No final do capítulo, há alguns termos sobre balé. Eu dancei quando era pequena (obrigada, mas fui), e lembro muito vagamente de como funcionava. Não tenho certeza de que a sequência de movimentos está certa, ou se é possível realizá-la. Mas enfim, qualquer coisa eu mudo. [risos]
E lá vamos nós, para mais um capítulo de Face. Espero que a demora não tenha sido tão cruel para vocês.
Beijos e até a próxima! :)
Capítulo 6 — To cry — Para chorar
Quando ele abriu os olhos novamente, grande parte da dor havia se esvaído. Sentia o corpo um pouco mais forte, apesar de sua cabeça latejar de maneira irritante e incômoda. Estremeceu pelo frio, mas, ao se mover, percebeu com certo receio, que as correntes em seus pulsos não pareciam mais tão apertadas. Com um puxão indelicado, conseguiu libertar-se sem muito esforço, e o choque do ferro contra o chão provocou uma série de ecos, chamando a atenção da garota que estava sentado ao seu lado. Ao se sentir sendo observado por ela, Padalecki enrijeceu e a encarou, franzindo o cenho. Era a mesma loira de antes.
A menina de olhos brancos e vestes azuis.
– Não precisa ter medo. – um sorriso doce havia se formado nos lábios finos dela, e, estranhamente, seu corpo relaxou, mesmo contra sua vontade. Queria fugir para bem longe dali. – Você precisa conhecer os outros. Venha comigo.
Que droga de lugar é esse?
– Outros? – sua voz soou engasgada, mais baixa que o de costume. – Eu... Que outros? Quem é você?
Mesmo que não houvesse emoção alguma nos olhos da moça, tinha a impressão de que ela o estava encarando de maneira extremamente irônica, como se duvidasse que tivesse ousadia de fazer tais perguntas com tamanha naturalidade. Quase se sentiu envergonhado pela própria atitude. Quase.
– Lady. As pessoas me conhecem como Lady Blue. – contrariando a expressão de outrora, ela sorriu mais uma vez. – Vamos. Clown deve estar ficando impaciente com sua demora.
Jared estreitou os olhos, afastando-se alguns passos, na defensiva. Esperava pelo momento em que alguém apareceria com uma câmera, rindo de sua cara, alegando que ele ficava muito engraçado quando assustado. Lady Blue? Clown? Que brincadeira de mau gosto era aquela? Padalecki estava temeroso quanto ao que a garota poderia fazer, apesar de ter a certeza absoluta de que não teria dificuldades para se proteger. Ele queria sair dali; queria voltar para casa e nunca mais colocar os pés naquele lugar estranho. Casa. Parecia estranho chamar a estalagem daquela maneira, mas — ao mesmo tempo —, soava tão... Certo.
– Shadow, o Mágico ficará irritado conosco se você não conhecer seus futuros companheiros. Venha. Nós precisamos ir à Ala-1...
– Shadow? – ele repetiu, um tanto surpreso. O que diabos era aquilo?
– Sim. – Lady Blue o encarou diretamente, como se pudesse, de alguma forma, enxergá-lo, e a intensidade de seu olhar o fez ficar tenso. – É o seu nome, não é?
E Jared soube que havia algo terrivelmente errado, quando a resposta não saiu de imediato.
–... Padalecki. Meu nome... É Jared Tristan Padalecki.
X-x-x-x—x-x-x-x-X
– Mackenzie, o que está fazendo? – apesar dos esforços da filha em se manter silenciosa, Donna conseguiu escutá-la subindo as escadas. – Já não lhe disse que o quarto de sua avó não é lugar para crianças da sua idade?
A morena suspirou enquanto mordia o lábio inferior e ia para a cozinha praticamente se arrastando pela má vontade. Não sabia como a mulher a havia escutado, uma vez que estava sempre tão ocupada fazendo sabe-se lá Deus o quê naquele lugar, mas tinha certeza de que teria problemas se não conversasse sobre o assunto.
– Desculpe mãe. – Ackles apressou-se a arranjar uma desculpa plausível para ir até lá. – É que eu perdi a presilha que ela me deu no último aniversário...
– E o que a faz pensar que está no quarto de Nonna? – a mais velha deixou o pano de prato na cadeira e encarou a menina enquanto cruzava os braços, numa postura desconfiada.
–... Balthy costumava brincar bastante com ela. – a morena gesticulou, referindo-se ao gato da avó. – Foi o primeiro lugar no qual pensei em procurar.
