O que deve acontecer?
"DALE A TU CUERPO ALEGRIA MACARENA
QUE TU CUERPO ES PA'DARLE ALEGRIA Y COSA BUENA
DALE A TU CUERPO ALEGRIA MACARENA
MACARENA!"
Em segundos o barulho de pessoas caindo da cama encheu o ouvido dos três deuses que no momento estavam "tocando" e dançando a Macarena em um palco improvisado com três dos maiores amplificadores já vistos no Olimpo, considerando os que esses três haviam utilizado na última comemoração, que haviam feito todo o Conselho de Anciãos do Casco Fendido ficar momentaneamente surdo. Segurando a vontade de gargalhar, Hermes, Apolo e Hephaestus continuaram a dança enquanto deuses raivosos adentravam na sala, já atirando as conhecidas munições: pedaços de madeira meio queimados, maçãs, uvas (dá-lhe uvas!)... Até balões d'água voaram em direção aos deuses, que depois de verem Poseidon ser atingido por um deles na cabeça, já não prendiam a risada e se mantinham dançando, travando apenas vez ou outra para desviar o caminho de um dos objetos que os deuses sonolentos conseguiam mirar corretamente.
Então, Zeus, com os cabelos bagunçados e a cara amarrotada, entrou na sala dizendo "Calem a boca!" ou "Vão para o Tártaro!"... Algo entre um e outro, e quando Apolo, Hermes e Hephaestus desceram do palco, ainda rindo, os deuses restantes voltaram a seus quartos para se arrumarem de uma vez, já que não havia a mínima possibilidade de voltar a dormir.
Quando os deuses, já devidamente vestidos, voltaram para a sala, os outros três estavam em seus tronos como se nada tivesse acontecido, o que fez com que os outros se estressassem mais um pouco. Após o aparecimento da enorme mesa de café da "manhã" abastecida com pequenas fontes de néctar, bandejas com cubos de ambrosia e fruteiras transbordando nas melhores frutas silvestres.
Depois de alimentados, a mesa sumiu e os livros voltaram ao foco.
"Quem quer ler?" Perguntou Héstia, calmamente.
"Ah, eu leio!" Disse Aphrodite, também querendo livrar-se da leitura de uma vez. Com o livro em mãos e aberto na página correta, ela leu o título:
"Minha transformação em senhor supremo do banheiro."
Alguns momentos de silêncio seguiram antes das gargalhadas encherem a sala.
"Senhor supremo do banheiro?" Disse Apolo, por entre as risadas. "Que é que esse menino fez? Aposto que é sua culpa, Dio."
Vendo o irmão corar, Hermes riu ainda mais por saber que a culpa poderia realmente ser do irmão.
"Por deuses, é só um título e vocês já me interrompem, imagina o capítulo todo!" Aphrodite lamentou ter se voluntariado para ler. Encarou cada deus da sala até que todos já estivessem quietos. A deusa poderia parecer pouco frágil, mas podia lançar um olhar que fazia até Zeus tremer. E começou a leitura.
Depois que assimilei o fato de meu professor de latim ser um cavalo, fizemos um passeio agradável, embora tivesse o cuidado de não andar atrás dele. Havia participado algumas vezes das rondas com pazinhas para recolher cocô de cachorro na Parada do Dia de Ação de Graças da loja Macy's e, lamento dizer, não confiava na parte de trás de Quíron tanto quanto confiava na da frente.
As risadas já tão conhecidas invadiram a sala. Coitado do Quíron...Mas mesmo assim continuava (muito) hilário, tamanho o ridículo do pensamento.
Passamos pela quadra de vôlei. Diversos campistas se cutucavam. Um deles apontou para o chifre de Minotauro que eu carregava. Um outro disse:
- É ele.
"Ele? Quem?" Disse Hermes, mas quando todos olharam para ele e viram uma expressão brincalhona, sabiam o que estava por vir, algo como disse muito bem Apolo:
"O Chuck Norris, baby." E sorriu, sereno, enquanto os outros o encaravam descrentes. "O que? Ele é foda demais, meu mortal preferido!"
Com um ligeiro tapa na própria testa, Aphrodite se forçou a ler.
A maioria dos campistas era mais velha que eu. Seus amigos sátiros eram maiores que Grover, todos trotando de um lado para outro de camisetas cor de laranja do ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE, sem nada para cobrir os traseiros peludos à mostra. Eu normalmente não era tímido, mas o modo como olhavam para mim me deixou pouco à vontade. Era como se esperassem que eu desse um salto mortal ou coisa assim.
Mais risadas preencheram a sala. Eles conseguiam entender ambos os lados; O fato de Percy estar constrangido e também dos outros estarem esperando algo especial dele. O que Percy iria querer que pensassem dele segurando o chifre do Minotauro? 'Há, ele matou o Minotauro, grandes merdas. Eu despedacei um dos manequins na Arena de Treino, isso é que é ser foda!'. Por deuses, sem idiotices por favor!
Olhei para a casa de fazenda trás de mim. Era muito maior do que eu pensara - quatro andares, azul-céu com acabamento em branco, como um hotel de veraneio de primeira classe à beira-mar.
Eu estava conferindo o cata-vento de latão em forma de águia no topo quando algo me chamou a atenção, uma sombra na janela mais alta do sótão. Alguma coisa havia mexido na cortina, só por um segundo, e tive a nítida impressão de que estava sendo observado.
"O oráculo." Disse Apolo com o olhar um pouco desfocado. Claro, todos sabiam a informação, e ela normalmente só os fazia lembrar da coisa enrugada que vivia no sótão da Casa Grande do acampamento. Claro, o normalmente sempre tem exceções, que nesse caso eram Apolo, é claro, e Hermes. Sempre ficava claramente mais infeliz com a simples menção do oráculo. Ainda se martirizava pelo que havia acontecido a tempos atrás.
- O que há lá em cima? - perguntei a Quíron. Ele olhou para onde eu estava apontando e seu sorriso desapareceu:
- Apenas o sótão.
- Mora alguém lá?
- Não - disse em tom definitivo. - Nem uma única coisa viva.
"Definitivamente não há uma única coisa viva por lá." Disse Dioniso, pensando novamente no corpo ressecado que guardava o espírito de Delfos.
Os deuses estremeceram, em especial Hades. Se ele se arrependia de alguma coisa, era daquela maldição havia lançado.
