Dia 16 – Rachel Berry
"Você deveria vir para cá", Finn diz ao telefone. Eu rio, porque é meio fofo. Faz quinze dias que não nos vemos, e é claro que isso vai se repetir por mais vezes. Mas ele sabe que eu precisei dessas semanas para me adaptar à faculdade e criar um pouco de resistência. Se toda vez que eu sentir saudade dele quiser vê-lo, nunca vou conseguir me concentrar nos estudos. E Lima fica meio longe daqui.
Em todo caso, sempre tenho o Kurt. Quer dizer, quase sempre. Até agora, não o vi. Mas ele sempre me relata seus dias de glória da NYADA, enquanto eu me contento em lhe dizer sobre as aulas, pois são a única coisa interessante por aqui. Contei-lhe que consegui um quarto privativo, alegando que minha colega de quarto é bagunceira demais (sob certo ponto de vista, é uma explicação real; e as vezes que eu tive de sair de lá para que ela e seu amigo transassem? Aquilo definitivamente estava me estressando). E, na verdade, fica sozinha não é tão desesperador – eu faço meus próprios horários e posso pendurar os pôsteres que eu quiser, sem falar que o frigobar não fica lotado de cervejas.
Ao menos, livrei-me de alguém que me quer ver pelas costas. Já é alguma vitória, de certa forma.
- No próximo fim de semana, quem sabe – respondo, meio rindo.
Eu realmente gosto dele. E sinto a sua falta.
Até a última semana, éramos meio inseparáveis. Kurt dizia que não suportava mais nos ver juntos como se fôssemos gêmeos, ou algo assim.
Finn se tornou meu segundo melhor amigo, depois que começamos a sair. Estamos juntos há quase dois anos, e a nossa relação me faz muito bem. Ele não tem muito senso de coordenação, ou uma inteligência acima da média, mas nos damos bem. Apesar de eu estar aqui, em Nova York, ele continuar em Ohio, na OST. Por enquanto, estamos lidando bem com as nossas decisões – não é como se ele pudesse ter ingressado na NYADA, ou na NYU. Quer dizer, talvez na NYU, sim. Mas ele preferiu não fazer parte daqui. Acho que é porque ele é meio que apegado demais à Ohio, enquanto eu, desde pequena, já sei que pertenço à NY. É aqui onde meu coração está, apesar de eu não estar numa universidade de canto, ou algo assim. Não lembro bem como é que o Jornalismo apareceu na minha vida. Acho que logo após eu e Kurt termos sido convidados para uma Amostra da NYADA e eu ter ficado assustada com aquele mundo. Então me contentei em cantar nas horas vagas, enquanto fico atrás de pessoas filhas da mãe que têm as informações das quais preciso para finalizar minha matéria. Elas realmente me fazem pirar.
Ainda bem que, agora, eu tenho uma pauta de verdade. Sobre novos best-sellers. Acho que ninguém a quis pegar, e o Sr. Schue a destinou a mim. Eu realmente não sei por que esse tipo de matéria é importante, em todo caso ao menos eu tenho o que fazer, além de apenas ficar trancada naquela sala olhando para o monitor. Eu posso ir às ruas, inquirir as pessoas e ir atrás de dados que darão base à minha reportagem.
É claro que, em tão pouco tempo, eu não sei muita coisa sobre como é que funciona tudo isso, esse mundo tão amplo que é essa área. Tudo que sei, por enquanto, é que é muito mais legal ir para as entrevistas. Com o resto, especialmente com a escrita jornalística (já que ainda não tive nenhuma aula preparatória sobre isso), eu lido depois.
É claro que não vou pedir auxílio algum para alguém, além do meu coordenador – que é bem legal, se você conseguir entender todas as piadas internas que ele faz. Parece que todo mundo têm uma boa relação com todo mundo – sempre alguém faz uma piada e brinca com outro alguém. É um clima descontraído, mas eu ainda não consegui me adentrar nele. Fico sozinha no meu canto, sem ser interrompida por ninguém, exceto pelo meu coordenador, quando há reuniões de pauta. Não falo com ninguém, também – nada além do estritamente necessário: "sim", "claro", "tudo bem".
