O Plebeu

Capítulo 4

IMPORTANTE: capítulo com temas ADULTOS. Estejam avisados.

"Eu nunca tive tanto medo na minha vida."


Sasuke

Eu abri a porta da frente da minha casa com tamanha brusquidão que consegui a proeza de acordar o meu pai. Como fazia todas as noites, ele estava adormecido na sua poltrona, de frente para a televisão, com uma garrafa de cerveja vazia pendendo da sua mão. Geralmente ele ficava morto para o mundo e só algo excepcionalmente barulhento conseguia tirá-lo do seu sono induzido pelo álcool – e a raiva com que eu abri a porta foi uma dessas coisas.

Ele me disse algo, provavelmente uma repressão por tê-lo acordado, mas a minha fúria fazia os meus ouvidos zumbirem e eu não ouvi o que ele disse – e, mesmo se tivesse, teria ignorado. Não estava com humor para aguentar as reclamações do meu pai.

Aquela imbecil destruiu tão completamente o meu humor que eu não estava afim nem de ouvir a minha mãe e também fingi não ouvir os seus chamados quando passei a passos largos pela porta da cozinha. Fui direto para o meu quarto – fechando a porta com a mesma força com que abri a da frente – e me fechei lá dentro.

Era impressionante a facilidade que uma garota mimada como Sakura Haruno me tirava do sério. Eu não sabia o quê nela incitava a minha raiva como ninguém. Talvez fosse o tom de voz dela, sempre se achando superior a todos, especialmente a mim, que era o filho dos empregados dos pais dela. Ou, quem sabe, fosse a forma como o queixo dela se erguia para falar comigo – ou a maneira como me encarava. Eu não sabia explicar por quê, mas ela conseguia se infiltrar sob a minha pele sem ser convidada – e isso me irritava mais do que qualquer outra coisa.

Dentro do meu quarto, eu andei de um lado para o outro, respirando fundo, para acalmar os meus nervos inflamados por Sakura.

Como ela ousava me chamar de mentiroso bem na minha cara? Por um acaso ela achava que eu era tão desonesto quanto as pessoas com as quais ela estava acostumada a conviver? Se tinha uma coisa que a minha mãe me ensinou e que eu fazia questão de carregar comigo onde quer que eu fosse era a honestidade. Dizer sempre a verdade, doa a quem doer, e com Sakura não seria diferente.

Eu não entreguei aquela porra de cigarro para o Sr. Matsumoto. Por que eu faria isso? Como disse a Sakura, eu pouco me importava com o que ela fazia ou deixava de fazer. Se ela queria fumar, que fumasse como uma maldita chaminé, bem debaixo do nariz dos seus pais. Se ela queria chegar bêbada em casa às seis da manhã de um dia de semana, foda-se. Ela fazia o que bem entendia. Era óbvio para mim que mais cedo ou mais tarde ela acabaria se ferrando por conta própria. Não precisava da minha ajuda para isso.

Como sempre, eu estava certo.

Ela não precisou que eu a dedurasse para o seu padrasto para que ele soubesse das coisas incrivelmente estúpidas que fazia naquela casa. Algum outro funcionário encontrou o cigarro – e, por mais cruel que isso possa parecer, eu não pude evitar uma pequena satisfação quando soube. Ela merecia.

Eu admito que ela tinha razões para desconfiar de mim. Eu não gostava dela e não me preocupava em esconder. Entretanto, ela não tinha o direito de me acusar sem qualquer prova e de jogar na minha cara que eu era a porra de um mentiroso. Talvez palavra não fosse algo valioso para pessoas da laia dela, mas, para mim, era, e duvidar dela era algo que me irritava profundamente – principalmente se fosse por alguém como Sakura Haruno.

Eu estava ligeiramente mais calmo quando a minha mãe bateu de leve na porta do quarto. "Filho, está tudo bem?"

Eu passei uma mão pelo cabelo, jogando-o para trás. "Está."

Lentamente ela abriu a porta, uma expressão preocupada no rosto. "O que aconteceu? Você chegou em casa muito nervoso."