Tive a sensação de que ele falava a verdade. Mas também tinha certeza de que algo havia mexido naquela cortina.
- Venha, Percy - disse Quíron, o tom despreocupado agora um pouco forçado. - Há muito para ver.
Caminhamos pelos campos de morangos, onde campistas colhiam alqueires de morangos enquanto um sátiro tocava uma melodia numa flauta de bambu.
O clima na sala ficou mais calmo, dado ao fato de Dioniso estar suspirando pelo sátiro tocador de flauta. Afinal, 'que tipo de paixão doentia era aquela?', pensamento de Hermes, não meu.
Quíron me contou que o acampamento cultivava uma bela safra para exportar para os restaurantes de Nova York e para o Monte Olimpo.
- Paga as nossas despesas - explicou. - E os morangos não exigem esforço quase nenhum.
Ele disse que o sr. D produzia esse efeito sobre plantas frutíferas: elas simplesmente enlouqueciam quando ele estava por perto. Funcionava melhor com as vinhas, mas o sr. D estava proibido de cultivá-las, portanto, em vez delas eles plantavam morangos.
"Hm... Adoro morangos..." Disse Hephaestus, distraído.
"Hm... Nem me fale!" Concordou Héstia, lambendo os lábios e lançando um olhar a Deméter, como num pedido silencioso. Esta, sorrindo, fez surgir uma vasilha de grandes morangos na frente da deusa, que suspirou antes de morder a ponta de um.
"Ei, e eu?" Disse Hephaestus, fingindo-se ultrajado e fazendo a deusa rir e dar uma vasilha para ele também.
Roubando um morango do marido, Aphrodite voltou a ler.
Observei o sátiro tocando a flauta. A música fazia com que filas de insetos saíssem dos canteiros de morangos em todas as direções, como se fugissem de um incêndio. Imaginei se Grover podia fazer esse tipo mágica com música. Imaginei se ainda estava dentro da casa, levando broncas do sr. D.
-Grover não vai ter muitos problemas, vai? - perguntei a Quíron. - Quer dizer... ele foi um bom protetor. Sem dúvida.
"Ah, ótimo! Perfeito! Magnífico!" Resmungou Zeus, recebendo olhares de repreensão vindos de Hera, Aphrodite e Dioniso. Fechou a cara e fez um sinal com a cabeça para que a leitura continuasse.
Quíron suspirou. Tirou o casaco de tweed e jogou-o por cima do seu lombo de cavalo, como uma sela.
- Grover sonha alto , Percy. Talvez mais alto do que seria razoável. Para atingir seu objetivo, ele precisa primeiro demonstrar uma grande coragem tendo sucesso como guardião, encontrando um novo campista e trazendo-o em segurança à Colina Meio-Sangue.
- Mas ele fez isso!
"Nem é teimoso, uh?" Resmungou Dioniso.
"Mas ele só quer defender o amigo, ué." Disse Deméter, com uma pêra na mão.
- Eu poderia concordar com você - disse Quíron. - Mas não cabe a mim julgar. Dioniso e o Conselho dos Anciãos de Casco Fendido devem decidir. Receio que possam não ver essa missão como um sucesso. Afinal, Grover perdeu você em Nova York, há o desventurado... ahn... destino da sua mãe. E o fato de que Grover estava inconsciente quando você o arrastou até os limites da propriedade. O conselho pode questionar se isso demonstra alguma coragem da parte de Grover.
"Mas o Conselho se trata apenas de três sátiros barrigudos e amantes dos velhos costumes. Nunca vi sátiros com visões tão antigas sobre atos comuns do dia-a-dia" Disse Poseidon. O deus nunca havia gostado realmente de sátiros. Nada contra é claro, mas não eram nem de longe os mais queridos. Mas se haviam sátiros que aquele deus não suportava, eram aqueles três.
"Eles só vêem as coisas de uma maneira que nós não compreendemos!" Rebateu Dioniso, fazendo sua habitual defesa aos sátiros.
Eu quis protestar. Nada do que acontecera havia sido por culpa de Grover. Também me sentia muito, muito culpado. Se não tivesse escapado de Grover na estação de ônibus, ele poderia não ter se envolvido em encrenca.
"Ah, eu devo saber que a culpa é toda do moleque enquanto converso com Grover!" Disse Dioniso, confiante, recebendo um olhar raivoso de Poseidon.
Este, porém se encontrava surpreso por seu gesto. Ele nem conhecia o menino, por deuses! E mais, amava ele mais do que qualquer outro que havia conhecido, conversado. Aquilo era muito, MUITO, esquisito.
- Ele vai ter uma segunda chance, não vai?
"Eu ainda não entendi o porquê de ele ter tido uma segunda chance. Se falou nela, está mais do que longe de receber uma terceira!" Resmungou baixo Zeus. Mas ele definitivamente não esperava a reação que veio a seguir.
"Quer parar de culpar o sátiro por algo que é culpa da sua filha?" Hera explodiu, olhando com raiva para o marido e cuspindo a última palavra. Estava mais do que claro que ela não gostava da garota. Ela repudiava qualquer tipo de traição, especialmente aquela vinda do marido. Fazia o possível para se livrar das amantes que ele arranjava, mas não conseguia a maioria das vezes. "Única e exclusivamente daquela mortal! Se você não tivesse quebrado a maldita promessa, se não tivesse me traído mais uma vez, seria possível que não estivéssemos tendo tantos problemas! Você é um idiota!"
E aí, obviamente, um silêncio mortal encheu a sala, tendo uma Hera fumegando em silêncio e um Zeus de cabeça baixa, além de todos os outros pasmos encarando os dois tronos. Aphrodite, sem saber o que fazer, olhou em volta procurando ajuda, e Poseidon assentiu para ela voltar a ler.
Quíron retraiu-se.
- Infelizmente aquela era a segunda chance de Grover, Percy. Além disso, o conselho não estava muito ansioso em lhe dar outra oportunidade depois do que aconteceu na primeira vez, cinco anos atrás.
- O Olimpo sabe, eu o aconselhei a esperar mais tempo antes de tentar de novo. Ele ainda é muito pequeno para a sua idade.
"O pequeno ainda está muito novinho, talvez Quíron precisasse de algo mais para convencê-lo..." Comentou Dioniso timidamente, ainda envolvido na tensão anterior.
- Que idade ele tem?
- Ah, vinte e oito.
- O quê! E ainda está na sexta série?