Na última sexta-feira, entretanto, quando cheguei notei a minha colega de Inglês Aplicado, a oriental. Ela tem o cabelo superbrilhante e mechas azuis, que praticamente se confundem com o resto do seu cabelo. Ela parece meio gótica, mas é bastante inteligente. De vez em quando, ela responde as perguntas da professora sobre gramática. Não é de falar muito, mas a gente se entende assim. Quando a vi na redação, em um cantinho também, não resisti à tentação. Fui até ela.
- Oi, Tina!
Tina me olhou com surpresa.
- Hey! Acabei de conseguir uma vaga, acredita? – ela me diz, a voz meio aguda.
É claro que eu já tinha lhe contado sobre o estágio e fui eu mesma que lhe disse para não desistir, porque uma hora alguém poderia se cansar dali e pular fora.
Pelo visto, eu estava certa. Alguém pulou fora, dando uma chance à Tina.
Disseram-me que as duas primeiras semanas são cruciais para analisar quem vai ou não ficar na redação. Por motivos de incompatibilidade de horários, ou por conta de outros estágios à vista, muita gente abandona o Editorial logo no começo. Outro dia, Holly Holiday passou por mim e disse:
- Bom saber que você está ficando, Rachel!
Ela é o tipo de professora que ama seu trabalho tanto quanto alguém ama um picolé no verão. E ela é empenhada. Ela é, de longe, a mais educada e a mais alegre. Sempre distribui sorrisos pela redação e conversa com todo mundo. Ela é do tipo de professora que você quer ter para sempre na sua vida.
Então, a Tina tem sido uma ótima amiga. Às vezes, ela vem ao meu quarto para conversarmos ou dividirmos a comida que ela compra no Mc Donald's. Acabei descobrindo que o garoto oriental, o Mike, é seu namorado – mas ele é do segundo semestre; rodou na cadeira de Inglês Aplicado e a está fazendo de novo.
São sete da manhã, tenho mais uma hora e meia pela frente. Tomo meu banho completamente sossegada, sem me preocupar com um tarado entrando pela porta para me pegar seminua, e me arrumo devagar. Por saber que ainda tenho bastante tempo, deixo tudo no lugar antes de sair. Não que haja muita coisa para ser arrumada, mas eu gosto assim. Vou para o meu bistrô preferido beber a minha primeira dose de cafeína. Estou de bom humor, mas quando estou na fila para requerer meu pedido, noto alguém numa das mesinhas para dois lugares perto da porta. Não acredito. Não dá para acreditar.
É claro que estamos fazendo uma espécie de voto de silêncio. Desde aquela noite, a minha última noite dividindo o quarto com alguém, eu e Quinn não temos trocado nada além do necessário, o que sempre acontece nas reuniões de pauta. Na semana passada, ela me perguntou na frente do grupo de Impresso todo se eu precisava de alguma ajuda com a minha primeira matéria. Eu disse que não queria, que eu estava bem. E aí ela insistiu:
- Tenho uns contatos, caso precisar.
Mas eu não vou precisar.
Tudo bem. Talvez eu vá precisar dos contatos dela, mas até parece que vou requisitar sua ajuda.
Peço meu cappuccino e a minha torta fria de legumes e procuro uma mesa de quatro lugares, perto da janela. Não vou ligar para ela, não vou mesmo. Vou fingir que não a vi.
Não olho para ela. Sigo em frente. Abro a minha bolsa e retiro de lá outro livro, não é O Diário de Anne Frank, pois esse eu já terminei. É Senhorita Ninguém dessa vez, literatura polonesa. Encontrei-o na seção de Literatura Russa, da última vez que me aventurei pela biblioteca da faculdade. Uma das coisas que me fez viciar nesse lugar foi o fato de todo mundo que vem aqui não é porque faz Odontologia, é simplesmente porque vem aqui para encontrar os amigos. O mais legal é que intercambistas também vêm aqui, então de vez em quando dá para pescar conversas em Francês ou em Japonês. Eu simplesmente coloco meus fones de ouvido e leio. Sou a única que faz isso. Algumas pessoas vêm aqui para estudar em grupo, mas eu sou sempre a única sozinha numa mesa para quatro que está submersa num mundo literário. Venho aqui todos os dias, de manhã e antes de o restaurante fechar, perto das oito, que é o horário que saio do estágio. Eu não sei o que as atendentes pensam, mas eu não me importo. Aqui é um refúgio, é maravilhoso.
