O Plebeu

Capítulo 3

"Eu me perguntei se o dia podia ficar pior do que já estava."


Sakura

Desde que eu fui forçada a conviver com pessoas nojentas como Matsumoto e Karin, acordar um pouco mais tarde do que o habitual se tornou uma técnica de sobrevivência. Primeiro, porque eu precisava do descanso extra para aturá-los, e segundo, porque a probabilidade de eu chegar atrasada para o café da manhã e não encontrá-los lá era grande, e eu poderia, enfim, fazer uma refeição em paz.

Entretanto, naquela manhã eu não tive tanta sorte. Ao me aproximar da porta da copa ouvi as vozes do meu padrasto, de Karin e da minha mãe, incluindo risadas. Eles pareciam estar se divertindo sem mim – não que eu estivesse com ciúmes, longe disso. Eu estava pouco me fodendo para eles.

Eu cogitei virar as costas e ir embora para o colégio sem comer. Passar em uma cafeteria e comer alguma coisa poderia ser uma possibilidade, mas eu estava atrasada demais e acabaria não chegando a tempo no colégio. Eu até mesmo poderia passar horas até o momento do intervalo de barriga vazia – eu faria esse sacrifício com muita boa vontade se isso significasse não ver aquela pseudo-família – mas eu estava realmente com muita fome naquela manhã.

Merda. Eu teria que vê-los. Apenas pegaria uma maçã ou uma fruta qualquer e sairia correndo o mais rápido que puder – eles estavam tão entretidos em si mesmos que talvez nem percebessem que eu estive ali, se eu fosse realmente rápida.

Eu inflei o peito e respirei fundo. Coragem, Sakura. Você pode enfrentá-los. Arruinaria já o início do meu dia ter que lidar com Orochimaru e Karin, mas eu estava sem opções.

Assim que eu passei pela porta e me fiz presente, a conversa morreu e todos olharam para mim. Eu não pude evitar relancear para a minha mãe. Ela tinha a cara fechada, típica de quando está prestes a me dar um sermão por ter feito algo errado, mas eu não me lembrava de ter feito nada que merecesse aquele olhar mortífero que ela me lançava.

Eu dei de ombros e continuei o meu caminho até a mesa, mantendo os meus olhos em uma maçã aparentemente suculenta e que, eu esperava, saciasse a minha fome até a hora do –

"Sakura," o meu querido padrasto me chamou, mas, como sempre, eu me fingi de surda. Era para o bem dele. Se eu o respondesse e ele continuasse a falar com aquela voz asquerosa eu seria capaz de enfiar um garfo no olho dele.

Peguei a maçã e, ainda ciente dos olhares de todos sobre mim, fiz o meu caminho de volta.

"Sakura Spencer, eu estou falando com você!" o meu padrasto alteou a voz e se levantou da cadeira.

Ah, não. Você não disse isso.

Eu parei e lentamente me virei para ele. "Do que foi que me chamou?"

"Pelo seu nome." Ele se levantou da cadeira e, antes que eu pudesse retrucar, gritar, que Spencer não era e nunca seria o meu nome, ele prosseguiu: "Eu vou te perguntar só uma vez. Será melhor para você se disser a verdade."

Eu o encarei, entediada, para depois varrer o meu olhar pelo local. A minha mãe me fitava com uma mistura de decepção e mais alguma coisa que eu não soube identificar – e que eu pouco me importava. Há meses eu tentava não ligar para o modo como ela me olhava. Karin, como era de se esperar, sorria por detrás da sua xícara. Ela adorava me ver me ferrando. Sinceramente, eu não podia culpá-la. Eu também adorava vê-la se dando mal.

Voltando os olhos para o meu padrasto, vi que ele tinha um cigarro na mão. "De quem é esse cigarro?"

Eu o fitei por alguns segundos, silenciosamente. Todos pareciam esperar pela minha resposta. Aliás, eu aposto que todos esperavam, na verdade, que eu me descabelasse, que eu me ajoelhasse aos pés de Matsumoto implorando perdão, que eu prometesse que aquilo nunca mais se repetiria – ou seja, eles esperavam o previsível.

Eu quase resfoleguei.

Eu suspirei e cocei a testa em impaciência. "Pela forma como o lado direito está mais gasto que o esquerdo, e através da minha visão sobrenatural, eu posso ver o delinear dos lábios –"

O meu discurso sarcástico foi interrompido pelas mãos de Matsumoto colidindo contra a mesa. A minha mãe e Karin se sobressaltaram. Ele tinha a intenção de me intimidar, mas isso estava longe de acontecer.

"Pare de brincadeiras," ele disse por entre os dentes. As duas outras mulheres se encolheram nas suas respectivas cadeiras. "Não estou com humor para a sua petulância."

"Como que eu vou saber de quem é esse cigarro?" eu perguntei, irritada. "Eu não fico monitorando quem, quando e onde fumam nessa casa!" O que ele achava que eu era agora? Onipresente?

"Esse cigarro foi encontrado ontem debaixo da varanda do seu quarto."

Eu demorei alguns segundos para entender que aquele cigarro muito provavelmente era, de fato, meu. Eu me recordava de ter jogado uma bituca para fora da janela alguns poucos dias atrás quando achei que algum dos membros desse bando de malucos estava por perto – bem no dia em que eu discuti com Sasuke.

Sasuke.

Eu respirei fundo e fechei os olhos.

Sasuke sabia que eu tinha jogado aquele cigarro ali. Ele o viu. Era o único que poderia ter visto dentro daquela casa inteira.

Eu iria matá-lo.

