O que deve acontecer?
Minha mãe me ensina a tourear
"Alguém pode me dizer por que eu sinto que não vai vir coisa boa desse capítulo?" disse Ártemis, receosa.
Os deuses permaneceram calados. Todos também ficaram tensos com o título, apesar de nenhum motivo aparente.
Hermes, ansioso para saber o que deixou os deuses daquele jeito na sala, disparou a ler.
Arrancamos noite adentro por estradas rurais escuras. O vento golpeava o Camaro. A chuva açoitava o pêra-brisa. Eu não sabia como minha mãe conseguia ver alguma coisa, mas ela mantinha o pé no acelerador.
Toda vez que um relâmpago produzia um clarão, eu olhava para Grover sentado ao meu lado no banco de trás e me perguntava se tinha ficado louco ou se ele estava usando algum tipo de calça felpuda. Mas não, o cheiro era o mesmo que eu lembrava das excursões do jardim-de-infância para o zoológico infantil – lanolina, como o de lã. O cheiro de um animal
molhado de estábulo.
O deus lia meio rápido, meio devagar, fazendo o suspense ficar ainda maior na sala. Apesar de ele ficar satisfeito por ter conseguido tal resultado com tão pequena leitura, ficou óbvio que isso estava deixando os deuses mais nervosos, quando frutas, ossos, água e pequenos choques o atingiram. Depois de praguejar, ofendido, Hermes tomou novamente a leitura, agora numa velocidade comum.
Tudo o que pude dizer foi:
- Então, você e minha mãe... se conhecem?
Nesse momento, os deuses sentiram o ar se aliviando. Definitivamente, o garoto só quebrava o silêncio com frases inadequadas aos momentos. Bem, a maioria das vezes não eram exatamente inadequadas, mas... Algumas risadinhas depois, a leitura continuou.
Os olhos de Grover moveram-se rapidamente para o espelho retrovisor, embora não houvesse carro nenhum atrás de nós.
- Não exatamente – disse ele. – Quer dizer, nunca nos encontramos pessoalmente. Mas ela sabia que eu estava observando você.
- Observando, a mim?
- Estava de olho em você. Cuidando que estivesse bem. Mas eu não estava fingindo ser seu amigo – acrescentou apressadamente. – Eu sou seu amigo.
"De fato."disse Dioniso, meio entediado, agora que a tensão tinha passado um pouco. "Depois que descobrem serem semideuses, os moleques pensam que o protetor mentiu para eles o tempo todo e que nunca oi amigo deles de verdade." Disse isso com um pouco de desgosto. "Os coitados sofrem muito antes de conseguirem reconquistar a confiança dos ingratos."
Todos reviraram os olhos. Tudo bem que Dioniso tinha uma paixão avassaladora por sátiros, mas não significava que precisava comentar tudo do que dizia respeito a eles. Olhando bem um pro outro, Hermes e Apolo abriram sorrisos brincalhões, se perguntando até que ponto os comentários do deus das festas chegariam. Todos na sala imaginavam se o deus comentaria algo como 'o sátiro fez uma dancinha da vitória'.
Esse pensamento lançou sorrisinhos na cara de todos, e Dioniso olhou em volta confuso. Hermes não resistiu e soltou uma gargalhada ao ver o olhar do deus dos vinhos, sendo seguido por todos, um a um. Depois de se recuperar, voltou a ler.
- Ahn... o que é você, exatamente?
- Isso não importa neste momento.
- Não importa? Da cintura para baixo, o meu melhor amigo é um burro...
Grover soltou um agudo e gutural:
- Bééééé!
Novamente, a sala explodiu em gargalhadas maníacas pelo comentário do garoto e principalmente pela reação do sátiro, a exceção, é claro, do bendito Dioniso, que resmungava continuamente sobre a falta de educação de Percy.
"Poxa, burro?" Disse Ares, entre risadas "Até eu me senti ofendido por essa. Bode é bem melhor."
"Definitivamente." Disseram brincando Hermes e Apolo. Não foram os únicos, mas o outro (não há real necessidade de eu explicitar quem) disse seriamente, fazendo os outros ficarem com sorrisos marotos na cara. Hermes voltou a ler, ainda sorrindo.
Eu já o tinha ouvido fazer aquele som antes, mas sempre achei que era um riso nervoso. Agora me dava conta de que era mais um berro irritado.
- Bode! - exclamou.
- O quê?
- Eu sou um bode da cintura para baixo.
- Você acaba de dizer que isso não importa.
- Béééé! Alguns sátiros poderiam pisoteá-lo por causa de tamanho insulto!