"Que indelicado." Resmungou Aphrodite, junto com Dioniso. Os deuses riram por dentro da conexão bizarra que aqueles dois faziam quando se tratava de sátiros.
- Os sátiros amadurecem no dobro do tempo dos seres humanos, Percy. Grover teve idade equivalente à de um aluno de escola secundária nos últimos seis anos.
- Que coisa horrível.
- De fato - concordou Quíron. - De qualquer modo, Grover está atrasado, mesmo pelos padrões de sátiro, e ainda não avançou muito em magia dos bosques. O pobre estava ansioso por perseguir o seu sonho. Talvez agora encontre alguma outra carreira...
- Isso não é justo! - disse eu. - O que aconteceu na primeira vez? Foi mesmo assim tão ruim?
"Ih, pergunta errada..." Disse Ares.
"Teremos um Quíron "momentaneamente surdo" em cinco, quatro, três, dois..." Disse Poseidon.
Quíron desviou os olhos depressa.
- Vamos andando?
Mas eu ainda não estava pronto para mudar de assunto. Uma coisa me ocorrera quando Quíron falou sobre o destino de minha mãe, como se estivesse intencionalmente evitando a palavra morte. O princípio de uma ideia - uma pequenina e esperançosa chama - começou a se formar em minha cabeça.
"Ai, coitadinho!" As deusas disseram. Hades, naquele momento, se perdeu em pensamentos. Analisando bem a frase de Quíron, percebeu que havia alguma coisa errada... "...há o desventurado... ahn... destino da sua mãe." Quíron normalmente era bem claro, mas delicado, quanto a morte, mas se ele não utilizou tal palavra, existiam duas possibilidades. Uma, mais provável que a outra, ele queria poupar o garoto. A outra, que mais chamava sua atenção, era que Sally havia sido raptada.
"É isso!" Ele exclamou em voz alta, batendo na testa. Obviamente, os deuses o encararam como se fosse louco.
- Quíron - disse eu. - Se os deuses, o Olimpo e tudo isso são reais...
- Sim, criança?
- Isso significa que o Mundo Inferior também é real? - A expressão de Quíron se fechou.
- Sim, criança. - Ele fez uma pausa, como se estivesse escolhendo as palavras cuidadosamente. - Há um lugar para onde vão os espíritos após a morte. Mas por ora... até que saibamos mais...eu recomendaria que tirasse isso de sua cabeça.
- O que quer dizer com "até que saibamos mais"?
- Venha, Percy. Vamos ver os bosques.
"Sutil. Nem deu pra ver que não quer falar do assunto." Disse Hephaestus trabalhando em alguma coisa com as mãos.
Quando nos aproximamos, me dei conta de como a floresta era enorme. Tomava pelo menos um quarto do vale, com árvores tão altas e largas que a impressão era de que ninguém entrara lá desde os nativos americanos.
"Haha! Ninguém entra lá... puf" Disse Dioniso, desdenhosamente.
"Olha, Dio" Disse Poseidon, dando ênfase no apelido. Já estava cansando dessa implicância de Dioniso com Percy. "Como você sabe, tão bem quanto eu, o garoto acabou de chegar ao acampamento, então como diabos ele poderia saber?" Completou, levantando a voz com as últimas palavras.
Depois de Dioniso ficar ereto, o que levou algum tempo, a leitura continuou, com uma Aphrodite torcendo para ela terminar rápido.
Quíron disse:
- Os bosques têm provisões, se você quiser tentar a sorte, mas vá armado.
- Provisões de quê? – perguntei. - Armado com o quê?
- Você verá. O jogo Capture a Bandeira é na sexta-feira à noite. Você tem a sua própria espada e escudo?
"Como ele teria?" Perguntou Athena. O menino nem tinha chegado aos chalés e já teria seu próprio equipamento?
- Minha própria...?
- Não - disse Quíron. - Não creio que tenha. Acho que o tamanho cinco vai servir. Mais tarde vou visitar o arsenal.
Quis perguntar que tipo de acampamento de verão tem um arsenal, mas havia muito mais a pensar, portanto o passeio continuou. Vimos a linha de tiro com arco-e-flecha, o lago de canoagem, os estábulos (dos quais Quíron parecia não gostar muito),(Risadas encheram a sala.) a linha de lançamento de dardo, o anfiteatro para cantoria e a arena onde Quíron disse que eles realizavam lutas de espadas e lanças.
- Lutas de espadas e lanças? - perguntei.
- Desafios entre chalés e coisas assim - explicou ele. - Não são letais. Normalmente ("Nossa, agora me sinto tranquilíssimo!" Resmungou Hermes, com tom de falsete.). Ah, sim, e há também o refeitório.
Quíron apontou para um pavilhão ao ar livre emoldurado por colunas gregas brancas sobre uma colina que dava para o mar. Havia uma dúzia de mesas de piquenique de pedra. Sem telhado. Sem paredes.
- O que vocês fazem quando chove? - perguntei.
Quíron me olhou como se eu tivesse ficado meio maluco.
Era também a maneira que alguns dos deuses encararam o livro, até era resmungar "Alôoo, ele acabou de chegar!"
- Ainda assim temos de comer, não temos?
Resolvi deixar para lá.
Finalmente, ele me mostrou os chalés. Havia doze deles aninhados no bosque junto ao lago. Estavam dispostos em U, dois na frente e cinco enfileirados de cada lado. E eram, sem dúvida, o mais estranho conjunto de construções que já vi.
"Nossa, assim eu me ofendo" Disse Hermes, rindo. A muito tempo atrás, quando estavam construindo os chalés, ele havia comentado: "Essa coisa tá ficando muito esquisita", mas só jogaram coisas nele e o mandaram voltar a construir seu chalé.
A não ser pelo fato de cada um ter um grande número de latão acima da porta (ímpares do lado esquerdo, pares do direito), eram totalmente diferentes um do outro. O número 9 tinha chaminés como uma minúscula fábrica. ("É o meu..." Cantarolou baixinho Hephaestus.) O número 4 tinha tomateiros nas paredes e uma cobertura feita de grama de verdade ( Deméter tinha um sorriso meigo na cara.). O 7 parecia feito de um ouro sólido que reluzia tanto à luz do sol que era quase impossível de se olhar ("Oh yeah" Disse Apolo, fazendo os outros revirarem os olhos.) . Todos davam para uma área comum mais ou menos do tamanho de um campo de futebol, pontilhada de estátuas gregas, fontes, canteiros de flores e um par de cestos de basquete (o que era mais a minha praia).