"E daí?" eu respondi, tentando conter a minha raiva por Sasuke. Como ele pode ter sido tão baixo?

"E daí, Sakura," Matsumoto continuou rodeando a mesa para ficar mais perto de mim e colocar o cigarro bem debaixo do meu nariz. Idiota. "E daí é que tudo indica que isso é seu."

"Está me acusando só porque encontrou restos de cigarro perto do meu quarto? Isso é uma tremenda injustiça." E era verdade. Por mais que eu tivesse quase plena certeza de que aquele cigarro realmente era meu, isso não significava que ele podia me acusar só por eu dormir no local mais próximo de onde ele foi achado. "Quem me garante que foi Karin quem o deixou lá só para me incriminar?"

"Ei, me deixa fora disso!" a minha meia-irmã exclamou.

"Aliás," eu continuei, estreitando os meus olhos, "quem me garante que isso realmente estava debaixo da varanda do meu quarto? Prove-me que isso estava lá."

Matsumoto ficou tão furioso que o seu rosto ficou mais vermelho do que o cabelo da sua filha. Eu quase sorri. Contrariando as minhas expectativas, aquela começava a ser uma boa manhã. Existe jeito melhor de abrir o dia do que irritando o meu padrasto? Para mim, pouca coisa ganhava daquilo. Se eu conseguisse afetar Karin o meu dia seria completo.

"Um funcionário sentiu cheiro de fumaça na cortina do seu quarto dias atrás," ele continuou, tentando me encurralar, lívido. "Eu tenho sido muito bonzinho com você, Sakura. Bonzinho até demais." Se todos esses meses de tortura eram ele sendo "bonzinho" eu não queria viver para ver o lado "mal" dele. "Eu já suspeitava que você andava fumando por aí por alguns meses, mas agora não me restam dúvidas. Esse cigarro é seu."

"Isso não prova absolutamente nada! Pode ter sido algum funcionário descuidado que fumou bem debaixo da minha varanda." Eu sabia que era desleal culpar outra pessoa dessa forma, mas eu não tinha mais saída. Não iria citar nomes para não incriminar ninguém, mas poderia usar os funcionários da casa para pelo menos desviar a atenção dele de mim.

Talvez eu devesse acusar Sasuke. Afinal, foi ele quem me colocou nessa fria.

Na verdade, eu não sabia direito nem por que eu estava argumentando. Sim, o cigarro era meu, mas eu pouco me lixava se Matsumoto sabia disso ou não. Eu só não fumava na presença dele para evitar confusões (e, honestamente, porque proibido era bem melhor, e eu gostava de fazê-lo de idiota). Eu pouco me importava com a opinião dele – e de qualquer outra pessoa. Ele era absolutamente insignificante nas decisões que eu tomava para a minha vida. Se eu quisesse fumar, eu fumava, quer ele queria, quer não, com o conhecimento dele ou não.

Eu acho que eu ainda discutia só pelo prazer de contrariá-lo.

"Você sabe que eu não permito que fumem dentro da minha casa, Sakura," ele retrucou por entre os dentes. Eu sabia mesmo. Tinha algo a ver com o fato de o pai dele ter morrido de câncer de pulmão ou algo assim. Ele não contratava funcionários fumantes. "Só pode ter sido você. Pare de bancar a inocente."

"Não fui eu," eu insisti, também começando a ficar com raiva. Eu já ficava naturalmente irritada só de pensar em estar na presença dele, agora que ele tentava me humilhar na frente da minha mãe o meu ódio triplicava. "Você é a merda de um advogado, não é? Sabe que não pode acusar ninguém sem provas!"

"Esse cigarro encontrado debaixo da sua varanda é prova mais do que suficiente!" ele rugiu.

"Isso não prova que fui eu quem o joguei lá!"

Matsumoto respirou fundo, e com os olhos ainda fechados, disse: "Estou cansado dessa discussão e da sua insolência." Ah, é? Pois eu estou adorando isso. "Diga logo que foi você e talvez eu alivie no seu castigo."

Eu não resisti e ri na cara dele. Eu achei que ele fosse enfiar o cigarro minha goela a dentro tamanha a fúria que estampou o rosto dele. "Castigo? Quem você pensa que é para me dar um castigo? Eu não vou admitir nada que não fiz. Você querer que esse cigarro seja meu não significa que ele realmente seja." Eu sabia que eu estava sendo falsa, mas eu não podia simplesmente deixá-lo ganhar – e, pior, achar que tinha algum poder sobre mim.

"Eu não quero que seja você. Acha que gosto de saber que uma das minhas filhas –"

Ah, não. Ele passou dos limites."Não ouse dizer que eu qualquer coisa sua." Eu não era, nem queria ser nada dele – e era assim que eu também o classificava em relação a mim. Nada. Absolutamente nada.

"Eu ouso o que bem entender nessa casa!" ele gritou, quase esperneando.

Eu soltei uma risada sarcástica. Estava cansada daquilo. Já tinha conseguido o que queria: deixá-lo irritado. Estava agora apenas perdendo o meu tempo e fôlego com aquele babaca.

Portanto, par concluir: "Vá se foder," foi o que eu disse antes de virar as costas para ele.

Ele me segurou pelo braço e me fez voltar para o meu lugar anterior. Eu metralhei a mão dele que me tocava com os olhos. Dedos asquerosos. "Me solte."

"O que foi que você disse?" ele me ignorou e perguntou.

"Eu disse para você se foder! Quer que eu repita? Vá-se-foder!" eu disse pausadamente e tirei o meu braço do aperto dele.

Ele me segurou de novo e eu tive que lutar para me desprender e, no fim, não consegui. Ele me apertava tão forte que eu suspeitava que as marcas daqueles dedos nojentos ficariam na minha pele por um tempo.