"Nada, mãe. Não aconteceu nada." Eu não queria compartilhar com ela toda a repulsa que eu sentia por Sakura naquele momento.

"É óbvio que aconteceu. Está me deixando preocupada, Sasuke. Por favor, me diga o que te fez ficar assim."

Merda. Por que a minha mãe tinha que usar aquele tom de voz? Parecia que doeria fisicamente nela se eu não contasse o que estava acontecendo. Eu não tinha forças para negá-la.

Eu suspirei e passei uma mão pelo cabelo. "Sakura." Só de falar o nome dela o meu sangue já fervia. Eu me controlei para não ficar com tanta raiva novamente.

A minha mãe franziu o cenho. "Sakura? O que foi que ela fez dessa vez?" Ela sabia que eu e Sakura não nos dávamos bem. Sabia que tínhamos discutido algumas vezes ao longo dos anos em que ela fazia questão de me tratar como lixo.

"Eu a encontrei na cozinha e nós brigamos."

"Oh, meu Deus," ela suspirou, colocando uma mão no peito. Não gostava do fato que eu e Sakura nos detestávamos. "Por que vocês discutiram?"

"Ela me acusou de ter feito uma coisa que eu não fiz." Eu senti que não precisava esclarecer exatamente o que era – até para evitar que a minha irritação voltasse.

Ela pegou a minha mão e me olhou com aqueles olhos tranquilos, reconfortantes. Olhando-a assim me fazia sentir que todos os meus problemas seriam resolvidos. "Sasuke, eu aposto que tudo não passou de um mal entendido. Tenho certeza de que vocês podem se entender se sentarem e conversarem com mais calma."

"Eu não tenho a menor intenção de voltar a conversar com aquela imbecil mimada e preconceituosa." O que eu mais queria naquele momento era distância dela e de pessoas iguais a ela.

O olhar da minha mãe endureceu minimamente. "Filho, não fale assim de Sakura. Ela não é esse monstro que você acha que é."

"Por que fica defendendo ela? Ela me detesta também, e faz questão de mostrar para o mundo todo."

"Ela é uma boa garota." Eu ri sarcasticamente. "É verdade. Ela tem, sim, um coração bom. Só está confusa com o que está acontecendo na vida dela."

"Isso não é motivo para descontar em mim."

"Tem razão, mas tente entender o lado dela. Você sabe que ela não gosta do padrasto. Eles vivem em guerra. E ela também tem dificuldades de relacionamento com a mãe e Karin. É natural que ela esteja um pouco perturbada por causa disso."

"Se ela não gosta de ninguém, o problema é com ela."

"Pode ser que sim. Mas tenho certeza que ela não faz de propósito. Tente entende-la."

Eu não iria tentar entende-la. Sabia perfeitamente bem qual era a opinião dela sobre mim e tenho certeza que não tem nada a ver com os problemas que tem em casa. Era uma coisa dela, algo puramente pessoal contra mim. Mas, fiquei calado. Não adiantava discutir com a minha mãe. Ela era uma eterna defensora de Sakura – só Deus sabe por que ela gostava daquela garota – e eu nunca conseguiria fazê-la mudar de ideia, e ela, a minha.

A minha mãe me abraçou, e eu retribuí. "Está mais calmo agora?" Eu assenti. "Ótimo." Ela se afastou e deu leves batidinhas no meu peito. "Porque você terá que voltar lá. Esqueceu os ovos."

Merda.

Xxxxx

Sakura

Eu nunca iria admitir isso para ninguém, mas o sorriso maligno que Matsumoto me lançava fez as minhas pernas tremerem. Ele deu passos em minha direção, e eu instintivamente recuei. O meu coração batia muito forte e a minha respiração começou a ficar mais pesada. Eu pressentia o perigo, podia sentir o seu cheiro no ar.

Se tinha uma coisa que eu odiava nesse mundo, era ficar sozinha com o meu padrasto. Eu não suportava ficar em um mesmo lugar que ele sem ter outras pessoas com quem me distrair. Quando a minha mãe ou Karin estavam presentes, eu podia conversar – ou melhor, brigar – com elas e esquecer por alguns momentos que eu estava dividindo o ar com a pessoa mais nojenta desse planeta.

