CAPÍTULO 08:

Ele sabia. Ela acabaria escutando o que não devia. Avisou Sianna, mas ela não ouvia. E foi exatamente o que aconteceu: ao entrar no Três Vassouras, Lúcio Malfoy atacou diretamente o ponto. Como o idiota teria descoberto sobre os planos? Teria um espião? Mas Gina estava sendo vigiada. Voltava da sala de Sianna sempre acompanhada por Hagrid. Se alguém tivesse visto, Gina certamente teria contado a ele, como fez com todo o resto. As aulas com a Senhora de Avalon, o ataque à aldeia irlandesa, a dúvida dela se iria usar seu dom ou se o ignoraria. E depois, ao ouvir tudo que Dumbledore e Sianna lhe disseram ao voltarem de Hogsmeade, e a presença de Rony e Hermione... e ele não poderia protegê-la dessa vez. Cabia a ela, e só a ela, escolher seu destino.

Tudo que podia fazer era ficar ao seu lado, como ele prometeu a ela, ao levá-la para seu cantinho secreto. A primeira e única a saber que ele havia tomado a sala de Astronomia para si. Ele não contara como ninguém entrava e nem poderia, mas isso não importava. Ali, naquela pequena sala, se encontravam alguns de seus pequenos tesouros. Coisas que o lembravam de seus grandes amigos. A harpa e o dragão, o sândalo, seu aroma favorito de Avalon, outros itens que ele mesmo trouxera da ilha apenas para que se sentisse mais próximo.

Ele ficou ali, de mãos dadas com a ruiva adormecida, pensando em tudo que acontecera desde Hogsmeade, pela manhã, até aquele momento, observando o cé aquele momento, observando o cdesde Hogwarts, pela manhmesmo trouxera da ilha apenas para que se sentisse mais nau passar de rosa-alaranjado para azul petróleo e então para quase negro, sem lua aparente. Quando era seguro sair pelos corredores sem que os professores – ou mesmo Filch – os vissem, levou Gina de volta à torre da Grifinória com um feitiço de levitação. Ele conhecia o caminho.

Os próximos dias foram de sentimentos conflitantes para Alex. Em certos momentos, Gina e ele se davam muito bem e seu coração se enchia de esperança e certeza. Depois, a via com Harry Potter. Os dois estavam mais próximos e aquilo o incomodava. Ainda mais ao saber que ele e Cho Chang haviam terminado o namoro. Gina poderia esquecer dele e ir correndo para seu grande amor. Eles não falavam mais em Harry Potter, e não falavam sobre eles mesmos. Compartilhavam o seu dia, trabalhavam na Poção Perceptius, riam de situações cotidianas, mas não falavam de si.

E além disso, Alex estava extremamente preocupado com ela, agora que a Visão estava mais presente. Por isso, tentava arrancar o máximo de informações possível da ruiva, procurando ficar a par de tudo que a Senhora do Lago não o contava. Mas Sianna não queria interferências em seus planos.

Ela não esperou um momento a sós com ele para tirar satisfações. Ali mesmo, no Salão Principal, no café da manhã, ela se aproximou dele.

- Alexander. – Seu tom era frio como sempre. – Qual é sua relação com Virgínia Weasley?

"Bom dia, meu filho, como vai?" Aquelas eram palavras impossíveis de se ouvir da boca de Sianna Lake.

- Somos amigos. – ele respondeu, seco, notando a raiva aflorar nos olhos da mãe.

- Amigos não se beijam em escadas no meio da escola. – Como aquilo chegara a seu conhecimento tanto tempo depois? Alguém viu?

Ele não respondeu.

- Não quero que se aproxime dela novamente. Quero que se afaste.

- O quê? – ele elevou o tom de voz. Não iria admitir isso. Não mesmo!

- Esse relacionamento pode atrapalhar tanto os seus planos quanto os dela, Alexander. Não posso deixar isso acontecer. – Ela era pontual, fria como gelo. Por mais que estivesse acostumado, jamais gostara daquele tom.

"Nossos planos? Ou seriam Seus planos?" Ele não ousava verbalizar aquele pensamento. Mas a raiva também foi aflorando em si e tudo o que ele queria era contestá-la.

Ele se levantou.

- Sinto muito, Senhora. Não vou me afastar dela.

- Você será um Pendragon, Alexander. – Ela falava mais baixo, mas era clara a fúria agora. – Deve obedecer a mim.

- Você sempre usa a mesma desculpa para ter o que quer. – ele não conseguiu conter as palavras.

Sianna não suportou. Como num reflexo, deu-lhe um sonoro tapa na bochecha. Incrédulo, Alex massageou o rosto, olhou para ela magoado e saiu correndo.

Bateu a porta ao entrar na sala de Astronomia.