"Não me toque," eu ordenei, mas ele não me ouviu.

Com o rosto perto do meu para que eu pudesse ver bem de perto a ira que eu fiz nascer dentro dele, ele ameaçou: "Essa sua atitude ainda vai lhe custar caro." E me soltou. Eu dei uma última olhada para a minha mãe antes de sair dali. Ela tinha os olhos cheios de lágrimas.

Eu mentalmente a mandei se foder também.


Eu era estudante do Saint Bernard desde o Jardim de Infância, e eu devo admitir que nunca vi um time de futebol tão ruim quanto aquele. Na verdade, eu estava exagerando. Eles não eram ruins. Eram péssimos, absolutamente péssimos, abomináveis.

Eu não sabia explicar com precisão o porquê de eles estarem assim. O time era praticamente o mesmo do ano passado – que ganhou o campeonato estudantil do estado, por sinal – salvo algumas mudanças estratégicas que, teoricamente, não deveriam fazer tanta diferença no time. A maioria dos novatos estava no banco de reserva, e definitivamente não era a razão para termos perdido todos os três jogos que disputamos esse ano.

Havia rumores de que a culpa de todo aquele fracasso caía sobre os ombros de dois homens. Primeiramente, Yusuke, o nosso quarterback. Ele sempre foi um garoto muito inteligente e que levava o futebol muito a sério, tanto que foi a peça fundamental para que o nosso time ganhasse o campeonato no ano passado. Entretanto, alguns diziam que ele tivesse perdido a vontade de jogar, sabe-se lá por que, e junto com a sua vontade perdeu a sua inspiração. Para mim, essa teoria fazia sentido. Os lançamentos dele já não eram mais tão precisos, ele não lia o jogo tão bem quanto antes e ele já não se esforçava tanto assim para se desgarrar da marcação. Era uma pena. Muitos o consideravam um forte candidato a atingir o nível profissional nos anos seguintes, mas, do jeito que as coisas andavam, ele dificilmente conseguirá.

E o outro homem que os estudantes apontavam como o pivô dessa mudança era o novo técnico, Gai. Não era muito ético dos jogadores falar mal do técnico com os outros estudantes, mas eu tinha intimidade suficiente com Naruto – antes de brigarmos – para que ele me contasse esses detalhezinhos. Uma vez ele me disse que Gai não era na verdade um técnico ruim. Pelo que eu compreendi, ele entendia bastante de futebol e tinha uma boa cabeça para estratégias de jogo.

Porém, de acordo com Naruto, ele não sabia motivar o time da maneira correta. Ele não sabia colocar o time para cima e para frente como Asuma, o nosso antigo técnico, fazia. Ele era uma boa pessoa, mas não foi feito para ser um líder. Os jogadores não o levavam muito a sério.

Portanto, sem técnico e sem quarterback, um time de futebol americano não era nada.

O meu coração se partia um pouco ao ver aquele time com tantas dificuldades. Por dois anos eu fui a líder de torcida deles. Conhecia cada um daqueles jogadores, sabia o quanto eles eram afetados por uma vitória ou uma derrota. Se eu pudesse fazer alguma coisa para ajudá-los, eu o faria sem pestanejar. Eles não mereciam estar onde estavam.

Eu estava prestes a me levantar e ir embora dali quando percebi que Sasuke entraria no time. O meu coração pareceu pular uma batida ao vê-lo entrar em campo.

Eu não sabia por que mudei de ideia e fiquei no estádio. Sasuke não merecia me ter na sua torcida. Ele não merecia o meu tempo. Eu estava com raiva – e, eu não queria admitir para mim mesma, decepcionada – demais para lhe dedicar o que quer que fosse meu, especialmente algo tão precioso quanto a minha atenção. Quero dizer, foi ele quem me ferrou naquela manhã, entregando a porcaria do cigarro para Matsumoto.

Eu deveria continuar o meu caminho e ir embora, deixando-o jogar sozinho, sem o meu apoio. Mas algo dentro de mim me fez ficar pregada no mesmo lugar e grudou os meus olhos nele.

Era a primeira vez que eu o via jogar. Aliás, era a primeira vez que ele entrava em campo com o time do colégio na frente de todos. Ele integrou a equipe de futebol americano no início desse ano, substituindo o antigo reserva que, por conta de uma lesão no joelho, não pôde mais jogar.

Eu não tinha mais qualquer informação sobre ele. Tudo o que ouvi dizer era que o time não estava extremamente satisfeito por tê-lo, sabe-se lá por quê.

Como era de se esperar, o público não gostou muito quando Yusuke se sentou no banco e Sasuke ocupou o seu lugar. Surgiram até mesmo algumas poucas vaias. Quando procurei pela arquibancada para saber a sua origem, vi que vinham do grupo de amigos de Yusuke e alguns dos seus admiradores.

"Agora sim nós estamos ferrados," Ino comentou ao meu lado, balançando a cabeça em reprovação. "Gai está ficando maluco? Por que colocou Sasuke no lugar de Yusuke? O que um maltrapilho como ele entende de futebol, pelo amor de Deus?"

Eu não a respondi. Sem perceber eu estava fixada demais em Sasuke para lhe dar uma resposta que não passasse de um grunhido sem sentido.

Ele fica muito bem com esse uniforme. Parece um cavaleiro, todo armado, pronto para a batalha –

Eu me calei e me repreendi mentalmente. Que tipo de pensamento estúpido era aquele? Olhei de esguelha para Ino, temendo que eu tivesse dito essa besteira em voz alta. A minha voz deve ter permanecido dentro da minha cabeça, pois Ino continuava atenta ao jogo. Certamente teria dito algo, feito alguma piada de mau gosto, se tivesse ouvido o que eu acabara de pensar.