Entretanto, quando estávamos só nós dois, eu não tinha a quem recorrer. Eu ficava ciente demais da presença malquista dele. Tinha vontade de vomitar ou de correr para o mais longe possível dele.

Porém, ali na cozinha, eu não tinha escapatória. Eu podia sair pela porta dos fundos – por onde Sasuke tinha passado poucos minutos atrás – mas algo me dizia que Matsumoto não me deixaria fugir tão facilmente daquela vez. Esse algo talvez fosse o sorriso asqueroso que persistia no rosto dele enquanto ele se aproximava, como um predador prestes a dar o bote na sua presa. Passar por ele e correr para dentro de casa seria ainda mais difícil.

"Eu estou farto dessa sua insolência, sua vadiazinha," ele disse. A voz dele estava diferente, apertando o meu peito e me roubando o ar. Ele nunca tinha falado comigo assim – e isso me deixou assustada. "Quem você pensa que é para falar nesse tom comigo? Você deveria ser no mínimo grata a mim."

Eu resisti ao impulso de rir bem na cara dele. Eu me segurei. "Eu só serei grata a você no dia que sair da minha vida." Eu não sabia como a minha voz conseguiu passar pela minha garganta. Ela estava seca, e parecia se fechar.

"Sou eu quem paga a porra das suas contas, pago o seu colégio, essas roupas de puta que você usa." Ele continuou como se eu não tivesse dito nada. Aproximava-se cada vez mais e eu recuava, até que as minhas costas tocaram a geladeira. "E mesmo assim você é ingrata o suficiente para me insultar o tempo todo – e na frente da minha esposa e da minha filha! Me chamou de mentiroso na frente delas. Estou farto disso. O meu limite já foi passado há muito tempo, e só Deus sabe a paciência que eu tive para não tomar providências para calar a merda da sua boca. Mas agora, acabou. Já chega. Não vou mais aguentar essa sua atitude dentro da minha casa."

As minhas mãos suavam e eu tinha cada vez mais dificuldade para respirar. Eu tinha que sair dali, mas estava apavorada demais para mexer qualquer músculo – com a exceção da minha boca grande.

"O meu pai tinha razão," eu comecei a dizer, tentando soar corajosa quando, na verdade, eu tremia dos pés a cabeça. Cale a boca, Sakura. "Você é a pessoa mais desprezível do mundo. Eu não sei o que eu fiz na outra vida para merecer morar na mesma casa que um desgraçado como você."

"Eu que sou desprezível?" Ele levantou as sobrancelhas e riu. "Olhe a sua volta, Sakura. Não sou eu quem está sozinho. Você é tão desprezível, tão insignificante, que até a sua mãe preferiu a mim." Eu não queria que aquelas palavras me atingissem, mas foi o que aconteceu, fazendo com que uma gota de tristeza me atrapalhasse ainda mais. "Até o seu pai preferiu ir para o inferno a ficar aqui com você."

"Não ouse falar assim do meu pai!" eu gritei, a minha voz instável. O filho da puta do Matsumoto não tinha o direito de sequer pensar no meu pai, muito menos falar, e falar coisas ruins dele – e na minha frente.

"Eu ouso o que eu quiser!" ele rugiu contra o meu rosto. "Essa é a minha casa! Eu faço a porra que quiser aqui dentro e ninguém tem o poder de me contestar."

Eu tomei um susto quando a mão dele voou para o meu pescoço, apertando-o e pressionando-o contra a geladeira. A minha dificuldade para respirar triplicou – tanto pelo medo que crescia exponencialmente, quanto pela força que ele usava no meu pescoço.

O meu coração estava prestes a quebrar as minhas costelas.

Ele aproximou o rosto do meu até que eu pude sentir o hálito dele diretamente na minha pele. Eu quis vomitar. "Ninguém me diz o que fazer, muito menos uma putinha de merda como você. Já passou da hora de você ser colocada no seu devido lugar."