No centro do campo havia uma enorme área de pedras com uma fogueira. Muito embora fosse uma tarde quente, o fogo ardia de modo lento. Uma menina com cerca de nove anos estava cuidando das chamas, cutucando os carvões com uma vara.
O par de chalés à cabeceira do campo, números 1 e 2, pareciam mausoléus casadinhos, grandes caixas de mármore branco com colunas pesadas na frente. O chalé 1 era o maior e mais magnífico dos doze ("Eu sempre soube..." Riu Zeus, apenas fazendo gracinha com os outros.). As portas de bronze polido cintilavam como um holograma, de tal modo que, vistas de ângulos diferentes, raios pareciam atravessá-las. O chalé 2 era de certo modo mais gracioso, com colunas mais finas encimadas com romãs e flores (Hera permitiu a si um sorriso ainda mais doce do que o de Deméter. Claro que seu chalé estava vazio, pois a deusa sempre prezou a fidelidade, mas a construção que mais gostava era aquele chalé.) . As paredes eram entalhadas com imagens de pavões.
- Zeus e Hera? - adivinhei.
"Não, Morfeu e Nêmesis!" Ironizaram Hermes e Apolo.
- Correto - disse Quíron.
- Os chalés parecem vazios.
- Diversos chalés estão vazios. É verdade. Ninguém jamais fica no 1 ou 2.
Certo. Então cada chalé tinha um deus diferente como mascote ("Agora você os deixou muito ofendidos!" Riu Apolo, enquanto Hermes enxugava uma lágrima imaginada, fazendo os outros rirem.) e chalés para os doze olimpianos. Mas por que alguns estariam vazios?
Parei na frente do primeiro chalé da esquerda, o número 3.
Não era alto e imponente como o chalé 1, mas comprido, baixo e sólido. As paredes externas eram de pedras cinzentas rústicas salpicadas de pedaços de conchas e coral, como se as pedras tivessem sido cortadas diretamente do fundo do oceano. Espiei para dentro da porta aberta e Quíron disse:
- Ih, eu não faria isso!
"Nenhum de nós faria..." Brincou Ares, apenas para aporrinhar o tio. Seguiram algumas risadas antes de Aphrodite jogar um batom na cabeça do amante e fazer todos se calarem.
Antes que ele pudesse me puxar de volta, senti o odor salgado do interior, como o vento na praia de Montauk. As paredes internas brilhavam como madrepérola. Havia seis beliches vazios com lençóis de seda virados para baixo. Mas não havia indício de que alguém já tivesse dormido lá. O lugar parecia tão triste e solitário que fiquei contente quando Quíron pôs a mão no meu ombro.
- Vamos, Percy.
Dessa vez, os deuses se mantiveram calados, pensando. Os chalés existiam para as pessoas morarem neles, e sem elas perdiam a magia, ficavam sem vida.
A maioria dos outros chalés estava abarrotada de campistas.
O numero 5 era vermelho vivo - uma pintura muito malfeita, como se a cor tivesse sido jogada a esmo com baldes e mãos ("E foi mesmo, pra que eu me interessaria em fazer uma coisa bem feita para aqueles mal agradecidos?" Resmungou Ares, recebendo vários olhares meio indignados, A verdade era que ninguém tinha comentado sobre nenhum chalé durante as construções, mas não ficaram surpresos pela falta de carinho pela parte do deus.) . O telhado era forrado de arame farpado. Uma cabeça de javali empalhada estava pendurada acima da porta e seus olhos pareciam me seguir. Dentro pude ver um bando de meninos e meninas mal-encarados, disputando queda-de-braço e discutindo enquanto o rock tocava às alturas. A mais barulhenta era uma menina de talvez treze ou quatoreze anos. Usava uma camiseta do ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE tamanho GGG embaixo de um casaco camuflado. Ela mirou em mim e lançou um maldoso olhar de desprezo. Fez lembrar Nancy Bobofit, só que a menina do acampamento era muito maior e de aparência mais cruel, seu cabelo era comprido, esticado e castanho, em vez de vermelho.
"Não devia falar mal de Clarisse." Comentou Ares de olhos fechados. Olhando bem, Aphrodite poderia jurar que havia raiva e um pouco de carinho na face de seu amante. Para ela, era óbvio que aquela garota briguenta era a filha preferida do deus da guerra.
Continuei andando, tentando ficar longe dos cascos de Quíron.
- Ainda não vimos os centauros – observei.
- Não - disse Quíron chateado. - Infelizmente, meus parentes são uma gente selvagem e bárbara. Você pode encontrá-los no mato ou em eventos desportivos importantes. Mas não verá nenhum aqui.
"Mentira, os pôneis de festa são os melhores, não são selvagens!" Disse Apolo, fielmente escudado com Hermes e Dioniso, que concordavam avidamente, fazendo os outros revirarem os olhos.
- Você disse que seu nome é Quíron. Você é mesmo...
Ele sorriu para mim.
- O Quíron das histórias? Instrutor de Hércules e tudo aquilo? Sim, Percy, eu sou.
"Oooah" Disseram Hermes e Apolo. "O Quíron fodástico? Aquele das histórias? Do filme da Disney? Yeeah!" E arrancaram risadas e todos, impedindo Aphrodite de continuar. Lançando aquele olhar malévolo, voltou a ler, volta e meia encarando os engraçadinhos, os desafiando a interromper.
- Mas você não devia estar morto?
Quíron fez uma pausa, como se a pergunta o intrigasse.
- Honestamente, não sei nada sobre devia. A verdade é que eu não posso estar morto. Entenda, há muitas eras os deuses concederam meu desejo. Pude continuar o trabalho que adorava. Pude ser um mestre de heróis enquanto a humanidade precisasse de mim. Ganhei muito com aquele desejo... e renunciei a muito. Mais ainda estou aqui, portanto só posso presumir que ainda sou necessário.
Pensei sobre ser um professor de três mil anos. Isso não estaria na minha lista das Dez Coisas Mais Desejadas.