Os jogadores se organizaram na linha de scrimmage, estando Sasuke atrás de todos os seus outros companheiros de equipe. Ele passou instruções aos seus companheiros, provavelmente o que Gai havia lhe dito antes de entrar.

O efeito que Sasuke teve no time foi inesperado.

Logo na sua primeira jogada ele conseguiu um passe milimétrico para Naruto que por muito pouco não conseguiu o touchdown. Ele foi tackleado pertíssimo da linha do touchdown, talvez menos do que cinco jardas.

Na jogada seguinte, foi o próprio Sasuke quem conseguiu os nossos primeiros 6 pontos da noite, correndo com a bola nas mãos e fazendo – finalmente – o primeiro touchdown do Saint Bernard naquele amistoso.

"Como ele conseguiu isso?" Ino me perguntou, também de pé, impressionada com a jogada de Sasuke. Eu fazia essa mesma pergunta a mim mesma. Não era possível que ele conseguiu passar por tantos adversário assim, com aquela facilidade. Ele não caiu quando trombaram dele, deu um drible de corpo para se desviar do próximo, e correu a uma velocidade impressionante que tornou impossível qualquer um alcançá-lo.

Yusuke nem sonhou em fazer isso durante três quartos inteiros.

Quando foi a nossa vez de atacar novamente, mais um passe preciso para Naruto, e mais um touchdown.

21-14 para o Colégio Pilar. Estávamos a um touchdown do empate...

... Que infelizmente não conseguimos – por muito pouco. Estávamos a poucas jardas da linha do touchdown quando o tempo acabou, e perdemos o amistoso. Se tivéssemos mais dez segundos de jogo, eu apostaria metade da minha herança que Sasuke conseguiria o empate.

Eu saí do estádio chocava. Eu não era a única. Um burburinho se fez enquanto os alunos saíam das arquibancadas, e eu tinha quase certeza que eles só falavam de um assunto. Como Sasuke jogou bem.


Encostada no meu carro, eu esperava o restante das minhas amigas. Partiríamos para uma festa na casa de Kiba, um dos integrantes do time de futebol americano do colégio. Não tínhamos muitos motivos para comemorar – afinal, nós perdemos – mas nós nunca precisamos de motivos para nos divertir. Os jogadores do Colégio Pilar foram convidados também, o que tornaria a festa infinitamente mais interessante.

O meu celular tocou. Vi o nome da minha mãe na tela e revirei os olhos. Eu poderia ignorá-la, mas, por experiência própria, sabia que seria melhor ver o que ela queria de uma vez por todas. Do jeito que ela era exagerada, ficaria me enchendo o saco por horas. Houve uma vez que ela chegou ao ponto de ligar para a polícia quando não atendi o meu telefone.

"O que foi?" eu a cumprimentei, entediada.

"Onde a senhorita está, Sakura?" Ela estava com raiva.

"No colégio. Por quê?"

"O que está fazendo aí a essa hora da noite?" Eu olhei para o meu relógio de pulso. Já eram quase onze da noite. Não era tão tarde assim.

"O time do colégio jogou uma partida amistosa e eu fiquei para ver, só isso. Para quê esse alarde todo?"

"Para que esse –" Eu a ouvi respirar fundo do outro lado da linha. Ela estava mesmo irritada. "Eu estou esperando você chegar do colégio há horas, Sakura. Por que não teve a decência de me avisar que demoraria?"

Eu suspirei. Conte com a minha mãe para fazer esse tipo de drama. "Eu me esqueci."

"Pois trate de não se esquecer da próxima vez que eu sou a sua mãe e estava preocupada com você!" Pelo tom de voz dela, talvez ela já estivesse quase chegando no momento de chamar a polícia para me procurar.

"Tudo bem, me desculpe. Não esquecerei." Eu não queria admitir, mas uma gota de calor aqueceu meu peito ao ouvir a preocupação dela.

"Trate de voltar para casa," ela ordenou.

"Não posso. O pessoal vai se reunir para celebrar o –"

"Sakura, você virá para casa agora. Eu já te disse que está de castigo por causa do cigarro e que está proibida de sair pelo restante do mês!"

Eu quase ri na cara dela. Era verdade, ela tinha mesmo me castigado – via SMS, diga-se de passagem, já que eu saí correndo de casa assim que encerrei a discussão com Matsumoto – por causa do cigarro, mas, como sempre, eu não dei muita importância para esse detalhe. "Eu não vou para casa. Tenho mais o que fazer aqui."

"Sakura, eu não estou de bom humor. Venha para casa agora, ou eu mesma irei te buscar."

"Tchau, mãe. Estarei aí em algumas horas." Eu desliguei o telefone.

Mesmo se não tivesse festa, eu não iria para casa por absolutamente nada nesse mundo. Queria ficar o mais longe possível de lá, pelo máximo de tempo que eu conseguisse.

Eu estava observando as minhas unhas – e ignorando o meu celular que vibrava loucamente, certamente obra das ligações insistentes da minha mãe – quando uma voz grave me interrompeu.

"A sua mãe quer que você vá para casa."

Sobressaltada, eu olhei para cima e me deparei com ele – Sasuke. Ainda bem que eu estava escorada na porta do meu carro. Caso contrário, eu correria sério risco de desabar no chão. As minhas pernas enfraqueceram quando eu o vi parado a um metro de mim com uma blusa regata que deixava os seus braços à mostra – aqueles mesmos braços que quase ganharam o jogo para o nosso colégio.

