O que deve acontecer?
Eu jogo pinochle com um cavalo.
"Cavalo é sacanagem." Disse Apolo, já recuperado da tensão do capítulo lido por Hermes. Dioniso também havia se recuperado muito bem, pelo visto. O deus se encolhia segurando a barriga, dolorida pelas grandes gargalhadas.
Héstia encarava os sobrinhos severamente, apesar de ela mesma não conseguir conter um sorriso. Quíron estaria corado e tremendo de raiva. Se havia algum apelido que ele realmente odiava era aquele. Possivelmente, também estaria arrastando o casco dianteiro esquerdo no chão, e então as gargalhadas aumentariam e algum deus, provavelmente Apolo ou Hermes, diriam que agora nem cavalo o cara era, era um boi raivoso. A deusa se permitiu uma risadinha ao imaginar a cena, vendo seu meio irmão ficando ainda mais vermelho. Se realmente aquilo estivesse acontecendo, o engraçadinho que houvesse feito o comentário, possivelmente, teria sua roupa arrancada por uma flecha. Isso sim seria vergonhoso.
"Tá tudo muito bem, tudo muito bom, mas eu vou começar a leitura." Ela disse, fazendo os deuses que ainda riam um pouco se calarem de imediato. E a leitura começou.
Tive sonhos estranhos, cheios de animais de estábulos. A maioria queria me matar. O restante queria comida.
Apesar de terem cessado as risadas um minuto, elas voltaram com força.
"Animais de estábulo?" Ria Apolo. "Eu nunca imaginei na minha vivência um semideus comparando, mesmo que num sonho, o Minotauro e sátiros a animais de estábulo!" O deus ria de se acabar; chegara a cair do trono de joelhos. Hermes se virou e encostou a cara no encosto do trono, as lágrimas escorrendo do seu rosto, tamanha a risada.
Héstia, percebendo tarde demais o quanto a leitura seria difícil, pigarreou alto, fazendo com que os deuses se lembrassem novamente que deveriam estar ouvindo a história. Aos poucos eles foram se recuperando, e a deusa tornou a leitura.
Devo ter acordado várias vezes, mas o que ouvi e vi não fazia sentido, então adormecia de novo. Lembro-me de estar deitado em uma cama macia, sendo alimentado com colheradas de alguma coisa que tinha gosto de pipoca com manteiga, só que era pudim. A menina com o cabelo loiro encaracolado pairava acima de mim com um sorriso afetado enquanto limpava as gotas de meu queixo com a colher.
"É legal saber qual o gosto ambrosia tem para os humanos, não é? Para mim, tem gosto de picolé de uva." Comentou Dioniso.
"É, não é? Para mim tem o gosto de chocolate quente." Disse Hermes.
Antes que os outros começassem a citar qual sabor a comida tinha para eles, leu rapidamente, deixando Apolo frustrado.
Quando ela viu meus olhos abertos, perguntou:
- O que vai acontecer no solstício de verão?
"Ãn?" Perguntou Ares, sem se conter.
"Burguer!" Zoaram juntos Apolo e Hermes, fazendo Ares estreitar os olhos para eles e o restante dos deuses baterem a mão na testa rindo, tamanha a idiotice do comentário. Ares encarou os engraçadinhos, ainda rindo do "ilustre" comentário. Demorou um pouco para a ficha cair, e os dois levaram um pequeno susto ao perceber o fogo crepitante nos olhos do deus da guerra.
"Hehehe, então, né,.." Disse Hermes, olhando suplicante para a tia, que entendeu o recado e, soltando um risinho, voltou a ler. Durante a leitura, Apolo e Hermes vigiavam cada movimento de Ares, e os outros estremeciam segurando a risada.
Eu consegui resmungar:
- O quê?
Ela olhou em volta, como se estivesse com medo de que alguém ouvisse.
- O que está acontecendo? O que foi roubado? Nós só temos algumas semanas!
- Desculpe - murmurei. - Eu não...
Alguém bateu à porta, e a menina rapidamente encheu minha boca de pudim.
"Hmm, delicaaaaaaaada..." Disse Apolo, revirando um pouco os olhos. Alguns dos presentes deram de ombros, mas Dioniso e Athena dividiam o mesmo pensamento: 'Quem será a garota?' Porque, de uma maneira inexplicável, eles sentiam que sabiam quem era. A garotinha loira que soubera responder a pergunta da mãe, a garotinha esperta que tinha sempre uma resposta na ponta da língua para tudo, inclusive para o diretor do acampamento.
Quando acordei novamente, a menina tinha ido embora.
Um sujeito loiro e forte, como um surfista, estava no canto do quarto me vigiando. Tinha olhos azuis - pelo menos uma dúzia deles - nas bochechas, nas testas, nas costas das mãos.
"Ah, aquele cara estranho!" Disse Hermes, compreensivo. "É muito bizarro, não é, ele ter olhos em TODAS as partes do corpo? Eu SEMPRE imaginei se ele teria olhos no..."
"Hermes!" Já exclamaram os outros, receosos e nervosos com o possível final para a frase do deus, que nem por isso parou:
"...couro cabeludo! Imaginem só!" E a sala explodiu em gargalhadas pela colocação inimaginada. Héstia voltou a ler, um sorriso estampando o rosto.
Quando finalmente voltei a mim de vez, não havia nada de estranho com o lugar ao meu redor, a não ser que era mais agradável do que eu estava acostumado. Estava sentado numa espreguiçadeira em uma enorme varanda, olhando ao longo de uma campina para colinas verdejantes à distância. A brisa tinha cheiro de morangos. Havia uma manta sobre as minhas pernas, um travesseiro atrás do pescoço. Tudo isso era ótimo, mas minha boca me dava a sensação de ter sido usada como ninho por um escorpião. A língua estava seca e pegajosa, e todos os dentes doíam. Sobre a mesa ao lado havia bebida num copo alto. Parecia suco de maçã gelado, com um canudinho verde e um guarda-chuva de papel enfiado em uma cereja.
"Oh, eu nunca pensei em néctar como suco de maçã!" Disse Ares, pasmo. Os deuses reviraram os olhos. Às vezes o deus da guerra era muito idiota.
"Ah, morangos. O cheiro é tão gostosinho, o melhor que poderia ser... Tirando o de uvas." Disse Dioniso, alheio à frase de Ares e encarando o pai na parte das uvas.
Minha mão estava tão fraca que quase derrubei o copo quando passei os dedos em volta dele.
- Cuidado - disse uma voz familiar.
Grover estava apoiado no gradil da varanda, e parecia não dormir havia uma semana. Embaixo de um braço, segurava uma caixa de sapatos. Estava usando jeans, tênis de cano alto Converse e uma camiseta laranja-claro com os dizeres ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE. Apenas o velho Grover. Não o menino-bode.
"Ah, coitado do sátiro, ter que usar um dos malditos pares de pés falsos!" Lamentou Dioniso, fazendo os deuses revirarem ainda mais os olhos. Isso estava virando uma mania para todos na sala.