Mackenzie tinha certeza absoluta que aquela mentira não seria aceita pela mãe; pelo menos, não com facilidade. Balthy? Há quanto tempo o animal não aparecia na estalagem? Três dias, no mínimo. De que diabo tirou aquilo? Era completamente insano acreditar que Donna não ficaria — no mínimo — em alerta por seu falatório sem fundamento. Nunca, durante toda a sua vida, Ackles usara enfeites no cabelo.
No entanto, a resposta a deixou surpresa.
– Tudo bem então. – sua mãe sorriu docemente. – Mas não se esqueça de trancar a porta quando sair, ok? Não quero ninguém mexendo nas coisas de sua avó.
–... Sim, mamãe.
Sem esperar por mais nada, a garota pôs-se a correr para o sótão. Ok. Não era exatamente um sótão, apenas fora um quarto projetado no último andar da casa, no fim do corredor, especialmente para Nonna. Ackles estava apreensiva, sabendo que não teria outra chance daquela se não a aproveitasse o máximo que pudesse. Mas, para isso, precisaria de ajuda. O quarto cheio de livros, estantes e aqueles cobertores velhos que a avó idolatrava. Precisava usar a cabeça e ser rápida, principalmente porque Donna não tardaria a perceber sua demora. Era nesses momentos que mais sentia a falta de Lady. Se a outra estivesse ali, poderia ajudá-la a procurar o antigo diário que contava a história da família.
Não seja idiota, pensou consigo mesma enquanto sacudia a cabeça. Blue nunca a apoiaria nessa jornada maluca, Kenzie. Primeiro porque ela não queria que você soubesse tudo isso. E depois porque nunca lutaria, nem mesmo para proteger a própria vida. Então pare de ter idéias insanas como essa, certo?
Estava resignada por pensar daquela maneira, mas era verdade. O que podia fazer, afinal de contas? De acordo com a lenda, Lady Blue era a alma de uma garota pura que fora morta em conseqüência de um ato de pura maldade. Seria suposto que a bondade em seu coração a tornaria uma defensora dos fracos e oprimidos, uma conselheira dos atormentados. A lenda também dizia que, enquanto não adentrava no mundo em busca de seus protegidos, Lady não seria capaz de enxergar, e um branco uniforme e sem vida tomaria seus olhos. Enquanto isso não ocorresse, ela permaneceria numa espécie de limbo que delimitava as fronteiras do mundo sobrenatural. Mackenzie não sabia; ainda não a havia visto fora do mundo humano. Mas não importava, de qualquer maneira. Lady Blue não lutaria, por mais que tivesse força. Não faria nada, por mais que sua vida também estivesse em jogo. Não entraria naquela batalha, mesmo que seus "amigos" estivessem morrendo.
Era uma covarde.
– Não importa. – Mackenzie concluiu. Estava resignada consigo mesma por pensar demais sobre aquele assunto que só lhe trazia dor de cabeça. – Que fique feliz no mundinho florido e cor-de-rosa dela, onde nada de mal acontece com pessoas do bem... Eu não tenho nada a ver com isso. De maneira alguma preciso me importar.
Era necessário que fizesse aquilo sozinha. Não só pela família, mas também por todos aqueles que foram levados, por todos os inocentes que foram mortos. Se os Ackles cumpriram ou não sua parte naquele maldito trato egoísta, agora não existia mais a menor diferença. A morena era a única que poderia fazê-lo, uma vez que ninguém parecia disposto a ajudá-la naquilo. Ou, pelo menos, ninguém que conhecia. A cada vez que pensava naquilo se sentia ressentida pela atitude da avó naquele solstício de inverno que parecia cada vez mais distante.
Tanto faz, Mackenzie finalizou em pensamento; suspirando enquanto sentia um aperto lhe tomar o coração, como se uma mão invisível o comprimisse. Meu tempo está acabando. O Olho logo vai perceber que eu não estou com o colar, e então Ele vai vir me buscar... Assim como aconteceu com minha avó... Assim como aconteceu com meu irmão...
[...]
Irritada consigo mesma, Mackenzie socou o colchão da cama de Nonna, sentindo algumas lágrimas teimosas lhe turvarem a visão. Estava ali há mais de meia hora e não obtivera resultados. Sabia que não lhe restava muito tempo antes de sua mãe ir procurá-la, alegando que estava demorando demais para encontrar uma simples presilha, e que, depois, ambas poderiam procurar com mais calma.