Aos poucos, eu relaxo. Entro no meu próprio mundo. Ela nunca vem aqui – ao menos nunca a vi nos horários que venho pra cá – e fico me perguntando por que está sozinha também. É tão cedo! Achei que ela fosse mais do tipo que gostava de sexo matinal a beber café e coisa e tal. Desvio-me desse pensamento.
Não ligo.
Não estou mesmo me importando.
Quando enfim me esqueço dela, ela aparece na minha frente. Está segurando um café expresso. Fica em pé, parada me olhando.
É a primeira vez que ela faz isso, que vem até mim. Dessa vez, parece que não vai me dar uma bronca, ou algo assim.
- O que é? – rosno impaciente, retirando os fones das minhas orelhas. Eu realmente odeio quando estou lendo e as pessoas em volta não me deixam fazer isso. Odeio interrupções. Em especial de pessoas que me odeiam.
Sua expressão está complacente e serena. Seu rosto está sem maquiagem alguma, e isso é esquisito. Seu cabelo está meio escorrido, talvez porque está mais ajeitado que das outras vezes que a vi.
- Você bebe café sempre? – ela me pergunta.
Desculpe, o quê?
Fico meio desorientada por alguns milésimos de segundos, então balanço a minha cabeça espantando a confusão.
- Basicamente – respondo. Por que estou respondendo a ela? Deveria mandá-la "cair fora"! Certo? É o que ela fez muitas vezes comigo. Antes que ela fale algo, se é que ela está pensando em dizer mais alguma coisa, eu logo encurto o assunto – O que você quer? – repito com mais rudez.
- Eu estava pensando sobre a sua matéria. Eu sei que ela é meio complexa para ser a sua primeira, afinal você acabou de chegar. Por isso, se você quiser...
- Mas eu não quero – digo – Acabou? É só isso? Então faça o favor d...
- Não, espere, ok? – ela me corta, parecendo ansiosa e aflita – Eu apenas quero ajudá-la. Essas coisas, essas pautas requerem responsabilidade...
- E você acha que não tenho responsabilidade o suficiente, é isso? – me pego retorquindo com raiva.
- Não, é claro que não. É só que...
- Dê licença, por favor. Eu disse que não quero nada seu.
- Mas Rachel... – ela diz.
Ela tem que parar com isso, sério.
É ridículo que ela ache que eu vou ceder toda hora que ela proferir o meu nome. Isso não é um jogo, será que ela não sabe disso? E daí que ela parou de me chamar de "novata"? Isso não muda nada. Eu ainda tenho muita raiva dela. Ainda quero que ela desapareça da minha frente sempre que nos cruzamos.
- Saia daqui, Quinn! Está bem? Eu não preciso da sua ajuda! Eu posso conquistar meu mérito completamente sozinha! Não quero que, depois, você jogue na minha cara o quanto estou devendo para você!
- Eu não vou jogar nada na sua cara! – de repente ela exclama num tom alto. E sem aviso, ela arrasta a cadeira que está à minha frente e senta-se nela. Fico meio ultrajada; será que ela não me ouviu dizer para cair fora? Qual é o problema dessa filha da mãe? – Eu sei que aquele trote foi ridículo da minha parte, e você tem todo o direito de...
- Tenho mesmo! – respondo, antes que ela termine sua sentença – Agora me dê licença!
- Rachel – ela diz o meu nome como se estivesse sufocando. Não me importo. Quero distância dela. Ela não sabe que não se brinca com as pessoas?
- PARE DE PROFERIR O MEU NOME COMO SE EU FOSSE CAIR AOS SEUS PÉS POR CONTA DISSO! – eu digo, alto. Algumas pessoas nos olham. Eu não me importo. Lanço meu peso para trás, arrasto a minha cadeira e pego minha bolsa. Levanto, com um livro em uma mão e meu café pela metade na outra.