Quem sabe não tive um pesadelo? Talvez minha mãe estivesse bem. Ainda estávamos de férias e tínhamos parado ali naquela grande casa por alguma razão. E...
- Você salvou minha vida - disse Grover. - Eu... bem, o mínimo que eu podia fazer... voltei na colina. Achei que você poderia querer isso.
Reverentemente, ele colocou a caixa de sapatos em meu colo.
"O que será?" Disse Apolo, ansioso.
"Tãdãdãdã..." Fez Hermes
"Olha, meus queridos, se vocês pudessem deixar-me ler, saberiam!" Disse Héstia, encarando os sobrinhos, que se encolheram um pouquinho diante do olhar da tia. Satisfeita, a deusa voltou a ler.
Dentro havia um chifre de touro branco-e-preto, a base irregular por ter sido quebrada, a ponta salpicada de sangue seco. Não tinha sido um pesadelo.
- O Minotauro - disse eu.
- Ahn, Percy, não é uma boa idéia...
- É assim que o chamam nos mitos gregos, não é? - perguntei. - O Minotauro. Meio homem, meio touro.
"Esse garoto deve ser meio tapado, né? Porque a essa altura ele já devia ter percebido que 'os nomes têm poder', não é mesmo?" Disse Athena, mas percebendo o olhar da tia, acrescentou: "Desculpe atrapalhá-la, tia."
"Talvez..." Disse Hermes, pensativo e zombador, antes de ser atingido por um pedaço de madeira meio queimada. "Aii! Quem foi o ..." E calou-se ao olhar para a tia, que voltou a ler.
Grover mudou de posição, pouco à vontade.
- Você ficou desacordado por dois dias. Do que se lembra?
- Minha mãe. Ela está mesmo...
Ele abaixou os olhos.
Este mesmo gesto se repetiu na sala. Era triste ver a vida de alguém levada daquela maneira (apesar de todos já saberem de se tratava de um sequestro), especialmente na frente de um garoto inocente.
Olhei ao longo da campina. Havia pequenos bosques, um riacho sinuoso, campos de morangos espalhados embaixo do céu azul. O vale era cercado por colinas ondulantes, e a mais alta, bem na nossa frente, era a que tinha o grande pinheiro no topo. Mesmo isso parecia bonito à luz do sol.
Minha mãe se fora. O mundo inteiro deveria estar escuro e frio. Nada devia parecer bonito.
"Tadinho..." Disse Aphrodite, tomada pela tristeza do pobre garoto. O sentimento era vivido por quase todos na sala, à exceção, talvez, e Ares, Dioniso e Hades, pois ambos mostravam feições indiferentes.
- Desculpe - fungou Grover. - Eu sou um fracasso. Eu... sou o pior sátiro do mundo.
Ele gemeu, batendo o pé com tanta força que ele saiu, quer dizer, o tênis Converse saiu. Dentro, estava recheado de isopor, a não ser por um buraco em forma de casco.
"Oooh!" Exclamou Dioniso, surpreso.
Os outros deuses estavam ocupados demais lutando miseravelmente contra o riso que teimava em comandá-los.
- Oh, Estige! - murmurou ele.
Um trovão ecoou no céu claro.
"Não se utilize do nome à toa!" Vociferou alto Hades. Os deuses o olharam, estressados. Aquele deus era sem coração? Sequer mostrou reação à tristeza do pobre garoto Percy, mas reclamou para quem quisesse ouvir sobre ' o nome do rio declamado sem motivo '.Chegava a ser ridículo!
Enquanto ele lutava para pôr o casco de volta no falso pé, pensei: Bem, isso resolve as coisas.
Grover era um sátiro. Podia apostar que, se raspasse o cabelo castanho cacheado, encontraria pequenos chifres em sua cabeça.
Dioniso adquiriu uma expressão engraçada, mas com um pouco de trabalho e esforço de Apolo e Hermes (Obrigada por dividirem tais estudos conosco, ó sábios e marotos deuses do Olimpo!), soube-se que era uma expressão carinhosa. Novamente segurando-se para não rirem, todos esperaram um comentário como 'Ah, eles crescem tão rápido!', mas aparentemente o deus das festas estava extremamente emocionado e incapaz de dizer algo. Héstia, se permitindo novamente um risinho baixo, voltou a ler.
Mas eu me sentia infeliz demais para me importar com a existência de sátiros ou mesmo minotauros. O importante era que minha mãe realmente tinha sido espremida para o nada, dissolvida em luz amarela.
Eu estava sozinho. Um órfão. E teria de viver com... Gabe Cheiroso? Não. Isso jamais iria acontecer. Preferia viver nas ruas. Fingiria ter dezessete anos e me alistaria no exército. Faria alguma coisa.
"Uou. O cheiroso deve ser pior do que imaginávamos!" Disse Hermes.
"Acho que nem eu imaginei corretamente, poxa, exército?" Disse Apolo, uma falsa cara de tristeza brincando na face.
Poseidon estava muito pensativo, constatando os fatos: 'Não um órfão. Nunca um órfão. Eu e Sally estaríamos vivos, eu por milhões de anos mais! Sally sequestrada... Como? Por quê?"
Grover ainda estava fungando. O pobre garoto - pobre bode, ou sátiro, ou o que for - parecia estar esperando levar um murro.
- Não foi sua culpa - disse eu.
"Não foi não." Disse Aphrodite, balançando a cabeça para dar mais ênfase em sua frase.
- Foi, sim. Eu devia protegê-lo.
- Minha mãe pediu para você me proteger?
- Não. Mas é isso que faço. Sou um guardião. Pelo menos... eu era.
- Mas por que...
De repente senti uma vertigem, minha visão rodando.
- Não se esforce demais - disse Grover. - Aqui.
Ele me ajudou a segurar o copo e eu levei o canudinho aos lábios.
Recuei com o gosto, porque estava esperando suco de maçã. Não tinha nada a ver com isso. Era gosto de biscoito com pedacinhos de chocolate. Biscoito líquido. E não qualquer biscoito - os biscoitos azuis da minha mãe com pedacinhos de chocolate, amanteigados e quentes, o chocolate ainda derretendo. Ao beber aquilo, meu corpo inteiro se sentiu bem, aquecido e cheio de energia. Minha tristeza não foi embora, mas era como se minha mãe tivesse acabado de acariciar minha bochecha e me dar um biscoito, como costumava fazer quando eu era pequeno, e tivesse dito que tudo ia ficar bem.
"Owwwwwnt!" Disseram as moças. Era TÃO fofo o modo com que ele se referia à mãe! Era como se a idolatrasse.
Antes de me dar conta, já tinha esvaziado o copo inteiro. Olhei para dentro dele e, com certeza, não era uma bebida quente, pois os cubos de gelo não tinham nem derretido.
- Estava bom? - perguntou Grover.
Fiz que sim com a cabeça.
- Que gosto tinha?
Ele pareceu tão suplicante que me senti culpado.
"Isso tudo é vontade de saber?" Disse Apolo, inquieto. Recebeu olhares críticos, que passaram despercebidos pelo deus dos solteiros.
