma não houvesse sido aprisionada novamente. Pois, afinal, era necessário que aquela pequena parte de Doppel não estivesse presente, para que pudesse controlá-lo e subjugá-lo da maneira que quisesse. Ackles não resistiria se não se importasse, então o mais velho não via problema algum em arrancar aquele "pedaço" que não valia nada e só lhe traria problemas.

Poderia amar-se por ambos.

Já deve ter ouvido falar de Shadow... – começou vagarosamente.

Jensen assentiu uma única vez, e o gesto familiar trouxe um sorriso ao rosto anormalmente feliz do Feiticeiro. O garoto era, de fato, alguém capaz de fascinar, querendo isso ou não. Mantinha aquele ar incólume e taciturno que o tornava misterioso, alguém a ser observado pelas pessoas ao redor. Se não fosse arriscado demais, o mandaria no lugar de Valete. O mandaria buscar seus outros filhos, e sabia que ele sim poderia levar para si a garota Ackles. Mas não. Já era uma vitória tê-lo ali, não jogaria fora aquela chance. A moça com toda a certeza seria uma perfeita bruxa se fosse até Paradox Parallel, pois conseguira manter-se invisível até aquele momento, sempre passando despercebida pela mágica de seus feitiços. Caso se arriscasse a mandar Doppel, certamente o perderia para a Maga das Casas.

Você o ensinará. – declarou em tom definitivo. – O ensinará a usar os poderes, até que o garoto possa ficar sozinho sem destruir nada. Ensinará as regras de nosso mundo... E o fará aceitá-lo tal como é.

–... Ele já está na Ala-1, senhor? – Doppelgänger colocou-se de pé imediatamente, ainda que um pouco cambaleante, trêmulo.

O Mágico sacudiu os ombros, como se estivesse dizendo que não fazia a menor ideia, pois, realmente, para ele não havia diferença nenhuma. Era um novo filho, mas não o veria a menos que o garoto fizesse algo de relativamente errado, pois, por ora, ainda tinha alguém para abraçar sem precisar de motivos para tal. Mesmo que Doppel não sentisse nada, mesmo que não reagisse quando o tocava, mesmo que o encarasse de maneira apática sempre que sorria e roçava as pontas dos dedos em seu rosto. Mesmo que o garoto simplesmente não entendesse suas motivações, por não ser instigado pela curiosidade presente em todo ser vivo.

Ele poderia sentir por ambos.

Não importa. – abriu os braços num gesto claramente convidativo. – Venha.

Sem esboçar nenhuma reação, Jensen deixou-se ser abraçado com força, enquanto o Feiticeiro roçava os dedos em seus ombros, perguntando-se o motivo de aquelas roupas brancas serem tão ásperas e incômodas sob sua pele. Como ainda permitia que Paradox Parallel alterasse naturalmente as vestes de suas crianças enquanto as ensinava a serem boazinhas? O pensamento não durou meio segundo em sua cabeça, antes de voltar sua atenção para o garoto pressionado contra seu peito.

Não importava que Doppelgänger não reagisse de maneira alguma. Não importava que seus olhos outrora cheios de dor transmitissem agora apenas um vazio profundo e profuso. Não importava que seu corpo estivesse rígido, não importava que ainda houvesse marcas arroxeadas em seu rosto, em consequência de sua última bronca. Sim. Doppel era um garoto levado, sempre cometendo deslizes e aprontando. Mas também era maravilhoso, pois conseguira manter-se intacto durante praticamente todos aqueles anos.

O Mágico podia amar por ambos. Sentir por ambos. Chorar por ambos. Sorrir por ambos.

Não importava se o que o garoto sentia era recíproco. Não importava se estivesse machucado ou não. Não de verdade, pelo menos. Era apenas uma máscara inútil que não serviria para nada. Por isso era seu favorito, por isso gostava de tê-lo por perto, sempre. Jensen não era como todos os outros, não era rebelde ou agressivo, tão menos maroto como Valete. Era apenas uma casca vazia, sem sentimentos, caprichos, emoções ou vontades. Era apenas um bom soldado, sempre disposto a acatar suas ordens e desejos. Então...

O Feiticeiro poderia viver por ambos.

– Sim, senhor.

E, estranhamente, notar o quão cálidos ainda eram os lábios de Doppel, fez com que ele se sentisse bem por isso. Jensen Ackles ainda era seu — de todas as formas possíveis, impossíveis e inimagináveis.

X-x-x-x—x-x-x-x-X

Mackenzie soube que as coisas estavam indo de mal à pior quando, na manhã seguinte, viu alguns carros de polícia estacionados em frente à hospedaria; luzinhas vermelhas e azuis piscando, o característico som de galhos sendo pisoteados enquanto os homens de preto caminhavam por ali. Logo que se apoiou no peitoril da janela, seu olhar se cruzou com o de Colin Ford, o filho do delegado Morgan. As íris escuras do rapaz estavam angustiadas, mas sua expressão era absurdamente serena, e a garota logo pôde deduzir que ele tentava não demonstrar seu receio apenas para não decepcionar o pai. O observou por breves segundos, e logo em seguida voltou sua atenção para o tumulto. Ao ver os pais de Jared falando com os policiais, soube imediatamente o motivo da balbúrdia: Padalecki não voltara.