"Fato. Depois, como ele quer que garoto fique quieto? Mas a resposta dele foi medíocre. Eu teria dito 'A bunda sendo peluda e os pés sendo cascos, pouco me interessa o que você é na realidade.'" Disse Ares, raciocinando (algo que ele fazia muito pouco).
"Nah, a resposta dele é bem mais prática." disse Hephaestus, implicando com o outro.
Antes que uma verdadeira discussão começasse Zeus fez sinal para Hermes continuar, o que ele fez de má vontade, sendo as discussões dos dois deuses e longe as mais engraçadas.
- Opa. Espere. Sátiros. Você quer dizer como... os mitos do sr. Brunner?
- Aquelas velhas na banca de frutas eram um mito, Percy? A sra. Dodds era um mito?
- Então você admite que havia uma sra. Dodds!
- É claro.
- Então por que...
- Quanto menos você soubesse, menos monstros atrairia - disse Grover, como se aquilo fosse perfeitamente óbvio. - Nós pusemos a Névoa diante dos olhos humanos. Tínhamos esperanças de que você achasse que a Benevolente era uma alucinação. Mas não adiantou. Você começou a perceber quem você é.
"Mas isso é um fato. Ora, é muito difícil ser atacado e depois simplesmente fingir uma alucinação!" Disse Athena, "Mas, de qualquer modo, o garoto não precisa ficar indignado sabendo que se eles não tivessem feito aquilo provavelmente ou ele estaria louco, ou estaria morto."
Os deuses assentiram, solenemente.
- Quem eu... espere um minuto, o que você quer dizer?
O estranho rugido ergueu-se novamente em algum lugar atrás de nós, mais perto do que antes. O que quer que estivesse nos perseguindo ainda estava na nossa cola.
"Mas-que-merda." Sussurrou Apolo, olhando o tio Hades com acusação em seu olhar. Os outros deuses aparentemente ainda não tinham se tocado do monstro que perseguia o garoto naquele momento.
- Percy - disse minha mãe -, há muito a explicar e não temos tempo suficiente. Precisamos pôr você em segurança.
- Em segurança como? Quem está atrás de mim?
- Ah, nada demais - disse Grover, obviamente ainda ofendido com o comentário sobre o burro. - Apenas o Senhor dos Mortos e alguns dos seus asseclas mais sedentos de sangue.
"HADES!" Gritou Poseidon, os olhos, antes verdes, agora negros, brilhando em fúria. O deus em questão se encolheu na cadeira e murmurou alto o suficiente para todos ouvirem-no:
"Eu nem fiz nada ainda..." E, apesar de sua raiva, Poseidon revirou os olhos, fechou-os e, deixando a cabeça pender apoiada no pescoço, fez sinal para Hermes continuar, algo que ele fez bastante afobado.
- Grover!
- Desculpe sra. Jackson. Poderia dirigir mais depressa, por favor?
Tentei envolver minha mente no que estava acontecendo, mas não consegui. Sabia que aquilo não era um sonho. Eu não tinha imaginação. Jamais poderia sonhar algo tão estranho.
Minha mãe fez uma curva fechada para a esquerda. Desviamos para uma estrada mais estreita, passando com velocidade por casas de fazendas às escuras, colinas cobertas de árvores e placas que diziam "COLHA SEUS PRÓPRIOS MORANGOS" sobre cercas brancas.
Os deuses olharam para Dioniso com uma cara que dizia 'que merda é essa?', O deus deu de ombros, e, percebendo que os olhares eram os mesmos, disse:
"Bem, uma vez meus filhos acharam um homem pegando alguns morangos. Não sei como ele conseguiu, mas quando os garotos disseram que ele não podia pegar os morangos, ele disse: 'Se é assim, vou pegar os meus. Vocês deviam colocar um cartaz de aviso ou coisa assim', e foi-se embora, cantarolando. Meus filhos ficam pasmos com a história até hoje."¹
Algumas risadas se fizeram ouvir, antes que a leitura recomeçasse.
- Aonde estamos indo? - perguntei.
- Para o acampamento de verão de que falei. - A voz de minha mãe estava tensa; por mim, ela estava tentando não parecer assustada. - O lugar para onde seu pai queria mandá-lo.
- O lugar para onde você não queria que eu fosse.
- Por favor, querido - implorou ela. - Isso já é bem difícil. Tente entender. Você está em perigo.
- Porque umas velhas senhoras cortaram um fio de lã.