- Desculpe. Devia ter deixado você provar.
Os olhos deles se arregalaram.
- Não! Não foi isso que eu quis dizer. Eu só... fiquei curioso.
- Biscoitos com pedacinhos de chocolate - disse eu. - Os da minha mãe. Feitos em casa.
Ele suspirou.
- E como se sente?
- Como se fosse capaz de jogar Nancy Bobofit a cem metros de distância.
"Legal!" Exclamaram os presentes, antes que pudessem deliberar consigo mesmos. Obviamente os sentimentos eram mútuos pela garota
- Isso é bom - disse ele. - Isso é bom. Não acho que você deva se arriscar a tomar mais disso aí.
- O que quer dizer?
Ele pegou meu copo com cautela, como se fosse dinamite, e o colocou de volta na mesa.
"Bem, a não ser que queira entrar em combustão, acho que você não deve se arriscar a tomar mais disso." Hermes disse, olhando enviesado para o livro. "Mas não me lembro de nenhuma vez em que um copitcho de néctar explodiu como dinamit..." Adicionou pensativo.
"Nãaao, teve sim! Aquela vez que o sátiro doidão" Apolo disse, animado. Recebeu um olhar raivoso de Dioniso, mas nem percebeu, e continuou normalmente. "balançou o copo como se a vida dele dependesse daquilo e depois veio o BUM que queimou metade dos pêlos dele!"
Hermes e Apolo riram com a memória, e os outros deuses começaram logo em seguida. Como Héstia era um dos que havia começado a rir, demorou uns dois minutos para que finalmente retomasse a leitura.
- Vamos. Quíron e o sr. D estão esperando.
A varanda circundava toda a casa da fazenda.
Senti as pernas tremulas tentando andar toda aquela distancia. Grover se ofereceu para carregar o chifre do Minotauro, mas eu me agarrei a ele. Tinha pago um preço alto por aquele suvenir. Não iria largá-lo.
"Claro. Porque você largaria por aí seu primeiro prêmio de luta?" Disse Poseidon. Surpresos pelo comentário, os deuses o encararam, e ele, por sua vez, encarava o nada. Para os mais minuciosos, os olhos do Deus os Mares estavam mais brilhantes do que nunca, o que era difícil, pois olhos verdes cristalinos brilham mais do que tudo. É claro, esses observadores sabiam o que era: Orgulho.
Quando demos a volta até o lado oposto da casa, parei para recuperar o fôlego.
Devíamos estar na costa norte de Long Island, porque daquele lado da casa o vale seguia até a água, que cintilava a cerca de um quilômetro de distancia. Entre a casa e lá, eu simplesmente não consegui processar tudo o que estava vendo. A paisagem era pontilhada de construções que lembravam a arquitetura grega antiga - um pavilhão a céu aberto, um anfiteatro, uma arena circular - só que pareciam novos em folha, as colunas de mármore branco reluzindo ao sol. Em uma quadra de areia próxima, uma dúzia de crianças e sátiros jogavam voleibol. Canoas deslizavam por um pequeno lago. Crianças de camiseta laranja-clara como a de Grover acorriam umas atrás das outras em volta de um grupamento de chalés no meio do bosque. Algumas praticavam arco-e-flecha em alvos. Outras montavam cavalos em uma trilha arborizada e, a não ser que eu estivesse tendo alucinações, alguns cavalos tinham asas.
Na extremidade da varanda, dois homens estavam sentados frente a frente em uma mesa de carteado. A menina de cabelos loiros que me alimentara com colheradas de pudim com sabor de pipoca estava apoiada no gradil da varanda, ao lado deles.
'O que Annabeth está fazendo com Dioniso e Quíron na fazenda?' Pensou Athena, ansiosa Momentos depois de reconhecer a sensação, esta foi transformada em confusão. Porque estava ficando assim, tão nervosa e ansiosa desde que notara Annabeth entrando na história? Nunca ficara assim em relação aos outros filhos. Não era que não os amasse, claro que não, mas essa garotinha, surpreendentemente, conseguira ultrapassar todos os outros.
O homem de frente para mim era pequeno, mas gorducho. Tinha nariz vermelho, grandes olhos chorosos e cabelo cacheado tão preto que era quase roxo. Parecia uma daquelas pinturas de anjos-bebês, como se chamam mesmo... surubins? Não, querubins. É isso. Ele parecia um querubim que chegou a meia idade em um acampamento de trailers.
Risadas explodiram de todos os lados da sala. Dioniso encarava a sala com uma expressão mista de surpresa e raiva. Poxa, querubim?
Depois de as risadas relaxarem um pouco, Hermes e Apolo trocaram um olhar e estamparam o rosto com um sorriso malicioso.
"Surubim, Dio¹?" Disse Apolo. "Já sei o que você faz em todas essas festas!"
Outro momento de maior confusão e de repente vergonha e raiva eram propagadas na face do deus. E este começou a xingar em palavras tão feias que, se fossem escritas aqui, estariam com aquelas faixas pretas por cima. As risadas voltaram com força, tanta que nem Zeus conseguiu manter a cara séria para dar um sermão sobre palavreado para o filho.
Usava uma camisa havaiana com estampa de tigres e teria se encaixado perfeitamente em uma das rodas de pôquer de Gabe, só que eu tive a sensação de que esse cara poderia ter ganhado até do meu padrasto.
"É óbvio que teria." Resmungou Dioniso, ainda emburrado. Mais algumas risadinhas rolaram antes da leitura continuar.
- Aquele é o sr. D - murmurou Grover para mim. - Ele é o diretor do acampamento. Seja educado. A menina é Annabeth Chase. Ela é só uma campista, mas está aqui há mais tempo que quase todo mundo. E você já conhece Quíron...
"Acho que a gente vai descobrir quanto tempo vai demorar para isso acontecer..." Disse Hephaestus, apontando para os livros restantes e o que havia na mão de Héstia, pensativo.
"As contas." Disseram os deuses, em compreensão.
"Bem, Annabeth ainda não tinha contas quando veio nos visitar." disse Athena, surpreendendo um pouco por ter chamado a garota pelo próprio nome, e não apenas de 'garota'. " Basta olhar quantas contas ela terá, e saberemos sem uma conta sequer."
Ele apontou para o cara que estava de costas para mim.
Primeiro, percebi que ele estava sentado em uma cadeira de rodas. Depois reconheci o casaco de tweed, o cabelo castanho ralo, a barba desalinhada.
- Sr. Brunner! - exclamei.
"Brunner minha mão na sua cara." Disse Ares que apesar de nunca ter admitido, gostava muito do meio-tio. Por isso, os deuses ficaram de olhos arregalados. Ao constatar este fato, deu de ombros e disse: "Que foi? O sátirozinho acaba de falar que o nome é QUÍRON e o moleque insiste em chamá-lo de" E completou com uma voz de falsete: 'Sr. Brunner, Sr. Brunner!'"
O professor de latim voltou-se e sorriu para mim. Os olhos estavam com aquele brilho travesso de quando ele fazia uma prova-surpresa e todas as respostas da múltipla escolha eram B.