Caminho rápido por entre as mesas. Quando chego perto da porta noto um problema. Não vou conseguir abrir a porta com minhas mãos ocupadas. Por isso, deposito o copo do café em uma mesa próxima, vazia, e abro a minha bolsa, para guardar o livro.
- Aqui – ouço a voz tranquila de Quinn perto de mim. Ergo meu olhar e vejo que ela está segurando a porta para mim. Fico com mais raiva ainda. Deposito meu livro dentro da bolsa e agarro o copinho de isopor.
Passo pela porta, mas não agradeço. Não tenho de agradecer nada a ela. Não vai ser assim, me chamando pelo meu nome, ou abrindo a porta para mim, que ela vai reconquistar o pouco de confiança que eu tinha nela.
- Pode esperar, por favor? – Quinn me pede. Não está com raiva como eu, eu acho. Ela apenas pede. E isso é novo.
Ai, meu Deus!
Por que ela não me deixa em paz?
Ela me deixou em paz todos esses dias! Na terça-feira, na aula de Metodologia ela se sentou do outro lado da sala e não me lançou nem um olhar; e na quinta-feira, em Laboratório, ela não apareceu. Não sei por quê, mas não fui atrás da resposta. Não abordei Santana ou Puck para lhes questionar o motivo. Tanto fazia. Era melhor assim. Mesmo que eu tivesse de ter feito a conta do blog sem ela para me orientar, eu me saí bem. Falando isso, até hoje ela não sabe o nome do nosso blog – ela nunca me perguntou; acho que ainda não sabe que ele já está criado. Não que eu vá lhe dizer, é claro. O problema é dela, ela que me pergunte.
- O que você realmente quer, Quinn? – pergunto, virando-me de repente para ela. Meu olhar está meio ferino, mas não me importo. Ela meio que o merece.
- Eu sou sua madrinha, eu preciso te ajudar – ela diz. Seu tom continua tranquilo, meio baixo.
- Engraçado. Parece que não pensou nisso nos quatro primeiros dias – retruco.
- Não pensei, mas foi porque...
Fico esperando. Ela meio que olha para baixo e percebo que nunca a vi assim, desarmada. Tratando-me como uma igual.
- Porque eu sou assim. Eu não penso em ser legal com as pessoas – Quinn me fala – Mas quando percebi que você é legal comigo e o quanto ficou chateada com o quase-trote...
- O quê? O que mudou? – ergo minhas sobrancelhas, inquisidora.
- Mudou que... Sabe como é, às vezes é muito bom intimidar as pessoas, até que você descobre que está intimidando a pessoa errada.
Fico quieta. Isso parece novo também.
- Não quero que você se sinta intimidada por mim, porque gosto desse seu jeito legal de ser. Você soube desde o primeiro minuto que me viu que eu não sou legal com as pessoas, mas não se intimidou em ser legal comigo. Então... Estou te devendo isso, ser legal contigo.
Isso é bom de ouvir.
Mas acho que não muda muita coisa.
- Certo. Está sendo legal agora – constato, e ela me oferece um tipo de sorrisinho – Então é isso. Estamos quites. Pronto, acabou. Pode ir.
Quinn, ao contrário do que imagino, não sai andando. Ela fica parada na minha frente, me observando. Franze as sobrancelhas claras, parecendo que não está entendendo nada do que está ocorrendo.
- Você não entendeu – ela me diz.
Ah. Eu não entendi? Que história é essa?
- Não acho que importa, sinceramente – é o que respondo.
- Você continua não entendendo. Isso importa. É importante para mim. Quero ser legal com você, porque... É muito chato viver sozinha.
Pisco para ela.
Hm. Certo.
E daí?
- Eu quero que você volte lá para o meu... Nosso quarto. O Puck não vai mais entrar daquele jeito, e eu juro que...
- Não precisa jurar nada. Eu realmente não sei por que está se dando ao trabalho de fazer esse papel, mas é melhor que pare. Eu já fui legal contigo o suficiente.
- E eu estou retribuindo, não está vendo? Quero que volte a morar lá comigo, porque você também sabe que aquele é o seu quarto.
- Não, obrigada – respondo na mesma hora.