"Não, não, definitivamente não!" Disseram Ares, Dioniso, Apolo, Hermes e Hephaestus em uníssono, fazendo os deuses voltarem a rir, tanto que nem o olhar de Aphrodite funcionou. Então, ela direcionou cinco alto falantes dos quartos com um estalo de dedos para os tronos deles, logo ao lado da cabeça, e, com um microfone, gritou:
"DÁ PRA CALAREM AS BOCAS, SEUS ENERGÚMENOS?" E os deuses gritaram de susto, afinando a voz e fazendo o restante explodir em risadas de doer a barriga. Ainda rindo, ela colocou os alto falantes e o microfone ao lado do trono e voltou a ler.
- Isso nunca fica chato?
- Não, não - disse ele. - Horrivelmente deprimente às vezes, mas nunca chato.
- Por que deprimente?
Quíron pareceu ficar com alguma deficiência auditiva de novo.
- Ah, olhe - disse ele. - Annabeth está esperando por nós.
A menina loira que eu conhecera na Casa Grande estava lendo um livro na frente do último chalé da esquerda, o número 11.
Hermes deu um suspiro. Os deuses o encararam timidamente e com culpa. É claro que era para ele que seus filhos reclamavam sobre não poderem dividir o chalé somente com os irmãos. Mas algumas das crianças ali não teriam lugar para ficar, era uma medida necessária.
Quando nos aproximamos, ela olhou para mim com um ar crítico, como se ainda estivesse pensando em como eu babava.
Tentei ver o que ela estava lendo, mas não consegui distinguir o título. Achei que fosse minha dislexia em ação. Então me dei conta de que o título não era sequer em inglês. As letras pareciam grego para mim. Quer dizer, literalmente grego. Havia figuras de templos e estátuas e diferentes tipos de colunas, como em um livro de arquitetura.
Um sorriso meigo tingiu a face de Athena. Sua filha era um exemplo. O orgulho se expandiu por seu corpo. Ela amava muito a filha, como percebia aos poucos. Bizarro, mas real.
- Annabeth - disse Quíron - eu tenho aula de arco-e-flecha para mestres ao meio-dia. Você cuidaria de Percy a partir daqui?
- Sim, senhor.
- Chalé 11 - disse Quíron para mim, fazendo um gesto em direção à porta. - Sinta-se em casa.
Entre todos os chalés, o 11 era o que mais parecia um velho chalé comum de acampamento de verão, com ênfase no velho. A soleira estava desgastada, a pintura marrom, descascando. Acima do vão da porta havia um daqueles símbolos de médico, um bastão alado com duas serpentes enroscadas nele. Como é mesmo que chamavam aquilo...? Um caduceu.
Dentro, estava abarrotado de gente, meninos e meninas, em muito maior número que os beliches. Sacos de dormir estavam espalhados por todo piso. Parecia um ginásio onde a Cruz Vermelha estabelecera um centro de refugiados.
Os deuses olharam como quem se desculpava para Hermes, que estava entretido brincando com um fiozinho solto de sua blusa.¹
Quíron não entrou. A porta era muito baixa para ele. Mas quando os campistas o viram, todos se puseram em pé e fizeram uma reverência respeitosa.
- Então tudo bem - disse Quíron. - Boa sorte, Percy. Vejo você no jantar.
Ele partiu a galope ruma à linha de arco-e-flecha.
Fiquei em pé no vão da porta, olhando para a garotada. Não estavam mais se curvando. Olhavam para mim, medindo-me com os olhos. Conheço essa rotina. Havia passado por ela em muitas escolas.
- Tudo bem? - instigou Annabeth. - Vá em frente.
Então, naturalmente, tropecei ao passar pela porta e fiz um completo papel de bobo. Houve algumas risadinhas dos campistas, mas nenhum deles disse nada.
"Tadinho." Disse Héstia.
"Vergonhinha mataaaaaaaaaaaaando" Disseram Apolo e Hermes.
O restante dos deuses estremeceu.
Annabeth anunciou:
- Percy Jackson, apresento-lhe o chalé 11.
- Normal ou indeterminado? - perguntou alguém.
Eu não sabia o que dizer, mas Annabeth disse:
- Indeterminado.
Todos gemeram.
Os deuses tornaram a encarar Hemes, que agora tamborilava com os dedos no braço do trono, encarando o nada.
Um cara que era um pouco mais velho que o restante chegou para frente.
- Vamos, vamos, campistas. É para isso que estamos aqui. Bem-vindo, Percy. Você pode ficar com aquele ponto no chão logo ali.
O cara tinha cerca de dezenove anos e parecia muito legal. Era alto e musculoso, com cabelo com cor de areia aparado curto e um sorriso amigável. Usava uma camiseta regata laranja, calças cortadas, sandálias e um colar de couro com cinco contas de argila em cores diferentes. A única coisa perturbadora na sua aparência era uma grossa cicatriz branca que corria desde logo abaixo do olho direito até o queixo, como um antigo corte de faca.
Hermes deu um sorriso fraco ao mesmo tempo que estremecia. A bendita missão que ele havia programado rendera aquela cicatriz horrenda no rosto do pobre filho.
- Este é Luke - disse Annabeth, e sua voz pareceu mudar um pouco. Dei uma olhada nela e poderia ter jurado que estava ficando vermelha. Ela me viu olhando e sua expressão endureceu de novo. - Ele é seu conselheiro por enquanto.
Risadas estrondosamente masculinas preencheram a sala. Talvez um pequeno coro de "É o amooor, que mexe com a sua cabeça e te deixa assiiim...", antes das garotas se juntarem com os alto falantes para deixá-los momentaneamente surdos para a leitura continuar.
- Por enquanto? - perguntei.
- Você é indeterminado - explicou Luke pacientemente. - Eles não sabem em que chalé acomodá-lo, então você está aqui. O chalé 11 recebe todos os recém-chegados, todos os visitantes. Naturalmente Hermes, nosso patrono, é o deus dos viajantes.
Olhei para o minúsculo espaço de chão que eles me deram. Eu não tinha nada para pôr ali e marcá-lo como meu, nenhuma bagagem, nenhuma roupa, nenhum saco de dormir. Apenas o chifre do Minotauro. Pensei em colocá-lo ali, mas então lembrei que Hermes era também o deus dos ladrões.
"Legal você me lembrar disso..." Resmungou Hermes.
Corri os olhos pelos rostos dos campistas, alguns mal-humorados e desconfiados, outros com um sorriso idiota, alguns me olhando como se esperassem uma oportunidade de limpar os meus bolsos.