- Aquilo não eram velhas senhoras - disse Grover. - Eram as Parcas. Você sabe o que significa... o fato de elas aparecerem na sua frente? Elas só fazem isso quando você está prestes a... quando alguém está prestes a morrer.
"Prevejo discussão tosca." Disse Apolo, com os olhos meio fora de foco. Enquanto Ártemis e Athena reviravam os olhos, Hermes leu.
- Epa! Você disse "você".
- Não, eu não disse. Eu disse "alguém".
- Você quis dizer "você". Ou seja, eu.
- Eu quis dizer você como quem diz "alguém". Não você, Percy, mas você, qualquer um.
- Meninos! - disse minha mãe.
"Ahan, ahan, ahan, ahan, ahan." Cantarolou Apolo, fazendo uma espécie de ondinha com os braços comemorando a vitória. Os deuses reviravam os olhos e riram. Hermes, enxugando uma lágrima imaginária e voltando a ler.
Ela puxou o volante com força para a direita e eu tive um vislumbre de um vulto do qual ela se desviara - uma forma escura e ondulada, agora perdida na tempestade atrás de nós.
- O que foi aquilo? - perguntei.
Apolo estremeceu. Agora, mais do que nunca ele sabia que maldito monstro perceguia a pobre mulher, o sátiro e o filho semideus.
- Estamos quase lá - disse minha mãe ignorando a pergunta. - Mais um quilômetro e meio. Por favor. Por favor. Por favor.
Eu não sabia onde era lá, porém me vi inclinando-me para frente na expectativa, querendo que chegássemos logo.
"Bizarro." Disseram Apolo, Ares, Hephaestus e Ares, interrompendo a leitura. Os restantes reviravam os olhos, com exceção de Héstia, olhando torto para os sobrinhos.
"Se vocês escutassem as histórias do acampamento, saberiam como os semideuses são atraídos para lá, da primeira vez."²
Os garotos soltaram algumas risadinhas envergonhadas, passando a mão pela nuca, em sinal de grande desconforto. Dioniso e Héstia, o primeiro sabendo só por ter sido obrigado, olharam severamente para eles, e Hermes continuou a ler.
Do lado de fora, nada além de chuva e escuridão - o tipo de campos vazios que a gente vê quando vai para o extremo de Long Island. Pensei na sra. Dodds e no momento em que ela se transformou naquela coisa com dentes pontiagudos e asas de couro. Meus membros ficaram amortecidos de choque retardado. Ela realmente não era humana. E pretendia me matar.
"Dã." Disseram Hades, Ares e Apolo, os dois últimos já recuperados da pequena vergonha vivida anteriormente. Hermes, suplicante, olhou para Deméter, que, entendendo o sinal, lançou maças nos deuses, as quais acertaram perfeitamente a cabeça deles.
Então pensei no sr. Brunner... e na espada que ele jogara para mim. Antes que eu pudesse perguntar a Grover sobre aquilo, os cabelos de minha nunca se arrepiaram. Houve um clarão ofuscante, um Bum! De fazer bater o queixo, e o carro explodiu.
Nenhum dos deuses conseguiu um comentário. Um temor estranho acertou-os sem dó nem piedade, fazendo com que eles ficassem rígidos e tensos, as feições duras encarando o livro na mão de Hermes, que lia cada vez mais rápido, impulsionado pela tensão que cobria cada pedaço do seu corpo aos poucos.
Lembro-me de ter me sentido sem peso, como se estivesse sendo esmagado, frito e lavado com uma mangueira, tudo ao mesmo tempo.
As feições formaram algo estranho. Era como quando vemos alguém se machucar e pensamos- Ui!
Descolei minha testa do encosto do assento do motorista e disse:
"Ai." Os deuses (todos) exclamaram dessa vez, fazendo um Hermes divertido tornar a ler.
- Ai.
- Percy! - gritou minha mãe.
- Estou bem...
Tentei sair do estupor. Eu não estava morto, o carro não explodira de verdade. Tínhamos caído em uma vala. As portas do lado do motorista estavam enfiadas na lama. O teto se abrira como uma casca de ovo e a chuva se derramava para dentro.
"Putz, eles estão muito ferrados agora!" Disse Apolo sem se dar ao trabalho de falar baixo.
Relâmpago. Era a única explicação. Tínhamos voado pelos ares, para fora da estrada. Ao meu lado no assento traseiro havia uma grande massa informe e imóvel.
- Grover!
"Tadinho do sátiro! Só agora percebem a presença dele!" disse Aphrodite, infeliz. Nesse momento, quase acharam que ela era o deus barrigudo do outro lado da sala. No momento seguinte, todos se xingaram mentalmente por terem confundido a bela deusa com o super-amante de sátiros.