Ela me olha um pouco, parece estar inspecionando meu rosto e meus olhos. Acha que estou mentindo, talvez. Mas não estou.
- O que você disse?
- Não, obrigada – repito a minha sentença – Eu não quero voltar para lá. Estou muito bem acomodada no meu quarto solitário, e tenho uma amiga de verdade, a Tina. Ela não fica fazendo joguinhos comigo como certas pessoas, sabe? Então, estou declinando a sua oferta.
Ela fica me olhando enquanto eu saio da frente dela e começo a caminhar em direção ao prédio das aulas.
Dia 20 – Quinn Fabray
Talvez tivesse sido mais eficaz se eu tivesse, simplesmente, pedido desculpas com todas as letras, é claro.
Mas acho que não sou capaz disso.
Como lhe disse, não sou legal com as pessoas.
Mas o que fazer agora?
Ela não aceitou meu convite para voltar a dividir o quarto comigo. Rejeitou, também – acho que sim, ao menos –, o meu lado legal. Ela simplesmente disse "Não, obrigada" para o meu lado legal. Quer dizer, eu tentei. Você viu. Eu tentei.
Mas o que fazer agora?
Fingir que ela não é minha novata e continuar a minha vida? E se ela se encrencar com a matéria do Editorial e, como a ególatra que sei que é, rejeitar qualquer tipo de ajuda e acabar se decepcionando? Certo. Talvez eu devesse deixar isso nas mãos do destino. Que ela se decepcione, então. Não é isso?
Porque eu fui lá, às sete e meia da manhã. Eu meio que me desculpei pelo trote. Ela deveria ter aceitado. Por que não aceitou? Será que mesmo quando tento ser legal não consigo ser?
Talvez eu seja muito filha da mãe para ser legal. Até mesmo com a minha novata, a Rachel.
E, meu Deus, que negócio foi aquele, falando nisso? Por que ela acha que deveria se jogar aos meus pés só porque eu disse seu nome? É claro que eu tentei ser gentil ao dizer seu nome – nunca se sabe, e se fosse isso que a amoleceria? Mas é claro que não funcionou. Ela não cedeu nem um pouquinho, continuou rígida.
É isso, não posso mais fazer nada.
Se ela não quer minha ajuda, não posso obrigá-la a querê-la. Não é mesmo? E a minha cota de "legalzice" já acabou. Eu tentei, ela dispensou, agora dane-se.
Hoje, tenho Laboratório com ela. Vou ter de passar três horas inteiras ao seu lado (isso se não formos dispensados antes, o que vai ser uma bênção). É mesmo horrível passar três horas calada ao lado de uma pessoa. Quer dizer, deve ser horrível. Eu não sei, porque eu sempre estou conversando com todo mundo, ao contrário de Rachel. Ela é quieta. Contenta-se em ficar sozinha, e coisa e tal. Deve ser muito solitário ser a Rachel Berry, tenho certeza.
Então por que ela não vê que quero ser sua amiga?
Tudo bem. Digamos que não tenhamos começado com essa amizade de um modo muito... Hmm, convencional. Mas eu a chamei para voltar ao quarto, esperando que ela aceitasse aquilo como um pedido de amizade. Porque, afinal, você não sai por aí perguntando às pessoas: "Oi, então, você quer ser minha mais nova amiga?".
É claro que não, seria ridículo.
Mas, sério, o que custava?
Tanto faz.
Nós duas nos sentamos lado a lado e ficamos olhando o plano de fundo (um tigre) da tela do computador. Não sei o que dizer. Nem mesmo sei se suporto continuar aqui.
Todo mundo está conversando, menos a gente. Estamos esperando. O quê, eu não sei. Acho que eu estou esperando que ela diga algo, e ela está esperando que eu diga algo. Bem, só posso dizer que se isso continuar assim, nada vai acontecer.
Então ela se move em direção ao mouse e sai clicando na aba da internet. Fico curiosa. O que está fazendo?
Logo percebo o que é.
- Você já fez uma conta? – fico surpresa.
- Ainda não tem layout, mas, sim, nosso blog já existe. Você disse que cuidaria do layout, e eu, do nome. Chama-se Journaland. Dá para mudar, se você quiser – seu tom não está com raiva, está equilibrado. Está falando meio baixo, mas a ouço ainda assim.