Algumas lágrimas lhe surgiram aos olhos, e depois suspirou de maneira tensa, os dedos vagueando pelo pescoço como que sentindo falta do objeto sempre ali presente, enquanto um estranho vazio instalava-se na boca de seu estômago. Aquele havia sido um presente de sua avó quando nascera, e, no decorrer dos anos, aprendeu que servia para mais do que somente decorá-la. Era um símbolo celta de proteção, que serviria para afastar todo o mal que se aproximasse. Perante qualquer tipo de magia, Mackenzie de tornaria invisível. Isso era relativamente bom, se quisesse fugir a vida inteira, mas a garota ansiava por fazer algo. Ela queria fazer alguma coisa. Quando Nonna lhe explicara a história da família, sua primeira reação foi odiar a si mesma e a todos os seus antepassados, mas percebeu que, em parte, eles não tinham toda a culpa. Para fazer algo bom — para os Ackles, claro —, eles haviam cometido um grande erro, e isso significava que precisavam consertar aquilo. Nonna foi contra, a princípio, mas acabou cedendo um pouco e ensinou feitiços à neta. Mackenzie tornou-se experiente no assunto, apesar de ser novinha. Sabia que, em momento algum, deveria retirar o colar, assim como seu irmão também não deveria tê-lo feito.

Os Ackles eram uma família amaldiçoada. No passado, tentaram fazer um pacto com um deus, mas o preço a pagar era alto demais. Eles voltaram atrás muito tarde. E, em consequência de suas atitudes, outras pessoas acabavam sofrendo. Mackenzie fora treinada para saber se defender, fora treinada para ser uma espécie de bruxa, para encontrar o irmão e tirá-lo de onde quer que o garoto estivesse. Mas quem disse que isso era fácil? Quem disse que era só dizer "Abracadabra" e fazer com que tudo voltasse a ser como era antes? Primeiro ela precisava saber onde o rapaz estava. Precisava saber o que enfrentaria, precisava saber o que veria pela frente. Era corajosa, sim, mas até mesmo ela tinha seus limites.

– Nonna... O que você faria agora? – baixou os olhos para a pequena multidão, novamente, esfregando os olhos com o nó dos dedos para afastar o choro que lhe subia à garganta. – Você me diria para continuar esperando "o sinal", ou diria que já é tarde demais?... Eu... Preciso de conselhos... Já não sei mais o que devo fazer.

Mordendo o lábio inferior com força, colocou-se a pensar sobre a situação complicada. Não podia mais esperar. Simplesmente não podia. Se Jared não aparecesse até o dia seguinte, tomaria uma atitude. Qualquer coisa, mesmo que sua vida corresse risco. Se Padalecki havia sido levado, não duvidava que logo outro corpo fosse encontrado na floresta. Assim fora da última vez, quando Elta desapareceu. Semanas depois, o corpo de um garoto fora encontrado. Não tinha mais de quinze anos, mas havia cicatrizes hediondas em toda a extensão de sua pele — exceto no rosto —, e ninguém sabia como ou por que. Alguns poucos se atreveram a dizer que fora alvo de rituais satânicos, mas os boatos morreram antes de tomar força.

Como podia conviver com aquilo? O moreno foi a única pessoa que parecia realmente aceitá-la como ela era. Ackles não era louca, não era uma criança; sabia mais que qualquer um julgaria ser possível, e sua aparente "insanidade" era apenas inteligência em demasia, cuja qual muitos não sabiam interpretar. Precisava tê-lo protegido. Deus, ela precisava tê-lo mantido a salvo! Como foi ingênua em acreditar que um rapaz tão especial poderia fugir do Olho Prestímano! Mackenzie precisava arranjar uma maneira de tirá-lo de onde quer que ele estivesse, precisava arranjar uma maneira de encontrar o irmão e as outras crianças. Pela primeira vez, precisava usar tudo o que sabia a seu favor, sendo legal — em termos judiciais — ou não. Precisaria usar tudo o que aprendera com a avó, e tudo o que aprendeu bisbilhotando os livros antigos do sótão.

Não apenas por si mesma. Naquele momento, sua vida pouco lhe importava. Pouco lhe importava o que seria necessário fazer para encontrar uma salvação. Mackenzie iria lutar.

Por todos aqueles que perdeu, e por todos aqueles que não queria perder.

– Eu prometo.