Apertando os lábios para não soltar um comentário, Apolo olhou de esguelha para seu irmão. Este sabia que estava sendo observado, mas manteve a face abaixada. A atitude dos filhos não o orgulhava, longe disso. Ma ele era o deus dos ladrões, afinal. Fazer o que se as crianças haviam herdado essa parte ruim dele?
- Quanto tempo vou ficar aqui? - perguntei.
- Boa pergunta - disse Luke. - Até você ser determinado.
- Quanto tempo isso vai levar?
"Viiixe" Disseram os deuses juntos, apesar de todos estarem se martirizando por dentro. Eles sabiam que o menino ia ser alvo de brincadeirinhas e risadas, e parte daquilo era culpa deles, por não reclamarem os filhos sempre. Novamente encararam Hermes, que por sua vez, fazia uma semi dança da macarena ainda sentado em seu lugar.
Todos os campistas riram.
- Venha - disse Annabeth. - Vou lhe mostrar o pátio de vôlei.
- Eu já vi.
- Venha.
Ela agarrou meu pulso e me arrastou para fora. Pude ouvir o pessoal do chalé dando risadas atrás de mim.
"Insistente ela, né?" Disse Apolo.
"Isso é verdade... Às vezes é a tática infalível dela para conquistar filhos de Poseidon!" Disse Hermes.
A cena do garoto de cabelos negros e de Annabeth se beijando invadiu novamente os pensamentos de Athena, que encarou os deuses com uma raiva incandescente. Aphrodite continuou a leitura, prevendo uma enorme discussão.
Quando estávamos a poucos metros de distancia, Annabeth disse:
- Jackson, você precisa fazer melhor do que isso.
- O quê?
Os deuses se encararam com cara de interrogação. Fazer melhor o o quê?
Ela revirou os olhos e murmurou baixinho:
- Não posso acreditar que achei que você fosse o cara.
"Ahh tá, entendi tudo! Ela achou que ele fosse o filho de Poseidon certo para seduzir usando a tática infalível para seduzir filhos de Poseidon, mas descobriu que ele não era o filho de Poseidon certo!" Disse Apolo, e os deuses (exceto Athena, claro) quase se cagaram (perdoem-me o palavreado,estou convivendo muito com a agência de leitura facial de Apolo e Hermes, que tristeza) de tanto rir.
- Qual é o seu problema? - Eu agora estava ficando zangado. ("Ui, ele tá zangado!" disse Hermes, levando na hora um balão d'água na cara.) - Tudo o que sei é que matei um sujeito-touro...
- Não fale assim! - disse Annabeth. - Você sabe quantos neste acampamento gostariam de ter tido a sua chance?
- De serem mortos?
"Isso aí, Percytcho, responde mesmo, não deixa ela levar a melhor não!" Disseram Hermes e Apolo com uma voz fininha, fazendo os deuses rolarem (Ares e Dioniso que o digam) de tanto rir.
- De enfrentar o Minotauro! Para que você acha que nós somos treinados?
Eu sacudi a cabeça.
- Olhe, se a coisa contra a qual eu lutei era realmente o Minotauro, o mesmo das histórias...
- Sim.
- Então só existe um.
- Sim.
- E ele morreu, tipo um zilhão de anos atrás, certo? Teseu o matou no labirinto. Portanto...
- Monstros não morrem, Percy. Eles podem ser mortos. Mas eles não morrem.
"Uou, ótima explicação, eu entendi legal" Resmungou Poseidon, recebendo um olhar fumegante de Athena.
- Ah, obrigado. Agora entendi tudo.
- Eles não têm alma, como você e eu. Você pode bani-los por algum tempo, talvez até por todo uma vida, se tiver sorte. Mas eles são forças primitivas. Quíron os chama de arquétipos. No fim, eles se reconstituem.
Pensei na sra. Dodds.
- Você quer dizer que se eu matei um, acidentalmente, com uma espada...
- A Fúr... Quer dizer, a sua professora de matemática. Está certo. Ela ainda está lá fora. Você apenas a deixou muito, muito zangada.
- Como você sabe da sra. Dodds?
- Você fala dormindo.
- Você quase a chamou de alguma coisa. Uma Fúria? Elas são torturadoras de Hades, certo?
"Sim, minhas queridinhas." Disse Hades, sorrindo enquanto olhava carinhosamente para o chão.
Os deuses tremeram por dentro. Eca.
Annabeth olhou nervosamente para o chão, como se esperasse que ele se abrisse e a engolisse.
- Você não deve chamá-las pelo nome, mesmo aqui. Se acabamos tendo de falar nelas, nós as achamos de as Benevolentes.
- Puxa, existe alguma coisa que se possa dizer sem que haja trovões? - Eu soei reclamão, até para mim mesmo, mas naquele momento não me importei. - Por que tenho de ficar no chalé 11, afinal? Por que fica todo mundo amontoado? Há uma porção de beliches vazios logo ali.
Apontei para os primeiros chalés e Annabeth empalideceu.
'Logo, mas garanto que não vai ser a melhor coisa do mundo...' Pensou Poseidon, triste e estressado pela maldita promessa.
- A gente não escolhe simplesmente um chalé, Percy. Depende de quem são seus progenitores. Ou... o seu progenitor.
Ela olhou fixamente para mim, esperando que eu entendesse.
- Minha mãe é Sally Jackson - disse eu. - Trabalha na doceria da Grande Estação Central. Pelo menos trabalhava.
- Sinto muito pela sua mãe, Percy. Mas não é isso que eu quis dizer. Estou falando sobre seu outro progenitor. Seu pai.
- Ele está morto. Não cheguei a conhecê-lo.
Annabeth suspirou. Era claro que já tivera aquela conversa com outras crianças:
- Seu pai não está morto, Percy.
- Como pode dizer isso? Você o conhece?
"Uma boa pergunta, acho." Murmurou Poseidon, agora mais triste por não ter podido ser presente na vida de seu filho.
- Não, é claro que não.
- Então como você pode dizer...
- Porque eu conheço você. Você não estaria aqui se não fosse um de nós.
- Você não sabe nada a meu respeito.
Athena deu um sorrisinho de desdém em direção a Poseidon, como se agora ela fosse constranger ele com a resposta.
- Não? - Ela ergueu uma sobrancelha. - Aposto que você ficou passando de escola em escola. Aposto que foi expulso de uma porção delas.
- Como...