Eu não sei como, mas o meu pé, antes paralisado de medo, atingiu o desgraçado bem no meio das pernas. Ele soltou o meu pescoço para se contorcer de dor, e eu desabei no chão, tentando recobrar o fôlego e tossindo. Oh, meu Deus, ele vai mesmo me machucar. Eu tenho que sair daqui!

Com muita força de vontade, ordenei as minhas pernas que se mexessem. Para o meu alívio elas obedeceram. Cambaleando, elas conseguiram me levar até a porta dos fundos, mas antes que eu pudesse destrancá-la os meus cabelos foram puxados para trás. Eu gritei de dor e de medo.

Matsumoto me afastou da porta pelos cabelos. Quando ficamos frente a frente de novo – os meus olhos cheios de lágrimas – ele desferiu um soco no meu rosto. Eu desabei para trás, zonza, e mal notei que durante a minha queda trouxe comigo uma das cadeiras.

O meu ouvido zumbiu e por alguns instantes eu vi tudo preto. O meu rosto doía muito. Eu não sei quanto tempo eu demorei para me recuperar e, quando consegui, vi que Matsumoto estava de pé, encarando-me de cima para baixo.

Eu fiquei paralisada, olhando para a o rosto pervertido dele. Por favor, alguém me tire daqui.

"E-Eu não tenho medo de você!" eu gritei, mas era mais do que óbvio que era mentira. Eu estava apavorada como nunca estive antes.

Ele sorri, e um calafrio desceu a minha coluna. "Ah, não?" Ele desamarrou o robe preto. "Vamos ver se tem medo disso."

Xxxx

Sasuke

Pelo visto, Sakura Haruno tinha não só a incrível habilidade de me irritar sem o menor dos esforços como também de complicar a minha vida. Merda, por que ela tinha que discutir comigo e me fazer esquecer dos benditos ovos? Se não fosse por ela eu já estaria deitado na minha cama, dormindo, preparando para mais um dia de aula, mas não – ela tinha que dar um jeito de me ferrar e me fazer voltar para aquela porcaria de cozinha. Às vezes eu achava que ela tinha nascido com o único propósito de me atrapalhar.

Eu andei com pressa até a porta da cozinha. Esperava que não a encontrasse lá. Eu já estava cansado de ouvir a voz dela, especialmente quando falava as merdas que falou mais cedo. Eu precisava dormir e com toda certeza o meu sono não viria tão facilmente se Sakura me deixasse com raiva mais uma vez.

Quando estava a poucos passos da porta dos fundos, ouvi barulhos estranhos. Pareciam vozes abafadas, mas eu não pude distinguir com precisão de quem eram e o que falavam.

Merda. Tinha alguém na cozinha. Eu rolei os olhos. Aparentemente as minhas preces não tinham sido atendidas. Como tudo já estava dando errado mesmo, eu também pensei na pior das hipóteses: a de ser Sakura quem estava lá dentro. Eu definitivamente não estava com sorte naquela noite.

Eu tive certeza que ela era quando ouvi a sua voz. Ela estava diferente. Estava mais aguda e, eu acho, chorosa. Eu franzi o cenho em confusão. O que estava acontecendo ali? Por que Sakura ainda estava na cozinha e com quem ela estava conversando?

"Tire as mãos de mim!"

Os meus olhos arregalaram e eu senti as batidas do meu coração se acelerarem. Algo definitivamente estava errado ali. Não pensei duas vezes antes de girar a maçaneta.

A porta estava trancada.

Sakura deve ter girado a chave do lado de dentro depois que saí. Droga, ela tinha mesmo que me complicar. Por que não deixou essa merda destrancada? Eu enfiei uma mão trêmula no bolso da calça e tirei de lá a chave da minha mãe. Eu tive certa dificuldade de enfiá-la na fechadura, mas, quando o fiz, girei-a rapidamente e abri a porta com a mesma intensidade com que abri a da minha casa poucos minutos atrás.

Eu senti o meu coração, antes acelerado, parar diante da cena bem na minha frente.

Sakura estava de barriga para baixo no chão com os cabelos desarrumados, tremendo, e um homem saía pela porta do outro lado. Ele saiu rápido demais e eu não pude identificá-lo.