E, oh, meu Deus, o cabelo molhado penteado para trás.

Eu pigarreei e olhei para os lados. Vários alunos já se juntavam no estacionamento. Eu torci para que eles estivessem entretidos demais nas suas próprias conversas para perceberem que eu, Sakura Haruno, estava conversando com Sasuke Uchiha.

O que ele estava fazendo, conversando comigo assim, à vista de todos? Por um acaso ele não captou essa simples dica eu tenho deixado durante quase dois anos que eu não podia ter qualquer tipo de contato com ele?

Pela maneira como ele me encarava, indiferente, a resposta era não.

"Eu não vou para casa," eu sentenciei, esperando que essa resposta não desse brechas para que ele continuasse falando. Ele tinha que sair dali, antes que alguém me visse com ele – e antes que eu desse um chute no meio das pernas dele pela sacanagem que ele fez comigo mais cedo.

Ele suspirou discretamente e cruzou os braços. Eu fiz força para não observar a maneira como os músculos dele flexionavam. "A sua mãe me ligou mais cedo e exigiu que você estivesse em casa o mais rápido possível."

"Eu já disse a ela que não vou," eu sussurrei por entre os dentes, passando o olho mais uma vez pelo estacionamento para me certificar de que ninguém estava me vendo com Sasuke Uchiha. "Vá embora."

Ele me ignorou. Eu estava começando a me desesperar. Ao longe, eu via as minhas amigas se aproximando, conversando entre si. Ele tinha que sair dali antes que elas me vissem com ele.

"Se está pensando em ir à festa, esqueça," ele me disse. O tom de voz dele, autoritário, como se eu não tivesse outra opção senão esquecer a festa, me irritou mais ainda. "Ela me perguntou onde você estava indo, e eu disse que iria para a casa de Kiba. Ela disse que te arrancaria de lá pelos cabelos se não for para casa."

Eu arregalei os olhos e a boca em indignação. "Você contou a minha mãe o lugar da festa?"

Ele assentiu como se aquilo não fosse nada de mais.

Aquele deveria ser um recorde. Sasuke Uchiha me entregou para o meu padrasto e para a minha mãe duas vezes em menos de 24 horas. Eu fechei as minhas mãos em punhos. A raiva que eu tinha dele triplicou e quase não coube dentro de mim. Por pouco eu não dei um belo tapa naquela bela cara dele ali mesmo, no meio do estacionamento do colégio, na frente de praticamente todos os alunos.

Ao invés disso, eu o fuzilei com os olhos. Ele não pareceu nem um pouco afetado – o que, novamente, apenas alimentou a minha irritação. Tudo naquele dia tinha dado errado – e esse tudo era culpa de Sasuke. Ele me ferrou duas vezes seguidas.

"Como se não bastasse o que aprontou hoje de manhã, você tem que me ferrar de novo. Você se diverte me vendo chateada, não é mesmo, Sasuke?" eu perguntei com a voz cheia de veneno. Era uma pergunta retórica. Eu sabia que a resposta era obviamente sim. Que outro motivo ele teria para acabar com o meu dia daquela forma? Ele só podia achar muito engraçado me ver me ferrado assim.

Ele enrugou a testa em confusão, se fazendo de inocente. Comigo essa não vai colar, colega. Ele estava muito longe de ser inocente naquela história – ao contrário, era a peça principal para a minha irritação do dia.

"Sakura," Ino me cumprimentou quando se aproximou. Eu estava com tanto ódio que eu não tive forças para sentir vergonha de ser vista com Sasuke. Ela olhou para Sasuke de lado e franziu a testa. Com certeza estava se perguntando o que ele estava fazendo ali, e eu quase respondi que ele estava arriscando a própria vida ficando tão perto de mim quando eu estava prestes a assassiná-lo. "Hum, Sasuke. Oi." E se virou para mim, voltando a desprezar completamente a presença dele. "E então? Pronta para a festa?"

Eu voltei a encarar Sasuke. Ele sorriu com o canto da boca – e dessa vez eu juro que só não voei no pescoço dele porque ia causar uma cena e chamar atenção para o fato de que eu estava interagindo com alguém tão filho da puta como ele.

Eu respirei fundo antes de responder: "Vai ter que ficar para a próxima. Eu... não estou me sentindo bem." Eu jamais admitiria que não ia a festa porque corria o risco de a minha mãe aparecer lá e realmente me tirar de lá pelos cabelos. Eu não duvidava do temperamento daquela mulher. Afinal, era quase o mesmo que o meu.

Satisfeito com a sua missão – que era, mais uma vez, me ferrar – Sasuke se afastou sem dizer mais uma palavra. Ino o ignorava com tanta efetividade que nem percebeu que ele já não estava mais ali. Mas eu notei. Notava quando ele estava dentro de um raio de um quilômetro.


Quando eu cheguei em casa a minha mãe e Matsumoto estavam me esperando na sala de estar. Eu passei por eles de cara amarrada, esperando que essa dica fosse clara o suficiente para indicar que eu não estava afim de conversar com eles mais do que nunca.

"Pode parar aí mesmo, mocinha," a minha mãe me chamou quando eu estava ao pé da escada, pronta para subir para o meu quarto e me trancar lá. Eu respirei fundo e me virei. "A senhorita está de castigo até o fim do mês. Nada de festas, nada de ir até a casa de Ino. Vai para o colégio, e do colégio para casa todos os dias, está me ouvindo?"

Eu olhei para Matsumoto. Ele tinha um sorriso maroto no rosto. Estava adorando me ver levar um sermão.