Deitou-se nas almofadas azuis espalhadas no chão, encostou-se na parede e projetou no teto com a varinha uma lembrança de muito tempo atrás.

Havia uma cabana redonda de pedra, cercada por algumas árvores. Por trás, erguia-se ao longe um morro, encimado por um círculo de pedras que reluziam. Um pequeno riacho serpenteava na porta da construção, de cuja chaminé saia uma fumaça branca e fofa.

Ele, um garotinho de três anos, brigava com Galahad, seu irmão de seis anos.

- Não quero que toque minha harpa, Lugh! – Galahad gritou, tentando puxa-la das mãos do pequeno loiro à sua frente.

- Por favor, Had, só um pouquinho! Quero aprender! – Alex puxava para si a pequena harpa, com a voz chorosa.

- Alexander, você vai acabar estragando a harpa de Galahad desse jeito. – Sianna se aproximou dos dois, acompanhada por um homem.

- Mas eu quero aprender a tocar! – O garoto gritava, sem querer soltar a harpa.

O homem se aproximou das duas crianças e sorriu. Tinha um sorriso sereno e os olhos brilhantes, a pele morena e os cabelos negros.

- Ei, garoto – ele chamou Galahad. – Você sabe tocar a harpa?

- Sei, sim. E não quero que ele a estrague! – Galahad também sorriu.

- Por que você não ensina a ele? – O homem perguntou ao moreno. Alex sorriu radiante, adorando a idéia.

- Vamos, Bertrand – Sianna o chamou. – A Senhora pediu para vê-lo assim que chegasse.

- Ela está muito mal? – eles ouviram o homem perguntar, enquanto Sianna e ele seguiam para a casa logo à frente. – Ouvi dizer que ela não durará muito.

- Sim – a voz agora era muito baixa. – Achamos que ela não chegará ao próximo Beltane.

Os dois garotos os observaram entrarem na casa, não mais brigando pela harpa.

- Vovó Diana está doente? – Alex perguntou ao irmão.

- Minha mãe diz que sim. Acho que ela está morrendo. – ele respondeu.

- Não fale isso, Had. Dá azar! – Alex ficou horrorizado.

- Mas foi o que eu ouvi os druidas falarem. Você sabe que se isso acontecer, sua mãe virará a Senhora do Lago?

- É... ela me disse... – o loiro ficou introspectivo, ainda olhando para a porta fechada da casa. – Será que ela vai ser como a vovó Diana?

- As moças na casa das donzelas dizem que Diana é muito dura com elas. Eu tenho medo dela... – Had sussurrou, como se Diana pudesse ouvi-lo.

- Eu também. Não quero que minha mãe fique como ela... a Senhora do Lago não pode cuidar dos filhos. E os filhos das Sacerdotisas não têm pai...

Os dois ouviam diversas conversas pela ilha. Como eram muito novos, ninguém se importava em dizer as coisas perto deles. Mas não sabiam quanta atenção eles dispensavam àquelas poucas palavras trocadas durante as refeições ou na casa do Arquidruida.

- Têm, sim, Lugh. Só que eles moram longe de Avalon.

Ele ainda não sabia quem tinha feito o Rito de Iniciação quando Sianna engravidou. Só descobriria dois anos depois daquele dia.

- Será que aquele é meu pai? – Alex sorriu, radiante, com a idéia. Não esperou resposta de Galahad e saiu correndo em direção à porta.

Uma batida forte na porta da sala de Astronomia o distraiu por um momento.

- Alex! – gritou, batendo os punhos na madeira. – Alex, eu sei que você está aí. – Ele não respondeu. – Alexander Brandon! Abra essa porta imediatamente!

Com algum esforço, o pequeno Alex conseguiu alcançar a maçaneta e abrir a porta.

O homem estava sentado ao lado da cama de Diana, e dizia:

- Ela ainda é muito jovem. Tem apenas dois anos. Gostaria de passar mais algum tempo com ela antes que a trouxesse. Margot ainda é muito apegada à garota...

Sianna estava de pé, do outro lado da cama, atenta à conversa dos dois, sem participar. Parecia prestar uma atenção especial ao homem com quem Diana conversava.

- Vá embora, Virgínia! – Ele encostou na porta, sem ter certeza de a deixaria entrar.

- Alex, abra a porta. – ela pediu, mais baixo, encostando o rosto na madeira. – Por favor, me deixa entrar.

- Não estarei aqui quando ela vier, Bertrand. – Alex ouviu Diana responder ao homem. Não podia vê-la de onde estava, mas percebeu que sua voz era fraca e sua respiração difícil. - Sianna prometeu que cuidaria dela se eu não estivesse aqui. Sei que ela cumprirá sua promessa. E sei também que Alaïs tem um dom magnífico que pode desenvolver e controlar se vier a Avalon.

- Ela virá, Senhora. Prometi que minha filha seria uma Sacerdotisa.