- Ah, bom, Percy - disse ele. - Agora já temos quatro para o pinoche.
Ele me ofereceu uma cadeira à direita do sr. D, que olhou para mim com olhos injetados e soltou um grande suspiro.
- Ah, suponho que devo dizer isto. Bem-vindo ao Acampamento Meio-Sangue. Pronto. Agora, não espere que eu esteja contente em vê-lo.
"Que sem educação você!" Xingou Aphrodite o irmão, que apenas deu de ombros.
- Ahn, obrigado. - Logo me afastei um pouco dele, porque, se havia uma coisa que eu tinha aprendido com Gabe era reconhecer quando um adulto andou tomando umas e outras. Se o sr. D era abstêmio², eu era um sátiro.
"Olha que o papai pega, hein, maninho?" Zoou Apolo, em meio às risadas de todos da sala. Recebeu um olhar maléfico ao irmão.
- Annabeth? - o sr. Brunner chamou a menina loira.
Ela avançou e o sr. Brunner nos apresentou.
- Esta mocinha cuidou de você até que ficasse bom, Percy. Annabeth, minha querida, por que não vai verificar o beliche de Percy? Vamos instalá-lo no chalé 11 por enquanto.
Annabeth disse:
- Claro, Quíron.
Ela provavelmente tinha a minha idade, talvez fosse uns cinco centímetros mais alta, e tinha a aparência muitíssimo mais atlética.
Com seu bronzeado intenso e o cabelo loiro cacheado, era quase exatamente como eu imaginava uma típica menina da Califórnia, a não ser pelos olhos, que arruinavam essa imagem. Era surpreendentemente cinzentos, como nuvens de tempestade; bonito, mas também intimidadores, como se ela estivesse analisando o melhor modo de me derrubar em uma luta.
Neste momento, Athena se orgulhou de sua filha. Tinha a mesma capacidade que ela, e analisava sempre todas as possibilidades, especialmente quando não havia necessidade delas.
Ela deu uma olhada no chifre de minotauro em minhas mãos, então de novo para mim. Imaginei que fosse dizer: Você matou um minotauro! Ou Uau, você é tão assustador! Ou algo do tipo. Em vez disso, ela disse:
- Você baba quando está dormindo!
Risadas novamente. Desse jeito, os deuses iam acabar perdendo a voz, e isso normalmente NÃO era possível.
Depois saiu correndo pelo gramado, os cabelos loiros esvoaçando atrás dela.
- Então - disse, ansioso por mudar de assunto -, o senhor, ahn, trabalha aqui, sr. Brunner?
- Sr. Brunner não - disse o ex-sr. Brunner. - Lamento, era pseudônimo. Você pode me chamar de Quíron.
- Combinado. - Totalmente confuso, olhei para o diretor. - E sr. D... significa alguma coisa?
"Nãaah, é só um nome que era pra ser bacana, mas falhou!" Zoou Hermes, apesar do claro fundo de verdade.
O sr. D parou de embaralhar as cartas. Olhou para mim como se eu tivesse acabado de arrotar alto.
"Quase isso." Resmungou Dioniso.
- Rapazinho, os nomes são coisas poderosas. Você simplesmente não sai por aí os usando sem motivo.
- Ah. Certo. Desculpe.
- Devo dizer, Percy - interrompeu o Quíron-Brunner -, que estou contente em vê-lo com vida. Já faz um bom tempo desde que fiz um atendimento domiciliar a um campista em potencial. Detestaria pensar que tinha perdido meu tempo.
"Nossa, que legal; 'estou contente em vê-lo com vida.'. Acabaria com minha moral, eu acho." Disse Apolo, , fazendo os deuses mais uma vez revirarem os olhos.
- Atendimento domiciliar?
- O ano que passei na Academia Yancy para instruí-lo. Temos sátiros de prontidão na maioria das escolas, é claro. Mas Grover me alertou assim que o conheceu. Ele sentiu que você era especial, então decidi ir lá. Convenci o outro professor de latim a... ah, tirar uma licença.
Tentei me lembrar do começo do ano escolar. Parecia tanto tempo atrás, mas eu tinha uma vaga lembrança de outro professor de latim na minha primeira semana em Yancy. Então, sem explicação, ele desapareceu e o sr. Brunner assumiu a turma.
- Você foi a Yancy só para me ensinar? - perguntei.
"Ah, aparentemente eu vou ser abandonado com um bando de crianças histéricas durante um ano. Que legal!" Resmungou Dioniso, contrariado.
"Há, Dio, se ferrou!" Falou Hermes, apenas para irritar o irmão.
Quíron assentiu.
- Honestamente, de inicio eu não tinha muita certeza a seu respeito. Contatamos a sua mãe, informamos que estávamos de olho em você, para o caso de estar pronto para o Acampamento Meio-Sangue. Mas você ainda tinha muito a aprender. Não obstante, chegou aqui vivo, e esse é sempre o primeiro teste.
- Grover - disse o sr. D com impaciência -, vai jogar ou não?
- Sim, senhor! - Grover tremeu quando se sentou na quarta cadeira, embora eu não soubesse por que ele deveria ter tanto medo de um homenzinho gorducho de camisa havaiana com estampa de tigre.
"Oho, meu querido, você não conhece nosso Dêzinho com raiva!" Disse Apolo para o livro, mais uma vez apenas para irritar seu irmão.
"AAAH, vamos parar com essa palhaçada!" Gritou o Dêzinho em questão. "O que é isso? Complô, é?"
"É." Responderam os marotos, simplesmente, fazendo os outros deuses darem risadinhas.
- Você sabe jogar pinoche? - indagou o sr. D olhando para mim com desconfiança.
- Infelizmente não - disse eu.
- Infelizmente não, senhor - disse ele.
- Senhor - repeti. Estava gostando cada vez menos do diretor do acampamento.
"Ninguém te amaaaa, ninguém te queeeeeer..." Entoaram Apolo e Hermes, arrancando risadas da 'platéia' e recebendo uma imensa chuva de uvas. Mas não bolinhas fraquinhas, bolinhas que batiam com muita força e muitas vezes estouravam na pele deles.
"Eeeeei!" Exclamaram, e as risadas ficaram mais altas, parando somente quando Héstia, já bem recuperada, pigarreou alto.
- Bem - ele me disse -, este é, juntamente com as lutas de gladiadores e o Pac-Man, um dos melhores jogos já inventados pelos seres humanos. Imaginava que todos os jovens civilizados conhecessem as regras.
"Ei, Pac-Man!" Exclamou Hephaestus, os olhinhos brilhando. Então, tirou uma espécie de game-boy e os barulhinhos do jogo encheram a sala. As risadas voltaram, mas o deus estava tão ligado em seu jogo que nem reparou. Mesmo assim, antes que as risadas parassem, um grito se sobressaiu:
"Minha vez!" Ares gritou, tão animado quanto Hephaestus, se não mais. Os deuses, que haviam bruscamente parado as risadas, observavam atônitos Hephaestus colocar a mão no bolso, sem desviar a atenção de seu próprio jogo, pegando lá outro game-boy e jogando para o irmão, que o pegou animado e começou a jogar.