- Não. Eu gostei – digo rapidamente.
- Você não veio na última aula, então eu tive de preparar tudo isso sozinha. Já fiz a primeira postagem obrigatória, sobre o texto pedido.
Então ela notou que eu não vim?
Quer dizer, é claro que sim. Ela é minha dupla. Seria idiota se não tivesse notado. E é preciso dizer que não apareci justamente para não vê-la. É ridículo estar admitindo assim, mas é a verdade. Não que algum dia eu vá confessar isso a ela.
Então ela me faz anotar o e-mail que ela criou e a nossa senha. É a data de aniversário dela. Ela diz que podemos mudá-la, mas eu não quero. Sei que vou me recordar.
Passamos o primeiro período inteiro achando um layout já pronto, porque depois eu vou poder modificá-lo por conta própria. No intervalo, ela fica no corredor. Há outros alunos ali também, posso vê-la através da janela de vidro que separa o corredor do saguão. Mas ela está sozinha, é a única sozinha. Está grudada no celular. Às vezes, ela sorri pequeno.
Fico me perguntando se ela não tem um namorado, ou algo assim.
Ela nunca mencionou nada. Também, por que diria algo? Eu não a tenho tratado bem desde o começo de sua estadia. Quando ela poderia ter arranjado uma brecha nas minhas patadas para me dizer que tem um namorado?
Talvez ela tenha.
Ou talvez não.
Eu não sei.
Pressinto que não, por ser solitária demais.
Ou, quem sabe, seu namorado está longe demais dela. E ela está falando com ele agora mesmo pelo whatsapp. Pode ser isso.
Puck me pega lançando um olhar para Rachel, através da janela. Pergunta:
- Nada de fazer as pazes com a novata ainda?
Santana solta uma risada.
- Por que ela faria as pazes com alguém como aquela garota? – ela quer saber com desdenho e um pouco de desprezo.
- Eu posso querer ser legal com ela – logo estou disparando num tom rude.
- Você? – Santana ri um pouco mais – Tá legal, o que está acontecendo aqui? – ela fica séria de repente e me olha de um jeito que me faz apenas ficar com mais raiva.
- Ela quer transar com a novata na redação do Editorial – Puck diz.
Santana, Brittany e Blaine (o novato do Puck) me olham com surpresa.
Para driblar a cor rósea que aparece no meu rosto (eu realmente gostaria de acertar as bolas do Puck de vez em quando) começo a rir.
- Não é nada disso! – exclamo, fulminando Puck com os olhos enquanto ele me dá um sorriso sacana – Ela apenas...
- É excitante? – Puck retorna – É, eu também acho. Naquela manhã foi realmente uma bênção vê-la quase sem roupas...
- Você viu a novata quase sem roupas? – Santana pergunta.
- Foi um acidente – olho feio para ele, respondendo – E cale a boca! – exclamo, perdendo a paciência – Eu apenas quero ser legal com ela, ok?
- Ah, de novo isso, Quinn? – Santana rola os olhos.
- Dá licença, Santana, mas eu tenho a minha vida, entendeu? E se eu quiser ser mais legal com alguém que esteja na minha vida é meu direito!
- Ela não está na sua vida – Santana diz.
- Está, sim. Ela é minha dupla em Laboratório, e eu sou a editora-chefe dela!
Não estou entendendo a Santana.
- Ai, meu Deus – ela diz, parecendo abismada.
- O que é? – vecifero.
- Não, só... Ai, meu Deus – ela repete.
A sineta soa e entramos na sala mais uma vez.
No segundo período, eu e Rachel fazemos uma postagem sobre o objetivo do blog. É bastante rápido, porque ela sempre sabe o que dizer e sempre sabe a maneira que quer colocar as palavras.
À tarde, eu, Rachel e Santana nos juntamos com os outros para ter uma reunião de pauta na redação. Sr. Schue quer saber sobre a minha pauta dos psicopatas: diz que vai ser difícil eu manter um parâmetro e uma só linha, por isso sugere que eu faça algumas modificações na minha abordagem. Santana diz que precisa da garota chinesa/japonesa na entrevista com o reitor da faculdade, já que a garota está na plataforma de fotografia. Rachel fala baixo na sua vez. Sr. Schue sabe que é muita coisa para uma garota novata, tenta amenizar a situação dizendo que talvez seja melhor dividir sua pauta com alguém.