Puta merda.

Isso não pode ser o que eu penso que é.

Eu fiquei imóvel próximo da porta, sem ter ideia do que fazer. O meu cérebro estava tão inativo quanto os meus músculos. Nada passava pela minha cabeça além de merda merda merda.

Isso não pode estar acontecendo.

Quando eu finalmente consegui pensar em alguma coisa e fazer com que as minhas pernas voltassem a vida eu dei um passo em direção à outra porta. Queria ir atrás do filho da puta desgraçado que fez isso com Sakura – e eu esperava com toda a sinceridade que eu estivesse errado quanto a o que é o isso. Eu não sabia o que eu faria caso o encontrasse. Muito provavelmente eu o mataria. Mas mudei de ideia quando olhei para Sakura pela segunda vez.

Ela estava com a barriga no chão, a lateral do rosto deitada no chão da cozinha. Parecia tão paralisada quanto eu. O meu estômago pareceu ter se dobrado sobre si mesmo ao vê-la naquele estado.

"Sakura," eu murmurei mais para mim mesmo do que para ela. Duvidava que ela tivesse ouvido.

Eu hesitei para ir até ela. Não sabia se era essa a decisão certa. Eu não tinha a menor ideia se ela precisava que eu estivesse perto ou não naquele momento.

Com o coração na mão, agachei ao lado dela. O que vi no seu rosto nunca mais sairia da minha memória. Algumas mexas de cabelo caíam sobre o seu rosto, mas eu pude ver com clareza os seus olhos verdes esbugalhados e as lágrimas que desciam deles para o chão. Eles estavam vidrados, olhando para o nada. Por um instante eu achei que ela não estivesse respirando de tão imóvel que estava. Parecia um cadáver.

Eu engoli em seco, abaixei a cabeça e agarrei os meus cabelos. Vê-la assim – e saber que um filho da puta covarde foi o responsável por isso – fez o meu sangue ferver infinitamente mais quente do que quando eu e ela brigamos mais cedo. Eu tive vontade de vomitar, de gritar, de correr atrás do desgraçado e espanca-lo até a morte. A única vez em que eu senti algo semelhante a isso foi quando o meu irmão faleceu anos atrás.

Quando eu voltei a fita-la, vi que ela não tinha se mexido. O seu rosto continuava congelado na mesma posição. Eu me arrisquei olhar para o resto do seu corpo. Me arrependi amargamente. A calça e a calcinha dela estavam arriadas até as coxas, deixando a bunda dela à mostra.

Filho da puta. Filho da puta covarde, desgraçado.

Eu fechei os olhos. Tinha que me concentrar ou acabaria cometendo um assassinato. Antes disso, eu tinha que ajuda-la. Mataria o desgraçado depois.

"Sakura," eu a chamei novamente, dessa vez mais alto, para que ela me ouvisse. Ela não ouviu. "Sakura."

Eu tive que chamar mais duas vezes para que ela desviasse o olhar de onde quer que estivesse olhando para mim. Foi como se uma faca mais afiada tivesse sido enfiada no meu peito, sem dó.

Merda, o que eu deveria fazer? Eu não sabia se deveria tocá-la. Suspeitava que o toque de um homem deveria ser a última coisa que ela precisava naquele momento – e especialmente se esse homem fosse eu, que ela detestava. Eu deveria chamar por ajuda? Chamar uma ambulância ou a porra da polícia? Eu deveria chamar a minha mãe, eu pensei. Ela provavelmente saberia o que fazer. Ela era mulher e saberia o que dizer a Sakura –

"Sasuke?" a voz dela, fraca, não mais do que um sussurro, interrompeu os meus pensamentos que viajavam na velocidade da luz.

E mais uma faca foi enfiada no meu peito. Era dolorosamente estranho ver uma pessoa tão forte, tão inatingível como Sakura, naquele estado frágil. Aquilo não era ela.

Eu engoli em seco e encarei os olhos ainda arregalados dela. "Sou eu."