"Você acredita mais nesse filho da puta do que em mim, mãe?" eu perguntei, apertando o corrimão da escada. Tinha que ocupar a minha mão, ou temia agredir alguém naquele momento. "Aquele cigarro não é meu."

"Do que é que você me chamou, sua pestinha?" Matsumoto interferiu. Eu quase ri. Quem chamava uma adolescente de 16 anos – quase 17 – de pestinha?

"Eu não estou falando com você!" eu gritei, finalmente perdendo a paciência.

"Independente ou não de o cigarro ser seu," a minha mãe disse, ficando entre nós dois para evitar um replay da discussão daquela manhã. "Você desligou o telefone na minha cara. Isso é uma falta de respeito que eu não vou tolerar. Está de castigo."

Como se um castigo estúpido fosse me impedir de fazer qualquer coisa.

Batendo os pés eu subi para o meu quarto e lá me tranquei. Tomei um banho gelado para esfriar a cabeça. Eu não conseguia discernir qual era a raiva que me consumia mais: a de Sasuke ou a de Matsumoto.


O dia seguinte era uma porcaria de um sábado, e eu estava proibida de sair. Além de ter confiscado as chaves do meu carro sem eu saber, a minha mãe ordenou aos seguranças da guarita principal da mansão que não me deixasse passar pelos portões de qualquer forma – seja com o meu carro (se, por um acaso, eu conseguisse recuperar as minhas chaves), seja para pegar carona com alguém que já me esperasse do lado de fora. Eu não poderia nem mesmo sair sorrateiramente pelos portões ou pedir ao meu segurança preferido, Max, que me deixasse passar sem contar nada a minha mãe. Ele estava de folga naquele dia, e era o pai de Sasuke quem o substituía naquela noite.

Quando vários dos meus amigos me ligaram me chamando para sair, fingi uma voz de doente e usei a desculpa de que estava com um resfriado. Eles estranharam. Nem mesmo o mais forte dos resfriados me fazia ficar em casa em pleno sábado, mas que outra desculpa eu poderia dar? Não podia dizer que estava de castigo. Não podia soar fraca e submissa a minha mãe e Matsumoto. Eles caçoariam de mim.

Eu estava presa dentro daquela porra de mansão como se fosse uma criminosa. Não tinha nada para fazer a não ser me trancar no meu quarto e mexer no meu computador. Não estava com um pingo de humor de sair e aproveitar o que a casa tinha a me oferecer, como uma piscina enorme, sala de ginástica, cinema, uma quadra poliesportiva, dentre outras coisas. Não queria me deparar com ninguém daquela pseudo-família, especialmente Matsumoto. Toda vez que eu tinha a infelicidade de me deparar com ele, ele me sorria um sorriso cínico, como de alguém que tivesse ganhado uma batalha.

Eu não me submeteria a esse tipo de humilhação.

O máximo de interação que eu me permiti naquele dia foi com a minha mãe, e mesmo assim eu nem cheguei a vê-la. Ela bateu na porta do meu quarto, mas eu me recusei a abrir.

"Vou viajar para um jantar daqui a pouco," ela anunciou, a sua voz abafada pela porta. "Volto amanhã de manhã, está bem? Quero que se comporte. Não tente sair enquanto eu estiver fora. Pedi a Matsumoto que mantivesse os olhos em você. Se souber que você aprontou alguma coisa, bloqueio todos os seus cartões de crédito, está me ouvindo?"

Eu não a desejei uma boa viagem.

Às dez horas da noite, eu estava morrendo de fome. Eu não tinha saído do meu quarto nem para almoçar – e é claro que eu não desceria para jantar com Matsumoto e Karin. Eu preferia morrer de fome a ter que passar alguns minutos ao lado deles. Algumas vezes eu os tolerava, mas só porque a minha mãe estava presente. Não que ela me defendesse ou estivesse do meu lado, mas era bom saber que ela estava ali. Tornava as coisas menos piores.

A minha barriga roncava e doía de fome. Fiz alguns cálculos na minha cabeça e conclui que a essa hora Karin e Matsumoto já deveriam estar em seus respectivos quartos e que eu muito provavelmente não os encontraria se descesse para a cozinha fazer uma boquinha.

Eu estava certa. Para o meu alívio, não encontrei ninguém no meu caminho até a cozinha. Satisfeita, fechei a porta atrás de mim e abri a geladeira. Pelo que sobrou do jantar pude perceber que Mikoto havia feito um tipo de costela de porco com alguma coisa que eu não me importei em identificar. Estava com tanta fome que poderia comer jiló puro.

Esquentei a comida no microondas e me sentei na mesa, dentro da cozinha, que os funcionários da casa habitualmente comiam. Como sempre, a comida estava deliciosa. Tudo o que Mikoto fazia ficava no mínimo excelente.

Eu estava colocando o prato na pia quando ouvi o barulho de uma porta se destrancando. Olhei rapidamente para a porta da cozinha por onde eu tinha entrado. Temia que fosse o meu padrasto ou Karin – eu sinceramente não sabia o que seria pior. Por um momento eu pensei que, se fosse algum deles, eu sairia correndo pela porta dos fundos e voltaria a entrar pela da frente, só para não ter que encontrá-los, por mais breve que fosse o encontro.

Mas a porta que se abriu foi a porta dos fundos, e Sasuke entrou na cozinha.

Ele arregalou os olhos por um ínfimo segundo quando me viu ali. Pareceu surpreso por ter me encontrado. Confesso que também tomei um susto ao ver quem atrapalhava a minha relativa paz. Jamais pensei que ele fosse aparecer ali.