Gargalhadas altas e estridentes envolveram a sala com força total. Afinal, quem não veria graça em dois deuses sérios com uma expressão de completa animação com um jogo de Pac-Man?
"Ok, gente, daqui a pouco o capítulo acaba e a gente descansa um pouco. Aí vocês podem jogar, tá?"Héstia disse, falando calmamente como uma professora de jardim de infância tentando convencer um aluno teimoso a aderir à hora da soneca.
E, emburrados, os deuses guardaram os brinquedos e Héstia pode retornar sua atenção à leitura.
- Estou certo de que o menino pode aprender - disse Quíron.
- Por favor - disse eu. -, o que é este lugar? O que estou fazendo aqui? Sr. Brun... Quíron, por que iria à Academia Yancy só para me ensinar?
O sr. D bufou.
- Fiz a mesma pergunta.
"Uma boa diferença é que você quer saber porque ele vai te abandonar por um ano com crianças histéricas e Percy quer saber pois não sabe que é semideus." Comentou Hera.
O diretor do acampamento deu as cartas. Grover se encolhia a cada vez que uma caía na sua pilha.
Quíron sorriu para mim de um modo compreensivo, como costumava fazer na aula de latim, como para me dizer que qualquer que fosse minha nota, eu era seu aluno mais importante. Ele esperava que eu tivesse a resposta certa.
- Percy - disse ele -, sua mãe não lhe contou nada?
- Ela disse... - Lembrei-me dos seus olhos tristes, olhando para o mar. - Ela me contou que tinha medo de me mandar para cá, embora meu pai quisesse que ela fizesse isso. Disse que, uma vez aqui, provavelmente não poderia sair. Queria me manter perto dela.
- Típico - disse o sr. D - É assim que eles normalmente são mortos. Rapazinho, você vai fazer um lance ou não vai?
"Legal, você nem mudou de assunto drasticamente!" Disse Apolo, falsamente animado.
Aparentemente, Dioniso se segurava. Estava de olhos fechados desde que Héstia voltou a ler a parte do Pac-Man. Novamente, graças aos nossos leitores de expressão de plantão, sabe-se que ele, aparentemente, estava contando até um zilhão. (N/Apolo : Poxa, Dio está bem desesperado. Escolheu um número que nem existe!).
- O quê? - perguntei.
Ele explicou, impacientemente, como se faz um lance em pinoche, e eu fiz.
- Lamento, mas há coisas demais a contar - disse Quíron. - Receio que nosso filme de orientação não seja suficiente.
- Filme de orientação? - perguntei.
- Não - concluiu Quíron. - Bem, Percy. Você sabe que seu amigo Grover é um sátiro. Você sabe - ele apontou para o chifre na caixa de sapatos - que você matou o Minotauro. E não é um pequeno feito, rapaz. O que você pode não saber é que grandes forças estão em ação na sua vida. Os deuses - as forças que você chama de deuses gregos - estão muito vivos.
Olhei para os outros em volta da mesa.
Aguardei que alguém gritasse, Não! Mas tudo o que ouvi foi o sr. D gritando:
- Oh, um casamento real. Truco! Truco! - Ele gargalhou enquanto contava os pontos.
"Coitado... Ficou desiludido" Disse Hades.
"Por 'um casamento real. truco! truco!'" Complementou Apolo, fazendo os deuses rirem um pouquinho.
- Sr. D - perguntou Grover timidamente -, se não for comê-la, posso ficar com sua lata de Diet Coke?
- Hein? Ah, está bem.
Grover mordeu um grande pedaço da lata de alumínio vazia e mastigou tristemente.
- Espere - eu disse a Quíron -, está me dizendo que existe algo como Deus.
- Bem, vamos lá - disse Quíron. - Deus - com D maiúsculo, Deus. Isso é outro assunto. Não vamos lidar com o metafísico.
- Metafísico? Mas você estava falando sobre...
- Ah, deuses, no plural, grandes seres que controlam as forças da natureza e os empreendimentos humanos; os deuses imortais do Olimpo. Essa é uma questão menor.
- Menor?
- Sim, muito. Os deuses que discutimos na aula de latim.
"Chegamos a uma parte que parece interessante." Disse Hermes, um meio sorriso no rosto. Apesar de saber da possível importância dessa parte, sabia também que ela seria muito engraçada pela negligência do garoto.
- Zeus - disse eu. - Hera. Apolo. Você quer dizer , esses. E, de novo, uma trovoada distante em um dia sem nuvens.
"Hmm, fui privilegiado!" Disse Apolo, arrancando algumas risadas."
- Rapazinho - disse o sr. D -, se eu fosse você, seria menos negligente quanto a ficar soltando esses nomes por aí.
- Mas são historias - disse eu. –- São... mitos, para explicar os relâmpagos, as estações e tudo mais. Era nisso que as pessoas acreditavam antes de surgir a ciência.
"Ciência!" bufaram os deuses. Os humanos conseguiam se sobressair em tantas coisas, ma ao mesmo tempo afundar em coisas antes já bem estruturadas. Héstia bufou antes de continuar a ler.
- Ciência! - zombou o sr. D. - E diga-me, Perseu Jackson - eu me encolhi quando ele disse meu nome verdadeiro, que nunca contara a ninguém -, o que as pessoas pensarão da sua ciência daqui a milhares de anos? Humm? Irão chamá-la de baboseiras primitivas. É isso o que irão pensar. Ah, eu adoro os mortais... ele não têm a menor noção de perspectiva. Acham que já chegaram tãããão longe. E chegaram, Quíron? Olhe para esse menino e diga-me.
"Perseu.." Disse Apolo, segurando a risada. A mesma reação que teve a tempos anteriores, quando ouviu pela primeira vez o nome Perseu. 'Hahaha, que engraçaaado!'
Eu já não estava gostando muito do sr. D, mas havia algo no modo como ele me chamou de mortal como se... como se ele não fosse. Foi o bastante para me dar um nó na garganta para sugerir porque Grover estava zelosamente atento às suas cartas, mascando sua lata de refrigerante e mantendo a boca fechada.
"Parece que estamos progredindo um pouco." Comentou Hephaestus vagamente.
- Percy - disse Quíron -, você pode escolher entre acreditar ou não, mas o fato é que imortal significa imortal. Pode imaginar isso por um momento, não morrer nunca? Existir, assim como você é, para toda a eternidade?
Eu estava prestes a responder, assim sem pensar, que parecia um negocio muito bom, mas o tom de voz de Quíron me fez hesitar.
"Não seria bom pra ele, mas pra nós é, pois ele se apega a Terra pelas pessoas que conhece e ama, e nós não." Disse Hermes, apesar de ter um aperto no coração. Ele próprio tinha, anteriormente, sua própria paixão terrestre. Mais que uma paixão, um verdadeiro amor.