O que eu faço?... Céus, o que eu faço?!
Mordeu o lábio inferior com força enquanto tentava pensar em algo. Pedir ajuda aos pais estava completamente fora de cogitação. Um estranho, talvez? Não. Teria de dar explicações para as quais ainda não tinha respostas boas o bastante. Com toda a certeza que fraquejaria no último momento e acabaria contando a verdade. Precisava aprender a fazer com que as pessoas acreditassem mais em si.
Como Jensen fazia...
Ainda não entendia a capacidade surpreendente que o rapaz tinha em fazer com que as pessoas confiassem cegamente em suas palavras. O que havia de errado? Talvez sua expressão sempre fosse inocente demais. Talvez ele conseguisse cativar as pessoas com aquele sorriso meio sapeca, talvez possuísse lábia o suficiente para que o escutassem sem fazer perguntas que soariam absurdas demais. Quantas vezes a havia livrado de problemas! Todas aquelas vezes nas quais sua avó lhe pegava fazendo algo de errado — como mexer naquelas plantas horrorosas que cultivava, por exemplo — era o mais velho que a fazia "se dobrar" de acordo com sua vontade. Ackles já havia, salvo morena de muitos sermões durante todos aqueles anos. Pelo menos, até desaparecer. E então tudo pareceu ruir bem diante de seus olhos, sem que pudesse segurar nada em seus frágeis braços.
Quando o colchão ao seu lado afundou, Mackenzie já estava quase gritando pelo sobressalto que teve, quando olhou para o lado e percebeu que era apenas um gato preto. E ele a encarava, os olhos amarelos parecendo estranhamente maiores do que o normal.
– O que foi Balthy? – a morena acariciou seu pelo desgrenhado, ainda um pouco assustada, mas menos em pânico. – Você me assustou, sabia?
O animal miou em resposta, e Ackles sorriu carinhosamente. A garota definitivamente não estava entendendo o que ele queria, pois, no momento seguinte, recebeu uma mordida na mão e se afastou com surpresa, arregalando um pouco os olhos. Há muito tempo o gato preto entrara para a família, criado por sua avó desde que a menina completara quatro anos. Não era agressivo.
– O que foi?
Mackenzie franziu o cenho quando Balthy miou novamente e saiu do quarto, indo para a sacada, ronronando enquanto se aproximava das plantas antigas que Nonna costumava cultivar enquanto ainda viva; e que, por algum motivo, permaneciam ali. Estranhamente intactas. A garota nunca havia parado para pensar, mas, talvez, aquilo fosse utilizado nos famosos rituais. E por que nunca percebeu que as folhas jamais pareciam tornar-se amareladas, permanecendo sempre com aquela tonalidade esverdeada e cheia de vida?
Que estranho...
– O que há aí, gatinho? – perguntou num tom carinhoso, e recebeu mais um miado em resposta.
Eu não entendo... Por que vovó permaneceria com todas essas plantas, mesmo depois de ter admitido que, nunca mais, se permitiria usar a bruxaria, para o que quer que fosse?
Com um sorriso travesso, Ackles acabou concluindo que Nonna era um gênio, enquanto sacudia a cabeça; descrente. Nem mesmo ela — que costumava surpreender a todos com suas idéias — seria capaz de pensar naquilo. Levantou-se e caminhou até os vasos, agachando-se e engatinhando até onde o animal havia parado, esquecendo-se completamente do momento no qual se preocupara em ser pega pela mãe.
– Vamos descobrir, não é?
Sem esperar por uma resposta, pôs ambas as mãos na terra, remexendo-a sem se importar em jogá-la para fora do vaso, ou com a bagunça que faria. Seus dedos tatearam até encontrar uma superfície áspera e com algo que aparentemente parecia uma espécie de cadeado. Como a pequena arca na qual as crianças da família Ackles costumavam guardar seus brinquedos. Como a pequena arca na qual Jensen havia guardado tudo aquilo que chamavam de "tesouro", durante longos onze anos. Depois que o louro desapareceu, Mackenzie o havia feito; pelo menos, até dois anos atrás, aos doze, quando Nonna sumiu sem deixar rastros.
– Vovó, a senhora é um sabe-tudo que não se cansa de me impressionar.