- Eu já disse que se... – começo a dizer.
Rachel me corta:
- E eu já disse que não preciso.
O clima é meio tenso. Sr. Schue percebe isso, pelo olhar que Rachel lança a mim, mas não se esforça para se adentrar na nossa discórdia. Fico calada. Não posso dizer-lhe nada, pois sei que vai rebater de um modo nada agradável. Tudo bem, está pagando na mesma moeda. Justo.
Espalhamo-nos depois da reunião, como sempre. Voltamos aos nossos afazeres.
Rachel está sentada na fila de monitores à minha frente, de modo que posso vê-la de onde estou. Ela trabalha um pouco olhando para o monitor e vai em direção ao telefone. Há um telefone aqui para as entrevistas (embora uma entrevista por telefone não seja a melhor opção) e para a coleta de dados. Ele senta-se à mesa e disca o telefone que está anotado em um post-it amarelo.
Santana não está mais ali, pois saiu com a garota japonesa/chinesa devido a sua entrevista com o reitor. Isso me deixa aliviada.
Ela começa a falar ao telefone. Não posso ouvir exatamente o que diz, por estar muito longe e por conta do barulho do falatório ali dentro, mas seu rosto sugere que está sendo gentil e educada. Termino de checar algumas coisas e, quando a olho novamente, ela ainda está lá. Até que, do nada, ela começa a assentir e a retrucar. Sua expressão me diz que está ou ficando irritada ou chateada.
Franzo a testa.
Eu já passei por isso.
Sei o quanto é difícil lidar com as pessoas. Há três tipos delas, dentro da área do Jornalismo: a) as que querem ajudar, mas não têm como, b) as que não querem ajudar, mas acabam te repassando várias vezes e, no fim, você até consegue alguma coisa positiva, e o pior de todos, o tipo c) as que não se importam com você e não fazem nada para ajudá-la.
Pelo jeito, Rachel estava lidando com o tipo C.
Mau sinal.
Rachel tenta conversar, mas é em vão.
Ela então desliga a ligação. Respira um pouco e sai da sala.
Simplesmente vai embora, mas sem nada. Não apanha sua bolsa, seu celular, nada.
Tenho a ligeira impressão de ter visto lágrimas em seus olhos. É insano, mas quero saber o porquê. Por isso, me levanto da minha cadeira e a sigo porta afora.
- Rachel?
Estamos no corredor, quase em frente aos banheiros.
- Saia daqui! – ela diz. Sua voz está tremida.
Droga, ela está mesmo chorando.
É mesmo o pior trabalho do mundo esse, o nosso. Ser destratado por desconhecidos, quando estamos apenas trabalhando, machuca.
- Rachel, espere aí! – eu digo, alcançando-a.
- Deixe-me sozinha, ok?! – ela exclama, empurrando a porta do banheiro.
- Eu sei que é difícil fazer o que fazemos – digo, assim que a vejo se adentrar no meu box preferido. Paro de frente à porta – Mas a gente tem que ser forte, sabe? Não podemos nos deixar abater por esse tipo de gente. Eles nem entendem o que fazemos!
- Vai embora – ela funga, sem me dar atenção.
- A primeira pessoa por quem passei ao telefone me chamou de ingrata, por eu ter gritado com ela. É sério – confirmo pela porta – A pessoa estava me enrolando há, tipo, um mês e a minha matéria nunca saía, e eu fiquei com tanta raiva que acabei gritando com a mulher. Já passei pela mesma experiência umas cinquenta vezes, é sempre chato. E eu sei o quanto magoa, mas eu sempre penso que sou melhor que todos eles. Enquanto eles me tratam mal, eu coloco a informação na boca deles, entende? É a mim que eles devem.
- P-parece que eu não recebo nada além desse tipo de tratamento desde que cheguei aqui – Rachel diz, lá de dentro do box.
Ególatra, eu penso.