- Você quer dizer, quer as pessoas acreditem em você ou não – disse eu.
- Exatamente - concordou Quíron. - Se você fosse um deus, gostaria de ser chamado de mito, de uma velha historia para explicar os relâmpagos? E se eu contasse a você, Perseu Jackson que um dia as pessoas vão chamar você de mito, criado apenas para explicar como menininhos podem sobreviver à perda de suas mães?
Meu coração disparou. Ele estava tentando me deixar zangado por alguma razão, mas eu não ia permitir que o fizesse. Eu disse:
- Eu não gostaria disso. Mas não acredito em deuses.
- Oh, é melhor mesmo - murmurou o sr. D. - Antes que um deles o incinere.
"Poxa, não ameace a criança!" Disse Ares, mas antes que Hera e Aphrodite pudessem exclamar o 'Owwwnt' habitual, completou: "O incinere de uma vez!"
E os deuses abriram uma nova rodada de risadas, às exceção, é claro, das duas deusas estressadas.
Grover disse:
- P-por favor, senhor. Ele acaba de perder a mãe. Está em estado de choque.
- Uma sorte, também - resmungou o sr. D, jogando uma carta. - Ruim mesmo é estar confinado a esse trabalho deprimente, com meninos que nem mesmo têm fé!
"Nossa, uma tortura!" Zoou Hermes, recebendo um belo banho de vinho branco. "Oh! AAAAH, seu grande imbecil, olha o que você fez!" Risadas banharam a sala enquanto Poseidon e Zeus fizeram o favor de limpar e secar o deus irado,
Ele acenou e uma taça apareceu sobre a mesa, como se a luz do sol tivesse momentaneamente se encurvado e transformado o ar em vidro. A taça se encheu de vinho tinto.
Meu queixo caiu, mas Quíron mal ergueu os olhos.
- Senhor D - advertiu -, as suas restrições.
E nesse momento Zeus encarava Dioniso com um misto de curiosidade e irritação, que daria ar de medo a qualquer um, especialmente ao rei dos Céus.
O sr. D olhou para o vinho e fingiu surpresa.
- Ora vejam. - Ele olhou para o céu e gritou: - Velhos hábitos! Desculpe!
Mais trovões.
"Nem é cara de pau..." Disse Apolo, sendo alvo de outra chuva de vinho. Mas, como estava preparado, se esquivou pulando para trás do trono no último segundo. "HÁ" foi o que ele exclamou antes que uvas vindas de todas as direções o acertassem, fazendo todos os deuses rirem da sua expressão de choque, raiva e dor, e da cara satisfeita e vitoriosa de Dioniso.
O sr. D acenou outra vez e a taça de vinho se transformou em uma nova lata de Diet Coke. Ele suspirou, infeliz, abriu a lata e voltou ao seu jogo de cartas.
Quíron piscou para mim.
"Mas assim, porque Diet Coke?"Perguntou Perséone, meio receosa, mas muito mais curiosa.
"Ah, sei lá, eu gosto." Dioniso deu de ombros, pois realmente, nem ele mesmo sabia porque Diet Coke.
- O sr. D irritou o pai dele tempos atrás, sentiu-se atraído por uma ninfa dos bosques que tinha sido declarada inacessível.
"Pois é, a gente avisou, avisou e avisou, mas você fez o que? Não nos ouviu!" Disse Hermes, agora protegido de qualquer coisa que Dioniso fizesse contra ele em uma espécie de compartimento em seu trono que ele havia insistido em criar.
- Uma ninfa dos bosques - repeti, ainda olhando para a Diet Coke como se tivesse vindo do cosmos.
- Sim - confessou o sr. D. - O pai adora me castigar. Na primeira vez, Proibição. Horrível! Dez anos absolutamente terríveis! Na segunda vez... bem, ela era mesmo linda, não consegui ficar longe... na segunda vez, ele me mandou para cá. Colina Meio-Sangue. Acampamento de verão para moleques como você. "Seja uma influencia melhor", ele me disse. "Trabalhe com os jovens em vez de arrasar com eles." Ah! Que injustiça.
"Bem feito, mandei não se deixar levar pelos hormônios." Disse Zeus, dando de ombros, mas parou após se lembrar de um pequeno detalhe. "E injustiça é uma ova, ordem é ordem e quem manda aqui sou eu!"
E Dioniso não pôde deixar de se encolher sobre o poder de seu pai.
O sr. D parecia ter seis anos de idade, como uma criancinha fazendo pirraça.
"E não é? Eu vivo dizendo a mesma coisa!" Disse Zeus, falando com o livro pela primeira vez, fazendo os deuses rirem e Dioniso ficar mais uma vez emburrado.
- E... - gaguejei - o seu pai é...
- Di immotales, Quíron - disse o sr. D. - Pensei que você tinha ensinado o básico a este menino. Meu pai é Zeus, é claro.
Repassei os nomes começados em D da mitologia grega. Vinho. A pele de um tigre. Os sátiros que pareciam estar todos trabalhando aqui. O modo como Grover se encolhia de medo, como se o sr. D fosse seu senhor.
- Você é Dioniso - disse eu. - O deus do vinho.
"Bem, sabendo a informação crucial, ele não demorou muito a descobrir que era você, Dio." Apolo comentou, calmamente, provavelmente temendo outro ataque de uvas.
O sr. D revirou os olhos.
- Como eles dizem hoje em dia, Grover? As crianças dizem, "fala sério"?
- S-sim, sr. D.
- Então, fala sério, Percy Jackson. Achou o quê; que eu fosse Afrodite?
"Você não seria tão bonita." Disse a deusa com convicção. É óbvio que todos, especialmente Dioniso, concordavam com ela.
- Você é um deus.
- Sim, criança.
- Um deus. Você.
Ele se virou para olhar diretamente para mim, e vi uma espécie de fogo arroxeado nos seus olhos, um indício de que aquele homenzinho reclamão e gorducho só estava me mostrando uma minúscula parte de sua verdadeira natureza. Tive visões de vinhas estrangulando descrentes até a morte, guerreiros bêbados insanos com o entusiasmo da batalha, marinheiros gritando enquanto suas mãos se transformavam em nadadeiras, os rostos se alongando em focinhos de golfinho. Eu sabia que, se o pressionasse, o sr. D iria me mostrar coisas piores. Iria plantar uma doença no meu cérebro que me levaria a usar camisa-de-força pelo resto da vida.
"Que horror, Dio, assim traumatiza a criança!" Disse Hermes, a voz meio abafada saindo de uma pequena abertura para olhos em seu compartimento secreto.
- Gostaria de me testar, criança? - disse em voz baixa.
- Não. Não, senhor.
O fogo diminuiu um pouco. Ele voltou ao jogo de cartas.
- Acho que ganhei.
- Não exatamente sr. D - disse Quíron. Ele baixou uma seqüência, contou os pontos e disse: - O jogo é meu.