Ela não parecia ver o meu rosto direito, do ângulo que estava deitada. Eu precisava que ela visse que era eu quem estava ali, não o filho da puta. Eu esperava que isso desse algum tipo de conforto para ela. Portanto, eu me deitei ao lado dela, na exata posição em que ela estava – de barriga para baixo, com a bochecha no chão, e encarando-a. Daqui eu podia ver o hematoma enorme no olho dela, e o sangue que manchava aqueles lábios que, o que pareceu ser uma eternidade atrás, estava discutindo comigo.

"Você tem que se levantar," eu disse, tentando soar confiante, como se soubesse o que eu estava fazendo – mas eu não sabia porra nenhuma. Estava perdido. Ela não me respondeu. "Sakura, consegue me ouvir?"

"O quê?"

"Tem que se levantar."

"E-Eu não consigo," ela sussurrou, mais lágrimas descendo dos seus olhos. Ela parecia uma boneca de porcelana chorando. Seu rosto estava congelado, mas seus olhos conseguiam derrubar lágrimas.

Merda. O que, diabos, eu deveria fazer? Por que ninguém nunca me ensinou como lidar com esse tipo de situação?

"Eu... Eu posso ajudar," eu sugeri, cauteloso, observando o mais atentamente possível a reação dela. A expressão facial dela não mudou. "Posso te tocar? Para te ajudar a levantar. Só isso."

Ela olhou para mim por mais alguns segundos antes de sussurrar um "sim" quase inaudível.

Reunindo coragem eu voltei a me agachar ao seu lado, tentando ignorar o estado da calça dela. Eu queria cobri-la, mas jamais tocaria naquele lugar sem o consentimento dela.

"Eu vou te levantar pelos braços," eu avisei e ela assentiu fracamente com a cabeça.

O mais delicadamente possível – e com o mínimo contato físico possível – eu a virei e a deitei de barriga para cima. Ela não protestou. O rosto estava da mesma forma, como se estivesse em choque. Os machucados no olho e na boca dela pareciam ainda maiores agora. Eu coloquei uma mão nas costas dela e a ajudei a se sentar.

"Tudo bem?" eu perguntei. Ela só olhou para mim com aqueles grandes olhos verdes úmidos. Tomei aquilo como um sinal de que poderia continuar, e foi isso o que eu fiz. Voltei a segurá-la pelos braços e me levantei, trazendo-a junto comigo. Não foi uma tarefa fácil. Ela estava inerte, flácida, e eu tive que usar muito da minha força para conseguir colocar nós dois de pé.

As pernas dela não ficaram retas por muito tempo. Assim que eu a soltei – imaginando que ela não queria qualquer contato comigo – os joelhos dela se dobraram e por pouco ela não despencou no chão. Eu tive que rodear a cintura dela com um dos braços para que ela não caísse.

Eu achei que ela fosse se debater e me bater, gritando para que eu me afastasse dela, mas ela fez o exato oposto a isso. Ela agarrou a minha blusa com força e me olhou nos olhos.

"Ele foi embora?" ela me perguntou tão fracamente quanto antes. Parecia uma súplica, como se tudo o que ela mais quisesse na vida foi que eu respondesse que sim.

"Foi," eu respondi. A minha voz também não estava tão firme. "Está segura agora." E ela realmente estava. Se o desgraçado tivesse a audácia de voltar para aquela cozinha, eu não deixaria que ele encostasse um dedo nela. Eu o mataria.

O que eu deveria fazer agora? Deixá-la sozinha? Talvez eu devesse leva-la até a minha casa. A minha mãe cuidaria dela e eu estaria livre para caçar o filho da puta.

Mas eu não sabia se era isso o que ela queria. Eu não sabia se ela queria ser tocada por outra pessoa, mesmo que essa pessoa fosse a minha mãe. Eu decidi em esperar que ela estivesse melhor para tomar qualquer outro tipo de providência.

Eu queria concertar a calça dela, mas não sabia se isso seria sensato. Estava me deixando mais furiosa vê-la tão exposta. Eu a sentei em uma das cadeiras – uma delas estava caída no chão. Tirei a minha blusa e entreguei a ela. "Consegue vestir?"