Sacudindo a cabeça, sorrindo, apalpou o objeto sólido até encontrar suas laterais, puxando-o para fora da terra e tentando ignorar a sujeira que havia feito. Precisaria ser rápida, mas, naquele momento, não lhe importava. Porque, depois de tanto tempo, finalmente os havia encontrado.
Os livros que contavam toda a história da família, que explicavam tudo sobre a maldição, tudo sobre como seus antepassados haviam sido covardes.
Os diários de Nonna Ackles.
– Obrigado Balthy.
X-x-x-x—x-x-x-x-X
Um, dois, três.
Um sorriso, os movimentos delicados e, em sua maioria, suaves, sem emitir qualquer tipo de barulho enquanto o tecido suave do vestido bailarina que usava sacudia-se levemente com a brisa noturna. A pele alva reluzia brandamente sob a luz da lua, que se erguia no céu escuro de maneira sublime. À distância, poderia ser considerada uma estátua, se não a vissem se movimentar.
Um, dois, três.
Era veloz, porém meiga, enquanto se balanceava num ritmo de valsa. Um passo ao lado com uma perna, trazendo a outra para trás desta, com o joelho meio dobrado e a meia ponta no chão. Em seguida, transferindo o peso do corpo para a perna de trás e logo em seguida para a da frente, sem mudar a posição de ambas.
Um, dois, três.
Os lábios tremiam levemente enquanto se concentrava unicamente na seqüência dos atos, mesmo que, aos poucos, o ritmo estivesse sendo reduzido. Uma série de piruetas — tour piqué — seguiu-se próxima ao fim, quando os cálculos de seus movimentos se tornaram menos exatos.
Primeira posição, segunda posição, terceira posição. Demi-plié, sissone à la second.
Agradeceu fazendo uma singela reverência, e seu coração encheu-se de paz. Enquanto erguia novamente o corpo e desfazia o sorriso do rosto, algumas lágrimas brotaram em seus olhos verdes, ameaçando fazer com que a maquiagem cuidadosamente preparada fosse desfeita. Ela não poderia fazê-lo. Nunca. Se chorasse, seria imediatamente expulsa. O que acontecia com as crianças que terminavam suas missões em Paradox Parallel? Eram mortas, provavelmente. Não queria saber. Não queria ser a próxima.
Fixou o olhar uma única vez na lua, e então seus braços voltaram a se mover de maneira branda, quase automaticamente. Sentiu o corpo tremer de exaustão, mas prosseguiu. Não tinha uma escolha, afinal de contas. Mímica sentiu o sorriso forçado em seus lábios.
Um, dois, três.
Um, dois, três.
RESPOSTAS:
Medecris: A Miss Lerdeza aqui acabou não respondendo ao comentário do capítulo quatro! Sinto muito por isso, e responderei agora, se não se importar.
Ah, não. A mãe do Mágico não tem culpa nenhuma! (Mas pode xingar à vontade, se isso fizer com que se sinta melhor [risos])
Jared tem condições de assumir o papel de herói, sim senhorita, mas, para isso, ele precisa querer. E... Bem, como o Valete já disse, ninguém ali é muito fã do Jensen. Se ele quiser ser salvo (Se tiver liberdade o suficiente para ao menos divagar sobre a possibilidade, sem ninguém deturpando seus pensamentos), vai precisar mudar um pouco, não? Jensen é o que esperam dele. E, no caso, ninguém está esperando muita coisa. Não agora, pelo menos.
Existir até existe! A resposta sempre esteve ali, bem na cara, eles apenas não conseguiam se recordar o suficiente para puxá-la e escapulir para longe! Felizmente ou não, Jared não faz o tipo de personagem que vai fugir e deixar todos para trás. Se daria bem com a marinha :)
Ah, se o Mágico soubesse que o "adorável Shadow" se envolveria com o "favorito Doppel"... Acho que ele pirava ainda mais, na mesma proporção dos surtos que você teria! [gargalhadas]
Beijos, obrigado por ler e comentar.
Naty: Acho que entendo sim, querida. [risos]
Desejo conseguir manter esse interesse vivo, então. Não há nada melhor que saber que sua história consegue tirar a noite de sono de alguém x)
Beijos, obrigado por ler e comentar.
Dels: Quando eu postei no Nyah!, senti até dó dos leitores, pra falar a verdade! Só faltava eles me jogarem dentro dum circo e tacar fogo por causa disso [gargalhadas]. Mas é bom saber que pelo menos isso estou conseguindo manter.
Beijos, obrigado por ler e comentar.