- Não deve se preocupar, Bertrand. Cuidaremos bem dela aqui. – Sianna só notou que o filho entrara quando ouviu a porta bater.

- Como conseguiu abrir a porta, meu filho? – Ela perguntou, pegando-o no colo. – Está crescendo muito depressa. Vamos lá para fora.

- Não estou a fim de conversar. Por favor, vá embora. – ele suplicou.

- Você tem três segundos para abrir, antes que eu não responda pelos meus atos!... Um... abra logo... Dois... a minha varinha está apontada para a fechadura... Tr...

CLICK.

Ele abriu a porta e voltou a se encostar na parede, continuou observando a lembrança projetada no teto de vidro. Resolveu deixar que Gina visse.

De repente, algo se moveu lá dentro e saiu para a luz.

Alex sentiu a agitação de Gina quando ela notou quem saía pela porta. Mas nenhum dos dois disse nada.

- Aquele senhor era o meu pai, mamãe? – ele perguntou, abraçando o pescoço dela.

- Não, meu querido. – ela sorriu para o menino.

- Onde está o meu pai, mamãe? – ele insistiu.

- Para quê você quer um pai? Eu vou cuidar de você. – ela garantiu, beijando a bochecha rosada. – Sempre vou estar ao seu lado.

- Mesmo quando a senhora for a Suma Sacerdotisa?

- Mesmo então. Quero que se lembre disso, porque eu não vou esquecer. Lembre-se de que eu amo você.

Ele deu um toque de varinha e os dois interlocutores, a cabana e o morro foram perdendo a nitidez, até tornarem-se sombras e então sumirem. Gina ficou parada, olhando a parede ao fundo, digerindo o que acabara de presenciar.

- Ela esqueceu. – Ele tinha as pernas envoltas pelos próprios braços, e falava muito baixo, segurando as lágrimas. Odiava demonstrar fraquezas.

- Você não precisav...

- Sim, eu precisava. – Ele sentiu necessidade de falar tudo para ela. Não se importava mais com as conseqüências. - Preciso que alguém saiba, porque aí fica mais fácil suportar, Virgínia. Não é confortável ser filho de Avalon. Ter que colocar os interesses da Ilha na frente da sua felicidade. – ele abriu os olhos e encarou-a, querendo gritar por ajuda. – Só que não poderia ser você. De todos, não poderia... E mesmo agora, não existe outra... – ele largou a varinha e, com as costas da mão, acariciou a curva do rosto da garota. Finalmente, não conseguiu conter as lágrimas e as deixou escorrer. Seu coração disparou quando Gina enxugou algumas delas com as mãos.

- Obrigada por confiar em mim. – ela sussurrou, abraçando-o.

Ele se entregou, desabou nos braços dela. Não agüentava mais segurar tudo aquilo, todos os segredos, tudo que sempre quis contar a ela. Ele tremia e não podia evitar. Simplesmente se entregou ao abraço, deixando-se sentir a mágoa há tanto tempo guardada, deixando fluir a raiva.

E ela continuava ali, acariciando-o, dizendo que tudo ficaria bem. Não ficara com raiva por ele ter escondido tudo aquilo dela. Simplesmente estava ali, consolando-o, como ele fizera por tantas e tantas vezes nos dois últimos anos. E por causa daquilo, ele a apertou ainda mais contra si, agradecendo em silêncio por tê-la ali com ele. Desejando que ficassem assim para sempre...

Mas não podiam ficar ali para sempre, lembrou. Lentamente, ele se acalmou e conseguiu desvencilhar-se do abraço da ruiva o suficiente para olhá-la.

- Melhor? – perguntou ela com carinho, observando com certa aflição o rosto inchado e vermelho dele.

- Desculp... – ele começou, tentando recostar-se de novo na parede, mas ela o segurou.

- Se você me pedir desculpas, eu juro que digo que você está horroroso, Alex. – brincou sem sorrir porque estava ocupada fitando-o com insistência.

Ele riu, ainda se sentindo meio estúpido por tudo aquilo, e também aliviado. Instintivamente aproximou seu rosto do dela, olhando a boca vermelha da garota.

- Não. – ela colocou a mão para impedi-lo. Ele recuou um pouco. – Por favor. – acrescentou para amenizar a rispidez da recusa. Alex beijou o ombro de Gina. Ela sorriu. – Quer um tratamento de Bichento?

- O que?

- Bichento é o gato da Mione. Às vezes, ele sobre no meu colo e eu faço carinho nele. Estou perguntando se voc...

- Só se for agora! – ele exclamou, prontamente deitando a cabeça no colo da amiga.

Alex logo se esqueceu das preocupações, curtindo os carinhos e as brincadeiras com Gina. Passaram a tarde na sala de Astronomia, distraindo-se.