"Jeito bacana de ganhar" Disse Apolo. "Vou ir lá aprender com ele." Afinal, em um belo dia a muito tempo atrás, Dioniso conseguiu convencê-lo a jogar com ele. Foi uma vitória tão linda que Apolo nem conseguiu fazer uma brincadeira na ocasião. E, como dizia seu lema, 'O que não pode ser uma brincadeira, não deve ser lembrado'.
Achei que o sr. D fosse transformar Quíron em pó em sua cadeira de rodas, mas ele apenas suspirou pelo nariz, como se estivesse acostumado a ser batido pelo professor de latim. Pôs-se de pé, e Grover levantou-se também.
- Estou cansado - disse o sr. D. - Acho que vou tirar uma soneca antes da cantoria desta noite. Mas primeiro, Grover, precisamos conversar de novo sobre seu desempenho para lá de imperfeito nessa missão.
O rosto de Grover cobriu-se de gotículas de suor.
- S-sim, senhor.
O sr. D voltou-se para mim.
- Chalé 11, Percy Jackson. E cuidado com seus modos.
Ele se afastou para dentro da casa, com Grover o seguindo arrasado.
"Tadinho do Grover, vocês também não podem culpar ele, a culpa é do Minotauro!" Aphrodite partiu em defesa do 'pobre sátiro', novamente incorporando o espírito defensor de Dioniso sobre essas criaturas de pernas peludas.
- Grover vai ficar bem? - perguntei a Quíron.
Quíron assentiu, embora parecesse um pouco perturbado.
- O velho Dioniso não está realmente zangado. Ele apenas detesta seu trabalho. Ele foi... ahn, confinado à Terra, pode-se dizer, e não pode aguentar ter de esperar mais um século antes de ser autorizado a voltar ao Olimpo.
- O Monte Olimpo - disse eu. - Você está me dizendo que realmente existe um palácio ali?
- Bem, agora há o Monte Olimpo na Grécia. E há o lar dos deuses, o ponto de convergência dos seus poderes, que de fato costumava ser no Monte Olimpo. Ainda é chamado de Monte Olimpo, por respeito às tradições, mas o palácio muda de lugar, Percy, assim como os deuses.
"Timmy é um garoto bom, mas tem que aturar, o pai, a mãe e a Vicky nele querem só mandar 'PRA CAMA'..." Cantarolou baixinho Apolo. Imaginava o quão chato deveria ser explicar isso para um humano.
Ao seu lado, no compartimento (que era maior por dentro), Hermes fazia algo semelhante:
"São três meses de férias, que passam depressa, curtirei a prioridade, temos que aproveitar bem, então vamos nessa, mas tem que rolar novidaaaaaaaaade 'COMO POR EXEMPLO'..."
Afinal, meios irmãos eram pra isso. Perder tempo cantarolando músicas de desenhos infantis que ninguém assume, mas todo mundo assiste. ³
- Você quer dizer que os deuses gregos estão aqui? Tipo... nos Estados Unidos?
- Bem, certamente. Os deuses mudam com o coração do Ocidente.
- O quê?
- Vamos, Percy. O que vocês chamam de "civilização ocidental". Você acha que é apenas um conceito abstrato? Não, é uma força viva. Uma consciência coletiva que ardeu brilhantemente por milhares de anos. Os deuses são parte dela. Você pode até dizer que eles são sua fonte ou, pelo menos, que estão ligados tão intimamente a ela que possivelmente não vão deixar de existir, a não ser que toda a civilização ocidental seja destruída. A chama começou na Grécia. Então, como você bem sabe... ou espero que saiba, já que foi aprovado no meu curso... o coração da chama se mudou para Roma, e assim fizeram os deuses. Ah, com nomes diferentes, talvez: Júpiter em vez de Zeus, Vênus em vez de Afrodite, e assim por diante; mas as mesmas forças, os mesmos deuses.
- E então eles morreram.
"Putz, ele não acabou de ver o Dio?" Reclamou Apolo.
- Morreram? Não. O Ocidente morreu? Os deuses simplesmente se mudaram, para a Alemanha, para a França, para a Espanha, por algum tempo. Aonde quer que a chama brilhasse mais, lá estavam os deuses. Eles passaram vários séculos na Inglaterra. Tudo o que você precisa é olhar para a arquitetura. As pessoas não esquecem os deuses. Em todos os lugares onde reinaram, nos últimos três mil anos, você pode vê-los em pinturas, em estátuas, nos prédios mais importantes. E sim, Percy, é claro que agora eles estão nos Estados Unidos. Olhe para o símbolo do país, a águia de Zeus. Olhe para a estátua de Prometeu no Rockfeller Center, para as fachadas dos edifícios governamentais em Washington. Eu o desafio a encontrar qualquer cidade americana onde os olimpianos não estejam proeminentes expostos em vários locais. Goste ou não – e acredite, uma porção de gente não gostava muito de Roma também -, os Estados Unidos são agora o coração da chama. São a grande potencia do Ocidente. E, portanto, o Olimpo é aqui. E nós estamos aqui.
Aquilo tudo foi demais para mim, especialmente o fato de que eu parecia estar incluído no nós de Quíron, como se fizesse parte do mesmo clube.
- Quem é você, Quíron? Quem... quem eu sou?
Quíron sorriu. Ele mudou de posição, como se fosse levantar da cadeira de rodas, mas eu sabia que era impossível. Era paralítico da cintura para baixo.
"É o que o mundo quer saber, não?" Perguntou-se Athena. "Porque é difícil até para nós, que tivemos e teremos milhares de anos para pensar, descobrimos o que realmente somos, imagino os mortais, com uma vida resumida a oitenta, setenta anos!"
- Quem é você? - ele ficou pensativo. - Bem, essa é a pergunte que todos queremos ver respondida, não é? Mas, por enquanto, temos de lhe arranjar um beliche no chalé 11. Ali haverá novos amigos para conhecer. E tempo à vontade para as aulas amanhã. Além disso, haverá guloseimas em volta da fogueira esta noite, e eu simplesmente adoro chocolate.
"Quem, em nome de tudo o que é mais sagrado, não simplesmente adora chocolate?" Perguntou Hermes, se levantando de um sobressalto e batendo a cabeça no assento de seu trono, arrancando pequenas risadas.
"Ah, chocolate dá muitas espinhas" Começou Aphrodite, mas ao perceber os olhares descrentes vindos de grande parte dos deuses, ela completou: "Mas nem eu consigo resistir!"
E então ele se levantou da cadeira de rodas. Mas havia algo de estranho no modo como ele fez isso. A manta caiu de cima das pernas, mas elas não se moveram. A cintura foi ficando mais longa, erguendo-se acima do cinto. De início, pensei que estivesse usando roupas de baixo muito compridas de veludo branco, mas à medida que ele foi ser erguendo da cadeira, mais alto que qualquer homem, percebi que a roupa de baixo de veludo não era roupa de baixo; era a parte da frente de um animal, músculos e tendões sob um pêlo branco e áspero. E a cadeira de rodas não era uma cadeira. Era algum tipo de recipiente, uma enorme caixa sobre rodas, e devia ser mágica, porque não havia como ela contê-lo inteiro. Uma perna saiu, comprida e com joelho saliente, com um grande casco polido. Depois outra perna dianteira, depois a parte traseira, e depois a caixa ficou vazia, nada além de uma casca de metal com um par de pernas humanas acoplado.