Ele estava caído de lado, com sangue escorrendo do canto da boca. Sacudi seu quadril peludo, pensando: Não! Mesmo que você seja metade animal de quintal, ainda é meu melhor amigo, e não quero que morra!
Então ele gemeu:
- Comida - e eu soube que havia esperança.
Apesar do clima bastante tenso, os deuses soltaram risadas meio aliviadas. Apesar de só dois deuses terem demonstrado alguma preocupação com o sátiro, todos haviam ficado, se é que aquilo era possível, ainda mais tensos do que antes. O alívio, apesar disso, era mais por terem se livrado de uma parte da tensão.
- Percy - disse minha mãe -, temos de... - Ela titubeou.
Olhei para trás. Num clarão de relâmpago, através do pára-brisa traseiro salpicado de lama, vi um vulto andando pesadamente na nossa direção no acostamento da estrada. Aquela visão fez minha pele formigar. Era a silhueta de um sujeito enorme, como um jogador de futebol americano. Parecia estar segurando uma manta por cima da cabeça. A metade superior dele era volumosa e indistinta. As mãos erguidas davam a impressão de que ele tinha chifres.
"NÃO ACREDITO QUE VOCÊ MANDOU O MINOTAURO ATRÁS DO GAROTO!" Berrou Poseidon se pondo de pé de um salto. Os deuses em volta se prepararam para o que talvez desse uma enorme discussão.
Hades, para a surpresa geral, inclusive dele mesmo, se manteve sentado e calmo na medida do possível.
"Na verdade, irmão, nem mesmo eu acredito. O meu Minotauro é uma das criaturas mais adoradas e fortes que eu tenho, não sei como pude mandar ele atrás de um garoto tão..."
"Cuidado com o que vai dizer!" Poseidon vociferou vermelho de raiva.
"De qualquer maneira, isso não aconteceu e a não ser que eu tenha um motivo bem poderoso, não vai acontecer, ok? Agora sente-se, irmão, quero descobrir o motivo para eu ter feito tal loucura".
Ainda bufando de raiva, Poseidon se sentou e fez sinal para Hermes continuar.
Engoli em seco.
- Quem é...
- Percy - disse minha mãe, extremamente séria. - saia do carro.
Ela se jogou contra a porta do lado do motorista. Estava emperrada na lama. Tentei a minha. Emperrada também. Desesperadamente, ergui os olhos para o buraco no teto. Poderia ser uma saída, mas as bordas estavam chiando e fumegando.
Tensão, Tensão, Tensão. Parecia um enorme aviso de neon acima da cabeça dos deuses, pesada como eles se sentiam.
- Saia pelo lado do passageiro! - disse minha mãe. - Percy, você tem de correr. Está vendo aquela árvore grande?
- O quê?
Outro clarão de relâmpago e pelo buraco fumegante no teto eu vi a arvore a que ela se referia: um enorme pinheiro, do tamanho de uma arvore de Natal da Casa Branca, no topo da colina mais próxima.
O rosto de Zeus ficou mais sombrio do que o normal à menção do pinheiro no qual sua filha havia se transformado. Agora, mais do que nunca, parecia injusto o filho de Poseidon continuar a viver. Chegava a ser quase certo o Minotauro estar perseguindo-o. Deixa de ser tapado! , disse uma voz em sua cabeça, fazendo-o acordar e se tocar que estava planejando contra um garoto inocente.
- Aquele é o limite da propriedade - disse minha mãe. - Passe daquela colina verá uma grande casa de fazenda no fundo do vale. Corra e não olhe para trás. Grite por ajuda. Não pare enquanto não chegar à porta.
- Mamãe, você também vem.
Apesar da tensão, as mulheres não se contiveram:
"!"
O rosto dela estava pálido, os olhos tristes como quando ela olhava para o oceano.
Hera e Aphrodite olharam para Poseidon, compartilhando a infelicidade do deus. Se alguma pessoa naquela sala podia entender mais ou menos o que ele sentia naquele momento, eram as duas deusas. Ele, por sua vez, encarava os pés como se fossem as coisas mais interessantes na sala. Hermes continuou a história, olhando para seu tio preferido de vez em quando.
- Não! - gritei. - Você vem comigo. Ajude-me a carregar o Grover.
- Comida! - gemeu Grover, um pouco mais alto.
"Esse meio bode só pensa em comida, é?" Disse Ares, recebendo um olhar zangado de Dioniso e um mais calmo de sua amante.