Mas então mudo de opinião no mesmo segundo: não é legal ser destratada a todo instante. Ela apenas está desabafando. Não preciso ser tão má com ela.
- Eu sei, me desculpe.
Espere aí, eu acabei de pedir desculpas?
- Você... Você acabou de dizer isso? – a voz de Rachel está mais fraca.
É, acho que sim.
Isso, com certeza, é um divisor de águas. Isso nunca aconteceu antes. Uau. Sinto-me tão bem! Eu pedi desculpas a alguém e não doeu nada! Nadinha mesmo! Sinto-me até mesmo aliviada!
- Sim – declaro com segurança – Desculpe por tudo o que já te disse e quase te fiz fazer. Eu sei o quanto é horrível ser o saco de pancadas dos outros. Parece que eu nunca passei por isso, mas agora você sabe que ninguém está livre desse tipo de coisa. Ninguém sai incólume quando lida com esse tipo de trabalho.
O banheiro fica silencioso depois que eu acabo de dizer isso.
Então, quando eu menos espero, a tranca da porta se abre e Rachel sai de lá. Dá pra notar que chorou, porque seus cílios ainda estão encharcados e seu rosto denuncia as lágrimas que desceram por estar meio rosado. Vou até o porta papéis-toalha e arranco de lá dois folhas. Passo-as a ela.
- Obrigada – ela diz, e seca os olhos.
Ela é do tipo que agradece e diz olá. Como não gostar dela?
- Está tudo bem? – inquiro. Não sei por quê, mas estou ansiosa.
Ela assente. E daí me olha. Me olha de perto. Está me questionando algo, e eu sei o que é.
Desde quando eu sou tão legal assim?
- Obrigada por não achar que estou sendo um pé no saco – ela fala.
- Está tudo bem.
- Sabe, sobre o quarto...
- Eu só quis ser legal.
- Aquilo foi legal. Você está se redimindo, e eu entendo isso. Fui eu quem começou a te tratar mal. Desculpe por isso, mas...
- Eu entendo. Estamos quites – eu sorrio.
- Puck ainda não está morando lá? – ela pergunta, se referindo ao meu quarto.
Nego com a cabeça.
- Você pode voltar.
- Eu estaria sendo legal se voltasse, certo?
- Totalmente.
- Não vamos nos tornar amigas, eu entendo isso.
- E se eu quiser ser sua amiga? – pergunto.
- É mesmo? Então agora você quer ser minha amiga? – ela arqueia as sobrancelhas. Ela está meio engraçada. Não está toda séria, mas também não está fazendo disso uma piada.
- É isso que acontece.
- É, parece que é.
Nós nos olhamos. Seus olhos recaem no chão.
Ofereço a única coisa que posso oferecer agora. Ela olha como se não entendesse, ou não acreditasse. Meu mindinho está levantado, esperando o dela. Sei que parece besta, mas é tudo o que tenho agora.
Ela levanta o dela, mas não entrelaça no meu, está insegura. E se eu a machucar de novo?
- Vou ser legal contigo, agora. Eu juro – alego. Estou falando a verdade.
Rachel abaixa sua mão, e minha decepção aparece.
- Obrigada – ela diz – Vou retornar à redação, agora.
Ela joga as folhas de papel na lata do lixo e anda até a porta. Quando está com a mão na maçaneta, eu quero saber:
- E o quarto?
- Estarei lá – ela sorri.
Ela se vai, e eu fico sorrindo, sozinha, dentro do banheiro.
Entro no box, o mesmo que Rachel entrou, e observo a porta. O xingamento que escrevi sobre mim mesma rendeu concordâncias. Coisas realmente pavorosas estão escritas ali. No entanto, há algo por último:
AH, CALEM A BOCA!
A tinha é vermelha, e eu sorrio de novo.
Olá! xD
Eu realmente não sei se a parte de Jornalismo na NYU funciona do modo como estou escrevendo, mas, só pra vocês saberem em que estou me inspirando para escrever, é assim que funciona na minha faculdade. Meus dias, basicamente, decorrem iguais aos de Rachel e Quinn nesta fanfic (apenas muda que eu estudo à noite, não de manhã).
Espero que estejam gostando!
Reviews?
Love, Nina.