Olhei para o cavalo que acabara de pular da cadeira de rodas: um enorme corcel branco.
"Yeey, mais um animal para seu estábulo, Percy!" Disse Apolo, alegremente, apesar de carregar uma expressão "séria". Até, é claro, olhar para cada um dos deuses e todos começarem a rir loucamente, como se estivessem juntando todas as risadas que seguiram do começo ao fim do capítulo e acrescentado ainda mais, e Héstia teve que gritar um pouco para controlar a situação.
"Meus queridos, falta um trechinho de nada, siiiiiiiiim?" E eles se calaram (ou tentaram) para ela concluir o capítulo.
Mas, onde devia estar o seu pescoço, estava a parte de cima do corpo do meu professor de latim, suavemente enxertada no tronco do cavalo.
- Que alívio - disse o centauro. - Fiquei tanto tempo confinado lá dentro que minhas juntas adormeceram. Agora venha, Percy Jackson. Vamos conhecer os outros campistas.
"Ai, ufa! É muito difícil ler pra vocês." Disse ela com uma aparência realmente exausta. "Bom, gente, não me levem a mal, eu sei que o tempo tá prado, mas meu organismo não. Então, se me derem licença, preciso descansar um pouco antes de lerem o próximo, pode ser?" E assim, sem esperar as respostas, se encaminhou aos aposentos.
"Concordo, tia. Tá na hora do meu sono de beleza mesmo." Disse Aphrodite, se levantando, despedindo-se e rumando a uma porta normalmente não percebida no fundo da sala, que dava em um corredor com dezesseis quartos. Lá, cada deus tinha seu quarto, não haviam quartos de casal.
"Então..." Disse Hephaestus, os olhos já brilhando novamente. Ares trocou um olhar e soube o que seria feito, e ficou tão animadinho quanto antes. "Vamos aos jogos!" E tiraram os game-boys dos bolsos.
"Vou me deitar também. Com licença." Disseram Poseidon, Ártemis, Deméter, Athena e Hades, levando consigo Perséfone. Zeus e Hera se entreolharam e seguiram mudos a seus quartos.
"Ei, Hephs, tem mais um joguinho pra mim?" Perguntou Dioniso, meio timidamente.
"Hm..." Respondeu Hephaestus, colocando a mão do bolso e retirando outro joguinho de lá. "Tomaê" E jogou o game em direção ao meio-irmão.
"Sabe de uma coisa, acho que vou dormir também." Disse Apolo, recebendo a atenção de Hermes (que tinha saído de seu compartimento especial), mas não a dos outros, completamente concentrados nos joguinhos. "Sabe como é, carregar o índice de brincadeira."
"Aah, valeu por me lembrar!" E Hermes saiu correndo na frente, fazendo Apolo correr como numa corrida para vencer seu irmão preferido.
E, silenciosamente, sem tirar os olhos do jogo, Dioniso e Hephaestus também se levantaram e seguiram em direção ao corredor. Momentos depois...
"UHUULL, venci!" Exclamou Ares, fazendo uma estranha dancinha da vitória sem abrir os olhos. E quando isso aconteceu, o deus engoliu em seco:
"P-pessoaal?" E o silêncio veio em resposta, fazendo com que ele soltasse em gritinho exaltado e corresse a maratona em direção aos quartos. Aparentemente, nosso amado deus das guerras tem medo de ficar sozinho. Bem, cada um com suas loucuras.
Olá, povo querido do meu coração! Olha, juro pra vocês que eu não esperava demorar tanto, mas surpreendentemente a minha escola deixou grande parte dos trabalhos pra agora. Ontem, dia 03, eu entrei de férias mas saí com meus amigos. Cheguei em casa lá pras 19:30 pensando assim: É HOJE QUE EU TERMINO ESSE CAPÍTULO! e fiquei até uma da manhã escrevendo, até meu pai entrar no quarto e me mandar desligar. Só faltava a parte em que todos vão para os aposentos (que eu inventei, naturalmente. Eu nem sei se os deuses do livro dormem ) e esta nota aqui. Ah, e acho que tenho que esclarecer umas coisinhas:
¹ - Bem, acho que todos sabem, mas, além de ser talvez um apelido para Dioniso, Dio em italiano significa Deus, então seria um duplo sentido que eu achei bacana. Que tal?
²- abstêmio: adj. e s.m. Que ou quem se abstém de bebidas alcoólicas; sóbrio.
³- A legal da autora tem uma cisma por desenho animado, desculpa aí
Aos agradecimentos:
Vanessa S = Ai, obrigada mesmo, não sei nem o que seria de mim sem os seus comentários. Muito obrigada, mesmo, por estar acompanhando! Sua review é super importante para mim!
Lala-E.P = Nossa, to emocionada, sério que você acha que meus comentários estão melhorando ? Eu achei a os comentários da luta meio fracos, mas estou feliz que você tenha gostado!*-* Brigadãao pelo seu review :D
Kessy R = Que bom que gostou ! Ah, o Poseidon assim com o Percy ficou muito fofinho, né? Uma das partes que eu mais gostei de escrever! Espero que goste desse também!
= É verdade, na maioria das vezes essas fanfics dizem respeito à Harry Potter, e foi disso que eu tirei a ideia, disso e de uma de Crepúsculo também. Eu pensei: 'Nossa, todo mundo é Harry Potter, Crepúsculo, mas ninguém lembra de Percy Jackson. Imagina se os deuses lessem o que ia acontecer!' E deu nisso! Obrigado pelo comentário, ele fez uma autora muito feliz =D E assim, desculpa especial pra você pela demora, por ter até me mandou uma MP, mas eu não tenho tempo definido entre as postagens, desculpa.
VicBlackPotter = Ah, que isso, não precisa agradecer, pra mim, histórias boas nasceram para serem comentadas! Eu também AMO histórias desse tipo, e foi outro motivo para eu escrevê-la. Obrigada pelo apoio, porque é realmente difícil fazer isso. E vamos combinar, né, o Tio Rick caprichou bem na história, ela é PERFEITA! Bom, espero que goste desse capítulo também, e pode deixar que eu vou sempre comentar sua história! Brigada pela review!
Ah, e meus amores,como eles foram dormir, no próximo capítulo vou fazer as reflexões de cada um em cada quarto e como eles vão acordar 'ideia formada na cabeça 'kk' e só no próximo eles vão tornar a ler, tudo bem? E pretendo escrever os dois ao mesmo tempo, aí o outro sai mais rápido =]
Então, até o próximo! Bjox...
Peraí, acabei de receber uma mensagem de Íris aqui... Hahaa o/ Tá Legal'
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Fazemos a leitura que você não consegue!
Mande já sua mensagem de Íris e agende uma visita!
É, os nosso queridos deuses querem divulgar o mais novo negócio deles. Fazer o que.
Bjox, Letz.