O homem com a manta na cabeça continuou indo em nossa direção, grunhindo e bufando. Quando ele chegou mais perto, percebi que não podia estar segurando uma manta acima da cabeça porque as mãos - enormes e carnudas - balançavam ao seu lado. Não havia manta nenhuma. O que queria dizer que a massa volumosa e indistinta que era grande demais para ser sua cabeça... era a sua cabeça. E as pontas que pareciam chifres...
"Tá custando a assimilar." Resmungou Hades, entediado e alheio parcialmente à tensão. Levou uma maçãzada na cabeça.
- Ele não nos quer - disse minha mãe. - Ele quer você. Além disso, não posso ultrapassar o limite da propriedade.
- Mas...
- Não temos tempo, Percy. Vá. Por favor.
Então fiquei zangado - zangado com a minha mãe, com Grover, o bode, com a coisa chifruda que se movia pesadamente em nossa direção, de modo lento e calculado como... como um touro.
Era visível que o deus os mortos estava se segurando ao extremo para não fazer outro comentário questionando a capacidade do garoto. A maçãzada de Deméter havia doido.
Passei por cima de Grover e empurrei a porta, que se abriu para chuva.
- Nós vamos juntos. Venha, mãe.
- Eu já disse que...
- Mamãe! Eu não vou abandonar você. Ajuda aqui com Grover.
"É fofinho o jeito como ele está disposto a se sacrificar por sua mãe e seu melhor amigo." Disse Aphrodite, os olhos brilhando.
Não esperei pela resposta dela. Eu me arrastei para fora do carro, puxando Grover comigo. Ele era surpreendentemente leve, mas eu não poderia tê-lo carregado para muito longe se minha mãe não tivesse ido me ajudar.
Juntos, pusemos os braços de Grover em nossos ombros e começamos a subir a colina aos tropeções, com o capim molhado na altura de cintura.
Apesar de tudo, pensamentos e comentários idiotas passavam pela cabeça dos deuses, especialmente 'Vou pedir a receita da dieta para os sátiros!', 'Precisam cortar aquela grama!' ou 'Pônei maldito, pônei maldito, lalalalalalaláaa...' Na verdade, depois da musiquinha, Apolo (para a surpresa geral, o pensamento veio da cabeça dele. 'nota-se a ironia') pensou em juntar-se a Hermes para visitarem o Acampamento Meio-Sangue para torturar o mio irmão com a musica tão odiada por ele.
Ao olhar relance para trás, tive minha primeira visão clara do monstro. Tinha, fácil, mais de dois metros, e os braços e pernas pareciam algo saído da capa da revista Músculos - bíceps e tríceps saltados e mais um monte de outros ceps, todos estufados como bolas de beisebol embaixo de uma pele cheia de veias. Ele não usava roupas, a não ser cuecas - branquíssimas, da marca Fruit of the Loom -, o que teria sido engraçado não fosse o fato de a parte superior de seu corpo ser tão assustadora. Pêlos marrons e grossos começaram na altura do umbigo e iam ficando mais espessos à medida que chegavam aos ombros.
Os deuses não ousaram soltar qualquer risadinha, apesar de a aparência do Minotauro ser realmente engraçada, e mais engraçado ainda o fato do garoto ter sabido até a marca preferida de cuecas do monstro.
Seu pescoço era uma massa de músculos e pêlos que levavam à enorme cabeça, que tinha um focinho tão comprido quanto meu braço, narinas ranhentas com um reluzente anel de bronze, olhos pretos cruéis e chifres - enormes chifres preto-e-branco com pontas que você não conseguiria fazer nem num apontador elétrico.
Reconheci o monstro muito bem. Tinha sido uma das primeiras historias que o sr. Brunner nos contara. Mas ele não podia ser real.
"Ih, amigo, as piores coisas sempre são reais. Bem vindo ao mundo." Disse Hephaestus, fazendo todos tremerem com a veracidade da frase.
"Jeito bacana de dizer ao garoto isso, Heph"Disse Ares, recebendo um olhar horrendo vindo do outro deus. "Lembre-me para que seja eu a ensiná-la para esse moleque."
Pisquei os olhos para desviar a chuva.
- Aquele é...
- O filho de Pasífae - disse minha mãe. - Gostaria de ter sabido antes o quanto desejaram matar você.
- Mas ele é o Mino...
- Não pronuncie o nome - advertiu ela. - Os nomes têm poder.
"Fato." Dioniso disse solenemente. Os deuses concordaram com a cabeça.
O pinheiro ainda estava longe demais - pelo menos cem metros colina acima.
Dei outra olhada para trás.