- Teve diagnóstico de dislexia. Provavelmente transtorno do déficit de atenção também.
Tentei engolir meu constrangimento.
- O que isso tem a ver?
- Tudo junto, é quase um sinal certo. As letras flutuam para fora da página quando você lê, certo? Isso é porque a sua mente está fisicamente programada para o grego antigo. E o transtorno do déficit de atenção... você é impulsivo, não consegue ficar quieto na classe. Isso são os seus reflexos de campo de batalha. Numa luta real, eles o manterão vivo. Quanto aos problemas de atenção, isso é porque enxerga demais, Percy, e não de menos. Seus sentidos são mais aprimorados que os de um mortal comum. É claro que os professores querem que você seja medicado. Eles são em maioria monstros. Não querem que você os veja como são.
"Ai, ai, eu amo essa garota.' Disse Athena, carinhosamente, surpreendendo a todos.
- Você parece... você passou pelas mesmas coisas?
- A maioria das crianças daqui passou. Se você não fosse um de nós, não poderia ter sobrevivido ao Minotauro, e muito menos à ambrosia e ao néctar.
- Ambrosia e néctar.
- A comida e a bebida que estávamos dando a você para curá-lo. Aquilo teria matado um garoto normal. Teria transformado seu sangue em fogo e seus ossos em areia e você estaria morto. Encare os fatos. Você é um meio-sangue.
"Música de fundo depois da frase de efeito. A cabeça dele cheia de perguntas. Interrompido por alguém muito chato." Disse Apolo, enquanto apontava uma câmera imaginária em direção ao livro e Hermes segurava um daqueles microfones enormes, também imaginário.
Um meio-sangue.
Minha cabeça estava girando com tantas perguntas que eu não sabia por onde começar.
- Ora, ora! Um novato!
A sala explodiu em risadas. Ninguém imaginava que a brincadeira de Apolo narraria, pelo menos um pouco, o que viria a seguir na história.
"Quem é a 'pessoa chata'?" Perguntou Ares, se recuperando das risadas.
Aphrodite, ainda meio ofegante, voltou a ler.
Eu dei uma olhada. A menina grandalhona do chalé feio e vermelho vinha andando lentamente em nossa direção. Havia três outras meninas atrás dela, todas grandes, feias e de aparência malvada como ela, todas usando casacos camuflados.
Ares fechou a cara na hora. Era Clarisse a 'pessoa chata'. E ele não gostava disso. Começou a encarar Hermes e Apolo na mesma hora, com um fogo tremeluzindo em seus olhos. Os deuses em questão perceberam a ameaça implícita, e muito lentamente, entraram nos compartimentos embaixo dos tronos. O de Apolo, feito ainda naquela manhã antes deles acordarem os outros, era muito menos confortável do que o de Hermes, mas mesmo assim era melhor ficar lá do que correr riscos com o deus da guerra.
- Clarisse - suspirou Annabeth -, por que você não vai polir sua lança ou coisa assim?
- Claro, srta. Princesa - disse a grandalhona. - Para poder atravessar você com ela na sexta-feira à noite.
- Erre es korakas! - disse Annabeth, o que eu de algum modo entendi que era "Vá para os corvos!" em grego, embora tivesse a sensação de que devia ser uma praga pior do que parecia. - Você não tem chance.
"Você nem tem ideia" Disse Hera, olhando feio para o livro. Que menininha de boca suja essa Annabeth!
"Isso é que é Capture as Bandeiras, uma boa dose de ameaças antes do jogo." Dioniso disse. Era a única atividade que ele prezava no acampamento.
- Vamos transformá-la em pó - disse Clarisse, mas seu olho se crispou. Talvez ela não tivesse certeza de poder cumprir a ameaça. Voltou-se para mim. - Quem é esse nanico?
- Percy Jackson - disse Annabeth -, esta é Clarisse, filha de Ares.
Eu pisquei.
- Tipo... o deus da guerra?
"Não, o deus do chá!" Disse Hermes, sua voz sarcástica abafada.
Clarisse sorriu desdenhosa.
- Você tem algum problema com isso?
- Não - disse eu, recobrando minha presença de espírito. - Isso explica o mau cheiro.
Ares rosnou enquanto os outros deuses riam. Ares não faria nada com eles, talvez. Só com Percy. Poseidon estremeceu. Não era bom quando um deus tinha raiva de um mortal.
Clarisse rosnou.
- Nós temos uma cerimônia de iniciação para novatos, Persiana.
- Percy.
- Seja o que for. Venha, vou lhe mostrar.
- Clarisse... - Annabeth tentou dizer.
- Fique fora disso, espertinha.
Annabeth pareceu ofendida, mas ficou de fora, e eu realmente não queria a ajuda dela. Eu era o novato. Tinha de construir minha própria reputação.
"Ihh, o baixinho já era." Disse Apolo, também com a voz abafada.
Entreguei a Annabeth meu chifre de Minotauro e me preparei para a luta, mas antes que eu percebesse Clarisse tinha me segurado pelo pescoço e me arrastava na direção de um edifício de blocos de concreto que percebi imediatamente que era o banheiro.
Poseidon estremeceu visivelmente. Agora mais do que nunca o nome do capítulo fazia sentido. Ela ia enterrar a cabeça dele na privada o.O .
Eu chutava e dava murros no ar. Já tinha estado em muitas brigas antes, mas aquela Clarisse grandalhona tinha mãos de ferro. Arrastou-me para dentro do banheiro das meninas. Havia uma fileira de vasos sanitários de um lado e uma fileira de chuveiros do outro. Cheirava como qualquer banheiro público, e eu estava pensando - tanto quanto podia pensar com Clarisse me arrancando os cabelos - que se aquele lugar pertencia aos deuses, eles deviam poder comprar privadas melhores.
Risadas tímidas preencheram a sala. Dioniso não riu.
"Eu sempre digo, 'se é para ter um acampamento nas costas, ele tem que ser decente, libera os dracmas', mas nãaaao, nada para o Dio!"
As amigas de Clarisse estavam todas rindo, e eu tentava encontrar a força que usara para enfrentar o Minotauro, mas ela simplesmente não estava lá.
- Como se ele fosse dos Três Grandes - disse Clarisse, me empurrando em direção a um dos vasos. - Certo. O Minotauro provavelmente caiu na risada, de tão bobo que ele parecia.
As amigas abafaram o riso.