X-x-x-x—x-x-x-x-X

Valete ergueu os olhos para o céu azulado coberto de nuvens fofas e brancas, piscando lentamente enquanto cruzava os braços atrás das costas e apreciava a leve brisa da floresta. Era bom ficar ali, em Paradox Parallel. Não havia os habituais problemas, não havia as habituais preocupações. Apenas ele mesmo, suas vontades, e a vontade do Feiticeiro. Não precisava fazer nada além de levar as crianças para lá. Não precisava se preocupar com os castigos, pois não os recebia. Nunca era culpado por nada, pois sempre arranjava uma maneira de sair impune, mesmo quando a culpa era — sim — sua. Afinal, sempre havia algum idiota, como Doppel, que acabava assumindo os erros por algo que não fora feito por si.

Ergueu as mãos e enroscou os dedos no cabelo escuro, perguntando-se o motivo de não se importar tanto quanto deveria; ainda que não tão paranoicamente quanto Chasseresse. Até mesmo quando ia ao mundo humano, quando suas memórias retornavam, ele continuava sem se importar. A diferença é que ali, em Paradox Parallel, ele se sentia completo. Não havia nada além do calor aconchegante em seu peito, nada além de um sorriso maroto em seus lábios. No mundo humano, era como se algo faltasse. Havia o vazio em seu interior, havia o receio em suas ações, ainda que soubesse como controlar aquilo. Era como se cada ação pudesse causar uma consequência grave demais para assumi-la. E ele não iria fazê-lo, de maneira alguma. Então arranjava uma maneira de encontrar logo as crianças e levá-las para seu mundo. Assim, todos acabariam felizes.

Não importa, foi o que pensou consigo mesmo, irritado por se questionar sobre assuntos como aqueles quando tinha coisas muito mais interessantes para fazer. Aqui, nada vale mais que um peão num jogo de xadrez. Somos descartados sem problemas, somos jogados fora. Doppel logo vai embora, Shadow vai ficar por algum tempo. Mímica logo vai chorar, Chasseresse vai perder o espírito de caçadora. Clown vai esquecer suas piadas, enquanto o Lobisomem não vai passar de um maluco que uiva e late como cão. Morto vai perder o restante da humanidade, e Blue acabará com a própria magia para tentar salvar aos outros. E a Dama... Bom, a Dama do Sorriso vai ficar aqui por um longo tempo, apenas sorrindo...

Brincando com as cartas de baralho em suas mãos, Arlequim pensava em todos os companheiros da Ala-1. Eles não eram, nem de longe, seus amigos, mas não podia negar que eram no mínimo um tanto divertidos. A maioria tentava nunca se esquecer do mundo humano, tentava sempre fugir. Eles não sabiam a verdade. Eles não tinham a noção de que aquilo os mataria, cedo ou tarde. Eles não eram como Valete.

Ele sim sabia seu lugar. Ele não se importava com nada, nem ninguém. Ninguém além de si mesmo, ora essa! Pois, até o momento, qualquer proximidade com o restante do grupo não lhe traria nenhum tipo de benefício. Não havia o que pudesse tirar da convivência com os rapazes e moças. De nada adiantaria fingir algo. De nada adiantaria forçar um sorriso e dizer que tudo ficaria bem.

Pois elas não ficariam. Nunca.

E, por pior que aquilo fosse, um Valete jamais mentia.

X-x-x-x—x-x-x-x-X

A consciência o tomou aos poucos, mesmo que lutasse bravamente contra a lucidez. Os pulsos ardiam, e estava deitado numa posição completamente desconfortável. Jared suspirou baixinho consigo mesmo, mas, quando tentou se mover, algo metálico apertou a pele machucada, fazendo-o abrir os olhos instantaneamente e arquejar pelo choque. A dor latente foi a menor de suas preocupações por alguns momentos, principalmente quando um rosto pálido se aproximou o suficiente para que sentisse a respiração soprar em seu rosto. Uma face em ligeiro formato de coração, de uma garota que possuía longas madeixas douradas. Era bonita, com a aparência delicada em meio a trajes azuis, mas isso de nada adiantava para afastar o medo do rapaz.

Porque em seus olhos, onde numa pessoa normal haveria a íris e a pupila, não existia nada além da imensidão branca e uniforme de dois globos oculares sem cor.

Jared sentiu as pálpebras pesarem quando ela tocou seu rosto com uma suavidade acima do comum, mas a doce inconsciência o tomou antes que o pânico o atingisse completamente. E, de alguma forma, isso foi bom.

No fim das contas, ainda teve a ingênua esperança de que aquilo não passasse de um pesadelo. Infelizmente, era real demais para ser apenas um sonho, longo demais. As cicatrizes eram visíveis e ásperas em sua pele, e, sempre que conseguia encará-las, acabava por sentir um nó se formando em sua garganta. O frio era bruto, e nenhum de seus "colegas" — desconhecidos que não eram mais que borrões em sua visão — ali presentes parecia apenas uma alucinação criada por sua mente surtada.

Aquilo era um pesadelo, sim, mas um pesadelo que tomou vida.