O homem-touro se curvou por cima de nosso carro, olhando pelas janelas - ou não exatamente olhando. Era mais como farejar, fuçar. Eu não sabia muito bem por que ele se dava a esse trabalho, já que estávamos a apenas quinze metros de distancia.
- Comida? - gemeu Grover.
- Shhh - fiz eu. - Mamãe, o que ele está fazendo? Não está nos vendo?
- Sua visão e sua audição são péssimas - disse ela. - Ele se orienta pelo cheiro. Mas vai perceber onde estamos logo, logo.
Os deuses gemeram em agonia. Não queriam que nada acontecesse ao trio.
Como que na deixa, o homem-touro bramiu de raiva. Ele agarrou o Camaro de Gabe pela capota rasgada, o chassi rangia e gemia. Ergueu o carro acima da cabeça e atirou-o na estrada. Aquilo se chocou contra o asfalto molhado e deslizou em meio a um chuveiro de fagulhas por cerca de quinhentos metros antes de parar. O tanque de gasolina explodiu.
Nem um arranhão, lembrei-me de Gabe dizendo.
Oops.
Diante disso, apesar da tensão do tamanho do Empire State, nenhum deus resistiu a uma risadinha maléfica. Gabe teria o que merecia, eles sabiam disso.
- Percy - disse minha mãe. - Quando ele nos vir, vai atacar. Espere até o último segundo, depois saia do caminho. Ele não consegue mudar de direção muito bem quando já está atacando. Você entendeu?
- Como você sabe tudo isso?
- Estou preocupada com um ataque há muito tempo. Devia ter esperado por isso. Fui egoísta, mantendo você perto de mim.
- Mantendo-me perto de você? Mas...
Outro bramido de raiva e o homem-touro começou a subir pesadamente a colina.
Tinha nos farejado.
Tensão palpável. Fato. Deméter era só um exemplo, com trigo subindo pelo seu trono.
O pinheiro estava a apenas mais alguns metros, mas a colina era cada vez mais íngreme e escorregadia, e Grover ficava mais pesado.
O homem-touro se aproximava. Mas alguns segundos e estaria em cima de nós.
Minha mãe devia estar exausta, mas carregou Grover.
"Assim ela vai acabar se matando!" Gemeram Poseidon e Hera, que havia se afeiçoado à garota que via através da nevou.
- Vá, Percy! Vá sozinho! Lembre-se do que eu disse.
Eu não queria me separar, mas tive a sensação de que ela estava certa - era nossa única chance. Pulei para esquerda, virei-me e vi a criatura avançando em minha direção. Os olhos pretos brilhavam de ódio. Fedia a carne podre.
Perséfone estremeceu ao se lembrar do cheiro nojento do monstro preferido de seu senhor. Na verdade, o cheiro parecia impregnar todo o Mundo Inferior para ela. Era tão delicioso o ar da superfície! Não era... carregado como o do subterrâneo. Ela adorava poder voltar à superfície, poder sentir os deliciosos cheiros das flores dos campos de sua mãe. Mas sempre ficava mal-acostumada. Com um suspiro, voltou sua atenção à história.
Ele inclinou a cabeça e atacou, aqueles chifres afiados como navalhas apontados diretamente para o meu peito.
O medo no meu estômago me deu vontade de disparar, mas isso não daria certo. Eu jamais poderia correr mais que aquela coisa. Então fiquei parado e, no último momento, saltei para o lado.
"Fez bem." Disse Hephaestus, tentando se prender a algo bom do que estava acontecendo. Todos perceberam sua atitude e também se agarraram a ela. A tensão não fazia bem para eles.
O homem-touro passou por mim a toda como um trem de carga, depois bramiu de frustração e se virou, mas dessa vez não contra mim, mas contra minha mãe, que estava acomodando Grover sobre a grama.
Tínhamos chegado ao topo da colina. Embaixo, do outro lado, pude ver um vale, bem como minha mãe dissera, e as luzes de uma casa de fazenda tremeluzindo amarelas através da chuva. Mas estava a oitocentos metros de distancia. Nunca conseguiríamos chegar lá.
O homem-touro roncou, escavando o chão. Ficou olhando para minha mãe, que recuava lentamente colina abaixo, de volta para estrada, tentando afastar o monstro de Grover.
- Corra, Percy! - disse ela. - Não posso passar daqui. Corra!
"Ele vai atacá-la!" Berraram Poseidon, Hera, Athena, Aphrodite, Ártemis, Deméter, Héstia e Apolo. Dioniso estava apavorado pelo garoto, mas contra a sua vontade, e Perséfone também não conseguia emitir som qualquer. Hermes não disse nada para manter a leitura.