Annabeth ficou no canto, as mãos na frente dos olhos, observando através dos dedos.
Clarisse me forçou sobre os joelhos e começou a empurrar minha cabeça para dentro do vaso sanitário, que fedia a canos enferrujados e, bem, ao que vai para dentro de vasos sanitários. Fiz esforço para manter a cabeça erguida. Estava olhando para a água imunda e pensando: eu não vou enfiar a cabeça naquilo. Não vou.
"Duvido que alguém iria se tivesse escolha." Disse Ártemis, o nariz franzido imaginando o fedor do lugar.
"Pois é, que eca!" Disse Héstia
Então algo aconteceu. Senti uma pressão violenta na boca do estômago. Ouvi os encanamentos roncando, os canos estremeceram. A mão de Clarisse no meu cabelo afrouxou. A água pulou para fora do vaso, formando um arco por cima da minha cabeça, e em seguida me vi estatelado sobre os ladrilhos do piso do banheiro com Clarisse berrando atrás de mim.
Eu me virei bem no momento em que a água explodiu para fora do vaso outra vez, atingindo Clarisse bem no rosto com tanta força que a fez cair de traseiro no chão. A água continuou jorrando em cima dela como o jato de uma mangueira de incêndio, empurrando-a para trás, para dentro de um boxe de chuveiro.
Ela se debateu, esbaforida, e as amigas começaram a ir em sua direção. Mas então os outros vasos também explodiram, e mais seis jorros de água de privada as empurravam de volta. Os chuveiros também entraram em ação e, em conjunto, todos os dispositivos lançaram as meninas camufladas para fora do banheiro, fazendo-as rodopiar como pedaços de lixo sendo removidos com jatos d'água.
Assim que elas foram postas porta afora, sentia a pressão nas minhas entranhas se aliviar, e a água parou de jorrar tão depressa quanto começara.
"O segundo ato com os poderes do filho do titio Poseids." Disse Apolo, colocando a cabeça pra fora do compartimento. Era muito quente lá dentro!
"Poseidon, seu filho tá marcado comigo." Ares disse entre dentes. Poseidon fulminou-o com o olhar, mas o deus apenas ignorou, fazendo valer sua frase.
O banheiro inteiro estava inundado. Annabeth não tinha sido poupada. Estava toda molhada e pingando, mas não fora empurrada para fora. Estava de pé exatamente no mesmo lugar me olhando em estado de choque.
Olhei para baixo e me dei conta de que estava sentado no único ponto seco em todo o recinto. Havia um círculo de piso seco em volta de mim. Não havia nem uma gota d'água nas minhas roupas. Nada.
"Surpresa!" Disseram Apolo e Hermes com a cabeça pra fora.
Levantei com as pernas trêmulas.
Annabeth disse:
- Como você...
- Eu não sei.
Caminhamos até a porta. Do lado de fora, Clarisse e as amigas estavam prostradas na lama e um bando de outros campistas se reunira em volta para olhar, perplexos. O cabelo de Clarisse estava colado no rosto. O casaco camuflado estava encharcado e ela cheirava a esgoto. Ela me lançou um olhar de ódio absoluto.
- Você está morto, novato. Está totalmente morto.
Talvez eu devesse ter deixado pra lá, mas disse:
- Quer gargarejar com água da privada de novo, Clarisse? Cale essa boca.
"Mano, esse Percy não pensa!" Gemeu Apolo. Ele já havia tido o (des)prazer de conhecer Clarisse, afinal.
As amigas tiveram de segurá-la. Arrastaram-na para o chalé 5, enquanto os outros campistas abriam caminho para evitar seus membros que esperneavam.
Annabeth olhou para mim. Eu não sabia dizer se ela estava apenas enjoada ou zangada comigo por encharcá-la.
- O que foi? - perguntei. - O que está pensando?
- Estou pensando - disse ela - que quero você no meu time para capturar a bandeira.
"Acabou." disse Aphrodite, franzindo o nariz, pensando 'Que nojo, banho de água da privada! Ewww!'
"Eu leio o próximo." Disse Poseidon.
"Ótimo, captura da bandeira, adoro assistir! Ou ouvir, sei lá..." Disse Apolo, feliz da vida.
"Eu também." Disse Hephaestus, os olhos brilhando.
"Ok, seus bobos alegres, agora eu vou ler." Disse Poseidon.
"Meu jantar se esvai em fumaça."
Leitoras, eu mereço ser torturada sem reviews nesse capítulo! Me desculpem, de verdade! Eu vou tentar explicar o que aconteceu, não é desculpa, juro! O mouse do meu computador estragou, e não deu pra comprar um novo por 2 semanas, mas o livro tá baixado nele, e o capítulo tava nele também, quase pronto, aí eu pensei "Vou esperar comprar um novo." Aí, quando comprou um novo, o capítulo tinha sumido! Estavam todos lá, menos esse! Aí eu tive que começar tudo de novo, e como eu sou lerda, demorei esse tempão! Espero que gostem, e desculpa novamente por desapontar vocês.
¹- Gente, os deuses estão usando roupas normais, ok? Até porque eu acho esquisito em pleno século 21 os deuses usando túnicas gregas!
Respostas às reviews:
Evelyn Medeiros – Desculpa por demorar tanto! x.x Obrigada pelo review, espero que tenha gostado desse capítulo.
Kelly R – Novamente, brigadãao pelo seu review ;3 Desculpa pela demora ' Que bom que gostou do Hephaestus e do Poseidon *-*
Ninguem em Especial – Brigada por acompanhar, adoro leitoras novas *-* Bem, eu baixei o livro já, mas nos primeiros capítulos eu não tinha. A ideia de reler o livro assim é legal, mas eu não posso levar o crédito porque eu tive a ideia lendo fics desse tipo de HP e Twilight . Jura gosta do Ares? É um dos que eu menos gosto x.x Mas cada um com seu gosto *-*
Mylle Malfoy P.W. – Oooba, mais leitora noova ! Fico muito feliz que esteja gostando *-* Percy Jackson é o tipo de livro que apaixona 8D
Vanessa S. – Que bom que gostou do capítulo miniatura xD Desculpa ter demorado tanto, espero que o tamanho compense um pouquinho x.x
Watchdraconis155 – Brigada =D Mais uma leitora nova, vou chorar de emoção *-* Amooo
Beijos e até o próximo ! (Vou torcer junto com vocês pra ser mais rápido!)