Mesmo com o meu coração acelerado – o que eu já considerava normal, sempre acontecia quando eu batia os olhos nele – eu fechei a cara para ele e cruzei os braços. Ainda estava com raiva, muita raiva, dele. Enquanto esse meu castigo perdurasse (de acordo com a minha mãe, até o fim do mês) eu manteria vivo em minha mente o meu desejo de esbofetear Sasuke.

"O que você está fazendo aqui?" eu perguntei antes que eu pudesse me controlar. Droga. Para quê eu fui abrir a minha boca? Por que simplesmente não saí da cozinha em silêncio, fingindo que não o vi ali?

Ele fechou a porta atrás de si. "Não que seja da sua conta, mas vim pegar alguns ingredientes para a minha mãe."

"Para quê?"

Ele ergueu uma sobrancelha. "Por que quer saber?"

Eu não sabia. Não sabia por que fiz aquela pergunta. Ela simplesmente... saiu.

"Só quero saber," foi o que eu acabei respondendo.

Ele suspirou. "Não estou roubando a sua comida."

"Eu não disse que estava."

"Então por que esse interrogatório?"

Eu não sabia. A única coisa que eu tinha conhecimento era que eu não era eu mesma quando estava com ele – e talvez daí nascesse todas essas perguntas inúteis, mas cujas respostas eu involuntariamente precisava saber.

Ele colocou as mãos na cintura e me observou. "Acabaram os ovos para o café da manhã. Satisfeita?"

Não, eu não estava satisfeita. Eu só estaria plena quando conseguisse afogá-lo na piscina por ter me entregado para o meu padrasto e para a minha mãe no mesmo dia.

"O que você está fazendo aqui?" ele quis saber enquanto se dirigia a geladeira.

Eu resfoleguei. Quem ele achava que era? "Eu não tenho que te dar satisfações."

"Não pode me culpar por achar estranho te encontrar em casa em pleno sábado à noite."

"É claro que eu posso te culpar," eu disse por entre os dentes. "É culpa sua que estou aqui."

Fechando a geladeira com três ovos na mão, ele enrugou a testa. "Do que, diabos, está falando?"

"Eu estou falando do cigarro que você entregou a Matsumoto!"

Ele pareceu refletir por um segundo, ainda confuso. "Que cigarro?"

"Não se faça de desentendido," eu saí na beirada da pia e fui em direção a ele, a minha irritação com tudo o que aconteceu hoje e ontem aquecendo a minha pele. "Eu sei que foi você quem entregou o cigarro que joguei da janela para Matsumoto. O que você estava pensando, Sasuke? O que queria? Queria que eu me ferrasse? Pois bem, meus parabéns, você conseguiu!"

Ele ficou me encarando por alguns segundos antes de sorrir e balançar a cabeça. Eu queria matá-lo. "Ah, então era disso que estava falando ontem. E, suponho, está de castigo por isso."

"É óbvio que era – e você sabe muito bem disso!" Eu me aproximei mais ainda dele. "Primeiro, você entrega o meu cigarro para Matsumoto, e depois, fala para a minha mãe onde eu estou indo só para que ela fosse atrás de mim. Por que fez isso, Sasuke? Por que quer tanto me ferrar?"

"Eu não quero te ferrar, Sakura," ele diz calmamente enquanto a minha fúria começava a me sufocar. "Não fui eu quem enfiou o cigarro na sua boca – e certamente não fui eu quem entreguei –"

"Pare com isso! Eu sei que foi você!" Eu não tinha uma gota de dúvida quanto a isso. "Eu não sabia que era tão infantil, Sasuke. Se você ficou chateado com a conversa que tivemos naquela noite, que falasse comigo. Não precisava sair correndo me dedurar para o desgraçado do Matsumoto só para que ele me punisse."

Ele colocou os ovos que tinha acabado de tirar da geladeira na bancada atrás de si e cruzou os braços. "De onde você tirou essa ideia absurda que eu dou a mínima para o que você diz? Eu estou pouco me fodendo para aquela conversa. É óbvio que não fui eu quem te dedurou."

Eu dei uma risada sarcástica. "Como você pode ter coragem de mentir bem na minha cara? Só pode ter sido você. Você foi o único quem me viu jogado aquele cigarro fora, sabia exatamente onde ele estava – e o único que tem motivos para querer me ferrar."

"Por que eu quereria ter ferrar?"

"Sei lá!" Eu joguei os braços para cima em exasperação. "Mas eu sei que não gosta de mim."

"Isso é verdade. Não gosto de você."

Eu me calei por alguns instantes. Eu não queria – e eu com certeza não sabia a razão – mas eu me senti levemente magoada com as palavras dele, apesar de saber há anos que ele me detestava. Não fez bem aos meus ouvidos ouvi-las da boca dele.

"Eu me lembro bem de você ter dito que contaria para a minha mãe as... coisas que eu faço," eu continuei. Eu estava tão perto dele que podia sentir o seu cheiro. "Portanto, eu não consigo pensar em outra pessoa mesquinha o suficiente para me dedurar em um golpe tão baixo."

O rosto fechado dele se aproximou do meu. "O que você sabe sobre mim para me chamar de mesquinho, Sakura? Deve estar me confundindo com os seus amiguinhos."

Dessa vez, eu ri. "Você está muito longe de ser um dos meus amigos, Sasuke. Graças a Deus eles não tem nada em comum com você."

"Esse é o maior elogio que alguém pode me dar."

Eu balancei a cabeça para recobrar o foco. "Não desvie o assunto. Eu só quero que me diga que é você o maior dedo duro do planeta."