Mas fiquei lá parado, paralisado de medo, enquanto o monstro a atacava. Ela tentou sair de lado, como me dissera para fazer, mas o monstro tinha aprendido a lição. Jogou a mão para frente e agarrou-lhe o pescoço quanto ela tentou escapar. Ele a ergueu enquanto ela lutava, chutando e dando murros no ar.
- Mamãe!
E os deuses arregalaram os olhos. Sabiam o que estava por vir. Ela estava sendo levada para Rei do Submundo.
Então, com um rugido furioso, o monstro fechou os punhos em volta do pescoço da minha mãe e ela se dissolveu diante dos meus olhos, fundindo-se em luz, uma forma dourada tremeluzente, como uma projeção holográfica. Um clarão ofuscante, e ela simplesmente... se foi.
"NÃO!" Berraram novamente os mesmos deuses. "Não..." Poseidon murmurou pasmo, enquanto o choque se fixava nos rostos dos deuses. Hermes, enquanto lia, ainda balançava um pouco a cabeça em descrença. Uma moça tão boa não merecia passar algo assim.
- Não!
A raiva substituiu o medo. Uma nova força ardeu em meus membros - a mesma onda de energia que me veio quando a sra. Dodds mostrou as garras.
"Mete uma espadada na cabeça dele, PercÊeeeeeee!" Torceu Apolo incoerentemente. Ele, apesar de tudo, só queria que o garoto pudesse vingar a mãe recém perdida. O sentimento foi firmemente compartilhado, apesar de ninguém fazer uma torcida espalhafatosa como o deus dos solteiros.
O homem-touro foi na direção de Grover, que estava deitado na grama, indefeso. O monstro se curvou, fungando meu melhor amigo como se estivesse prestes a erguê-lo dali e fazê-lo se dissolver também.
Eu não podia permitir aquilo.
Tirei minha capa de chuva vermelha.
- Ei! - gritei, agitando a capa e correndo para um lado do monstro. - Ei, estúpido! Monte de carne moída!
"Poxa, carne moída? Esculachou." Disse Hermes, encarando as páginas com um sorrisinho ainda meio ressentido no rosto.
"Não é como se ele entendesse muito bem, mas o vermelho sempre atrai o Minotauro." Disse Athena, pensando um pouco e balançando a cabeça negativamente
- Raaaarrrrr ! - O monstro virou-se para mim sacudindo seus punhos carnudos.
Eu tive uma idéia - uma idéia boba, porém melhor do que não pensar em nada. Encostei as costas no grande pinheiro e agitei a capa vermelha na frente do homem-touro, pensando em pular fora do caminho no último momento.
Mas não foi assim que aconteceu.
A respiração na sala parou instantaneamente. Não precisavam de mais um se explodindo em luz.
O homem-touro atacou depressa demais, os braços estendidos para me agarrar qualquer que fosse o lado para onde eu tentasse me esquivar.
Internamente, Hades brilhou de orgulho. A muito tentava ensinar ao monstro essa "manobra". Era bom saber que pelo menos uma vez ele fez o procedimento correto. Em uma das tentativas, ele quase arrancou a cabeça do deus.
O tempo começou a passar mais devagar.
"Ah, como eu AMO o Transtorno de Déficit de Atenção!" Disse Hephaestus, aliviado pelo garoto pelo menos conseguir ver como as coisas aconteceriam. Pois, afinal, é bem melhor morrer batendo de frente e encarando o perigo do que de olhos fechados e cabeça baixa.
Minhas pernas travaram. Eu não podia pular para o lado, assim saltei direto para cima, usando a cabeça da criatura como trampolim, girei o corpo no ar e caí sobre seu pescoço.
"UOOOOOOOOOOOOOOOOOU!" Disseram todos os deuses, bastante surpresos.
Como eu fiz aquilo? Não tive tempo para descobrir. Um milissegundo depois a cabeça do monstro chocou-se contra a árvore e o impacto quase fez meus dentes saltarem da boca.
O homem-touro cambaleou de um lado para outro tentando se livrar de mim. Segurei com força em seus chifres para não ser arremessado. Os trovões e os relâmpagos ficavam mais fortes. A chuva caia em meus olhos. O cheiro de carne podre queimava minhas narinas.
O monstro se sacudia e corcoveava como um touro de rodeio. Poderia simplesmente ter chegado para trás e me esmagado completamente na árvore, mas eu começava a perceber que aquela coisa só tinha uma direção: para frente.