Ela ficou em silêncio.

"Posso coloca-la em você."

Ela não disse nada.

Ficou totalmente passiva enquanto eu colocava a minha blusa nela. Não fez nenhuma reclamação, não deu um pio. Apenas me olhou e colaborou um pouco quando tive que passar os braços dela pelas mangas.

Era melhor assim. Pelo menos agora ela estava mais coberta.

"Vou te levar para o seu quarto," eu disse. Eu queria que aquilo saísse como um pedido, mas mais pareceu uma ordem. Merda. Eu não tinha jeito para essas coisas. Talvez eu acabasse piorando a situação. Para o meu alívio, ela assentiu. Não tirou os olhos dos meus por um segundo sequer. "Posso te carregar?"

Ela fez que sim novamente com a cabeça. Passei um braço sob os joelhos dela e coloquei o outro nas costas dela para levantá-la. Ela não demorou meio segundo para abraçar o meu pescoço com força. As reações dela eram realmente imprevisíveis para mim.

Eu tentei ser cuidadoso enquanto a levava para o quarto. Sabia exatamente onde era já que a janela do meu dava para a varanda do dela. Quando chegamos, eu mais uma vez não sabia o que fazer. Merda, eu sou um imbecil. Optei por carrega-la até banheiro para limpar o sangue do lábio partido dela.

Quando eu a sentei na beirada da pia, ela apertou o seu abraço no meu pescoço e enterrou o rosto no meu ombro.

"Não, não me deixe sozinha," ela me pediu. Eu não pude não me espantar. Aquela era a última coisa que eu achei que ela fosse dizer. Ela me odiava e, naquela hora, deveria odiar todos os homens. Por que me queria ali?

"Eu só vou pegar um pano para limpar a sua boca," eu disse. Era para parecer calmo e reconfortante, mas eu não achava que foi assim que soou. Eu não sabia ser calmo e reconfortante.

Relutantemente ela me soltou. Peguei uma toalha de rosto que estava pendurada ao lado da pia. Quando voltei para Sakura – com cuidado para não ficar entre as pernas dela – estendi o pano para ela, esperando que ela o pegasse e limpasse o sangue na sua boca.

Ela não fez nada. Apenas continuou me olhando – agora, com olhos tristes, cada vez mais molhados. Fungou. Balancei a toalha para que ela a pegasse, mas Sakura não parou de me olhar.

Eu estava cada vez mais perdido.

Eu me arrisquei. Dei um passo em direção a ela e ergui a mão com a toalha em direção ao machucado. Os olhos dela ainda estavam no meu rosto. Toquei o ferimento de leve, medindo a reação dela. Ela continuou a me olhar. Pressionei um pouco mais, com cuidado, para estancar o sangramento. Os olhos dela ainda estavam em mim.

Até que os lábios dela tremeram, o seu rosto se contorceu em tristeza, abaixou a cabeça e começou a chorar incontrolavelmente na palma das suas mãos. O seu tronco dobrado chacoalhava com os soluços.

Eu não fazia a menor das ideias do que fazer.

A verdade era que eu estava dividido entre ficar ali e ir embora. Descobri que não gostava de vê-la chorando, menos ainda por um motivo desses. Fazia coisas estranhas no meu peito. A vontade que eu tinha de acabar com a vida do filho da puta aumentou ao ponto de eu ter que fechar os olhos, respirar fundo e acalmar os meus nervos.

Mas eu também sentia que não deveria deixa-la sozinha – ela mesmo disse que não queria ficar sozinha. Talvez ainda estivesse com medo que ele voltasse. Eu não iria deixar que isso acontecesse.

Portanto eu fiquei, mais uma vez imóvel, vendo-a chorar desoladamente.

"Eu fiquei com tanto medo." Foi o que eu consegui entender quando ela falou através do choro, o rosto ainda nas suas mãos. Estava envergonhada. "Eu disse para ele que não estava com medo, mas eu estava. Estava com muito medo..."

Eu engoli saliva. "Quem fez isso com você?" Eu precisava saber. Já tinha as minhas suspeitas, mas precisava ter certeza.