"Eu não gosto de me repetir, mas vou abrir uma exceção," ele disse, irritado. "Estou pouco me lixando para o que você faz da sua vida. Eu nunca gastaria o mínimo de energia que fosse para sair do meu caminho e interferir no seu."

"Então, por que disse que contaria à minha mãe –"

"Eu disse que contaria se ela me perguntasse." Eu abria boca para retrucar, mas ele me interrompeu – o que me irritou profundamente. "Escute, Sakura, eu não vou ficar aqui gastando saliva com isso. Não fui eu, mas se quer achar que foi, ache. Eu não estou nem aí. Eu só te digo uma coisa: ao invés de procurar um culpado você deveria olhar para o seu próprio umbigo e ver o quão idiota você é de, principalmente, fumar, e, pior ainda, na sua própria casa."

As minhas mãos tremeram de raiva. Ele tinha razão – em partes – mas essa minha opinião ficaria somente entre eu e eu. Ele não precisava saber disso para inflar o ego. "Não me dê sermões."

"E não me chame de mentiroso."

Honestamente, agora que olhei dentro dos olhos dele e o ouvi se defendendo, estava difícil acreditar que tivesse sido ele. Eu queria muito acreditar que fora ele. Era mais fácil assim, culpar alguém como Sasuke. Mas, no fundo, eu tinha quase plena certeza de que não fora ele. Antes de acreditar nas suas palavras, os seus olhos me confirmavam a sua inocência – ou então ele era o melhor ator do mundo e merecia um Oscar.

Ele estava sendo sincero. Não tinha sido ele.

Contrariada, eu desviei os meus olhos. "Se não foi você, quem foi?"

Ele deu de ombros. "Eu não sei e não me importo. Se quer tanto alguém para culpar, banque a detetive e descubra." E assim, irritado, ele saiu da cozinha, batendo a porta atrás de si.

Eu respirei fundo. O meu dia estava realmente sendo perfeito. A única pessoa com quem eu interagi em quase um dia inteiro estava com uma raiva de mim, talvez, tão grande quanto eu estava dela. Eu começava a achar que talvez Mikoto fosse a única pessoa daquela casa que ainda não queria me esgoelar, mas, pelo andar da carruagem, o dia que ela também me odiaria chegaria.

Quando reabri os olhos, vi que Sasuke esquecera os ovos na bancada. Um pensamento muito rápido passou pela minha cabeça – e sumiu tão rapidamente quanto surgiu. Por um milésimo de segundo eu considerei levar os ovos até a casa dele e me desculpar por tê-lo acusado, mas, na velocidade da luz, a minha mente mudou de ideia e considerou essa estratégia como sendo uma das mais idiotas de todos os tempos. Eu, Sakura Haruno, me desculpar para Sasuke Uchiha – e com três ovos na mão? Que absurdo. Ino riria muito da minha cara se soubesse que eu tinha pensado nisso. Ele que viesse buscar o que esqueceu.

Eu tranquei a porta da cozinha, só para dificultar as coisas para ele quando voltasse.

Eu tomei o segundo susto da noite quando, dessa vez, a porta da cozinha que a conectava com o interior da casa se abriu – e o meu querido Matsumoto apareceu atrás dela.

Eu me perguntei se o dia podia ficar pior do que já estava.

"O que você está fazendo aqui?" ele questionou.

Rolei os olhos. "Não te interessa." E fui em direção a ele, em direção a porta. Eu estava prestes a passar por ele quando ele me segurou pelo braço e me trouxe de volta para dentro – eu prontamente me desprendi dele.

"Espero que não esteja pensando em sair pela porta dos fundos."

"E se eu estivesse? Quem você acha que me impediria? Você?" eu o desafiei com as mãos na cintura e soltei uma risada em escárnio. "Patético. Você não tem autoridade nenhuma sobre mim."

Eu até agora não tentei sair escondida porque temia que a minha mãe realmente cancelasse os meus cartões de crédito. Entretanto, assim que Max voltasse para a guarita eu dava o fora dali – quer Matsumoto queria, quer não.

A boca dele se contraiu de raiva e o rosto dele voltou a ficar vermelho, como na manhã em que discutimos por conta do cigarro. "É melhor você parar de rir da minha cara desse jeito, sua putinha. Você não me conhece. Não sabe do que sou capaz."

Eu quase me permiti ficar surpresa. Ele me chamou de putinha. Era a primeira vez que ele usava palavras de tão baixo calão para se referir a mim. Talvez estivesse mais corajoso agora que a minha mãe não estava ali.

"Eu te conheço muito bem para saber que é um filho da puta desgraçado e é só isso que quero saber pelo resto da minha vida," eu rebati.

Ele sorriu o sorriso mais maligno que eu já vi no rosto de alguém.

Virou-se e trancou a porta.


A.N.: Olá! Devo dizer que escrevi esse capítulo praticamente todo hoje, portanto, se tiver algum erro de português, por favor, me reportem!

Mais uma vez, muito obrigada pelas suas reviews! Eu me sinto lisonjeada de ter pessoas como vocês apreciando as bobagens que escrevo.

Ah, e eu não sei lá muita coisa de futebol americano. Se escrevi alguma coisa errada, por favor, me corrijam!

E então? O que acharam? Dêem-me sugestões do que vocês esperam para os próximos capítulos! Se forem pedidos muito bons, talvez sejam atendidos!

Obs.: Mudei o nome de Orochimaru para Matsumoto. Mais tarde vocês entenderão por quê. Espero que não fiquem muito chateados com isso!

O próximo capítulo está quase todo pronto e, portanto, eu espero que não demore para ser postado. Beijos, e até a próxima!