"Olhe pelo lado bom: não se distrai à toa!" Disse Ares, só percebendo mais tarde a idiotice de seu comentário, quando todos começaram a encará-lo pasmos, descrentes ou com raiva.
Enquanto isso, Grover começou a gemer na grama. Quis gritar para ele ficar calado, mas do jeito que estava sendo jogado de um lado para o outro, se abrisse a boca deceparia minha própria língua com uma mordida.
- Comida! - gemeu Grover.
O homem-touro virou-se para ele, escavou o chão novamente e se preparou para atacar.
"Sinto que o garoto vai ficar ainda mais irado com o tourinho." Disse Apolo, mais uma vez com o olhar meio fora de foco. Hades resmungou sobre a palavra 'tourinho', mas foi prontamente ignorado pelos outros.
Pensei em como ele havia espremido a vida para fora de minha mãe, como a fizera desaparecer num clarão de luz, e a raiva me abasteceu como um combustível de alta potência. Agarrei um dos chifres com ambas as mãos e puxei para trás com toda a minha força. O monstro se retesou, soltou um grunhido de surpresa, e então... pléc!
"Legal! Ele arrancou um chifre do coisa!" Disse Héstia, animadamente. Ela sempre odiara os monstrinhos que seu irmão adotava. Os outros sorriram docemente ao comentário. A deusa era realmente muito amada por todos, e não era necessário consultar Aphrodite para garantir isso.
O homem-touro berrou e me atirou pelos ares. Aterrissei de costas na grama. Minha cabeça bateu contra uma pedra. Quando me sentei, minha visão estava embaçada, mas eu tinha um chifre nas mãos, um osso partido do tamanho de uma faca.
O monstro atacou.
Sem pensar, rolei para o lado e me levantei de joelhos. Quando ele passou a toda velocidade, enterrei o chifre quebrado bem na lateral de seu corpo, logo abaixo da caixa torácica peluda.
"U-HUUUUL!" Comemoraram na sala. O garoto tinha conseguido acertar um ponto fraco do 'tourinho' com uma arma mais afiada que uma boa espada.
O homem-touro urrou em agonia. Debateu-se, rasgando o peito com suas garras, e depois começou a se desintegrar – não como minha mãe, em um clarão dourado, mas como areia se esfarelando, carregada pelo vento aos pedaços para longe, do mesmo modo como a sra. Dodds se desintegrara.
O monstro se fora.
"Teeeeenso." Disse Apolo, quebrando a tensão com se fosse um galho seco. Os deuses suspiraram felizes e aliviados com o término da luta.
A chuva tinha parado. A tempestade ainda rugia, mas somente a distancia. Eu cheirava a gado e meus joelhos tremiam. Minha cabeça parecia que ia se partir ao meio. Estava fraco, assustado e tremia de tristeza. Acabara de ver minha mãe se desvanecer. Queria me deitar e chorar, mas havia Grover, precisando de minha ajuda, portando consegui erguê-lo e descer cambaleando para o vale em direção às luzes da casa. Eu estava chorando, chamando minha mãe, mas me agarrei a Grover – eu não ia deixá-lo partir.
Minha última lembrança é ter desmaiado numa varanda de madeira, olhando para um ventilador de teto que girava acima de mim, mariposas voando em volta de uma luz amarela, e as expressões austeras e familiares de um homem barbudo e uma menina bonita, com cabelos loiros encaracolados como os de uma princesa. Os dois olharam para mim e a menina disse:
- É ele. Tem de ser.
- Silêncio, Annabeth - disse o homem. - Ele ainda está consciente. Traga-o para dentro.
Os deuses demoraram breves segundos antes de realmente perceberem o final do capítulo. Os pensamentos dos deuses variavam novamente. Hermes, olhando em volta, decidiu passar a leitura adiante, assim como os leitores anteriores.
"Ah, eu leio!" Disse Héstia, querendo se livrar de sua vez o mais rápido possível. Ela se adiantou até o trono do sobrinho e tomou o livro de suas mãos. De volta à sua cadeira, ela leu o título:
"Eu jogo pinochle com um cavalo"
Oii gente, tudo bem? Aqui está mais um capítulo. Fico super feliz de checar o meu e-mail e ver que tem pessoas favoritando a fic =] Agradecimentos especiais à Vanessa S., que vem acompanhando a fic desde o prólogo *-* De qualquer maneira super agradeço às fofas Lala-E.P, Bia Akashiya e Flah '. Bom, espero que vocês gostem desse capítulo! Vou fazer o que eu puder para postar o próximo mais rápido.
Bjox, Letz.