Ela tirou o rosto molhado das mãos e me olhou, ainda chorando muito.

"Me diga quem fez isso com você."

Ela colocou uma mão na boca e chorou mais ainda.

"Foi Matsumoto?"

Ela não precisava responder. A maneira como o corpo dela se retesou e uma expressão de sofrimento se misturou com tristeza no rosto dela denunciava o desgraçado do padrasto dela. Filho da puta. Ele é a merda de um filho da puta.

Naquele momento eu não me importei que era o filho da puta que pagava os meus pais. Não me importava que ele fosse um dos homens mais ricos do país. Tudo o que eu queria era vê-lo sofrer, mais do que Sakura, mais do que qualquer outra pessoa. Nada do que eu fizesse seria capaz de trazer de volta o que ela perdeu nessa noite, mas eu não iria deixar barato. Por mais que eu desgostasse dela, ela não merecia isso.

"Você chegou..." Ela começou a dizer, baixinho. Me olhava de um jeito que eu nunca vi antes. "Você chegou, e ele sumiu."

Eu não sabia o que dizer. Ele realmente fugiu quando viu que tinha testemunhas. Eu só esperava que eu tivesse chegado a tempo de evitar uma tragédia ainda maior – se é que havia algo pior do que isso.

Eu fiquei atônito quando ela enlaçou o meu pescoço e me trouxe para perto de si novamente, fazendo com que eu ficasse entre as pernas dela. Ela voltou a me abraçar forte, e chorou contra o meu ombro. Sem saber o que fazer, eu dei batidinhas desajeitadas nas costas dela.

Eu não sei por quanto tempo eu deixei que ela chorasse. Eu sentia as lágrimas escorrerem do meu ombro para o meu peito. Ficaria ali o tempo que fosse necessário, se era isso que ela precisava.

Quando enfim ela se acalmou, ela se afastou de mim e empurrou o meu peito, enxugando as lágrimas – como se eu não fosse perceber que ela estava chorando. Os olhos dela estavam mais inchados, principalmente o que estava machucado, e todo o rosto dela estava da cor do cabelo.

Ela resmungou alguma coisa que eu não consegui ouvir. "O que foi?" eu perguntei.

Ela me encarou. O olhar dela mudou completamente. Estava agora duro, furioso, parecido com o jeito com que ela me olhou mais cedo quando brigamos.

"Vá embora," ela disse e, desviando os olhos, desceu da pia com um pulo bem na minha frente. Puxou a calça que ainda estava arriada até as suas coxas – mas a parte descoberta era agora coberta pela minha blusa – e usou o braço para me tirar do seu caminho

"Sakura, eu não sei se você deveria ficar sozinha –"

"Eu disse para ir embora, Sasuke!" ela gritou, de costas para mim, enquanto andava para o seu quarto.

Eu não achava que seria sensato deixa-la sozinha. Talvez ela fosse capaz de fazer alguma besteira. Mas eu faria o que ela queria. Só ela sabia o que ela precisava, e se ficar sozinha era o que ela queria, eu não protestaria.

Portanto, sem mais uma palavra, passei por ela e fui em direção à saída.

"Tranque a porta," eu pedi, mesmo sem ter certeza de que ela me ouvia, e fui embora.

Antes de ir para casa, eu ainda me lembrei de passar na cozinha e pegar os ovos que tinha esquecido. Arrumei a cadeira que tinha caído.

Quando a minha mãe me perguntou por que eu tinha demorado tanto – mais de duas horas, eu constatei – eu disse que tinha conversado com Sakura e que nós tínhamos nos acertado. Ela me deu um sorriso aliviado.

Eu e Sakura estávamos longe disso.


A.N.: Então. Aí está talvez o capítulo mais difícil que eu já escrevi. Espero que tenham gostado! Se tiver alguma coisa para ser corrigida, por favor, me avisem!

Mais uma vez, muito obrigada pelas reviews! Vocês são maravilhosos!

Obs.: estou pensando em trabalhar com uma beta. O que vocês acham? Alguém se candidata?